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Leonard Cohen – O Homem, A Banana E Os Fãs

Pop Rock

 

25 SETEMBRO 1991

 

O HOMEM, A BANANA E OS FÃS

 

Em 1988, Leonard Cohen, ilustre representante da ala romântico-depressiva da década anterior, gravou um disco intitulado “I’m Your Man”. Na capa aparece a segurar uma banana. Passados três anos, a Columbia, em colaboração com a revista francesa “Les Inrockuptibles”, reúne 18 artistas, entre desconhecidos e consagrados, para homenagear em vida o autor de “Songs from a Room”, no projecto colectivo “I’m Your Fan”.

 

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A ideia de reunir vários nomes para interpretar a obra de um autor específico, tem precedentes. Recorde-se, entre outros, as produções de Hal Winner sobre a música de Nino Rotta (“Amarcord”, com Carla Bley, o pianista Jaki Byard, Chris Stein e Deborrah Harry, etc.), ou de Kurt Weill (“Lost in the Stars”, com Marianne Faithfull, Lou Reed, Kronos Quartet, John Zorn, Tom Waits, de novo Carla Bley, Richard Butler, etc.), ou de trabalhos dedicados à recriação da música dos Beatles, Velvet Underground, Beach Boys e Neil Young.

No caso do disco agora editado, trata-se, segundo a entidade promotora, de um tributo a Leonard Cohen visando “captar a atenção da juventude para o poeta-compositor-cantor” e ao mesmo tempo “anunciar a edição, em Janeiro de 1992, do novo álbum” do artista canadiano.

Artistas como John Cale, Nick Cave, Bill Pritchard, os Pixies ou os R. E. M., para além de assinar as respectivas versões, deixam-se fotografar com a banana. A partir de agora a juventude deixa de ter desculpas para ignorar a obra do mestre.

 

 

O homem

 

Nasceu em Montreal, Canadá, a 21 de Setembro de 1934. Começou por integrar a banda “country” The Buckskin Boys, aos 20 anos de idade, enveredando depois por uma carreira a solo que lhe viria a granjear a reputação de poeta e compositor depositário dos despojos amorosos e dos sonhos africanos de toda uma geração a quem custou a transição entre duas décadas.

Gravou o primeiro álbum em 1968, “Songs of Leonard Cohen” que incluía o clássico “Suzanne”. O Canadá encontrava um bom equivalente para Dylan, na pele do visionário, místico e incorrigível apaixonado que, álbum após álbum, viria a construir um dos pilares mais sólidos da tradição dos trovadores deste século. Possuidor de uma veia poética quase sempre pessimista, disseminada por dez livros e outros tantos discos – escreveu um dia: “Às vezes consigo experimentar a doçura da morte.” –, construiu uma religião pessoal, baseada na redenção pela dor e pela solidão, ás quais as sucessivas desilusões amorosas acrescentam uma carga de maior negritude. “Avalanche”, “The partizan”, “Joan of Arc”, “So long, Marianne” são algumas das canções para sempre imortalizadas nas palavras e na voz enigmáticas de um dos compositores-autores mais negligenciados de sempre. O disco de homenagem vem de algum modo repor a justiça e relançar a carreira de alguém contra quem o tempo nada pode, desde que haja uma princesa e um castelo a conquistar.

 

DISCOGRAFIA DE ÁLBUNS

 

Songs of Leonard Cohen (1968) – faixas A2, A4, B1 e B2 de “I’m Your Fan”

Songs from a Room (1968) – A5

Songs of Love and Hate (1970) – B3

Live Songs (1973)

New Skin for the Old Ceremony (1974) – A1, C2, C4 e D2

Death of a Ladies’ Man (1978) – B4 e C5

Recent Songs (1979)

Various Positions (1984) – D4

I’m Your Man (1988) – A3, C1, C3, D1 e D3

 

 

A banana

 

Fruto tropical (do género bacáceo), muito nutritivo e apreciado, produzido pelas bananeiras (in “Dicionário da Língua Portuguesa”, Porto Editora, 1989). Ainda segundo a mesma obra, pode significar uma “ficha eléctrica individual” ou uma “pessoa sem energia, indolente, palerma”. Observando as fotografias, fica-se com a ideia que o termo se aplica aqui na primeira acepção.

Em música, a banana tem sido várias vezes utilizada, em diferentes ocasiões e contextos, acrescentando um sabor exótico e uma imagem geralmente picante à arte dos sons. A sua forma peculiar presta-se, com alguma frequência, a piadas de carácter erótico ou a interpretações mais ou menos dúbias sobre as intenções dos seus utilizadores. Citando alguns casos, logo ocorre a figura inconfundível de Carmen Miranda, que, entre outros frutos e legumes, recorria à banana como enfeite ou como chapéu. Também Josephine Baker costumava usar um cinto com bananas, penduradas à volta da cintura. É célebre a obsessão do excêntrico Kevin Ayers por este fruto: dois dos seus álbuns têm como título “Bananamour” e “Yes, we Have Mananas, so get your Mananas Today”; costumava além disso jogar xadrez com bananas em vez das peças habituais. Os Velvet Underground não hesitaram, por seu lado, em ilustrar a sua obra-prima “Velvet Underground & Nico” com a famosa hiper-realista de Andy Warhol na capa. Inúmeras letras mencionam a banana. Mencione-se ao acaso a enigmática asserção dos Faust, em “So Far”: “Daddy take a banana, tomorrow is sunday.” O assunto não é pacífico. Se a oportunidade surgir, trataremos dele de forma mais pormenorizada, se possível com fotografias detalhadas.

 

 

Os fãs, faixa a faixa

 

The House of Love

“Who by fire”

Aproximação convincente ao tom habitual de Cohen, recriando no acompanhamento da guitarra acústica, o insustentável peso da dor e a questão metafísica essencial de “saber quem”. A própria voz de Guy Chadwick imita com bastante credibilidade a do canadiano. Como se a paisagem toda pudesse ser reproduzida num postal.

 

Ian McCulloch

“Hey, that’s no way to say goodbye”

A mesma despedida angustiada (tema omnipresente na obra de Cohen). Suave e interiorizada na versão original. Electrificada e arranhada na do vocalista dos Echo and the Bunnymen, que optou pela táctica fácil da transposição, através do decalque nota a nota da melodia, com a tónica no trio convencional guitarra-baixo-bateria. O efeito é eficaz, mas pouco criativo. Há porventura outras formas de dizer adeus.

 

Pixies

“I can’t forget”

Reconciliação bem sucedida entre os intimismos de outrora com a descoberta da tecnologia digital. Os sintetizadores tomam conta das operações sem que a electricidade consiga destruir a magia de antanho. Curiosa a inflexão dos Pixies que, ao invés, procuraram na acidez das guitarras o registo adequado para descrever as imagens de uma América mítica, sempre em fuga, a correr contra o Futuro.

 

That Petrol Emotion

“Stories of the street”

Um dos grandes temas de Leonard Cohen. Sobre a arte do equilíbrio no fio da navalha. Entre o suicídio e o amor. Passagem da ponte entre duas épocas, entre o céu e o abismo. Passagem de nível. Passagem de testemunho. O fim do sonho americano. A rosa esmagada na vertigem da auto-estrada. E um homem do tamanho de uma estrela, perdido no labirinto do “metro”, à procura de um olhar. Os That Petrol Emotion respeitam essa angústia, como se seu fosse também o dia derradeiro.

 

The Lilac Time

de “Songs from a room”

Ainda uma canção sobre a dilaceração, dos temas preferidos do autor. Os Lilac Time acentuam o ambiente litúrgico, substituindo a profundidade trágica do violoncelo, no original, por uma abertura espacial fabricada no estúdio, que consegue trazer para o tema alguma claridade. A tortura interior tornada veículo privilegiado ao serviço da pop melancólica.

 

Geoffrey Oryema

“Suzanne”

Quem nunca trauteou, ao menos uma vez na vida, a melodia simples e linear de “Suzanne”? Ou com “ela” aprendeu os primeiros acordes na guitarra? Canção de entrega, de corpos tocados pelo sopro do espírito, de luzes doiradas reflectidas no espelho de rios infinitos, como eram todos os rios no sonho colectivo dos 60. Oryema acrescentou-lhe a materialidade de um baixo pneumático, desceu a altura da voz até quase ao gutural e fez, como um feiticeiro, que tudo soasse como se fosse a primeira vez. Sub-repticiamente, a África irrompe nos últimos segundos, subvertendo ainda mais as reverberações etéreas do original.

 

James

“So long, Marianne”

Das canções mais conhecidas e divulgadas do compositor, sobre o tema eterno do amor. No caso de Cohen, quase sempre infeliz. Mas, como em literatura, o amor feliz não tem história. Pessimista por natureza, lá vai dizendo que por causa dela até se esqueceu de rezar aos anjos e que por isso (e por tantas outras incontáveis desditas) se sente frio “como uma lâmina de barbear”. O banjo, a percussão martelada e o violino marcam a cadência da viagem. Interminável. Tornada irrisória pelos James que lhe subtraem a energia, descartando-se da tarefa com a solicitude competente de um funcionário público.

 

Jean-Louis Murat

“Avalanche IV”

O poema fala de qualquer coisa sentida como monstruosa. De ser humano, nos maus dias. Metáfora sobre a demanda do bem, da ideia platónica de “bem”, da luz oculta nas trevas, do amor incrustado na pedra do orgulho. Leonard Cohen canta o impossível super-homem que se ergue acima das leis dos outros homens, para finalmente tombar do pedestal, também ele sensível ao frémito provocado pelo confronto com o arquétipo feminino. Enfim, mesmo os deuses não conseguem resistir a um rabo de saias, Jean-Louis Murat passa o mito para francês (sempre dá um ar mais intelectual), junta-lhe um ritmo de pavoroso mau gosto, do tipo banda de arraial e apresenta, orgulhoso, o resultado, ao júri da Eurovisão. Cohen a metro, não.

 

David McComb & Adam Peters

“Don’t go home with your hard-on”

Uma fraqueza estimulante. Espécie de “Ob-la-di ob-la-da” com caução cultural, com direito a fanfarra e serviço de bufete. O tema fala de coisas de superfície, de “salões de beleza”, de “eye-lid”, de máscaras de baile que encobrem a carne. No disco em que Cohen troca os lamentos soluçados pela varinha mágica dos arranjos rítmicos de Phil Spector, sabe bem escutar a sua voz liberta do divã do psiquiatra. Quanto aos discípulos, trocam a fanfarra por sininhos de Natal e por acessos de acne electrónico em que cabe o catálogo inteiro de efeitos vocais. Como se aos meninos tivesse sido dado o estúdio de presente.

 

  1. E. M.

“First we take Manhattan”

Por incrível que pareça, Leonard Cohen soa aqui como os Yello. Escute-se a maneira como canta “Firts we take Manhattan, than we take Berlin” ou “you loved me as a loser”. Repare-se como as caixas de ritmo fazem a festa, com a pista de dança no horizonte. Uma salada exótico-electrónica, cheia de corantes. Para os incondicionais da primeira fase, é uma tragédia. Talvez uma traição. Quem não tem culpa nenhuma são os R. E. M. que, como acontece em tudo o que tocam, alcançam a perfeição. Michael Stipe e companheiros restituem ao tema a dignidade perdida. Não se trata aqui tanto de uma versão, mas da apropriação total, e uma assimilação completa do essencial, reposto de forma gloriosa num outro universo.

 

Lloyd Cole

“Chelsea hotel”

Vintage Lloyd Cole, demasiado aprisionado ao que dele se esperaria. As típicas sinuosidades vocais não disfarçam a falta de imaginação. Entre a homenagem de Cohen a Janis Joplin e o “pastiche” de Dylan, resta a história que só alguns viveram mas muitos procuram contar.

 

Robert Forster (ex-Go Betweens)

“Tower of song”

Muito estranho, o original. Fantasmagórico. A voz do trovador a 16 r.p.m. Uma pianola desafinada no quarto dos brinquedos. Um balanço dolente com referências a Hank Williams e ao “voodoo”. Magia a que Forster retira a negritude, prescindindo dos mistérios e filtrando a melodia por um “country blues” escorreito e poderoso. A virtude reside neste caso na tradução radical de um tema fechado sobre si mesmo. E na diferente valorização de um texto impermeável a leituras redutoras.

 

Peter Astor (ex-Weather Prophets)

“Take this longing”

Clonagem razoável da voz de Leonard Cohen. À volta tudo é mais gelado, com guitarras milimétricas soltas na imensidão reverberada do arcanjo, penetrada, ao longe, pelos acentos e acenos de Heidi Berry. Importante: o espírito não é atraiçoado. Mesmo que os ritmos automáticos desempenhem metade da tarefa.

 

Dead Famous People

“True love leave no traces”

Anos 50 revisitados. Memórias de um tempo de beijos roubados ao crepúsculo. De brilhantina, tranças atrevidas e saias de euforia. De automóveis berrantes e pranchas de “surf” quando o rock’n’roll não se envergonhava de ser meloso. De namoros iguais a Hollywood. De dias mais felizes. Um Cohen optimista numa história cujo “happy end” os Dead Famous People confundem com lantejoulas de casino. O órgão de coro e as vozes femininas não escondem os seus amores pelas praias cinzentas de Isabel Antenna. Inofensivo.

 

Bill Pritchard

“I’m your man”

Parece Lou Reed mas não é. Bill Pritchard, então, como de costume, exagera. Swing arrastado, com simulação de violino e trompete “mariachi” sintetizados. Em todo o caso, um arranjo brilhante. Como se Pritchard se tivesse infiltrado no organismo de Cohen para melhor lhe sugar a alma e o sangue. Elegia do “crooner” imortal, requintado, inteligente e eternamente sedutor. Afinal a mesma, outra, história de amor sempre por reinventar.

 

Fatima Mansions

“A singer must die”

Inusitada a forma como os Fatima Mansions, fazendo jus à designação que ostentam, retiram todo o peso à canção, atirada para o alto por um vibrafone em levitação, enquanto a manivela do realejo acompanha cada volta da noite. Umas das surpresas agradáveis do disco que deixa antever as salas mais escuras das “mansões de Fátima”.

 

Nick Cave and the Bad Seeds

“Tower song”

Peixe abissal habituado à escuridão das profundidades (recorde-se a anterior versão de um tema de Cohen, “Avalanche”), Nick Cave faz o que quer da canção, massacrando-a até ao limite do suportável e obrigando-a a respirar ao seu próprio ritmo. Entre o grotesco e o sublime. Para Nick Cave, a música é sinónimo de carnificina e a tragédia carnaval. Rock’n’roll descarnado, em chaga. Tal como Foetus. Ou Jim Morrison, com quem Cave aqui por vezes parece confundir-se num perturbante fenómeno de mimetismo. Sobretudo nos interlúdios declamados a fazerem lembrar a litania trágica de “The end”. Regressão luxuriante à matriz do rock, deixando um rasto de destruição pelo caminho (incluindo a do ícone Presley, uma pouco à maneira paródica dos Dread Zeppelin). A harmonia da demência.

 

John Cale

“Hallelujah”

Almas gémeas, Cohen e Cale partilham as regiões do despojamento e da desolação. No fim, falam com Deus. O “espiritual” salmódico do primeiro descarna-se ainda mais, até nada restar, no segundo, senão o piano, a voz e a fé, nas palavras e na devoção ao “Lord of song” a que os versos aludem. Cale fez o mais simples e o difícil. Como diz a letra: “Não podia sentir, por isso tentei tocar.” Tocou no âmago. Onde floresce a rosa, no centro da cruz.

songs from a room – aqui



O Mestre Leonard Cohen Deveria Aprender Com A Discípula Suzanne Vega

12.10.2001
O Mestre Leonard Cohen Deveria Aprender Com A Discípula Suzanne Vega

Leonard Cohen e Suzanne Veja têm novos álbuns: Ten New Songs e Songs of Red and Gray.
Mestre e discípula. Qual é um e qual é outro? É diferente o Outono de ambos. Cohen renunciou ao céu e afirma-se feliz. Vega continua a piscar, inquieta, mordida pelas abelhas. O ferrão saiu do espírito dele para se cravar na alma dela. Ele cala. Ela dança.

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Antes de denegrir o novo álbum de Leonard Cohen e, consequentemente, ser alvejado por todo o tipo de impropérios e outros projécteis verbais pelos admiradores incondicionais deste cantor canadiano que acabou de lançar “Tem New Songs”, devemos confessar que nele sempre apreciámos, em primeiro lugar, o poeta. A música sempre desempenhou na sua obra um lugar secundário, espécie de lenga-lenga melódica que acabou por se institucionalizar como estilo.
É verdade que o velhote que há oito anos aderiu à “filosofia” zen, passando a viver como um monge-cozinheiro no Mount Baldy Zen Center, mas que não dispensa o seu copito (“I fought against the bottle/But I had to do it drunk”, diz um dos versos de “That don’t make it junk, uma das canções do novo álbum), tem jeito para lidar com as palavras, ainda que, mesmo neste aspecto, “Tem New Songs” esteja longe de evidenciar a acutilância, por vezes apocalíptica, dos primórdios cohenianos, em álbuns como “The Songs of Leonard Cohen”, “Songs from a Room” e “Songs of Love and Hate”.
É um disco de textos simples e música mais simples ainda, nalguns casos a roçar a indulgência. Como sempre tem acontecido no passado, mas este disco provoca ainda mais, ou se adora ou se detesta a forma como Leonard Cohen expõe, de forma risível, a sua luz, aos olhos alheios. Já foi intolerável, pela intensidade da exposição, este confronto.
Ao fim de 66 anos de vida desenrolada com a persistência de uma contínua viagem em direcção ao silêncio, ficou pouco. Para alguns, o essencial. Para outros, o óbvio, de mãos dadas com o lugar-comum. Mas essa é afinal a etapa última da viagem de auto-descoberta e da renúncia de si próprio. Leva-se uma vida para dizer do fundo do mar o que o comum dos mortais diz de cabeça no ar. Verdades evidentes, ridículas, simplistas. A diferença reside apenas na maneira e na vida de quem as diz. Entre o idiota e o santo, a gramática é a mesma. O sopro do Verbo é que é diferente.
Recentemente Cohen abandonou o mosteiro onde residiu durante quase uma década, reconhecendo a ausência de uma verdadeira vocação espiritual. Renunciou. Curioso: o zen, via do paradoxo, acende-se precisamente quando aquele que o persegue o abandona, o ter cede ao ser. A mão fica cheia ao desistir de segurar. Neste aspecto, Leonard Cohen não tem feito outra coisa senão prosseguir uma coerência que – faça-se-lhe justiça – sempre pautou a sua obra. A simplicidade de “Tem New Songs” desarma. Mas também incomoda. E pode ser irritante. A própria capa do disco mostra o velho cantor e compositor com uma expressão imbecilóide no rosto. Claro que também podemos ver na fotografia a serenidade de um bonzo. Ainda aqui, tudo depende, da intensidade ou da mentira do olhar.

A Vida Negra
Dito isto, que até soa a elogio, feliz ou infelizmente, “Tem New Songs”, feito em estreita colaboração com duas mulheres (as mulheres sempre preencheram os tempos vivos e os tempos mortos de Cohen) – Sharon Robinson, produtora e co-autora de todos os temas e Leanne Ungar, engenheira de som -, se descolado da lenda e da aura de profeta que sempre rodeou o canadiano de voz de gato-pingado, soa a uma papa vagamente “soul” armada sobre programações a trote do cansaço.
O tema central é, como sempre foi e continuará a ser até chegar o momento de Cohen optar em definitivo pelo silêncio absoluto, o amor. Manda a regra imutável da pop e da arte em geral – o amor infeliz. As fugas, as desistências, as traições, as incompreensões, enfim, todo o conjunto de emoções dolorosas que o ser amado nos inflige, sabe-se lá por que motivações maquiavélicas, e nos faz ser desgraçadamente humanos.
Em “Tem New Songs” Leonard Cohen continua a tentar perceber as razões da avalanche. Faz várias perguntas, quase todas a si próprio, e as respostas, à míngua de uma revelação, surgem na forma de canções. Mas as perguntas de “Tem New Songs” soçobram no vazio e o vento do desalento não deixa de soprar. Ao mesmo tempo que faz o trabalho de limpeza da introspecção, Cohen interroga o advogado do céu ou, na sua ausência, do inferno, justificando as suas maleitas com o mal universal e a indiferença de um Deus que implica com ele e lhe faz – ou fez – a vida negra. Daí a simbologia e estrutura poética religiosa (bíblica?) impressa em canções como “Here it is”, “Boogie Street” (ainda o vinho, na sua dupla dimensão dionisíaca e litúrgica…) e “The Land of Plenty”. Não há melhor maneira de tornar universal a dor individual.
A “coroa”, o “vinho” e a “cruz que Leonard Cohen depõe em “Here i tis” passam por ser os sinais de uma agonia que finalmente encontrou plausibilidade e redenção na visão desprendida de quem, já no crepúsculo da viagem, nada mais deseja senão compreender. Mas daí até versos como “May everyone live/And may everyone die/Hello, my love/and my love, goodbye” (em “Here i tis”), sobre caixa de ritmos cha-cha-cha, serem tomados como novo evangelho dos deserdados do amor, vai uma certa distância…
O próprio Cohen, em 1988, a propósito das conotações religiosas da sua música, afirmara: “Pensei que poderia espalhar luz, iluminar o meu mundo e o dos que estão à minha volta, que poderia seguir o caminho do serviço, da ajuda aos outros. Acreditei que conseguiria mas não fui capaz. Este é um terreno no qual os homens mais fortes, mais corajosos, mais nobres, mais bondosos, mais generosos do que eu, homens que capazes de cometer feitos extraordinários, se despedaçaram ao longo do caminho. Quem lida com o Sagrado acaba por ser dilacerado”.
Treze anos volvidos, no novo álbum, faz a confissão do fracasso, em “The land of plenty”: “Na verdade, não tenho coragem/Para permanecer onde devo permanecer/Não tenho realmente temperamento/Para deitar uma mão amiga”.
“The land of plenty” expõe de forma limpid o dilemma: “Don’t really know who sent me/To raise my voice and say:/May the lights in the land of plenty/Shine on truth some day” e, mais íntimo, “Don’t really know why I came here/knowing as I do/What you really think of me/What I really think of you”. Quer dizer, atendendo ao cansaço e à idade, ou aos conselhos que o seu amigo monge Joshu Sasaki lhe terá sussurrado ao ouvido durante a sua estadia no mosteiro, Leonard Cohen desistiu, deixando a esperança para quem tiver ainda a Força: “For the innermost decision/That we cannot but obey/For what’s left of our religion/I lift my voice and pray:/May the lights in the land of plenty/Shine on the truth, some day”. Uma certa forma de “new age” existencial que cai bem. Se é que é possível cair bem… Talvez seja. No presente, Leonard Cohen diz: “Estou feliz”.

Danças Com Abelhas
Será Suzanne Vega capaz de estender a mão? De conservar e usar a força? De ser feliz? Como Leonard Cohen, seu mestre, Suzanne (uma das canções do canadiano chama-se assim, “Suzanne”) colocou o ênfase na palavra “song” no título do seu novo álbum, “Songs in Red and Gray2. Assunção de um estatuto de cantor-compositor clássico que dispensa associações. As canções a “vermelho” e “cinzento” – o vermelho do coração, o cinzento do cérebro – têm uma só assinatura, imediatamente reconhecível: “Canções Suzanne Veja”. À semelhança de Cohen, há uma voz e um estilo inconfundíveis, quer se goste ou não deles. E, ainda como Leonard Cohen, Suzanne Veja não resiste a cantar sobre as suas desventuras amorosas. Com uma diferença: apesar dos santos e penitentes que assombram “Songs of Red and Gray”, para si, o fim de uma relação não é o fim do mundo.
Suzanne, 42 anos, revolve com outra força as feridas de cada um de nós. Menos mito (mesmo a “Virgin Mary” de “It makes me wonder” é a companheira de “uma exploração carnal” do “sagrado” e do “profano”) e mais sangue fresco.
Nos 66 anos de Cohen, o sangue corre frio e devagar. Nela tudo arde ainda. O ardor do ferrão da abelha cravado na carne. Depois, quer se queira quer não, Suzanne Veja sabe colorir as suas histórias com um vigor instrumental que Cohen desde sempre dispensou. E pintar-se com as imagens de uma simbologia da terra: folhas, abelhas, uma rosa-chaga, um baralhos de cartas, aberto em copas – corações. Será uma forma de se cobrir. Cohen vai nu. Ela dança, como uma bailarina.
“Songs in Red and Gray” é, como não poderia deixar de ser, um álbum feito à medida de quem sente e sabe cantar com ternura aquilo que sente. Cohen vai descamando a alma como um réptil. Veja brilha ainda como uma estrela cujo brilho irradia. Cohen arrefece. Vega aquece. Mesmo se “Songs in Red and Gray”, balouçando entre a maquinaria de cetim de “99,9ºF2, orquestrações folky e o arvoredo outonal de segredos ditos, Às escondidas, num sonho, não acrescente uma vírgula à grandeza, sinónimo de beleza, oferecida em “Days of Open Hand”.
Ainda assim, o mestre deveria aprender com a discípula. Que é, aliás, o que fazem todos os verdadeiros mestres.