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Ray Barretto – “Homage To Art” + Greg Osby – “St. Louis Shoes” + Von Freeman – “The Improvisor” + Michael Brecker Quindectet – “Wide Angles” + Jean-Michel Pilc – “Cardinal Points” + Keith Jarrett – “Up For It”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 27 Setembro 2003

Uma homenagem latina aos Jazz Messengers, uma viagem ao coração do “blues” do Mississipi, fusão com graça, e dois pianistas com as bússolas apontadas em direções opostas cortam às fatias o jazz desta semana.


Medir o tempo com uma bússola


RAY BARRETTO
Homage to Art
Night Bird, distri. Multidisc
7 | 10



Outra vez a máquina. Art Blakey e os seus Jazz Messengers deixaram marcas no jazz que hoje se ouve, levando o percussionista e “congueiro” de origem porto-riquenha, Ray Barretto, a agir em conformidade, homenageando a locomotiva do “hard-bop” em “Homage to Art”. Influenciado pelo swing das congas de Chano Pozo, a veia latina de Barretto expressou-se tanto ao lado de Dizzy Gillespie, como de Tito Puente. À semelhança dos Jazz Messengers do final dos anos 50 e de álbuns como “Orgy in Rhythm” (um dos que mais impressionou Barretto), a secção rítmica desta “Homage” conta com um regimento de percussionistas latinos. Salta um jazz ligeiro, animado e “saleroso” cujo alinhamento se socorre em larga medida de composições de um dos homens que marcaram a sonoridade do coletivo de Blakey no início da década de 60, Wayne Shorter, juntando-se-lhe uma composição de outro ilustre mensageiro, Lee Morgan. Miguel Zenon, no saxofone alto (escorreito e razoável bopper), e John Bailey, na trompete (de notar o calor do timbre) fazem, com competência, as vezes daqueles dois. Jazz assim, com sorriso entrelaçado nos compassos, não só sabe, como faz bem.

GREG OSBY
St. Louis Shoes
Blue Note, distri. EMI-VC
8| 10



Figura de proa do coletivo M-Base, o saxofonista alto natural de St. Louis regressa aqui às origens, numa revisitação inspirada do jazz de New Orleans e das águas quentes do “blues” do Mississipi, construída sobre a memória dos tempos (anos 70) em que tocava até de madrugada em bares mal afamados, com o sustento do álcool e swingando para jogadores clandestinos e prostitutas. “St. Louis Shoes” percorre uma gama de composições que abrange Duke Ellington, Charlie Parker, Thelonious Monk, Cassandra Wilson (sua companheira de armas no M-Base), Gershwin, Jack DeJohnette, Lieber, Miller & Stoller e William Handy, rearranjados, segundo o saxofonista, de forma “dramática” (alteração das progressões de acordes, dos tons e dos tempos, permanecendo intacto apenas o esqueleto das melodias). Osby, já se sabe, não dispensa o “groove” e faz rebentar foguetes e fogo-de-artifício numa paisagem sem fissuras. O seu alto escorre como licor por entre as trincheiras escavadas pelo piano de Harold O’Neal e o baixo de Robert Hurst. Mas desta feita não há “rap”, nem “funk”, nem “hip hop”, mas tão-somente uma sentida viagem em direção ao coração do “blues.

VON FREEMAN
The Improvisor
Premonition, distri. Trem Azul
8| 10



Octagenário, Von Freeman viveu um pouco à sombra do seu filho, Chico Freeman, embora tenho tocado ao lado de Gillespie, Parker e Dexter Gordon. Oriundo de Chicago, é um saxofonista tenor e uma personagem enigmática cuja música não é fácil catalogar. Da entrada em solo absoluto, “If I should lose you”, desprende-se um fascínio pouco comum construído sobre um timbre rouco (por vezes fazendo lembrar Ornette Coleman) e um lirismo que tanto pode soar torturado, como possuído por uma alegria ingénua. Em grupo porém (com Jason Moran ao piano e Mark Helias no baixo), o tempo solta-se num “swing” tenso, quase obsessivo. Von Freeman define o seu próprio estilo como “hardcore jazz” e nele é possível descortinar pontos em comum com outros saxofonistas de Chicago, como John Gilmore, Anthony Braxton, Roscoe Mitchell e Henry Threadgill, fruto do seu convívio com a escola AACM. “The Improvisor”, gravado ao vivo há dois anos em Chicago, permite compreender as razões por que, apesar de pouco conhecida, a música de Von Freeman serve de estímulo a um número crescente de novos músicos. Há nela uma vitalidade que dispensa o artifício. Von Freeman toca como se estivesse a falar.

MICHAEL BRECKER QUINDECTET
Wide Angles
Verve, distri. Universal
8| 10



Este, confessamos, conseguiu surpreender-nos pela positiva. Nunca morremos de amores pelas fusões confecionadas em banho-maria no “mainstream” deste saxofonista, cujo inegável talento nem sempre esteve ao serviço das causas mais nobres. Brecker foi membro fundador dos Steps Ahead, uma das bandas com maior sucesso comercial dos anos 80, o que de pouco valerá, se compararmos a maior parte dos grupos de fusão desta década com as inovações e o arrojo do “jazz rock” que, na anterior, soube relançar os dados lançados por Miles Davis em “In a Silent Way” e “Bitches Brew”. Desta vez, porém, a música recupera uma dignidade e uma solidez de construção de que a atual música de fusão anda, por regra, afastada. Brecker dirige uma “big band” de 15 elementos e não desperdiça a oportunidade para se revelar, além do saxofonista de costela coltraniana (embora sem a preocupação de atirar o jazz para esferas inatingíveis) que é, um surpreendente arquiteto e arranjador, capaz de fazer saltar da cartola soluções harmónicas e rítmicas surpreendentes, como acontece em “Cool day in hell”, nos M-basianos “Brexterity” e “Soylla” (com Brecker arrasador) ou na balada “Angle of repose”, onde se faz prova de que, afinal, é possível pintar um quadro com tintas comerciais diferente de um postal ilustrado. Michael Brecker abriu o compasso e os ouvidos. A verdade é que “Wide Angles” faz renascer no reino da fusão a esperança de que o jazz continue a ser a força-motriz. Um “clássico menor” do género.

JEAN-MICHEL PILC
Cardinal Points
Dreyfus, distri. Megamúsica
6| 10



O novo “cool”, mesclado de “Third Stream”, aí está, bem implantado em terras gaulesas. Jean-Michel Pilc é um pianista que decalcou topografias várias, de Bill Evans em mangas de camisa ao traje de gala de Jarrett, mantendo as arestas mais ou menos aguçadas e atafulhando a gaveta com prendas modernistas (palmas, assobios, concretismos). Sam Newsome, no saxofone soprano, dá mostras de pouca imaginação, mas a combinação da bateria de Ari Hoenig com as percussões de Abdou M’Boup cumpre com eficácia a moagem de “croissants” amassados com a farinha da abstração. O “tour de force” final, uma sonata em quatro partes, retorna ao clássico formato piano/baixo/bateria e faz girar a bússola de “Cardinal Points” no sentido de uma demonstração, não tanto de virtuosismo, como de cultura pianística de Pilc. Mas este é um jazz desprovido de emoções em tempo real que parece contemplar o horizonte em busca do chamamento que não vem. Inteligência e calculismo redundam, regra geral, em frio. “Cardinal Points” transporta-nos para a Antártida.

KEITH JARRETT
Up for it
ECM, distri. Dargil
7| 10



Nas notas de apresentação escritas pouco tempo antes de os EUA invadirem o Iraque. Keith Jarrett faz notar “a falta de poesia” que afeta o mundo de hoje, onde não há lugar para “a alegria e a transcendência” e “aspirar a coisas grandiosas parece ser uma coisa do passado”: “Imitação é tudo o que sabemos, ‘marketing’ é tudo o que vemos.” Se em anteriores ocasiões Keith Jarrett procurou alcançar essas “coisas grandiosas” e a transcendência através da grandiloquência, a presente gravação ao vivo, em Juan-les-Pins, França, com Gary Peacock e Jack DeJohnette (quando se completam 20 anos sobre a sua primeira gravação juntos, “Standards, Vol.1”), aponta na direção oposta e obriga-nos a olhar para dentro. Apesar do dia do concerto apresentar condições atmosféricas péssimas e a disposição dos músicos não ser a melhor (os três recuperavam de doenças ou de acidentes), o “satori” (instante de revelação) aconteceu, mal o intercâmbio instrumental e espiritual se estabeleceu. “Entrámos de imediato na ‘zona’”, recorda o pianista. Essa ‘zona’, como a de “Stalker”, repleta de armadilhas, mas dando acesso ao mais precioso dos tesouros, é aqui percorrida pelo trio numa comunicação quase telepática. Infelizmente, porém, o tempo tem duas medidas. Entre esse instante de revelação original e a sua posterior reprodução digital ergue-se a barreira que separa a verticalidade do primeiro momento e a horizontalidade do segundo.