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The Teardrop Explodes – “Wilder”

Y 9|FEVEREIRO|2001
escolhas|discos


THE TEARDROP EXPLODES
Wilder
Mercury, distri. Universal
8|10



Julian Cope, o “cabeça de ácido” apontado para a luuuuuuua (exclamação recorrente no seu livro “Krautrocksampler”, dirigida a todos os lunáticos iluminados como ele), fundou no final dos anos 70 os The Teardrop Explodes, uma das bandas mais originais da pop inglesa pós-new wave, a par dos Echo & The Bunnymen. Lançado a seguir à estreia “Kilimanjaro”, “Wilder” lançava um repto alucinatório quer ao cinzentismo oleoso e esmagador dos “industriais” quer ao escapismo sintético e glamoroso da electropop. Ao invés, Cope reivindicava o estatuto do criador individualista, possuído por uma visão, recuperando a imagem, simultaneamente do herói e do mártir, que se perdera com as saídas de cena de Syd Barrett ou de Nick Drake, ao mesmo tempo que legitimava e revitalizava algumas das linguagens do passado, do krautrock ao psicadelismo. “Wilder” é um manifesto de pop nas alturas, alucinadamente funky, de um dos últimos genuínos freaks da música popular.



Julian Cope – “Interpreter”

Pop Rock

23 de Outubro de 1996
poprock

O homem que veio do espaço

JULIAN COPE
Interpreter (8)
Echo, import. Lojas Valentim de Carvalho


jc

“Venho de outro planeta, querida!” É o primeiro sinal enviado do espaço pelo alienígena Julian Cope, messias do novo psicadelismo. Cope rompeu os véus da terceira visão. Em estado de graça – ou de desgraça – em termos de vendas desde “Peggy Suicide”, de 1991, o ex-Teardrop Explodes continua a moldar a música pop à sua cosmovisão, por sua vez moldada pelo LSD e pelas mensagens enviadas pelos seus amiguinhos verdes.
Apesar de ser preciso subir muito até se encontrar a cabeça de Cope a pairar acima das nuvens, não quer dizer que o “acid head” esteja louco. Está é “alto” há uma quantidade de tempo. Mas já foi pior. Ele afirma que deixou de ingerir ácido há oito anos, preferindo actualmente os cogumelos e a erva. O homem que veio do espaço declara-se lúcido e contra as drogas psiquiátricas, para as quais o ideal de paraíso é o coma, e participa em manifestações ecológicas em defesa das árvores. Quando o “Krautrocksampler” – o seu compêndio pessoal da “Kosmisch muzik” alemã dos anos 70 – se transformou rapidamente num clássico de culto, tem já em preparação um novo livro, desta feita um guia, geográfico e psíquico, dos lugares sagrados da Inglaterra, cujo título será provavelmente “The Modern Aquarium”. “Interpreter” inclui uma amostra sob a forma de um “Mythological mind map of the Marlborough downs” desdobrável…
“Interpreter” é o testemunho de uma mente em estado de embriaguez criativa. Mais acessível do que os anteriores “Autogeddon” e “20 Mothers”, recorre a esquemas pop que vão da “bubblegum” e dos Velvet pouco “underground” à recuperação dos Teardrop e da Pop swingante de um Matt Johnson, em “Since I lost my head, it’s awl-right”. A luz negra do “krautrock” continua a brilhar com intensidade, por incidência directa ou por interposta pessoa, como em “Cheap new-age fix”, recriação do “kraut-synth-pop” dos Stereolab – presença teutónica que se faz sentir, ainda, através do martelo-pilão dos Neu!, ma manipulação minimalista e gulosa dos sintetizadores ARP e VCS3 analógicos ou das “private jokes” com títulos modificados de “krautrockers” (“I´ve got my TV & my pills” e “Planetary sit-in” são alusões, respectivamente, a “I’ve got my car & my TV”, dos Faust, e “Planeten sit-in” dos Cosmic Jokers). “S.p.a.c.e.r.o.c.k. with me” funde a ópera espacial de “Startrek” com o “easy-listening” do século XXI, alimentando a propulsão pelos Amon Düül II e Hawkwind. Em “Maid of constant sorrow”, os extraterrestres apoderam-se do microfone para declararem o seu “Independence day”.
O fogo de Kundalini (energia sexual transmutada em energia mental, na iniciação tântrica) continua a subir pela espinha de Julian Cope até ao “chakra” (centro nervoso do corpo astral) superior da nuca, como se vê pela imagem da contracapa desta alucinada caixinha… Resta saber até quando conseguirá ele manejar as suas labaredas sem se queimar. Para já, o cérebro fugiu num foguetão.



Julian Cope: O Mundo Numa Concha de Tartaruga – Viagem Sem Regresso: Syd Barrett

Pop Rock

10 ABRIL 1991
JULIAN COPE: O MUNDO NUMA CONCHA DE TARTARUGA

VIAGEM SEM REGRESSO

“Uma certa proporção de danos cerebrais pode constituir uma virtude.”
Médico anónimo

sb

“Nem mais”, terão pensado Julian Cope e, anos antes, Syd Barrett, ambos apreciadores de uma boa “viagem” de LSD. O autor do recente “Peggy Suicide” abandonou o ácido a conselho da sogra, preocupada com possíveis desarranjos genéticos dos futuros netos. O antigo vocalista dos Pink Floyd não teve uma sogra que o chamasse à razão e foi até ao fim da viagem, com os resultados que se conhecem, mas que não faz mal recordar.
Julian Cope não gosta que o comparem a Barrett. Pode parecer romântica e poética aos olhos dos outros a imagem da estrela pop, imersa na contemplação do infinito, mas, quando a viagem dá para o outro lado, não são os outros que darão um passo para ajudar. Sem ácido, o psicadelismo não teria razão de existir. E onde há ácidos surgem inevitavelmente os santos e as vítimas. Cope foi “Saint Julian”, Barrett esteve internado numa instituição para doentes mentais e vive actualmente com a mãe, em Cambridge. Nunca mais tocou guitarra – prefere ficar em casa a ver televisão.
Mas, quando os Pink Floyd irromperam pela primeira vez no clube UFO, inaugurando a era psicadélica em Inglaterra, Syd Barrett foi olhado como um génio, ligeiramente lunático, é certo, mas possuidor da tal “proporção certa”, suficiente para poder escrever a quase totalidade das canções de “The Piper at the Gates of Dawn” (incluindo o clássico psicadélico “Astronomy Domine”) ou os singles “See Emily Play” e “Arnold Layne”. Um ano chegou para que o equilíbrio se perdesse e Syd deslizasse para o lado errado. No álbum seguinte dos Pink Floyd, “A Saucerful of Secrets”, apenas contribui com “Jugband Blues”. Preocupados com a sua imprevisibilidade em palco (“imprevisibilidade” não chega para definir quem mal conseguia aguentar-se de pé e segurar na guitarra…), os outros aconselharam-no a ir para casa descansar. À cautela, contrataram um novo guitarrista, David Gilmour, para o substituir. Até hoje Syd continua a descansar.
A história não acaba, porém, com os Floyd. Em 1970 grava a solo os álbuns “The Madcap Laughs” e “Barrett”, produzidos pelo seu amigo Roger Waters. “Effervescing Elephant” ou “Baby Lemonade” são títulos esclarecedores quanto ao estado mental do seu autor. “Dominoes” permanece como uma das canções mais pungentes de sempre sobre a solidão. Mais recentemente a Harvest editou “Open”, aquele que poderia ser considerado o terceiro álbum de Syd Barrett, não fora o facto de quase todas as canções se encontrarem em estado de “takes” incompletos.
Mais tarde, os Pink Floyd dedicaram-lhe o álbum “Wish you Were here” e em particular o tema “Shine on you Crazy Diamond”, mas era impossível regressar. Syd apareceu no estúdio, durante as gravações, mas não se sabe se chegou a reconhecer os antigos companheiros. Depois disso foi visto em diversas ocasiões, a vaguear por jardins públicos, a meio da noite. Conta-se que foi encontrado várias vezes meio adormecido dentro das águas geladas de um lago. Chegou a formar um pequeno trio, chamado “Stars”, que rapidamente se extinguiu, tal qual um lampejo de lucidez momentaneamente reacendido no cérebro de um louco.
Passam-se anos sem que se saiba do seu paradeiro, mas o fanzine “Terrapin” continua a publicar relatórios periódicos sobre as suas actividades (ou ausência delas…). Mike Watkinson e Pete Anderson escreveram um livro sobre ele, a que chamaram “Crazy Diamond Syd Barrett and the Dawn of Pink Floyd”: contam anedotas como a daquela vez em que Syd se entreteve a cobrir a cabeça com Brylcreem e a rebentar cápsulas de Mandrax, antes de aparecer, qual alienígena tresloucado, sobre o palco.
Para a lenda ficaram esta e outras histórias demenciais e sobretudo a música de um outro mundo, revelado em notas soltas e palavras solitárias, na aceleração progressiva da viagem derradeira, em direcção ás estrelas.

syd barrett: opel – aqui