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Vários – “Guerra À Guerra” (dossier)

Pop-Rock 23.01.1991


GUERRA À GUERRA


O rock pode ter-se internacionalizado, mas mantém-se, tal como na sua origem, uma forma de expressão musical e artística de predomínio anglo-saxónico e norte-americano, em particular. Pela sua própria natureza, é agressivo e violento, assumindo inclusive tonalidades marciais e vandalistas. A conjugação destes dois traços torna-o assim favorável à instrumentalização como tónico para as cruzadas bélicas “yankees” e, desse modo, foi usado no passado no Vietname, como mesmo agora para o ataque ao Iraque, para cuja frente de batalha foram enviados milhares de cassetes. Música anglo-saxónica, o rock erigiu-se, todavia, contra o seu sistema, e foi desde sempre na contestação dos seus (e os outros) “senhores da guerra” que tomou posição. Tornou-se, assim, estandarte do pacifismo por negação da negação ou por declarar imperativo fazer guerra à guerra. E, a esse respeito, 20 anos depois de marcar pontos na frente de batalha contra as batalhas, em quase nada mudou.
Mas este novo episódio da dissidência musical que, desde a agudização da crise no Golfo, se começou a escrever traz um desenvolvimento inédito. O “mentor” da primeira represália rock à linguagem das armas foi Lenny Kravitz, o neo-“hippie” por excelência, e os seus parceiros directos são a esposa e um dos filhos do patriarca do pacifismo John Lennon. O projecto que os fez reunir, por sua vez, foi uma nova versão de “Give Peace A Chance”. Ou seja, uma estratégia de intervenção aparentada à usada no Live Aid, em 1985, tomando por pano de fundo uma canção de 69. O mesmo é dizer que, em 1991, a causa pacifista assumida pelo rock não pode mais encarada como um caso de moda, não é pontual ou aleatória, mas inspira-se e alicerça-se na sua própria história, sendo hoje a sua autoridade e credibilidade a de um contrapoder instituído. É impossível nestas páginas reconstituir essa história ou fazer o balanço completo do que nela correu bem ou mal. Mas é aliciante recapitular as fundamentais correntes antibelicistas que têm assomado à ribalta rock, apresentando-as através de algumas das suas letras mais eloquentes. É claro assim que, apesar de haver consenso, não há nesta selecção uniformidade, mas diferentes perspectivas, algumas delas contraditórias entre si.
Luís Maio

SENHORES DA GUERRA
BOB DYLAN


Vós, senhores da guerra
Que construís todas as armas
Que construís aviões da morte
Que construís grandes bombas
Que vos escondeis atrás de muros
Que vos escondeis atrás de secretárias
Quero que saibam
Que vejo através das vossas máscaras
Vós, que jamais fizestes outra coisa
Para além de construir para destruir
Brincais com o meu mundo
Como se fosse o vosso brinquedo privado
Dais-me uma arma para a mão
E escondei-vos do meu olhar
E virais costas e fugis para longe
Quando as rápidas balas traçam o ar

Como o velho Judas
Mentis e enganais
Quereis que acredite Que uma guerra mundial pode ter vencedor
Mas vejo através dos vossos olhos
E vejo através da vossa mente
Como vejo através da água
Que escorre pelo ralo

Preparais os gatilhos
Para que outros disparem
Depois recostai-vos e assistis
Ao crescer do número de mortos
Escondei-vos nas vossas mansões
Enquanto o sangue escorre
Dos corpos dos jovens
E se mistura com a lama

Suscitatstes o pior medo
Alguma vez provocado
Medo de trazer crianças
Ao mundo
Por ameaçardes o meu filho
Ainda sem corpo e sem nome
Não sois dignos do sangue
Que vos corre nas veias

O que é que eu sei
Para falar sem licença
Podeis dizer que sou novo
Podeis dizer que sou ignorante
Mas, duma coisa estou certo
Embora eu seja mais novo que vós
Nem Jesus perdoaria
Aquilo que fazeis

Deixai que vos faça uma pergunta
O vosso dinheiro é assim tão bom
Que vos compre o perdão
Acreditais isso possível
Quando chegar a vossa vez
Creio que descobrireis
Que nem todo o dinheiro que arrecadastes
Vos restituirá a alma

Espero que morrias
E que chegue depressa a vossa morte
Seguirei a vossa urna
Na tarde pálida
E estarei vigilante quando vos baixarem
Para o leito da morte
E ficarei sobre a vossa campa
Até estar seguro da vossa morte

“Masters of War” foi primeiro editada em “The Freewheelin’ Bob Dylan”, segundo álbum do cantor-compositor, datado de 1963. A canção é geralmente apontada pelos exegetas como exemplo, por excelência, do que é uma má canção de intervenção. Argumento: Dylan produz uma dicotomia crua entre os “senhores” de um lado e ele do outro, e as suas palavras são de todo destituídas de conteúdo político objectivo, sendo o seu ataque baseado em nada, para além do puro insulto.


O SOLDADO DESCONHECIDO
JIM MORRISON, DOORS


Espera até que a guerra acabe e sejamos ambos um pouco mais velhos
O soldado desconhecido treina-se onde as notícias são lidas
Na televisão, crianças por nascer, já mortas, vivas, vivas, mortas
As balas atingem a cabeça, por debaixo do capacete
E, para o soldado desconhecido, tudo acabou
Tudo acabou para o soldado desconhecido

COMPANHIA: ALTO!
APRESENTAR ARMAS.

Preparem uma sepultura para o soldado desconhecido
Aninhado sobre o vosso ombro desguarnecido
O soldado desconhecido treina-se enquanto se lêem as notícias
Na televisão, crianças mortas, as balas atingem a cabeça, sob o capacete
Tudo acabou. A Guerra terminou.

“The Unknown Soldier” aparece pela primeira vez em 1968, no formato de single, antes de fazer parte do terceiro álbum da banda, “waiting For The Sun”. Vítima por excelência, longe de todos os heroísmos, o “Soldado Desconhecido” representa um dos símbolos mais tipificados do discurso pacifista. Na época do Vietname, cristalização e tudo o que a geração do “Flower Power” odiava. A televisão difundia então imagens de crianças mortas. Hoje, no pequeno ecrã, a guerra parece-se mais com um “videogame”.


DÊEM UMA OPORTUNIDADE À PAZ (1)
JOHN LENNON


Toda a gente fala de
Devastismo, desgrenhismo, pressionismo, louquismo,
Desordismo, rotulismo
Ismo para isto, ismo para aquilo, ismo, ismo, ismo
Tudo o que estamos a dizer é
Dêem uma oportunidade à paz.

Toda a gente fala de
Ministros, sinistros, balaustradas
Latas, bispos, peixarias,
Rabinos e olhos pop, adeus, adeus, adeuses
Tudo o que estamos a dizer é
Dêem uma oportunidade à paz

Deixem-me agora falar de
Revolução, evolução, masturbação,
Flagelação, regulação, integrações,
Meditações, Nações Unidas,
Parabéns.
Toda a gente fala de
John e Yoko, Timmy Leary, Rosemary,
Tommy Smothers, Bobby Dylan, Tommy Cooper,
Derek Taylor, Norman Mailer,
Alan Ginsberg, Hare Krishna,
Hare
Krishna.

“Give Peace A Chance” surgiu como single em 1969, assinado sob o rótulo “The Plastic Ono Band” (nome dado por John a várias formações com que gravou, esta incluindo Petula Clark e Allen Ginsberg). O tema foi escrito durante o chamado “período da cama”, forma de protesto do casal Lennon contra o belicismo, que se tornou em hino definitivo dos pacifistas. Já não pertence ao domínio da poética Beatles, mas ao estilo de jornalismo pragmático que o músico viria a colmatar em “Sometime In New York City”. A melodia e o refrão sloganístico justificam a popularização, o simplismo legitima as críticas de vazio fundante.
—-
(1) Texto basicamente intradutível, pelas constantes “invenções” e associações de palavras envolvidas. Na primeira estrofe, Lennon cria palavras acrescentando “ismo” a palavras que se podem traduzir por “devastação”, “desgrenhamento”, “pressão”, “loucura”, “desordem” e “rotulação”. Na segunda estrofe forma as palavras com os sufixos ingleses “ters” (“ministers”, “banisters”) e “Hops” (“bishops”, fishops”) que não permitem efectuar operação semelhante em português sobre os seus correspondentes. Já se pode fazer qualquer coisa, na terceira estrofe, traduzindo o sufixo inglês “tion” por “ção”, menos com “United Nations”.


PAZ – UM COMEÇO, PAZ – UM FIM
PETE SINFIELD, KING CRIMSON



Sou o oceano
Que a chama ilumina
“Paz” – é o meu nome.
Sou o rio
Que o vento aflora
Sou a história
Sem fim

“Paz” – é uma palavra
Do mar e do vento
“Paz” – é uma ave que canta
Enquanto sorris
“Paz” – é o amor
De um inimigo convertido em amigo
“Paz” – é o amor que dás
A uma criança.

Quando me buscas
Procuras por todo o lado
Esquecendo-te de olhar para o teu lado.
Quando te buscas
Procuras por todo o lado
Esquecendo-te de ver dentro de ti.

“Paz” – é um rio
Que brota do coração de um homem
E um homem do tamanho da aurora
“Paz” – é uma aurora
De um dia sem fim
A Paz é o fim, tal como a morte,
Da guerra.

“Peace – A Beginning” e “Peace – na End” constituem respectivamente a abertura e fecho de “In The Wake Of Poseidon”, segundo álbum de originais dos King Crimson, lançado em 1970. A guerra como metáfora do eterno retorno – morte e renascimento, somente transcendido pelo amor -, mensagem poética de Peter Sinfield, que acabaria por soçobrar diante da violência musical, estóica e luciferina de Robert Fripp.


MARCHAVAM EM FILAS
IAN CURTIS, JOY DIVISION



Bebiam e matavam por entretenimento
Fardados em uniformes impecáveis
Exibindo a vergonha dos seus crimes
Marcando passo marchavam em fila
Marchavam em fila

Traziam retratos das esposas
E chapas numeradas para se saberem vivos
Marchavam em fila
Marchavam em fila

Cobertos de glória nunca vista
Triunfaram através de toda a engrenagem
Para nunca mais questionarem
O hipnótico transe nunca visto
Marchavam em fila
Marchavam em fila

“They Walked In Line” do primeiro disco (o de estúdio, o outro é ao vivo) do duplo álbum “Still” dos Joy Division, compilação póstuma editada em 1981, na sequência do suicídio do cantor e autor das letras, Ian Curtis. Aparentemente, é uma condenação da guerra, mas a um nível mais profundo, em particular na articulação da sonoridade possessa da voz com o tom assombrado dos instrumentos, verifica-se que na atrocidade da chacina militar, como de resto em tudo o que é cruel, há um estranho e perverso fascínio para Curtis e companhia. Isso é, aliás, patente no nome da banda, inspirado na designação de um campo de concentração nazi no romance “A Casa Das Bonecas”.


1999
PRINCE



Estava a sonhar, quando escrevi isto.
Desculpem se devaneio,
Mas ao acordar hoje de manhã
Era capaz de jurar que era o dia do juízo final.
O céu estava todo púrpura, havia gente a correr por todo o

[lado]
Tentavam escapar à destruição e, sabes,
Eu nem sequer me preocupei porque, é como eles dizem…
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Portanto, esta noite vou festejar como se fosse 1999.
Estava a sonhar, quando escrevi isto.
Por isso desculpem-me se alucino.
Mas a vida não passa de uma festa
E as festas não foram feitas para durar.
A guerra circunda-nos por todos os lados,
O meu espírito diz-me que me prepare para combater.
Então, se vou morrer, vou escutar o meu corpo porque, é como

[eles dizem…
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Portanto, esta noite vou festejar como se fosse 1999.
Se tu não vieste para festejar,
Não vale a pena bateres-me à porta,
Tenho um leão no bolso
E, querida, ele está pronto a rugir.
Toda a gente tem uma bomba,
Podemos todos morrer um dia destes.
Mas antes que deixe que isso aconteça
Vou morrer a dançar porque, é como eles dizem,
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Mamã— Porque é que toda agente tem uma bomba?

“1999” do duplo LP homónimo, de 1982. Foi o disco que lançou Prince na primeira divisão dos tops mundiais, o que se deve atribuir, em particular, à faixa do mesmo nome. Dois traços originais e complementares: a articulação da síndrome da guerra com a diversão, a orquestração do terror do genocídio com ritmos infectadamente dançantes. Muitas estrelas pop reflectiram sobre a pop, mas poucas, como sua alteza de Minneapolis, propuseram uma solução. Pela provocação: se a guerra pode rebentar a cada instante, o melhor é não esperar e começar já a aproveitar a vida. Dionísios contra Apolo em versão acção directa.
——
Nota: uma vez que a primeira prensagem em CD incluía menos uma faixa que a edição original em vinil (para caber num só compacto), a Warner acaba de lançar uma reedição integral em laser.


CONSTRUÇÃO NAVAL
ELVIS COSTELLO / ROBERT WYATT



Valerá a pena?
Um casaco de Inverno, novo, e um par de sapatos para a mulher
É uma bicicleta pelo aniversário do rapaz
Não passa de um boato que as crianças e as mulheres espalham pela cidade
Em breve construiremos navios
Vejam bem
O rapaz disse: “Papá, vão dar-me emprego
Mas estarei de volta pelo Natal”.

Não passa de um boato espalhado pela cidade
Alguém disse que houve quem ficasse com cadastro
Só por dizer que as pessoas morrem
Em consequência da construção naval.
Francamente…
Mergulhar por uma questão de sobrevivência
Quando podíamos fazê-lo para apanhar pérolas…

Não passa de um boato espalhado pela cidade
Culpa de um telegrama ou de um postal ilustrado.
Dentro de semanas voltarão a abrir o estaleiro
E a notificar os parentes mais próximos.

“Shipbuilding”, original de Elvis Costello incluído no álbum “Punch The Clock”, de 1983, transformou-se em melancólico grito de protesto na voz de Robert Wyatt, editado em single no mesmo ano e posteriormente na minicolectânea “1982-1984”. Comentário à guerra das Malvinas que a cadência lenta e cinzenta do ex-baterista dos Soft Machine e actual comunista convicto tornou imortal. A Inglaterra crepuscular ou o mundo que envia os seus filhos para o naufrágio, com palmadinhas nas costas e promessas de medalhas. “The United States of Amnesia” e “East Timor” são outras tantas canções de Wyatt. Mas só “Shipbuilding” atingiu os tops…


A GUERRA
EDWIN STARR / BRUCE SPRINGSTEEN



A guerra
Serve para quê?
Absolutamente para nada

A guerra é, para mim, desprezível
Porque implica a destruição de vidas inocentes
A guerra faz brotar lágrimas dos olhos de milhares de mães
Cujos filhos vão combater, sacrificando a vida.

A guerra
Limita-se a destroçar corações
A guerra só interessa aos cangalheiros
A guerra é inimiga da Humanidade inteira.
Só de pensar nela, enlouqueço
É um legado que, de geração em geração,
Induz à destruição.
Quem quererá morrer?

A guerra reduziu a pó os sonhos de muitos jovens
Ao torna-los deficientes, amargos e mesquinhos
A vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada em guerras, todos os dias
A guerra não pode dar a vida só tirá-la

Limita-se a destroçar corações
A guerra
Só interessa aos cangalheiros
Paz, amor, compreensão
Tem de haver um lugar, hoje, para estas coisas
Dizem-nos que temos de lutar para preservarmos a nossa liberdade
Mas, Senhor, tem de existir um processo melhor
Melhor que a guerra.

A “War”, segundo o original de 1970 de Edwin Starr, passou, sem que a levassem muito a sério, pelos Frankie Goes To Hollywood, até atingir a notoriedade, em 1985, na voz cristã e muito americana de Bruce Springsteen. Foi a leitura de “Borna t the 4th of July” de Ron Nevic que levou o “boss” à elaboração de “Born in the USA”, enésimo exorcismo dos fantasmas complexos, não resolvidos, do Vietname. Qual o sentido que faz hoje gritar que a guerra é “desprezível” e “não serve absolutamente para nada”? O rock servirá ainda para despertar os adormecidos?


OS DIAS DE ARMAGEDÃO ESTÃO À PORTA (DE NOVO)
THE THE



Estão a oito mil metros de altura voando em linha recta, deixando
[um rastro de vapor contra um céu vermelho de sangue.
Vêm de Oriente para Ocidente com gorros Balaclava (1) nas
[cabeças… Sim!

Mas se pensas que Jesus Cristo está para regressar,
Meu amor, é outra coisa a chegar.
Se alguma vez ele descobrir quem lhe contrabandeou o nome,
Extirpará o coração e revolver-se-á na campa.

O Islão está a crescer.
Os Cristãos mobilizam-se.
O mundo está de rastos,
Esqueceu a mensagem e idolatra os dogmas.

“É a guerra”, gritou ela…
“É a guerra”, gritou ela…
“Isto é a guerra!”
Larga os teus bens, ó povo simples.
Hás-de combatê-los nas praias… em roupa interior.
Hás-de agradecer ao bom deus por erguer a bandeira britânica.
Hás-de ver os barcos sair da barra e os cadáveres voltarem a
[boiar.

Se o verdadeiro Jesus Cristo hoje se erguesse,
Seria alvejado a sangue frio pela CIA,
Oh, as luzes que agora mais brilham por trás de vidros coloridos
Projectarão as mais negras sombras sobre o coração humano.
Mas Deus não edificou para si esse trono.
Deus não vive em Israel ou Roma.
Deus não pertence ao cabaz do dólar ianque.
Deus não lança bombas contra o Hezbollah.
Deus nem sequer vai à igreja.
E Deus não nos manda morrer por Alá.
Não, Deus lembrar-nos-á o que já sabemos – Que a raça humana está prestes a colher o que semeou.

O mundo está de rastos,
Esqueceu a mensagem e idolatra os dogmas.
Os dias de Armagedão estão à porta… de novo

“Armageddon Days Are Here (Again)” de “Mind Bomb”, terceiro álbum de Matt Johnson, sob a designação The The, datado de 1989. Até ao momento, o álbum mais comprometido do autor é, nas suas palavras, “acerca das forças ocultas que estão por trás de todas as coisas”. Parte crucial desse álbum conceptual, a faixa que aqui se refere, constitui uma das melhores reflexões de origem musical sobre as causas do escaldante ambiente no Médio Oriente, colocando judiciosamente o acento nas fricções de ordem religiosa e opondo a verdadeira espiritualidade ao cego fanatismo gregário, tanto a Ocidente como a Oriente.
———
(1) Espécie de gorros, em malha metálica, vulgarizados pelos guerreiros da Idade Média.

TRADUÇÃO E COMENTÁRIOS
DE: FERNANDO MAGALHÃES E LUÍS MAIO

Vários – “Um Guia Seleccionado Para A Música De Quatro Décadas Que Se Reeditou Em 90 RAROS, INÉDITOS e REEDITADOS” – Fernando Magalhães e Luís Maio

Pop-Rock 09.01.1991


Um Guia Seleccionado Para A Música De Quatro Décadas Que Se Reeditou Em 90
RAROS, INÉDITOS e REEDITADOS
Fernando Magalhães e Luís Maio


Depois das glórias dos anos 50 e 60, foi a vez de o sumo da década de 70 e da primeira metade da de 80 alimentar em 90 a indústria dos fundos de catálogo. Essa orientação de mercado parece, contudo, não corresponder a alguma nostalgia instantânea pelo que acabou ou ainda está a passar – e muitas das compilações em causa integram e foram lançadas em simultâneo com novos singles. Houve sim uma espécie de adaptação ao mercado da música do sistema de montagem em série com variações mínimas de pormenor, corrente por exemplo no ramo automóvel. Prova disso, outra tendência dominante foi voltar a reeditar tudo o que ainda há pouco se reeditara, mas em diferentes embrulhos sob o lema das retrospectivas definitivas, em luxuosas caixas de CD, com aliciantes suplementares de títulos inéditos, gravações raras e “takes” alternativos. Importa também notar que, se o fluxo de reedições no resto da Europa foi em 90 tão grande, ou nalguns meses superior ao das edições de originais, as companhias portuguesas não parecem ter compreendido as potencialidades desse mercado (em contraste com algumas lojas de importação). Isso mesmo se poderá constatar neste guia pela ausência maioritária de representantes locais para tais reedições.

A divisão do guia por décadas é estritamente operatória

ANOS 50

THE EVERLY BROTHERS
Perfect Harmony (Knight Evy)

Todos os hits dos famosos manos, desde a estreia nos tops em 57 com “Bye Bye Love”, até à ligação com os Beach Boys para “Don´t Worry Baby”. Parce que sem eles os Simon & Garfunkel nunca teriam passado de meninos de coro.

GENE VINCENT
Boxed Set (Capitol)




Uma das grandes lendas mortas do rock ‘n’ rol, o preferido dos inadaptados, o eleito dos clã motorizados. “Be Bop A Lula” e tudo o resto reempacotado em CD para velhos adolescentes de alma rebelde sob o uniforme de executivos.

JOHNNIE RAY
Cry (Bear Family)

Celebrado como o primeiro “crooner” do rock ‘n’ rol, professor de Elvis nessa matéria, Ray parece não ter tido tanta felicidade na escolha do seu reportório de coberturas de negros, ou pelo menos não lhes comunicou tanto carisma em estúdio.

LITTLE RICHARDS
His Greatest Recordings (Ace)




Duas dúzias de pérolas do negro que assustou toda uma geração de pais americanos e, antes de se converter ao divino, inventou o vocábulo mais significativo da língua inglesa do pós-guerra, “Awopbopaloobopalopbambooom”.

THE SHIRELLES
The Collection (Castle)

Vinte e quatro lembranças queridas, ou tantos hits do tempo em que as Shirelles introduziram um modelo de singela “coqueterie” (para sempre?) no vocabulário do rock ‘n’ rol.

SCREAMIN’ JAY HAWKINS
Voodoo Jive (Rhino)

Aproveitando a reabilitação como gerente de hotel no “Comboio Mistério” de Jim Jarmusch, o pioneiro do rock ‘n’ rol foi recuperado nesta compilação das peças essenciais do seu show surrealista. Mesmo hoje, parece impossível que alguém pudesse cantar em semelhante grau de desarranjo.

ANOS 60

BEACH BOYS
“Pet Sounds”, “Surfin’ Safari” / “Surfin’ USA”, “Surfer Girl” / “Shut Down, Vol. 2”, “Little Deuce Coupe” / All Summer Long”, “Todo” / “Summer Days (and Summer Nights)”, “Summer Dreams” (Capitol, distri. EMI-VC)




Até “Pet Sounds”, os Beach Boys foram os meninos de ouro, queridos na Costa Oeste e, mais tarde, no resto dos Estados Unidos. Meninos da praia, reis do “surf” e das intricadas harmonias vocais, das raparigas de sardas e rabo-de-cavalo e dos descapotáveis eram a coqueluche das “garage band” da época. Brian Wilson, o génio da família, queria mais. “Rubber Soul”, dos Beatles, espicaçou-lhe o orgulho e a veia criativa. Decidiu que tinha de fazer melhor e há quem diga que o conseguiu. Com “Pet Sounds”, por muitos considerado um dos melhores álbuns de sempre da música popular. Um naipe de fabulosas canções e uma revolucionária utilização das técnicas de estúdio, tornam o disco incontornável. Depois foram os próprios Beatles a querer ainda mais além – “Sergeant Peppers” seria o disco e a lenda.
Cada uma das actuais reedições inclui quatro ou cinco faixas extra – as habituais versões alternativas ou simples experiências de estúdio. Nos textos das capas, Brian Wilson conta parte da história e explica como foi. “Summer Dreams” é uma colectânea que inclui a maior parte dos temas famosos da banda. “Good Vibrations”. Para sempre.

BEE GEES
The Very Best (Polydor)

or aqui se vê que eram melhores imitadores dos Beatles que divas da “febre” disco dance.

THE BYRDS
The Byrds (CBS)




Caixa de quatro CD, contendo a maioria dos temas que cobriram de glória a banda americana percursora do “psychedelic rock” de tendências rurais. Guitarras cristalinas que fizeram escola (frequentada entre muitos, pelos R.E.M.) e vozes que serviam excelentes melodias funcionam como máquinas do tempo que nos leva direitinhos à época das grandes explorações de estúdio e ideologias a condizer. A caixa contém novas misturas e versões alternativas de temas antigas, interpretações ao vivo de “Mr. Tambourine Man” e “Turn! Turn! Turn!”, bem como quatro temas extraídos de um concerto recente em que de novo se juntaram Roger McGuinn, David Crosby e Chris Hillman, “Younger Than Yesterday”, “The Notorious Byrd Brothers”, “Sweethearts Of The Rodeo”, momentos mágicos de uma era (aparentemente) dourada. Canções, pois claro, a “Eight Miles High”, vibrando para sempre no éter estelar.

DONOVAN
The Collection, Donovan Rising (See For Miles)




Parece mentira, mas é verdade: O homem da voz doce e tremelicante ressuscitou das profundezas de “Atlantis”, mais gordo, mas cósmico e florido como nunca. Para além da colectânez e do álbum ao vivo, lançou ainda este ano o novo “One Night In Time”. Os psicadélicos devem-lhe alguma coisa, talvez as flores. Gravou uma obra-prima que poucos conhecem – o duplo “HMS Donovan”, tão belo e absurdo como Alice no país das maravilhas. Chegou a ser rival de Dylan. Hoje os Butthole Surfers homenageiam-no com a sua interpretação de “Hurdy Gurdy Man”. Homenageiam-no é uma forma de dizer…

ERIC CLAPTON
Clapton Conversation (London Wavelenght)

Depois desta caixa de três discos com Eric Clapton a botar discurso na rádio, porque não meia dúzia de CD da celebridade a cantarolar no duche?

HERMAN’S HERMITS
The EP Collection (See For Miles)

Odiados nos anos 60 pelas elites como campeões da patetice, os Hermits são agora reabilitados a título de porta-vozes de eleição da inocência dos anos 60, numa compilação que alterna os hits imediatos com títulos que, apesar de não terem conhecido os favores da altura, por isso mesmo resistiram melhor ao tempo.

JIMI HENDRIX
Cornerstones, 1967-1970 (Polydor)

Quatro temas por ano. A ordem e simetria são muito bonitas. Greenaway procederia assim. O guitarrista era menos ordenado, o génio explodia-lhe da alma até à guitarra, em chamas. Hendrix não se compadece com cronologias. Pertence à eternidade. “Hey Joe, Are You experienced?” Ao pé dele somos todos meninos.

THE KINKS
“Kinks”, “Kinda Kinks”, “The Kink Controversy”, “Face To Face”, “Something Else By The Kinks”, “Live At The Kelvin Hall”, “Are The Village Green Presrvation Society”, “Arthur Or The Decline And Fall Of The British Empire”, “Lola Versus The Power Man And The Moneyground, pt. One”, banda sonora de “Percy”. (Castle)

Inglaterra, nevoeiro, chá das cinco, bosques verdes, Londres, Big Bem, Picadilly Circus, Ray Davies, Dave Davies, os Kinks. Sobretudo Ray Davies, o “dandy” preocupado em cantar o declínio do império. As reedições em CD reproduzem as capas originais e abrangem toda a obra fundamental da banda londrina. “Arthur” não apanhou o comboio das óperas rock, arrastado pela velocidade de “Tommy”, dos rivais “Who”. Quase tudo são hits que fizeram uma época e que assobiaremos para sempre no coração. “You Really Got Me”, “Sunny Afternoon”, “Waterloo Sunset”, “Death Of A Clown”, “Victoria”, “Shangri-La”. Roupas e vozes muito coloridas. Londres parecia então um arco íris.

RIGHTEOUS BROTHERS
Unchained Melody (Verve)

Já não se façam canções românticas deste classicismo. Se se fizessem, por que razão haveria um filme tão chunga quanto “Ghost” de ressuscitar um tema com 25 anos para os primeiros postos de vendas dos tops mundiais?
Rolling Stones

ROLLING STONES
Hot Rocks, More Hot Rocks (London, distri. Polygram)

A pretexto dos Stones 1990, a reedição dos seus êxitos no catálogo London. Passa sem muita discussão que aqui se encontra tudo ou quase tudo o que interessa nos Stones, e teria sido menos cansativo e incomparavelmente mais elegante editarem só estas colectâneas no lugar de “Steel Wheels”.

STEVE MILLER BAND
Best Of 68-73 (Capitol)

Tem tudo a ver com a recuperação de “The Joker” no recente anúncio da Levi’s. Mais ou menos o mesmo que a prévia “Anthology” sob outra ordem.

SMALL FACES
The Ultimate Collection (castle), The Singles A’s & B’s (See For Miles)




Se, na altura da explosão mod inglesa, os Who foram os que mais fizeram negócio, os Small Faces devem ter sido os mais originais e dinâmicos, extrapolando com classe as coordenadas soul e r&b para um contexto branco. Estas colectâneas são provas indiscutíveis.

TIM BUCKLEY
“Dream Letter, Live In London 1968”

Duplo CD contendo temas inéditos do autor de “Goodbye and Hello”, “Starsailor” e “Look At The Fool”. 1968 foi o ano em que se apresentou pela primeira vez ao público londrino. Uma voz, guitarra acústica, baixo e vibrafone (absolutamente encantatória a introdução de “Hallucinations”) chegaram para criar uma atmosfera mágica, intimista e irrepetível. Tim Buckley nunca parava de cantar, mesmo no intervalo entre duas canções. Como se sabe, só a morte o impediu de continuar.

VAN MORRISON
The Best Of (Polydor, distri. Polygram)
É quase um crime reduzir a obra discográfica do irlandês a escassas duas dezenas de títulos. A boa desculpa desta compilação é serem os favoritos do próprio artista na altura da resenha.

ANOS 70

BUZZCOCKS
The Peel Sessions Album (Strange Fruit, distri. Anónima)

Oportunidade para recordar Pete Shelley, acreditado como o poeta oficial do punk e um dos ídolos de Morrissey, nas gravações para o programa de John Peel, em Setembro de 1977, no zénite da sua eloquência desesperada.

CHIC
Megachic (Atlantic)

Depois das remisturas que lançaram o revivalismo “Chic”, os originais, ou seja, aquilo por que os Chic hoje valem ainda a pena serem recordados.

DAVID BOWIE
Changes Bowie, Space Oddity, The Man Who Sold The World, Hunky Dory, Aladin Sane, Pin Ups, Diamond Dogs (Emi)

Primeiras peças do grande teatro Bowie, acrescidas em CD, de temas bónus – novas misturas, “takes” de estúdio, brincadeiras. Claro que se trata de álbuns todos eles fundamentais, como fundamental é a totalidade da sua obra até “Scary Monsters / Super Creeps”. Daí para a frente o “Thin White Duke” trocou o teatro pelo cinema e os resultados são um pouco para esquecer, não havendo “Tin Machine” que lhe valha. Antes era diferente. Era sempre diferente. De álbum para álbum. De máscara para máscara. De comum entre “Space Oddity” e “Diamond Dogs” existe apenas essa extraordinária capacidade de se metamorfosear e a facilidade com que produzia fabulosas experiências musicais, sempre à frente do seu tempo. Indispensável. Toca a trocar os discos por CD!

THE ENID
Touch Me, Six Pieces, The Spell, Final Noise!

O melhor de uma dessas bandas sinfónicas que o punk sepultou, agora ressuscitada em CD como pioneiros da “nova idade”.

ISAAC HAYES
Black Moses (Stax)

O épico de 1971 reeditado num CD duplo para consolo dos iluminados da época e educação dos actuais aprendizes do funk filosófico. Apoteose acabada de um dos maiores profetas da música negra deste século.

THE ISLEY BROTHERS
Forever Gold (Epic)

Ainda não foi a reedição integral destas glórias da fusão soul/rock dos anos 70, que hoje se estima mais estimulante que na altura, mas do melhor nos seus primeiros quatro álbuns no selo próprio T-Neck.

JOHN LENNON & YOKO ONO
The Interview, (BBC) The Ultimate Lennon Box Set (Parlophone)




Duas horas de conversa entre John e o jornalista Andy Peebles, gravada para a Radio One, com a japonesa a interromper de vez em quando. As ideias, a generosidade e ingenuidade de um visionário que acreditou até ao fim que o mundo podia ser melhor. Quanto à caixa são os discos pós Beatles que já toda a gente conhece nu embrulho luxuoso para revigorar o apetite.

JONATHAN RICHMAN AND THE MODERN LOVERS
Great Recordings (Essencial)

Jonathan Richman, o tipo de Boston que à saída da Factory de Andy Warhol tropeçou num buraco negro e foi dar às filmagens de um secreto re-make de “O Feiticeiro de Oz”, retratado nos seus momentos de mais brilhante alucinação.

KATE BUSH
This Woman’s Work (Emi)

O trabalho todo – nove álbuns que incluem os seis discos de originais até agora gravados em estúdio, mais 31 lados B de singles, uma faixa extra retirada da colectânea “the Whole Story” e dois temas em francês, “Ne T’En Fuis Pas” e “Un Baiser d’Enfant”, num total de noventa e oito canções. Chega e sobeja para nos arrepiar.

KEVIN AYERS, JOHN CALE, ENO, NICO
June 1, 1874 (Island)




Imemorial reunião de quatro das personalidades mais bizarras da pop. Hoje, Nico, “deusa da Lua”, brilha na escuridão do firmamento. Ayers deixou os copos, deixando também para trás a genialidade dos cinco primeiros álbuns, trocada pelo sol de Maiorca. Cale continua a ser aquilo que sempre foi: um bom compositor, com esporádicos lampejos de génio. Eno forçou a que se inventassem novos sistemas de referência – sozinho, vai redescobrindo o silêncio e inventando novos universos. Há 16 anos provavam que a loucura pode ser partilhada, inflamados no vulcão de “Baby’s On Fire”.

KEVIN AYERS
The Collection (See For Miles)

O menino prodígio dos Soft Machine, que renunciou à alta-roda dos tops para cantar os prazeres e as amáveis alucinações da vida ao sol mediterrânico, em mais uma recapitulação que evita os delírios surrealistas em favor das baladas acessíveis e suaves.

LED ZEPPELIN
Remasters, Led Zeppelin (Atlantic)

No primeiro caso trata-se de três discos, ou dois CD, preparados e tratados em estúdio por Jimmy Page, numa operação de cosmética destinada a valorizar o material passado para o “compacto”. No segundo, os números passam para o dobro: Seis discos, quatro CD. 54 temas que incluem os bónus “Travelling Riverside Blues” e “White Summer / Black Mountain Side”, gravados em 1969 numa sessão para a BBC, nova versão do clássico da percussão “Moby Dick” e “Hey, Hey What Can I Do”, originalmente o lado B de “Immigrant Song”.

MADNESS
One Step Beyond; Absolutely; The Rise & Fall (Virgin)

Melhor banda “new wave” com humor britânico, recordada numa edição limitada de três “Picture discs”, talvez demasiado composta para recheio tão achicalhado.

MARC BOLAN & T. REX
My People Were Fair And Had Sky In Their Hair… Prophets, Seers And Sages, Unicorn/Beard Of Stars, Electric Warrior”, Bolan Boogie, The Slider, Tanx, Zinc Alloy And The Hidden Riders Of Tomorrow, Bolan’s Zip Gun, Futuristic Dragon, “Dandy In The Underworld, The Collection. (Castle)




Era uma espécie de David Bowie a uma escala menor. Mestre do “glamour” e da poesia “naif”, Marc Bolan era o Merlin dos adolescentes, cobrindo de lantejoulas e melodias pop um universo de fábula. Tyranossaurus Rex, assim se chamava o duo inicial – guitarra acústica, bongós e uma voz de encantar. Depois foi a electricidade e o rock em hits como “Hot Love”, “Get It On” e “Telegram Sam”. Infelizmente as letras dos álbuns da época “mística”, não constam nos CD. Também “T. Rex”, álbum de transição para a fase eléctrica não teve direitos de reedição. Deste disco apenas quatro faixas aparecem nas colectâneas “Bolan’s Boogie” e “The Collection”. Já não há flores na cabeça das pessoas.

MONTY PYTON
Monty Pyton Sings (Virgin)

Mais que larachas cantadas, canções verdadeiras que fazem rir, a prova dos nove dos Monty Python no terreno do “vaudeville”.

NICK DRAKE
Five Leaves Left, Brayter Layter, Pink Moon, Heaven In A Wild Flower (Island)

Obra completa do poeta da melancolia. A música de Drake cai na alma como folhas no Outono. Trsitemente. À luz da lua. Morreu muito novo, depois de caminhar pela loucura em câmara lenta. Passou despercebido na altura em que todos queriam ser sinfónicos. Ele cantava, apenas, com voz frágil, a passagem do tempo e das ilusões. Joe Boyd, responsável e amigo do artista, autorizou a venda do catálogo Witchseason à Island, na condição de esta manter permanentemente em “stock” os discos do poeta. “Heaven In A Wild Floer”, título do romântico William Blake para a colectânea do mesmo nome, sintetiza a essência da visão que Nick Drake em vida cantou e, depois da morte, decerto alcançou.

PETER GABRIEL
Shaking The Tree – 16 Golden Hits 8Virgin, distri. Edisom)

Foi o próprio Gabriel quem escolheu, e agora o seu segundo álbum a solo não está entre os seus preferidos, mas sobretudo o mais recente “So”. Sendo assim, se calhar, não valia a pena fazer compilação nenhuma.

QUEEN
Queen At The Beed 1973 (Band Of Joy, distri. Anónima)

A curiosidade de descobrir que, nas secções de gravação prévias ao álbum de estreia, a estrela dos Queen era Brian May. Do mal teria sido o menos…

SOFT MACHINE
The Peel Sessions (Strange Fruit)




Duplo álbum gravado durante as célebres sessões de John Peel, num período compreendido entre 1969 e 1971. Na época, Hugh Hopper acabara de substyituir Kevin Ayers e a banda alcançava com o duplo “Thrid” a sua obra-prima absoluta, após os psicadelismos pop dos dois primeiros discos. Destaque para a participação nalguns temas da secção de metais constituída por Elton Dean, Lyn Dobson, Marc Charig e Nick Evans (que colaboraria também em “Third”) e de uma nova versão de “Moon in June”, a clássica e terna liturgia esquizofrénico-vocal de Robert Wyatt, aqui com letra alusiva ao locutor. Mike Ratledge e Elton Dean tornam a coisa mais complexa.

THE STRANGLERS
Greatest Hits 1977-1990 (CBS, distri. CBS port.)
Agora saiu Hugh Cornwell, amanhã, se calhar, Jean Jacques Burnell vira actor de cinema, ou qualquer coisa no género. Os hits dos Stranglers, esses, são sempre os mesmos. Pelos vistos, o que muda é o pretexto.

SUICIDE
1/2 Alive (Contempo)




Alan Veja e Martin Ver gravaram, durante uma carreira de vinte anos, três álbuns de estúdio. Neste disco aproveita-se tudo o que ficara até agora de fora: gravações caseiras e inéditos ao vivo, gravados entre 1974 e 1979. “Harlem II”, “Going to Las Vegas”, “Space Blue”, “Long Talk”, “Speed Queen”, “Love You”, “Cool as Ice” e “Dreams” são alguns dos originais incluídos no disco. O ritmo da sociedade industrializada à beira do caos tocado por Ver em serra elétrica e cantado por Veja, encarnando o espectro cavernoso e reverberado de Elvis Presley. Implacável.

TELEVISION
The Blow Up (Danceteria)
Peça essencial para enriquecer a magra discografia da mais carismática banda nova-iorquina de guitarras na fase “new wave”, onde as duas faixas de cerca de 14 minutos, gravadas ao vivo em 1978, chegam e sobram para demonstrar o virtuosismo explosivo da dupla Tom Verlaine / Richard Lloyd.

ANOS 80

ABC
Absolutely (Phonogram, distri. Polygram)

O fim do contrato dos ABC com a Phonogram deu origem a esta compilação dos anos em que durou (81-89), com justo destaque para os títulos do LP de estreia “Lexicon Of Love”. O caso acabado dos tipos que são melhores a fingir mundos e fundos que a chorar as desgraçadas dos subúrbios.

CARMEL
Collected (London, distri. Polygram)




Jazz estilizado, gospel incendiário, pop distanta, conjugados numa fórmula harmónica que, ao longo de sete anos, nunca vingou nos tops, mas fez sempre as delícias das elites de bom gosto. Só os distraídos preferem a colectânea aos discos originais.

JOE JACKSON
Ntepping Out (A & M, distri. Polygram)

A colecção de mais de uma década de êxitos falhados, mas de muito prestígio, que acabaram por fazer a A & M meter Jackson no olho da rua.

THE FALL
458489 A-Sides, 458489 B-Sides (Beggars Banquet, distri. Anónima




Um disco para as faces A, outro para as B dos singles que os Fall editaram entre 84 e 89, os seus anos na Beggars Banquet. Mark Smith fica uma vez mais reiterado, é único companheiro de Morrisey na fé de que o público nunca se farta de lhe comprar discos por atacado.

THE GO-BETWEENS
1978-1990 (Beggars Banquet, distri. Anónima)
Os Go-Betweens acompanharam de perto as mais sinuosas elipses do coração apaixonado ao longo demais de uma década sem colherem grande contrapartida financeira. Esta compilação faz-lhes justiça alternando os seus clássicos com material que foi ficando pelo caminho.

MADONNA
The Immaculate Collection (Sire, distri. Wea)




Os hits da escaldante senhora e mais nada, dos inícios electrodisco nos primórdios da década de 80 até ao bailado “voguing” nos inícios dos anos 90. Como remate, a mesma história de sempre, quer dizer, mais um single para encher o olho no pequeno ecrã, onde pela milésima vez a loura avantajada justifica as suas fraquezas carnais.

MANTRONIX
The Best Of (1986-1988) (10 rec, distri. Virgin)

Pioneiros algo inglórios da actual febre de sincretismo dançante, os Mantronix viram o seu material antigo recuperado nesta compilação graças ao hit menor, mas recente “Got To Have Your Love”.

MOMUS
Monsters Of Love Singles (1985-90) (Creation, distri. Anónima)

Um tipo que se tornou francamente chato e afectado, cujas boas recordações estão todas aqui, porque o actual já ninguém tem paciência para aturar.

MORRISSEY
Bono Drag (His Master Voice, edi. EMI-VC)

Na sequência do ensaio frustrado para o segundo álbum a solo, Morrissey iludiu a crise editando primeiro um vídeo de concerto e em seguida esta compilação dos seus singles em nome próprio. A eloquência poética e a chama vocal não se apagaram, mas este material transpira a ausência de um cúmplice nos arranjos à altura de Johnny Marr.

NEW ORDER / JOY DIVISION
Peel Sessions (Strange Fruit, distri. Anónima)




Esboço de retrato da evolução do mais cinzento projecto britânico de finais dos anos 70 para a banda independente de dança mais brilhante dos 80, através das sessões gravadas pelas duas formações para o programa de John Peel. Sem surpresas, só pelo prazer de recapitular.

PUBLIC IMAGE LTD
Greatest Hits (Virgin, distri. Edisom)

O grande profanador de crina multicolor Johnny Lydon reciclado nos seus hits pós-Pistols, na liderança da “experiência” Public Image. Se isto não fosse uma compilação, mas um disco de originais, os PIL, seriam com certeza maiores que os Pistols.

THE TEARDROP EXPLODES
Everybody Wants To Shag The Teardrop Explodes (Fontana, distri. Polygram)

O terceiro álbum “perdido” dos Teardrop Explodes, com o título pretendido para o primeiro. Cinco faixas foram incluídas num EP que saiu em 83, duas retomadas depois a solo por Julian Cope, restando assim de facto cinco inéditos. Mais uma sequência de esboços que de canções acabadas, peça sobretudo dedicada aos colecionadores.

TALK TALK
Natural History (Parlophone, distri. EMI)

Estranhamente, depois de os Talk Talk terem assinado em “The Spirit Of Eden” um enorme salto qualitativo, percorrendo sinuosos caminhos algures entre a pop e a música ambiental, eis que a Parlophone os despediu. O êxito comercial da compilação cronológica sequente foi um verdadeiro certificado de incompetência para o seu sector de “artistas e reportório”.