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John Zorn – “Film Works, 1986-1990” + God – “Possession” + The Carl Stalling Project – “Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.04.1992


A CÂMARA ASSASSINA e outros desenhos animados

JOHN ZORN
Film Works, 1986-1990 (8)
CD, Elektra Nonesuch, import. Contraverso

GOD
Possession (7)
CD, Venture, distri. Edisom

THE CARL STALLING PROJECT
Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958 (7)
CD, Warner Bros., import. Contraverso



A música de John Zorn é por natureza cinematográfica. O saxofonista e compositor inglês disseca os sons, retalha-os e reconstrói-os segundo um processo de montagem em tudo semelhante ao do cinema. Sobretudo desde “Big Gundown”, Zorn tem vindo a entregar-se a um meticuloso reprocessamento sonoro de variadíssimos estilos e “inputs” musicais que, ao invés de tenderem para sínteses aglutinadoras, disparam em vertigem centrífuga, em direcção a uma “micro-música”, chamemos-lhe assim, de ampliação e revalorização de pormenores. Como se a Zorn interessasse estudar o filme, fotograma a fotograma. Estética de fragmentação já presente em obras como o citado “The Big Gundown” (ainda sustentada pelas partituras de Ennio Morricone) e “Spillane” (outra referência explícita ao universo cinematográfico, neste caso ao “filme negro”), na longa dissertação sobre Godard incluída no álbum de homenagem a este cineasta, editado pela Nato, e finalmente levada ao extremo na autodevoração de “Naked City” e “Torture Garden”. “Film Works” reúne as bandas sonoras compostas por Zorn para os filmes “Hite and Lazy”, de Rob Schwebwr, “The Golden Boat”, de Raul Ruiz, e “She Must be Seeing Things”, de Sheila McLaughlin, e uma versão “pastische” de “The Good, the bad and the ugly” para um anúncio da Camel. As imagens sonoras de Zorn são sinónimo de agressão. O desenho da capa – uma câmara que é ao mesmo tempo um revólver (símbolo / ícone já anteriormente presente em “Spillane”, “Deadly Waepons”, com Steve Beresford e David Toop, e “Naked City”) – ilustra bem o modo como o filme roda no cérebro do seu autor. Mais próximo de “Big Gundown” e “Spillane” do que das torturas sónicas dos Naked City, “Film Works” apresenta-se ainda como uma série de exercícios exploratórios sobre linguagens musicais autónomas (blues, country, jazz, ambiental, no caso das composições para Raul Ruiz, reproduzidas sob a forma de “géneros” anedóticos e arquivadas em títulos como “Jazz oboés”, “Horror organ”, “Slow” ou “Rockabilly”), com a diferença de que aqui cada um deles se compartimenta e arruma num tema específico, com tempo e espaço. Suficientes para respirar. Como se desta feita Zorn (acompanhado pela “troupe” do costume: Robert Quine, Arto Lindsay, Carol Emanuel, David Weinstein, Ned Rothenberg, Frissell, Previte, etc.) optasse por escrever o índice completo e detalhado da sua obra, de modo a facilitar ao ouvinte a decifração do labirinto. John Zorn figura como músico convidado em “Possession”, embora em termos sonoros os God não se afastem em demasia do universo estético / terrorista dos Naked City, com quem partilham uma especial preferência pelas virtudes do sadomasoquismo. No folheto interior, entre corações de metal, máscaras e vísceras sortidas, os God deixam clara a imagem que fazem do amor: “Being person who is owned and fucked becoming someone who experiences sensuality in being possessed.” Aqui o filme é de horror e o som abrasivo, feito de massas sonoras em descargas contínuas de ódio e distorção. De “Fucked “ e “Return to hell” a “Soul fire” e “Hate meditation”, os God mostram que são feios, porcos e maus. Registe-se como curiosidade a inclusão no grupo de Tim Hodgkinson, que integrou a formação original dos Henry Cow e agora se vê metido no inferno. Antecedente principal e referência paradigmática das estratégias Zornianas, a obra de Carl Stalling prefigura-se, entre os anos 30 e 50, como uma das mais revolucionárias da época na América. Vinte e poucos anos ao longo dos quais Stalling compôs as bandas sonoras para os desenhos animados de Tex Avery para a Warner. “The Carl Stalling Project” reúne gravações originais dessa era dourada da animação. Cinco anos antes da sua morte, referia-se nestes termos ao cinema de animação actual: “Têm tantos diálogos que a música deixa de ter significado.” Entre as tropelias de Bugs Bunny e Duffy Duck, a música destas pequenas sinfonias delirantes congrega em segundos toda a história da música americana que vai de Ellington a Copland, de Ives a Cage, intercalada pelo “Mickey mousing” – termo técnico que designa os ruídos onomatopaicos que acompanham a acção e os distúrbios das personagens animadas.

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“Heréticos Aos Gritos” – Artigo de Opinião sobre concertos de John Zorn em Portugal

Pop Rock

8 de Março de 1995

HERÉTICOS AOS GRITOS


jz

O grande subversor está de regresso. Desta feita, ao contrário do que aconteceu nos quatro anteriores concertos no nosso país, em que tocou acompanhado pelos Naked City, da última vez, pelos Pain Killer, John Zorn terá apenas por companhia e cantor e “performer” japonês Yamatsuka Eye. Uma fórmula inusitada e decerto económica, da qual há a esperar uma sessão, em princípio sem grandes pausas, de contorcionismos vocais e do saxofone exibidos a grande velocidade. No ar está a hipótese, lançada pelo próprio Zorn, da participação de músicos portugueses, com vários nomes aventados a aguardar confirmação.
Saxofonista de grandes recursos, imbuído da ânsia de liberdade do “free” e ao mesmo tempo leitor atento, ainda que pouco convencional, da cultura musical, dos Estados Unidos mas também europeia, nas últimas décadas – “Radio”, um dos seus últimos trabalhos com os Naked City é uma espécie de enciclopédia reciclada das várias influências e épocas que atravessam a obra do saxofonista –, John Zorn fechou-se à chave, nos últimos tempos, nas câmaras de tortura da mente humana. Como ele próprio confessou em entrevista ao PÚBLICO, quando da sua primeira apresentação em Portugal, em 1991, o limite da sua música é a morte. Uma aproximação à fronteira final já detectável na aceleração progressiva que enforma sobretudo a primeira fase dos Naked City – devoradora de todos os géneros musicais mas também com características autofágicas – e que acabou por encontrar filiações nos grupos de “hard core” e “trash metal”, americanos e japoneses, mas também da música industrial dos anos 80 (os SPK são reconhecidos como fonte de inspiração na longa lista de nomes de “Radio”…).
Álbuns como “Heretic” ou “Absinthe” afastam-se de qualquer discurso jazzístico. O primeiro envereda pelos túneis do sado-masoquismo e outros desvios da sexualidade, enquanto “Absinthe” mergulha num ambientalismo sombrio, de alucinações, montado sobre a organização de desperdícios sonoros. A esta imersão na zona escura do inconsciente – “Ao longo da História os artistas sempre estiveram obcecados com os tabus e fobias da humanidade. O nosso fascínio pelo medo, o terror e o diabo, como a própria morte, não conhece fronteiras raciais, culturais ou religiosas. Ele está no nosso inconsciente colectivo, atando-nos com cordas das quais nos tentamos libertar, o que, em última análise, não conseguimos”, diz ele nas notas que acompanham “Grand Guignol” (outro repositório de imagens e sons do horror) – justapôs Zorn, com coerência, as imagens simbólicas de dois surrealistas, Man Ray, em “Heretic”, e Hans Bellmer, em “Absinthe”.
Para trás ficaram as grandes síncreses de “The Big Gundown”, “Spillane” ou do longo tema dedicado a Godard no álbum de homenagem a este cineasta, “Godard, ça vous chante”, a anarquia “free” de “Cobra”, o mimetismo Ornettiano de “Spy vs. Spy” e a obra-prima “Deadly Weapons”, onde o saxofonista surge liberto de quaisquer pressões conceptuais, em sintonia com a memória do “bebop” e cúmplice da excentricidade, esta muito “british”, de Steve Beresford.
Nos últimos meses, a obsessão pela velocidade dá indícios de ter voltado, mas agra orientada para o ritmo de edições. Nada menos do que três álbuns num intervalo de quatro meses, pelo novo projecto Masada, quarteto formado, além de Zorn, pelo trompetista David Douglas, o baixista Greg Cohen e o baterista Joey Baron, único sobrevivente dos Naked City. Dos álbuns “Masada” (Dezembro de 94), “Masada 2” (Janeiro de 95) e “Masada 3” (lançamento para este mês), apenas sabemos que as faixas têm os títulos em hebraico, de acordo com uma temática que Zorn já abordara em “Kristallnacht”, ainda uma visão do horror, aqui centrada no genocídio dos judeus na II Guerra Mundial.

JOHN ZORN
São Luiz (Lisboa) – Março – Quinta – 9 – 22h
C. do Terço (Porto) – Março – Sexta – 10 – 22h



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