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“Heréticos Aos Gritos” – Artigo de Opinião sobre concertos de John Zorn em Portugal

Pop Rock

8 de Março de 1995

HERÉTICOS AOS GRITOS


jz

O grande subversor está de regresso. Desta feita, ao contrário do que aconteceu nos quatro anteriores concertos no nosso país, em que tocou acompanhado pelos Naked City, da última vez, pelos Pain Killer, John Zorn terá apenas por companhia e cantor e “performer” japonês Yamatsuka Eye. Uma fórmula inusitada e decerto económica, da qual há a esperar uma sessão, em princípio sem grandes pausas, de contorcionismos vocais e do saxofone exibidos a grande velocidade. No ar está a hipótese, lançada pelo próprio Zorn, da participação de músicos portugueses, com vários nomes aventados a aguardar confirmação.
Saxofonista de grandes recursos, imbuído da ânsia de liberdade do “free” e ao mesmo tempo leitor atento, ainda que pouco convencional, da cultura musical, dos Estados Unidos mas também europeia, nas últimas décadas – “Radio”, um dos seus últimos trabalhos com os Naked City é uma espécie de enciclopédia reciclada das várias influências e épocas que atravessam a obra do saxofonista –, John Zorn fechou-se à chave, nos últimos tempos, nas câmaras de tortura da mente humana. Como ele próprio confessou em entrevista ao PÚBLICO, quando da sua primeira apresentação em Portugal, em 1991, o limite da sua música é a morte. Uma aproximação à fronteira final já detectável na aceleração progressiva que enforma sobretudo a primeira fase dos Naked City – devoradora de todos os géneros musicais mas também com características autofágicas – e que acabou por encontrar filiações nos grupos de “hard core” e “trash metal”, americanos e japoneses, mas também da música industrial dos anos 80 (os SPK são reconhecidos como fonte de inspiração na longa lista de nomes de “Radio”…).
Álbuns como “Heretic” ou “Absinthe” afastam-se de qualquer discurso jazzístico. O primeiro envereda pelos túneis do sado-masoquismo e outros desvios da sexualidade, enquanto “Absinthe” mergulha num ambientalismo sombrio, de alucinações, montado sobre a organização de desperdícios sonoros. A esta imersão na zona escura do inconsciente – “Ao longo da História os artistas sempre estiveram obcecados com os tabus e fobias da humanidade. O nosso fascínio pelo medo, o terror e o diabo, como a própria morte, não conhece fronteiras raciais, culturais ou religiosas. Ele está no nosso inconsciente colectivo, atando-nos com cordas das quais nos tentamos libertar, o que, em última análise, não conseguimos”, diz ele nas notas que acompanham “Grand Guignol” (outro repositório de imagens e sons do horror) – justapôs Zorn, com coerência, as imagens simbólicas de dois surrealistas, Man Ray, em “Heretic”, e Hans Bellmer, em “Absinthe”.
Para trás ficaram as grandes síncreses de “The Big Gundown”, “Spillane” ou do longo tema dedicado a Godard no álbum de homenagem a este cineasta, “Godard, ça vous chante”, a anarquia “free” de “Cobra”, o mimetismo Ornettiano de “Spy vs. Spy” e a obra-prima “Deadly Weapons”, onde o saxofonista surge liberto de quaisquer pressões conceptuais, em sintonia com a memória do “bebop” e cúmplice da excentricidade, esta muito “british”, de Steve Beresford.
Nos últimos meses, a obsessão pela velocidade dá indícios de ter voltado, mas agra orientada para o ritmo de edições. Nada menos do que três álbuns num intervalo de quatro meses, pelo novo projecto Masada, quarteto formado, além de Zorn, pelo trompetista David Douglas, o baixista Greg Cohen e o baterista Joey Baron, único sobrevivente dos Naked City. Dos álbuns “Masada” (Dezembro de 94), “Masada 2” (Janeiro de 95) e “Masada 3” (lançamento para este mês), apenas sabemos que as faixas têm os títulos em hebraico, de acordo com uma temática que Zorn já abordara em “Kristallnacht”, ainda uma visão do horror, aqui centrada no genocídio dos judeus na II Guerra Mundial.

JOHN ZORN
São Luiz (Lisboa) – Março – Quinta – 9 – 22h
C. do Terço (Porto) – Março – Sexta – 10 – 22h