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John Moran – “The Manson Family – an opera”

Pop Rock

28 OUTUBRO 1992

A ÓPERA DO DIABO

JOHN MORAN
The Manson Family – an opera (8)

CD, Point Music, import. Contraverso

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“The Manson Family”, contraponto de horror, negativo das grandes visões minimais/cosmológicas de Philip Glass, é o retrato a negro e vermelho do Inferno, disfarçado sob a capa do surrealismo. O ponto de partida é a “família” Manson, responsável, no final dos anos 60, por uma série de assassínios rituais que culminaram no da actriz Sharon Stone e chocaram os Estados Unidos de Gerald Ford. Charles Manson, líder espiritual da seita, foi preso e condenado à pena máxima, mais tarde revogada, sem que se soubessem bem os motivos…
John Moran, um compositor pouco conhecido e apreciador de temas que aliam o mórbido e o horror às teorias sobre o homem novo, de preferência com chifres e cauda bifurcada – mais um Cronenberg da música a engrossar a lista dos fabricantes de monstruosidades –, gostou da história e com ela fez uma ópera, que Philip Glass acolheu na sua novel editora. A polémica estalou de imediato, caindo sobre o autor ameaças e acusações de vária ordem, inclusive a de fazer a apologia do criminoso Manson. Antes Moran assinara outros trabalhos de índole obscura, como “Hospital (Night Nurse)”, “Haunted House” e “Solar System”.
Não há em “The Manson Family” juízos morais. Ou seja, não há “bons” de um lado e “maus” do outro. Moran não defende um ponto de vista acusatório contra o assassino. A sua intenção é apresentar um panorama mais vasto, situando as diversas personagens envolvidas nos acontecimentos de 1969 (o mesmo ano da tragédia de Alatamon, terminando em sangue a década do “Verão do amor”), permitindo-lhes criar como que realidades alternativas possuidoras de uma lógica própria e “natural”, segundo os princípios do sonho enunciados por Breton nos seus “Manifestos do Surrealismo”. Perspectiva ambígua que, em última análise, coincide com a subjectividade total, quando Moran afirma que “The Manson Family” acaba por ser mais sobre o seu autor (que na estreia da ópera, há dois anos, em Nova Iorque, no Lincoln Center’s Serious Fun, escolheu para si o papel de Chrales Manson…) e menos sobre o assunto tratado.
Em termos conceptuais, joga-se pois nos terrenos da ambiguidade. Os diálogos e a acção descolam do tempo, mantendo-se numa espécie de imponderabilidade narrativa. Apesar do aviso “contém linguagem que pode ser considerada ofensiva” afixado na capa, sobra uma impressão de se estar para além de qualquer moral, num arrojo nietzschiano de teor provocatório. Tudo se confunde num “puzzle” de significados e remetências que ao ouvinte cabe organizar. Os Beatles na qualidade dos quatro cavaleiros do Apocalipse ou Iggy Pop, símbolo da rebeldia Pop, no papel de advogado de acusação, Vincent Bugliosi, são apenas dois exemplos de um jogo de espelhos infinito onde a noção de “real” acaba por perder todo o sentido. É isso que John Moran pretende, quando põe Charles Manson a dizer: “Não podem provar nada do que aconteceu ontem [o crime] ‘agora’ é a única coisa real. Podem tentar provar que Colombo navegou por um oceano… mas já não é o mesmo oceano…”. Apologia do momento e da acção pura. Nietzsche de novo, puxado para o lado perigoso. Nesta perspectiva, Hitler e o holocausto poderiam ter uma razão de ser.
É o horror total, o puxar do tapete debaixo dos pés. Tudo é lícito, visto que o direito legal não passa de um mero produto que visa manter um “status quo” social. Nega-se, é evidente, a existência de um direito de outra ordem, transcendente, ou seja, a lei divina. Obviamente, John Moran, e Manson, e a mentalidade ocidental que aos poucos vai vendendo a sua alma, acreditam mais no diabo do que em Deus. Manson, como Hitler, como Gilles de Rais, como todos os grandes criminosos da História, levou esta filosofia até às últimas consequências.
“The Manson Family” é ainda a psicadelia voltada do avesso e a transgressão completa de uma narrativa operática convencional. As vozes podem ser “sampladas” dos Beatles do álbum branco ou gravações originais da voz de Manson, de modo a acentuar uma dimensão ultratemporal. A electrónica assume o papel, não de niveladora, à semelhança por exemplo do que acontece nas óperas de Robert Ashley ou do próprio Philip Glass, mas de criadora, também ela, de desequilíbrios e desfocagens várias, aproximando-se, neste aspecto, “The Manson Family” de estratégias típicas dos Negativland ou de Chris Burke, no álbum “Idioglossia”. Um pesadelo sem fim.

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