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Terje Rypdal – “Lux Aeterna” + John Abercrombie – “Cat ‘n’ Mouse” + Abdullah Ibrahim – “African Symphony” + “Africa Magic” + Charlie Mariano – “Deep in a Dream” + Dave O’Higgins – “Fast Foot Shuffle”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 18 Janeiro 2003


Terje Rypdal
Lux Aeterna
ECM
10|10

John Abercrombie
Cat ‘n’ Mouse
ECM
8|10

Abdullah Ibrahim
African Symphony
6|10
African Magic
8|10
Enja

Charlie Mariano
Deep in a Dream
Enja
7|10

Dave O’Higgins
Fast Foot Shuffle
Candid Productions
6|10
Todos distri. Dargil



Haja esperança para o ano que agora se inicia. Terje Rypdal acendeu uma Lux Aeterna para o iluminar.


Estádio da luz

O primeiro grande disco para adorar em 2003 tem data de edição de 2002, foi gravado em 2001 e… não é de jazz, pese embora a conotação do seu autor com este género de música. Tem por título “Lux Aeterna” (o mesmo que o de uma obra de Ligeti que lhe serviu de inspiração) e como autor o guitarrista norueguês Terje Rypdal, com larga e diversificada obra feita na ECM. “Lux Aeterna” não é, de facto, um disco de jazz, da mesma forma que “Odyssey” ou “After the Rain” eram antes de mais pinturas ambientais e “Waves” ou “Chaser”, ataques de “hard rock”.
“Lux Aeterna” conduz-nos a outro mundo. Composto por encomenda para o Festival de Jazz de Molde, no âmbito das celebrações da instalação do novo órgão na igreja desta cidade, tem a participação do Bergen Chamber Ensemble, dirigido por Kjell Seim e, como intérpretes solistas, além do guitarrista, Palle Mikkelborg, na trompete, Iver Kleive, no órgão de igreja, e Ashild Stube Gundersen, voz soprano. Um outro mundo, dizíamos, capaz de provocar estados alterados de paixão. Música religiosa contemporânea com a dimensão de “Tabula Rasa”, de Arvo Pärt. Um mundo elevado e afastado da confusão apocalíptica dos últimos dias que se vivem cá por baixo. Cinco movimentos: “Luminous galaxy”, “Fjelldâpen”, “Escalator”, “Toccata” e “Lux Aeterna”. Cinco etapas de uma viagem com destino à luz eterna.
“Luminous galaxy” sobe até à primeira camada da estratosfera, em volutas melódicas criadas pela trompete em surdina de Mikkelborg. “New age” no espírito mas não na forma, a “galáxia luminosa” dilata-se depois numa majestosa intervenção do órgão. “Fjelldâpen” ilustra uma experiência de infância vivida por Rypdal na vila com este nome onde então habitava com os seus pais. Ainda experiência de subida, ascensão solitária ao alto de uma montanha proibida. Sem que ninguém soubesse, sem que ninguém acreditasse. Segredo bem guardado que a guitarra agora narra com fervor, numa incandescência apaixonada, o timbre característico expandido como nunca o ouvíramos antes, em ânsia, grito, espaço de projecção anímica que tudo parece querer abarcar, num diálogo com o órgão que é música de Deus a chamar das alturas. Arrepiante.
“Escalator”: A Terra ficou a perder de vista. Sentimos Mahler e Messiaen, também eles proclamando o imenso drama cósmico. Um glockenspiel anuncia a emergência da luz, a trompete reza, sonhadora. Silêncio. Duas faces de um mesmo rosto: sofrimento e alegria. A “Toccata” é simplesmente arrasadora, no arrebatamento provocado pelo órgão do templo. Bach e, de novo, Messiaen assomam ao espírito, extático, num misto de respeito e adoração. Não se sai incólume da exposição a este clarão excessivo, desta profundidade que faz tombar para o alto, desta comoção que nos leva a acreditar na existência de um sentido último para a vida. Finalmente, se é que a delimitação temporal faz ainda sentido, a mesma “lux aeterna” que ilumina a obra de Ligeti brilha sem uma única sombra a toldar a voz da soprano e o paraíso revela-se, em êxtase, na pluralidade das suas criaturas. Obra-prima.

Jóia de África

John Abercrombie, outro associado de longa data da “escuderia” ECM, confirma em “Cat ‘n’ Mouse” por que é considerado um dos nomes incontornáveis da guitarra actual. Com Mark Feldman (notável no violino), Joey Baron (bateria, está em todas…) e Marc Johnson (contrabaixo) a ladeá-lo, o autor de “Timeless” assina uma música organizada em “nuances” e sinuosos desenvolvimentos harmónicos/melódicos. Não se impõe, insinua-se, convidando à descoberta “por dentro”. Subtilmente fascinada pelo Oriente (os cambiantes do ‘ud e a música árabe, em “String thing”, a música chinesa, em “Show of hands”), marcada pelo jogo de contrastes de ritmos e timbres (“Soundtrack”, um desconcertante “Third stream samba”) ou em balanço jazzrock (“On the loose”), “Cat ‘n’ Mouse” desdobra-se em renovados e estimulantes sentidos a cada audição.
“African Magic” e “African Symphony”, ambos do pianista sul-africano Abdullah Ibrahim, transportam-nos, como acontece na generalidade de toda a sua obra, para África. Um e outro logram, contudo, resultados e visões díspares. “African Symphony” abusa dos meios sem, contudo, obter a desejada correspondência na amplitude dos resultados. Eis-no perante outro caso, idêntico a “American Dreams”, de Charlie Haden, em que a utilização de uma orquestra – neste caso a Munich Radio Symphony, com direcção de Barbara Yahr – obedece unicamente a intuitos decorativos ao invés de uma integração estrutural na economia da peça. Música bonita, sem dúvida, sabendo-se como o bonito costuma ser inimigo do belo.
“African Magic” traz de volta o pianista inspirado de “African Sun”, “Echoes from Africa”, “African River”, “Africa-Tears and Laughter” e “Ekaya”. Em trio com Belden Bullock, no baixo, e Sipho Kunene, na bateria. Vinte e quatro miniaturas nas quais o pianista faz jus ao seu sentido melódico, diríamos mesmo descritivo, seja nas notas “gospel” e “bluesy” de “Blues for a hip king” ou “Pule”, seja na força hipnótica, apoiada no baixo “ostinato”, de “District six”, ou nesse portento de “swing” e criatividade a partir de um motivo de “blues” simples que é “Black lightning”.
Quem por diversas ocasiões privou de perto com o jazzrock foi o veterano saxofonista alto Charlie Mariano, recordando-se aqui as suas colaborações com o grupo alemão Embryo, a criação de projectos de fusão, como os Osmosis e os United Jazz and Rock Ensemble, ou rodeado pelas percussões indianas dos Karnataka College of Percussion, no álbum “Jyothi”. Em “Deep in a Dream” é possível escutá-lo no registo oposto, a recriar “standards” como “Spring is here” ou em composições em nome próprio ou de parceria com o pianista Bob Degen que relevam os tempos lentos e a balada. Nunca é tarde para um homem se reencontrar com o seu coração.
Encontramos o apelido Mariano (Cesar) na assinatura de um dos temas de “Fast Foot Shuffle”, de Dave O’Higgins, mas não passa de pura coincidência. Higgins é um saxofonista soprano e tenor pleno de “verve” e swing interior para quem o jazz permanece, por enquanto, sinónimo de alegria e divertimento. Surge acompanhado de um sexteto de rapaziada nova, apostada em valorizar as composições do seu líder mas sem receio de mostrar que não veio do nada, ao abrir com um suado “Bebop”, de Dizzy Gillespie. É jazz modernaço (basta, como é o caso, usar um velho teclado Wurlitzer e beber no R&B e no funk, mais um cheirinho cubano, para se soar modernaço…) bem tocado, com entusiasmo e “savoir faire”, que ainda não teve tempo para a descoberta de um território próprio. Arrume-se ao lado de Ben Allison ou de Medeski, Martin & Wood. E goze-se, como quem vai à Feira Popular.