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Jocelyn Robert – “Folie / Culture” + Straffe Fur Rebellion – “Lufthunger”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


LOUCURA, CULTURA E PRÉ-HISTÓRIA

JOCELYN ROBERT
Folie / Culture (6)
CD, ReR, import. Contraverso
STRAFFE FUR REBELLION
Lufthunger (7)
CD, Touch, import. Contraverso



“Folie” e “Lufthunger” têm de comum entre si serem discos conceptuais, no sentido de que ambos procuram ilustrar conceitos extramusicais. Além disso, ambos utilizam o ruído – e as diferentes metamorfoses que a sua manipulação permite -, como matéria principal dos respectivos discursos musicais. No primeiro, do canadiano Jocelyn Robert, os resultados desiludem, sobretudo se compararmos Folie / Culture ao seu anterior trabalho “Live-Stat-Moniteur” – um trabalho notável de colagem e efabulação sónica, que colocava o compositor ao lado de Steve Moore, Philip Perkins ou dos Biota, mestres construtores das novas catedrais de ruído, opostos na estética e nos métodos ao grupo dos “industriais” e quejandos.
“Folie / Culture” (nome de uma organização que “pela sua actividade, procura impor uma nova imagem de ‘loucura’ diferente da comummente aceite” e que “explora as relações entre a dinâmica emocional e a criação, ao mesmo tempo que questiona o lugar desempenhado pelas diferentes marginalidades”, etc., etc., etc.,) pretende ser uma “banda sonora imaginária”, composta para ser escutada a “baixos níveis de volume sonoro”, de maneira a permitir a “combinação entre a música e os sons ambiente”. Ou seja, um decalque da “Discreet Music” de Brian Eno. O que se ouve – ou melhor, em grande parte do disco, o que não se ouve – são irrupções ocasionais, e na aparência aleatórias, de gotas de água, vozes, zumbidos, caixas-de-música, enfim, o que estiver à mão, que vêm interromper o silêncio prevalecente e dar um simulacro de vida a algo que poderíamos alinhar ao lado de “A Quiet Gathering”, de Steve Moore, e da sua “música de câmara de sons ambientais”.
“Lufthunger”, ao invés das preocupações sociológicas, debruça-se mais sobre as questões históricas. Melhor dizendo, pré-históricas. Trata-se de novo de uma “banda sonora imaginária” que, desta feita, procura sonorizar os diferentes períodos de formação da Terra, desde o Câmbrico ao Pleistoceno. Nem poderia ser e outro modo, pois na altura o cinema encontrava-se ainda pouco desenvolvido. A música é primitiva, ritualística (característica comum à maioria dos projectos da Touch) e, sobretudo, ruidosa. Os Straf Fur Rebellion utilizam como instrumentos musicais “tubos de plástico girados por engenhos mecânicos”, “microfones a raspar em metal”, bisnagas de plástico, comboios de brinquedo, aviões a jacto ou “uma televisão atirada contra uma parede de cimento”, ao lado de outros mais prosaicos como o órgão de igreja, o piano, o violino, o xilofone ou a guitarra havaiana. Os sons ambientais – chuva, lobos a uivar, sinos, etc. – completam esta banda sonora dos primórdios do nosso planeta, que começa com o ladrar de um cão e termina com uma declaração de princípios do homem e da mulher do Neanderthal, uma declaração muito simples, apenas um “eu sou” gritado com toda a força e convicção dos verdadeiros originais. Simplicidade que se compreende, dada a fraca escolaridade dos ditos.
Onde “Folie / Culture” desvela o silêncio que deve ser ouvido “de janelas abertas”, “Lufthunger” prefere o escuro das cavernas e o grito gutural. São tão parecidos e complementares como a noite e o dia. E têm, pelo menos, a virtude de chamar a atenção para os sons que nos rodeiam e que não temos o hábito de escutar.