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Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso e Sérgio Godinho – “Novas vos Trago”

Sons

11 de Junho 1999
PORTUGUESES


Romances para o ano 2000

Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso e Sérgio Godinho
Novas vos Trago (8)
Ed. e distri. Tradisom


nvt

A ideia é excelente e capaz de constituir um estímulo adicional para os neurónios dos músicos envolvidos: criar novos arranjos e interpretações para romances da tradição ibérica medieval. O livrete (igualmente excelente, aliás, como toda a apresentação gráfica do CD) que acompanha a edição de “Novas vos Trago” explica em detalhe a origem deste género musical que cruzou continentes e oceanos ao longo da expansão portuguesa nos séculos posteriores e deixou vestígios em territórios geográficos tão distantes como o Brasil e Goa. Na origem do projecto está um programa designado “Marés do Som”, conjunto de espectáculos e iniciativas musicais enquadrados no ciclo de exposições Memórias do Oriente promovido pela Comissão dos Descobrimentos. Foi neste âmbito que surgiu o convite a Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso e Sérgio Godinho, tendo presente que o produto musical daí resultante obedeceria a critérios de contemporaneidade e a uma leitura actualizada e vivificante do romanceiro tradicional. Neste sentido, se “Novas vos Trago” traduz as várias sensibilidades dos artistas participantes, representou de igual modo a possibilidade de estes poderem experimentar novos métodos de criação e de se envolverem em contextos poético-musicais divergentes das facetas mais habituais das respectivas obras. É neste aspecto que “Novas vos Trago” se revela particularmente fascinante, no modo como faz sobressair a diversidade a partir da unidade do conceito.
Dez temas (dois por cada artista) compõem o alinhamento de “Novas vos Trago”. João Afonso abre o disco com “Morte do príncipe D. Afonso de Portugal”. Este e o outro tema com a sua chancela, “S. Simão”, constituem o elo fraco do disco. A voz, demasiado lisa e pouco expressiva do cantor, impede qualquer tipo de profundidade. Parece Fausto com anemia. Os arranjos, simplistas e algo preguiçosos, não ajudam.
Sérgio Godinho aparece a seguir com “O rei e a virgem romeira”. Não é um portento, mas soa interessante a maneira como tira partido do naipe de cordas. Em “As bodas de Paris” está nas suas sete quintas, num tom “andante” sobre a temática do amante e do marido traído que pode voltar a qualquer momento, recorrente em inúmeros romances medievais (pudera, a ida dos fidalgos para a guerra deixava em casa desejos não satisfeitos, não havendo cinto de castidade que lhes valesse…).
Amélia Muge faz questão, como seria de esperar, em correr riscos. O arranjo de José Manuel David (que também toca neste tema trompa, gaita-de-foles, caixa de rufo, tamboril galego, bombo e adufe) e a presença de outros dois Gaiteiros de Lisboa, Pedro Casaes (coros) e Rui Vaz (coros, gaita-de-foles, caixa de rufo e adufe) permitem-lhe fazer dançar a voz, como tanto gosta, em “Donzela guerreira”, um tema feminista “avant la lettre”. A toada épica, envolvida pelo coral dos Gaiteiros, regressa em “Dona Olívia”. Amélia canta como se a D. Olívia fosse ela num tema que vale ainda pela intervenção de José Manuel David na cromorna e pelo lamento final, a perder-se no fundo das eras, da cantora.
Como um pregão, “Floresvento” anuncia a entrada oficial dos Gaiteiros de Lisboa. Soa completamente medieval, com o toque de ousadia que os Gaiteiros imprimem a tudo o que fazem. A parte da polifonia vocal faz lembrar os Gentle Giant mas a gaita-de-foles repões de imediato as coisas no lugar certo. Que no caso dos Gaiteiros nunca é o que se espera. “O falso cego”, faixa que encerra “Novas vos Trago”, inicia-se num tom brechtiano e prossegue com uma espantosa e originalíssima polifonia vocal, aspecto em que os Gaiteiros se revelam, cada vez mais, verdadeiros mestres.
A maior e mais agradável surpresa de “Novas vos Trago” é trazida, porém, pela Brigada Victor Jara, que parece ter agarrado a oportunidade para se lançar em voos mais altos do que os que lhe são habituais. “Parto em terras distantes”, com arranjo de Aurélio Malva, balança com o tom medievo apropriado na voz da convidada Margarida Miranda, apoiada pelo proverbial toque de classe do violino de Manuel Rocha. Mas a surpresa maior e um dos momentos mais tocantes de todo o disco é a vocalização de Lena d’Água, na segunda versão do mesmo tema, desta feita assinada por Ricardo Dias. Diferente de tudo o que fez antes, Lena faz aparecer nos recantos da sua voz uma Idade Média imaginária. O modo como a antiga cantora dos Beatnicks e dos Salada de Frutas coloca aqui a voz e faz uso de ornamentações, permite pensar num novo reposicionamento deu na música popular portuguesa. Lena d’Água, a mesma de “Olha o Robô”, quem diria?…
“Novas vos Trago” aproxima a música portuguesa das suas raízes mais longínquas, empurrando-a simultaneamente para o futuro. Um trabalho com cabeça, tronco e membros. Ou uma questão de amor…



Maio Maduro Maio – Artigo de Opinião

Pop Rock

7 de Junho de 1995

Os CINCO mais maduros de Maio


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Em “Maio Maduro Maio”, José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso, na companhia instrumental de António José Martins e Rui Júnior, assinam a mais bela homenagem de sempre à música de José Afonso. Vinte e cinco canções, entre as quais dois inéditos e um tema de José Mário Branco, dão corpo a uma visão simultaneamente próxima e distanciada da obra do autor de “Cantigas do Maio”. Próxima pelos elos, artísticos, pessoais ou mesmo familiares, que unem José Afonso a cada um dos músicos participantes. Distanciada porque lúcida e permeada de um espírito de aventura que acrescenta outros dizeres às palavras e notas do mestre.
Feita a recensão das vinte e duas canções que se encontram espalhadas pela discografia do homenageado, fizemos estatística, obtendo os seguintes resultados: “Fura Fura”, de 1979, é o álbum que contribui com o maior número de canções, quatro. Seguem-se “Venham Mais Cinco” (1973), “Coro dos Tribunais” (1974) e “Como se Fora seu Filho” (1983), todos com três canções, embora ao primeiro falta o título-tema, que faz parte do espectáculo mas foi omitido no disco, por razões técnicas. “Cantares do Andarilho” (1968) e “Contos Velhos, Rumos Novos” (1969) figuram com duas canções cada. Com apenas uma canção escolhida estão “Baladas e Canções” (1967), “Cantigas do Maio” (1971), “Enquanto Há Força” (1978) e “Galinhas do Mato” (1985). Ou seja, não entram nesta lista “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Eu Vou Ser como a Toupeira” (1976) e “Fados de Coimbra” (1981).
Concluídas as operações de contabilidade, pedimos a José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso que fizessem a sua escolha individual, acompanhada dos respectivos comentários. Os resultados deram “Fura Fura” e “Cantigas do Maio “ consensuais. “Coro dos Tribunais” (J.M.B. e A.M.) e “Como se Fora seu Filho” (J.A. e A.M.) receberam, cada um, duas citações. Por fim, as escolhas mais personalizadas revelaram que “Venham Mais Cinco” está na frente das preferências de João Afonso, “Cantares do Andarilho” é um dos preferidos de Amélia Muge, tendo José Mário Branco optado por “Galinhas do Mato”, em segunda escolha, uma vez que a primeira, “Fados de Coimbra”, não contou, por não figurar na lista de “Maio Maduro Maio”.

“Fura Fura”
José Mário Branco: É o disco mais bonito do Zeca, o que mais me encheu as medidas em termos de riqueza melódica, poética e harmónica. Com um trabalho espantoso do Júlio Pereira, com um bom-gosto incrível nos arranjos. Foi o grande salto em frente do Júlio, o contacto com o Zeca. Um disco que não me canso de ouvir. Uma canção: “De sal de linguagem feita”.

Amélia Muge: Pondo o mesmo entusiasmo que o José Mário em relação ao trabalho do Júlio, é o disco onde se sente mais aquele fervilhar da canção tradicional, de terreiro. “Fura Fura” é um disco de terreiro e de taberna. Onde o Zeca mais faz aquilo que considero muito importante em termos de tradição, que é repegar nas coisas populares e acrescentar-lhes versos ou fazer músicas a partir de versos populares. É também um disco de teatro baseado nas “Guerras do Alecrim e da Manjerona” e no “Zé do Telhado”. Esse lado está muito vivo.
Uma canção: “Senhora que o velho”.

João Afonso: Excelente trabalho do Júlio Pereira. Tem músicas meio surrealistas, como “De não saber o que me espera”, uma grande visão sobre a vida.
Uma canção: “De não saber o que me espera”.

“Cantigas do Maio”
José Mário Branco: Disco histórico. Mas há razões muito pessoais para esta escolha, além de razões que têm a ver com a História do meu país. Foi a primeira vez que pude trabalhar com o Zeca a sério, que descobri a riqueza incrível que está debaixo dos temas dele. Não me é possível separar este disco do que eu vivi a fazê-lo. Algo de empolgante e importante para a minha vida toda.
Uma canção: “Cantar alentejano”.

Amélia Muge: Tem uma coisa espantosa que é logo o seu começo, em que começa e não começa. Mesmo se não fosse preciso mais nada, há ali uma enorme lição que tem a ver com as marcas de um trabalho e que mostra que um disco é algo mais do que uma súmula de canções. Por outro lado, já para não falar nos arranjos do Zé Mário, – um dos seus trabalhos mais extraordinários a esse nível -, é um disco onde o lado feminino do Zeca (espero que as pessoas não me interpretem mal) está mais patente. Há um lado masculino e um lado feminino que estão em nós. Ele soube tão bem mostrar isso, em “Mulher da erva”, “Cantar alentejano”, até mesmo em “As filhas do marajá, com patilhas de beber o chá”, onde há um lado muito feminino, ligado ao próprio mês de Maio. Há um lado comovente, sem ser lamechas, que tem muito a ver com a intuição feminina.
Uma canção: “Mulher da erva”.

João Afonso: Destaco a direcção do Zé Mário, o surrealismo de “Ronda das mafarricas”, do António Quadros, a maravilha que é “Mulher da erva”. Um disco de arrepiar, com uma imaginário riquíssimo. É uma fantasia.
Uma canção: “Mulher da erva”.

“Galinhas do Mato”
José Mário Branco: Aqui é de destacar mais a genialidade do Zeca como autor-compositor. Como se sabe, é um disco em que o Zeca praticamente já não canta, o pouco que aparece cantado por ele são restos do disco anterior. O Zeca intervém como autor-compositor e como produtor musical. Atenção – ele está presente em todos os momentos deste trabalho, no estúdio, a fazer a direcção dos cantores e dos músicos. Tem temas geniais.
Uma canção: “Benditos”.

“Cantares do Andarilho”
Amélia Muge: Um disco onde o Zeca está sozinho com a sua viola e o seu “pathos”. Um disco das origens. Tem uma ideia de começo mas ao mesmo tempo também de um Zeca despojado de tudo o resto, de tal maneira caseiro que quase tenho a sensação de que se tocassem à porta ele deixava de cantar.
Uma canção: “Cantares do andarilho”.

“Venham Mais Cinco”
João Afonso: Não podia deixar de escolher este, por causa do “Redondo vocábulo”, de facto uma autêntica pintura, uma música surreal. Gosto muito das letras meio estranhas e difíceis de entender. Tanto em “Venham mais Cinco” como em “Coro dos Tribunais”, o Zeca conseguiu colher influências africanas, embora meio “ajazzeadas”. Mas não as assumia em bruto, por exemplo não cantava como um negro. Transformava essas influências, personalizava-as. Quando não era moda a música africana na Europa, o Zeca apareceu com “Lá no Xepangara” e “Ailé, ailé”…

“Coro dos Tribunais”
Amélia Muge: … É importante falar do “Coro dos Tribunais”. É o primeiro disco que sai depois do 25 de Abril. A sensação que tenho é que daqui a dez anos vou ter razões se calhar ainda mais fortes para gostar dele. É o disco em que assume particular importância a ideia de expressão, do direito à palavra, e de toda a responsabilidade que isso implica em termos de julgamento. São as duas grandes correntes do disco: a questão do julgamento, ligada à liberdade e ao direito à palavra, e a própria ideia de animação, com “O que faz falta” ou “O brado da terra”. Um disco ainda por descobrir. Por essa carga toda e por ser também um disco ligado ao Fausto, que aqui cria ritmos a ambiências fabulosas.