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Doors (The) – “O Som Das Portas Que Batem” (artigo de fundo)

Sexta-Feira / Fim De Semana – NA CAPA, 05.04.1991


O Som Das Portas Que Batem




Os Doors marcaram a ferro e fogo uma geração distraída com os festejos de era de Aquário. Jim Morrison pôs o dedo na ferida, dando a provar o sabor do sangue e da desmedida. Poeta maldito ou mistificador perigoso, com ele o Rock vestiu-se de negro, na celebração feérica do Fim.

Os mitos também morrem. Parece até que mais facilmente que o comum dos mortais. Jim Morrison morreu só, na banheira (o elemento aquático está frequentemente associado ao pensamento dos rockers cognominados de “malditos”, constituindo bom material para especulação metafísica), farto de nos aturar. Segundo alguns, o caso é mais problemático. Assim, as causas da morte teriam a ver, não só com o ataque cardíaco oficial, mas ainda com “overdoses” de heroína e cocaína, feitiçaria, arranque de olhos e conspiração política…). O excesso, sempre o excesso… O poeta escreveu um dia: “Congregamo-nos aqui, neste teatro antigo e louco, para proclamar a nossa ânsia de viver”. Bebeu o cálice da vida, ou de outra bebida qualquer, até ao fim. A morte era a sua única amiga, como diz na canção.




A música dos Doors reflecte o percurso vivencial e demencial do seu líder – por vezes genial, noutras ocasiões simplesmente desequilibrada, quase sempre suficientemente forte e inovadora para justificar revisita-la, sem excessos nem pressas susceptíveis de dar maus resultados. Por exemplo, o disco com a banda sonora do filme de Oliver Stone, agora estreado entre nós, foi feito à pressa e com vistas curtas. Deixa passar o que não devia e recupera o que de menos interessante havia para recuperar. Ignora clássicos que, fazendo parte da fita, se omitem no vinilo: “Five to one”, “Alabama song (whisky bar)”, “Strange Days”, “People Are Strange”, “The Soft Parade” são apenas alguns exemplos. Por outro lado não se compreende muito bem a insistência na montagem póstuma “Na American Prayer”, da qual constam nada menos que cinco temas, querendo talvez acentuar o óbvio, ou seja, que Jim Morrison, antes de ser músico era poeta.

L’America

Assim, vale mais ir ter com os originais e analisá-los dentro do contacto em que foram gravados, num período compreendido entre 1967 e 1971. Quatro anos apenas, suficientes para registar sete (número mágico) álbuns que puseram em estado de choque uma geração hesitante na maneira de ultrapassar a década. Costuma dizer-se que a vida e obra dos Doors ou, se quisermos, da sua língua reptilínea e venenosa, Jim Morrison – o rei Lagarto – simbolizam integralmente o lado negro dos anos Sessenta.




Convém assentar no significado da expressão, para melhor orientação no universo de ícones e memórias dispersas que, no nosso imaginário, querem dizer o sonho que temos desses anos. Sonhos americanos, acrescente-se, que quase todos por cá viveram como se de cinema se tratasse. De resto, a América é isso mesmo – cinema em estado puro, organismo feito de imagens em movimento, tal qual uma plasticina de luz eternamente disponível e moldável aos nossos anseios de Dysneylândia. Acaso ou não, Jim Morrison começou pelo cinema, estudante ainda mas já céptico quanto à veracidade do mundo que fica do lado de cá das portas. Só que em vez de cowboys justiceiros, detectives impolutos e damas de olhar cândido e fatal, filmou o pesadelo. Pesadelo que Coppola nos obrigaria a enfrentar em “Apocalypse Now”, ao som de “The End” – ruir definitivo do sonho americano, nessa viagem sem regresso ao coração das trevas em que os heróis não são rebeldes, lutando por causas perdidas até que o inferno do napalm lhes consuma a própria alma.

Teatro Da Crueldade

Anos Sessenta – San Francisco, paz e amor, “acid parties”, a descoberta interior e das possibilidades orgiásticas do corpo, Leary, Kerouac, Ginsberg, Marilyn, Kennedy, Luther King, Armstrong na Lua, o soldado desconhecido no Vietname, a anulação da História, a experiência da diversidade e da mistura de culturas no grande caldeirão da nação da Coca-Cola e Mickey Mouse. Na música era a época dos Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Country Joe & The Fish, das grandes “jams” psicadélicas e “happenings” sobre a relva.




Os três primeiros álbuns espelham o ambiente e o ritmo dessa era (“The Doors”, “Strange Days” e “Waiting For The Sun”) que Jim Morrison personificava, num misto de teatro e delírio poético, encharcado em álcool e com um rastilho atado. Acendido o rastilho bastava esperar pela explosão. Uma questão de tempo.
Os Doors assumiam o psicadelismo para lhe acrescentarem a violência do “rhythm ‘n’ blues” e a crueldade das palavras. Utilizavam os símbolos da época para os subverter a partir de dentro, minando-lhes o carácter pretensamente positivo e solar até revelar a chaga, o buraco negro aberto no seu cerne – “When the music’s over” e, claro, “The End” viajam desumanamente pelo interior da alma humana, sem contemplações, pisando pelo caminho os tabús mais enraízados. Jim Morrison foi tão longe quanto lhe era possível e permitido ir, atravessando as portas da percepção. Para além delas descobriu o silêncio que ninguém quis ouvir.

O Brilho Das Trevas, A Escuridão Da Luz

O lado negro dos anos Sessenta confunde-se afinal com o seu contrário “imaculado”. Branco e negro são inseparáveis lados opostos e complementares de uma mesma realidade. No coração da negritude cintila a pureza. No cerne da virtude agita-se o demónio da perversão. O lado negro não é mais que o branco levado ao seu limite. Imagine-se (ou, como fez Morrison, viva-se) o sexo potenciado até aos extremos dolorosos do erotismo, a descoberta levada à últimas consequências, à visão do bem e mal absolutos, a excitação prolongada ao paroxismo, a paz continuada até à mortal e derradeira quietude.




Não é agradável, pois não? Nas fronteiras da vida erguem-se os portões da morte. O contrário também é verdade e Morrison sabia-o. Experimentar a vida até ao seu limite implica morrer a cada instante, até que sobrevenha, no derradeiro orgasmo, o silêncio definitivo. Vida e Morte cruzam-se naquilo que os românticos chamavam Paixão. Jim Morrison viveu apaixonadamente e morreu como um romântico, no excesso e na volúpia de tudo querer devorar e, ao mesmo tempo redimir. O poeta e visionário William Blake dizia que “a estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Seguir por essa estrada é tarefa árdua, trágica, a cumprir no destino dos deuses de carne e osso. Carne, por natureza sensível à dor e ao prazer dos infernos, na embriaguez dos sentidos. O Espírito extasiado na contemplação das verdades eternas. Não há homem que resista. Jim Morrison resistiu enquanto pôde.

Das Portas Que Dão Para Os Blues

Os outros Doors, Ray Manzarek, Robby Krieger e John Densmore, limitavam-se a tocar, assistindo à ascensão e queda do ídolo. Os jovens ficavam-se por assistir aos espectáculos, comprar os discos e não compreender. Reproduziam da estrela o vestuário e a pose, assobiavam os refrões mas, quando chamados a participar e a partir, ao grito de “Break on through”, só se fosse para fumar umas passas, partir umas cadeiras ou fornicar fingindo ser Filosofia.




“The Soft Parade” anuncia a desistência, ao som de violinos e metais. A América e a Humanidade não queriam ouvir a mensagem do xamã quando não a confundiam com pouca-vergonha.
Restava um cansaço infinito e o derradeiro apelo dos Blues, a voz das raízes, o sofrimento e alegria originais. Depois de “L. A. Woman” os Doors sugerem a hipótese de gravarem um disco inteiramente devotado às lamentações da Alma, rendida à força primordial dos blues, afinal sempre presentes, de forma mais ou menos camuflada em toda a sua obra (“Five to one”, “Roadhouse blues”, “Shaman’s blues”, “Been down so long”, “Maggie M’Gill”, “Wild Child”, “Cars Hiss by the window”…). Sobreviveram a ideia e a fantasia do que poderia ter sido. Jim Morrison abandonava o circo americano e partia para Paris, onde viria a frequentar o “Circus”, antro de mil perversões, como ele gostava. Escrever e descansar, os objectivos, na medida do possível. Somente conseguiria cumprir o segundo dos desígnios, afogada a dor no banho final purificador. Mágoas desfeitas pelas águas. Assim nasceu a lenda.

O Palco Da Vida

Ao vivo, a música dos Doors, em noite sim, era simplesmente irresistível. Autêntico ritual de catarse física e emocional. Jim Morrison não descansava enquanto não punha a audiência inteira tão “alta” como ele. Depois, a comunicação perfeita, a vertigem de um cerimonial pagão, com os corpos ligados por uma corrente de que Jim era o condutor. Por vezes encarnava completamente o xamã, o feiticeiro. Então dançava, alheio ao universo, tal qual um índio verdadeiro, diante do olhar extasiado do resto da tribo. Celebração da vida na Terra. Apelo às forças telúricas, as mesmas que o demónio tão bem sabe manobrar.
Gostava de interromper as canções, para conversar com o público ou simplesmente criar um espaço de silêncio, no interior de certas canções (imagine-se o efeito em “The End”…). Momentos de tensão, por vezes intoleráveis, para uma audiência em ponto de rebuçado. Jim sabia controlar as pulsões emocionais das massas e isso divertia-o. Sobre esses silêncios provocados dizia que “excitavam e assustavam – as pessoas gostam de ficar com medo. Exactamente como o momento antes de se ter um orgasmo. Toda a gente quer isso. É uma experiência máxima”.




Ray Manzarek chamava a Jim Morrison o “xamã eléctrico” que, em certas ocasiões, se tornava sensível às vibrações elétricas ao ponto de Manzarek o fazer saltar ao simples toque de uma tecla do teclado electrónico. Sobre o palco a comunhão funcionava também entre os quatro “Doors”. Sem Ray, Robby e John, Jim não conseguia a força necessária para voar ou para mergulhar no abismo. Se o réptil humano representava a imagem, a alma, o sexo e a voz, os outros eram o resto do corpo, máquina energética, organismo ordenador capaz de equilibrar as pulsões dispersoras e destruidoras do seu centro nervoso. Não devia ser fácil trabalhar com alguém interessado por “tudo o que se relaciona com a revolta, a desordem e o caos”. O rei Lagarto clamava: “I am the king Lizard” – I can do anything”. Não era bem assim.

Dias Estranhos, No Estúdio

Durante as gravações era diferente, mas nem sempre. Em “You’re lost little girl” (de “Strange days”), Jim só conseguia cantar com a ajuda da sua “companheira cósmica”, Pamela Courson, que ali mesmo na cabine, se entreteve com actividades cujo teor e detalhes a censura e o pudor não deixam descrever. Outras vezes era mais poético. Para “I can’t see your face in my mind” (também de “Strange Days”) recriou-se no estúdio uma ambiência oriental. De uma maneira ou de outra tinha que haver estímulos exteriores – álcool, drogas, sexo, ou, à falta de melhor, a simples fantasia.




“The Doors”, “Strange Days” e “Waiting for the sun” constituem a trilogia dourada da banda. O psicadelismo, os “blues”, o ódio mas também o amor (de novo os extremos que se tocam, em “Love street”, dedicado a Pamela, “Wintertime love”, “Hello I love you”), o órgão electrónico de Manzarek, que, desde “Light My Fire”, cedo definiu o essencial do som dos Doors, aliados a experiências estilísticas como a utilização de música concreta em “Horse lattitudes”, a cadência Weilliana de “Alabama song” ou o flamenco da guitarra acústica de Krieger, na introdução instrumental de “Spanish caravan” e à criatividade poética de Morrison, tornam, nesta época, a música dos Doors em algo de verdadeiramente inovador. Sobre ela dizia o crítico Gene Youngblood: “Os Beatles e os Stones existem para rebentar a mente. Os Doors existem para o que se segue quando a nossa mente tiver desaparecido”.
Neste três álbuns, gravados no curto espaço de dois anos (67 e 68), encontra-se a maioria dos clássicos: “Break on through”, “The Crystal ship”, “Alabama song”, “Light My fire” e “The End” (“The Doors”), “Love me two times”, “People are strange”, “When the music’s over” (“Strange days”), “Hello I love you”, “The ynknown soldier”, “Five to one” (“Waiting for the sun”).



“The soft parade” (69) é para muitos uma desilusão, na maneira como a energia se dispersa entre arranjos orquestrais sofisticados e desnecessários. Para a posteridade ficou o título-tema, cínica litania sobre as virtudes da sociedade e das luzes do espectáculo. “Morrison hotel” (70) recupera parte da força inicial. Álbum de rock forte e feio, em que Robby Krieger mostra aquilo que vale. “Roadhouse blues”, “Waiting for the sum”, “Ship of fools” e “Maggie M’Gill” demonstram-no à exaustão. Antes do fim, tempo ainda para o duplo “Absolutely Live”, um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos, e para a serenidade (aparentemente) reencontrada em “L. A. Woman” (71), de “Love her madly”, “L. A. Woman”, “L’America”, “Hyacinth house” e “Riders on the storm” – testemunho derradeiro da vida e do destino das “portas que abrem para o outro lado”, ao ritmo encantatório do piano elétrico de Manzarek. O resto é História.

Vários – “Guerra À Guerra” (dossier)

Pop-Rock 23.01.1991


GUERRA À GUERRA


O rock pode ter-se internacionalizado, mas mantém-se, tal como na sua origem, uma forma de expressão musical e artística de predomínio anglo-saxónico e norte-americano, em particular. Pela sua própria natureza, é agressivo e violento, assumindo inclusive tonalidades marciais e vandalistas. A conjugação destes dois traços torna-o assim favorável à instrumentalização como tónico para as cruzadas bélicas “yankees” e, desse modo, foi usado no passado no Vietname, como mesmo agora para o ataque ao Iraque, para cuja frente de batalha foram enviados milhares de cassetes. Música anglo-saxónica, o rock erigiu-se, todavia, contra o seu sistema, e foi desde sempre na contestação dos seus (e os outros) “senhores da guerra” que tomou posição. Tornou-se, assim, estandarte do pacifismo por negação da negação ou por declarar imperativo fazer guerra à guerra. E, a esse respeito, 20 anos depois de marcar pontos na frente de batalha contra as batalhas, em quase nada mudou.
Mas este novo episódio da dissidência musical que, desde a agudização da crise no Golfo, se começou a escrever traz um desenvolvimento inédito. O “mentor” da primeira represália rock à linguagem das armas foi Lenny Kravitz, o neo-“hippie” por excelência, e os seus parceiros directos são a esposa e um dos filhos do patriarca do pacifismo John Lennon. O projecto que os fez reunir, por sua vez, foi uma nova versão de “Give Peace A Chance”. Ou seja, uma estratégia de intervenção aparentada à usada no Live Aid, em 1985, tomando por pano de fundo uma canção de 69. O mesmo é dizer que, em 1991, a causa pacifista assumida pelo rock não pode mais encarada como um caso de moda, não é pontual ou aleatória, mas inspira-se e alicerça-se na sua própria história, sendo hoje a sua autoridade e credibilidade a de um contrapoder instituído. É impossível nestas páginas reconstituir essa história ou fazer o balanço completo do que nela correu bem ou mal. Mas é aliciante recapitular as fundamentais correntes antibelicistas que têm assomado à ribalta rock, apresentando-as através de algumas das suas letras mais eloquentes. É claro assim que, apesar de haver consenso, não há nesta selecção uniformidade, mas diferentes perspectivas, algumas delas contraditórias entre si.
Luís Maio

SENHORES DA GUERRA
BOB DYLAN


Vós, senhores da guerra
Que construís todas as armas
Que construís aviões da morte
Que construís grandes bombas
Que vos escondeis atrás de muros
Que vos escondeis atrás de secretárias
Quero que saibam
Que vejo através das vossas máscaras
Vós, que jamais fizestes outra coisa
Para além de construir para destruir
Brincais com o meu mundo
Como se fosse o vosso brinquedo privado
Dais-me uma arma para a mão
E escondei-vos do meu olhar
E virais costas e fugis para longe
Quando as rápidas balas traçam o ar

Como o velho Judas
Mentis e enganais
Quereis que acredite Que uma guerra mundial pode ter vencedor
Mas vejo através dos vossos olhos
E vejo através da vossa mente
Como vejo através da água
Que escorre pelo ralo

Preparais os gatilhos
Para que outros disparem
Depois recostai-vos e assistis
Ao crescer do número de mortos
Escondei-vos nas vossas mansões
Enquanto o sangue escorre
Dos corpos dos jovens
E se mistura com a lama

Suscitatstes o pior medo
Alguma vez provocado
Medo de trazer crianças
Ao mundo
Por ameaçardes o meu filho
Ainda sem corpo e sem nome
Não sois dignos do sangue
Que vos corre nas veias

O que é que eu sei
Para falar sem licença
Podeis dizer que sou novo
Podeis dizer que sou ignorante
Mas, duma coisa estou certo
Embora eu seja mais novo que vós
Nem Jesus perdoaria
Aquilo que fazeis

Deixai que vos faça uma pergunta
O vosso dinheiro é assim tão bom
Que vos compre o perdão
Acreditais isso possível
Quando chegar a vossa vez
Creio que descobrireis
Que nem todo o dinheiro que arrecadastes
Vos restituirá a alma

Espero que morrias
E que chegue depressa a vossa morte
Seguirei a vossa urna
Na tarde pálida
E estarei vigilante quando vos baixarem
Para o leito da morte
E ficarei sobre a vossa campa
Até estar seguro da vossa morte

“Masters of War” foi primeiro editada em “The Freewheelin’ Bob Dylan”, segundo álbum do cantor-compositor, datado de 1963. A canção é geralmente apontada pelos exegetas como exemplo, por excelência, do que é uma má canção de intervenção. Argumento: Dylan produz uma dicotomia crua entre os “senhores” de um lado e ele do outro, e as suas palavras são de todo destituídas de conteúdo político objectivo, sendo o seu ataque baseado em nada, para além do puro insulto.


O SOLDADO DESCONHECIDO
JIM MORRISON, DOORS


Espera até que a guerra acabe e sejamos ambos um pouco mais velhos
O soldado desconhecido treina-se onde as notícias são lidas
Na televisão, crianças por nascer, já mortas, vivas, vivas, mortas
As balas atingem a cabeça, por debaixo do capacete
E, para o soldado desconhecido, tudo acabou
Tudo acabou para o soldado desconhecido

COMPANHIA: ALTO!
APRESENTAR ARMAS.

Preparem uma sepultura para o soldado desconhecido
Aninhado sobre o vosso ombro desguarnecido
O soldado desconhecido treina-se enquanto se lêem as notícias
Na televisão, crianças mortas, as balas atingem a cabeça, sob o capacete
Tudo acabou. A Guerra terminou.

“The Unknown Soldier” aparece pela primeira vez em 1968, no formato de single, antes de fazer parte do terceiro álbum da banda, “waiting For The Sun”. Vítima por excelência, longe de todos os heroísmos, o “Soldado Desconhecido” representa um dos símbolos mais tipificados do discurso pacifista. Na época do Vietname, cristalização e tudo o que a geração do “Flower Power” odiava. A televisão difundia então imagens de crianças mortas. Hoje, no pequeno ecrã, a guerra parece-se mais com um “videogame”.


DÊEM UMA OPORTUNIDADE À PAZ (1)
JOHN LENNON


Toda a gente fala de
Devastismo, desgrenhismo, pressionismo, louquismo,
Desordismo, rotulismo
Ismo para isto, ismo para aquilo, ismo, ismo, ismo
Tudo o que estamos a dizer é
Dêem uma oportunidade à paz.

Toda a gente fala de
Ministros, sinistros, balaustradas
Latas, bispos, peixarias,
Rabinos e olhos pop, adeus, adeus, adeuses
Tudo o que estamos a dizer é
Dêem uma oportunidade à paz

Deixem-me agora falar de
Revolução, evolução, masturbação,
Flagelação, regulação, integrações,
Meditações, Nações Unidas,
Parabéns.
Toda a gente fala de
John e Yoko, Timmy Leary, Rosemary,
Tommy Smothers, Bobby Dylan, Tommy Cooper,
Derek Taylor, Norman Mailer,
Alan Ginsberg, Hare Krishna,
Hare
Krishna.

“Give Peace A Chance” surgiu como single em 1969, assinado sob o rótulo “The Plastic Ono Band” (nome dado por John a várias formações com que gravou, esta incluindo Petula Clark e Allen Ginsberg). O tema foi escrito durante o chamado “período da cama”, forma de protesto do casal Lennon contra o belicismo, que se tornou em hino definitivo dos pacifistas. Já não pertence ao domínio da poética Beatles, mas ao estilo de jornalismo pragmático que o músico viria a colmatar em “Sometime In New York City”. A melodia e o refrão sloganístico justificam a popularização, o simplismo legitima as críticas de vazio fundante.
—-
(1) Texto basicamente intradutível, pelas constantes “invenções” e associações de palavras envolvidas. Na primeira estrofe, Lennon cria palavras acrescentando “ismo” a palavras que se podem traduzir por “devastação”, “desgrenhamento”, “pressão”, “loucura”, “desordem” e “rotulação”. Na segunda estrofe forma as palavras com os sufixos ingleses “ters” (“ministers”, “banisters”) e “Hops” (“bishops”, fishops”) que não permitem efectuar operação semelhante em português sobre os seus correspondentes. Já se pode fazer qualquer coisa, na terceira estrofe, traduzindo o sufixo inglês “tion” por “ção”, menos com “United Nations”.


PAZ – UM COMEÇO, PAZ – UM FIM
PETE SINFIELD, KING CRIMSON



Sou o oceano
Que a chama ilumina
“Paz” – é o meu nome.
Sou o rio
Que o vento aflora
Sou a história
Sem fim

“Paz” – é uma palavra
Do mar e do vento
“Paz” – é uma ave que canta
Enquanto sorris
“Paz” – é o amor
De um inimigo convertido em amigo
“Paz” – é o amor que dás
A uma criança.

Quando me buscas
Procuras por todo o lado
Esquecendo-te de olhar para o teu lado.
Quando te buscas
Procuras por todo o lado
Esquecendo-te de ver dentro de ti.

“Paz” – é um rio
Que brota do coração de um homem
E um homem do tamanho da aurora
“Paz” – é uma aurora
De um dia sem fim
A Paz é o fim, tal como a morte,
Da guerra.

“Peace – A Beginning” e “Peace – na End” constituem respectivamente a abertura e fecho de “In The Wake Of Poseidon”, segundo álbum de originais dos King Crimson, lançado em 1970. A guerra como metáfora do eterno retorno – morte e renascimento, somente transcendido pelo amor -, mensagem poética de Peter Sinfield, que acabaria por soçobrar diante da violência musical, estóica e luciferina de Robert Fripp.


MARCHAVAM EM FILAS
IAN CURTIS, JOY DIVISION



Bebiam e matavam por entretenimento
Fardados em uniformes impecáveis
Exibindo a vergonha dos seus crimes
Marcando passo marchavam em fila
Marchavam em fila

Traziam retratos das esposas
E chapas numeradas para se saberem vivos
Marchavam em fila
Marchavam em fila

Cobertos de glória nunca vista
Triunfaram através de toda a engrenagem
Para nunca mais questionarem
O hipnótico transe nunca visto
Marchavam em fila
Marchavam em fila

“They Walked In Line” do primeiro disco (o de estúdio, o outro é ao vivo) do duplo álbum “Still” dos Joy Division, compilação póstuma editada em 1981, na sequência do suicídio do cantor e autor das letras, Ian Curtis. Aparentemente, é uma condenação da guerra, mas a um nível mais profundo, em particular na articulação da sonoridade possessa da voz com o tom assombrado dos instrumentos, verifica-se que na atrocidade da chacina militar, como de resto em tudo o que é cruel, há um estranho e perverso fascínio para Curtis e companhia. Isso é, aliás, patente no nome da banda, inspirado na designação de um campo de concentração nazi no romance “A Casa Das Bonecas”.


1999
PRINCE



Estava a sonhar, quando escrevi isto.
Desculpem se devaneio,
Mas ao acordar hoje de manhã
Era capaz de jurar que era o dia do juízo final.
O céu estava todo púrpura, havia gente a correr por todo o

[lado]
Tentavam escapar à destruição e, sabes,
Eu nem sequer me preocupei porque, é como eles dizem…
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Portanto, esta noite vou festejar como se fosse 1999.
Estava a sonhar, quando escrevi isto.
Por isso desculpem-me se alucino.
Mas a vida não passa de uma festa
E as festas não foram feitas para durar.
A guerra circunda-nos por todos os lados,
O meu espírito diz-me que me prepare para combater.
Então, se vou morrer, vou escutar o meu corpo porque, é como

[eles dizem…
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Portanto, esta noite vou festejar como se fosse 1999.
Se tu não vieste para festejar,
Não vale a pena bateres-me à porta,
Tenho um leão no bolso
E, querida, ele está pronto a rugir.
Toda a gente tem uma bomba,
Podemos todos morrer um dia destes.
Mas antes que deixe que isso aconteça
Vou morrer a dançar porque, é como eles dizem,
2000 zero zero, a festa acabou, ups, o tempo esgotou-se.
Mamã— Porque é que toda agente tem uma bomba?

“1999” do duplo LP homónimo, de 1982. Foi o disco que lançou Prince na primeira divisão dos tops mundiais, o que se deve atribuir, em particular, à faixa do mesmo nome. Dois traços originais e complementares: a articulação da síndrome da guerra com a diversão, a orquestração do terror do genocídio com ritmos infectadamente dançantes. Muitas estrelas pop reflectiram sobre a pop, mas poucas, como sua alteza de Minneapolis, propuseram uma solução. Pela provocação: se a guerra pode rebentar a cada instante, o melhor é não esperar e começar já a aproveitar a vida. Dionísios contra Apolo em versão acção directa.
——
Nota: uma vez que a primeira prensagem em CD incluía menos uma faixa que a edição original em vinil (para caber num só compacto), a Warner acaba de lançar uma reedição integral em laser.


CONSTRUÇÃO NAVAL
ELVIS COSTELLO / ROBERT WYATT



Valerá a pena?
Um casaco de Inverno, novo, e um par de sapatos para a mulher
É uma bicicleta pelo aniversário do rapaz
Não passa de um boato que as crianças e as mulheres espalham pela cidade
Em breve construiremos navios
Vejam bem
O rapaz disse: “Papá, vão dar-me emprego
Mas estarei de volta pelo Natal”.

Não passa de um boato espalhado pela cidade
Alguém disse que houve quem ficasse com cadastro
Só por dizer que as pessoas morrem
Em consequência da construção naval.
Francamente…
Mergulhar por uma questão de sobrevivência
Quando podíamos fazê-lo para apanhar pérolas…

Não passa de um boato espalhado pela cidade
Culpa de um telegrama ou de um postal ilustrado.
Dentro de semanas voltarão a abrir o estaleiro
E a notificar os parentes mais próximos.

“Shipbuilding”, original de Elvis Costello incluído no álbum “Punch The Clock”, de 1983, transformou-se em melancólico grito de protesto na voz de Robert Wyatt, editado em single no mesmo ano e posteriormente na minicolectânea “1982-1984”. Comentário à guerra das Malvinas que a cadência lenta e cinzenta do ex-baterista dos Soft Machine e actual comunista convicto tornou imortal. A Inglaterra crepuscular ou o mundo que envia os seus filhos para o naufrágio, com palmadinhas nas costas e promessas de medalhas. “The United States of Amnesia” e “East Timor” são outras tantas canções de Wyatt. Mas só “Shipbuilding” atingiu os tops…


A GUERRA
EDWIN STARR / BRUCE SPRINGSTEEN



A guerra
Serve para quê?
Absolutamente para nada

A guerra é, para mim, desprezível
Porque implica a destruição de vidas inocentes
A guerra faz brotar lágrimas dos olhos de milhares de mães
Cujos filhos vão combater, sacrificando a vida.

A guerra
Limita-se a destroçar corações
A guerra só interessa aos cangalheiros
A guerra é inimiga da Humanidade inteira.
Só de pensar nela, enlouqueço
É um legado que, de geração em geração,
Induz à destruição.
Quem quererá morrer?

A guerra reduziu a pó os sonhos de muitos jovens
Ao torna-los deficientes, amargos e mesquinhos
A vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada em guerras, todos os dias
A guerra não pode dar a vida só tirá-la

Limita-se a destroçar corações
A guerra
Só interessa aos cangalheiros
Paz, amor, compreensão
Tem de haver um lugar, hoje, para estas coisas
Dizem-nos que temos de lutar para preservarmos a nossa liberdade
Mas, Senhor, tem de existir um processo melhor
Melhor que a guerra.

A “War”, segundo o original de 1970 de Edwin Starr, passou, sem que a levassem muito a sério, pelos Frankie Goes To Hollywood, até atingir a notoriedade, em 1985, na voz cristã e muito americana de Bruce Springsteen. Foi a leitura de “Borna t the 4th of July” de Ron Nevic que levou o “boss” à elaboração de “Born in the USA”, enésimo exorcismo dos fantasmas complexos, não resolvidos, do Vietname. Qual o sentido que faz hoje gritar que a guerra é “desprezível” e “não serve absolutamente para nada”? O rock servirá ainda para despertar os adormecidos?


OS DIAS DE ARMAGEDÃO ESTÃO À PORTA (DE NOVO)
THE THE



Estão a oito mil metros de altura voando em linha recta, deixando
[um rastro de vapor contra um céu vermelho de sangue.
Vêm de Oriente para Ocidente com gorros Balaclava (1) nas
[cabeças… Sim!

Mas se pensas que Jesus Cristo está para regressar,
Meu amor, é outra coisa a chegar.
Se alguma vez ele descobrir quem lhe contrabandeou o nome,
Extirpará o coração e revolver-se-á na campa.

O Islão está a crescer.
Os Cristãos mobilizam-se.
O mundo está de rastos,
Esqueceu a mensagem e idolatra os dogmas.

“É a guerra”, gritou ela…
“É a guerra”, gritou ela…
“Isto é a guerra!”
Larga os teus bens, ó povo simples.
Hás-de combatê-los nas praias… em roupa interior.
Hás-de agradecer ao bom deus por erguer a bandeira britânica.
Hás-de ver os barcos sair da barra e os cadáveres voltarem a
[boiar.

Se o verdadeiro Jesus Cristo hoje se erguesse,
Seria alvejado a sangue frio pela CIA,
Oh, as luzes que agora mais brilham por trás de vidros coloridos
Projectarão as mais negras sombras sobre o coração humano.
Mas Deus não edificou para si esse trono.
Deus não vive em Israel ou Roma.
Deus não pertence ao cabaz do dólar ianque.
Deus não lança bombas contra o Hezbollah.
Deus nem sequer vai à igreja.
E Deus não nos manda morrer por Alá.
Não, Deus lembrar-nos-á o que já sabemos – Que a raça humana está prestes a colher o que semeou.

O mundo está de rastos,
Esqueceu a mensagem e idolatra os dogmas.
Os dias de Armagedão estão à porta… de novo

“Armageddon Days Are Here (Again)” de “Mind Bomb”, terceiro álbum de Matt Johnson, sob a designação The The, datado de 1989. Até ao momento, o álbum mais comprometido do autor é, nas suas palavras, “acerca das forças ocultas que estão por trás de todas as coisas”. Parte crucial desse álbum conceptual, a faixa que aqui se refere, constitui uma das melhores reflexões de origem musical sobre as causas do escaldante ambiente no Médio Oriente, colocando judiciosamente o acento nas fricções de ordem religiosa e opondo a verdadeira espiritualidade ao cego fanatismo gregário, tanto a Ocidente como a Oriente.
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(1) Espécie de gorros, em malha metálica, vulgarizados pelos guerreiros da Idade Média.

TRADUÇÃO E COMENTÁRIOS
DE: FERNANDO MAGALHÃES E LUÍS MAIO

Jim Morrison – “An American Prayer”

Pop Rock

17 de Maio de 1995
álbuns poprock
reedições

As últimas orações de um fantasma

JIM MORRISON
An American Prayer (6)

Elektra, distri. Warner Music


JM

“An American Prayer” é um objecto difícil de definir e enquadrar na carreira deste grupo americano cuja morte prematura do seu líder levou a uma também prematura extinção. Já a circular no mercado há alguns anos, em vinilo – a primeira edição data de 1978 – mas também numa edição pirata em compacto, esta obra póstuma destina-se prioritariamente aos coleccionistas enquanto testemunho importante da vertente poética do autor de “The celebration of the Lizard”. A música, “pelos the Doors”, foi acrescentada posteriormente por Ray Manzarek, umas vezes de tal forma que dir-se-ia terem sido a música e as palavras gravadas na mesma ocasião, outras dando mostras de uma enorme falta de gosto, soando despropositada e desenquadrada da postura original do grupo. A presente edição inclui três novos temas em relação às anteriores, “Babylon fading”, “Bird of prey” e “The ghost song”. O primeiro é uma gravação ao vivo inédito em disco, aumentada com efeitos sonoros criados posteriormente em estúdio. Assim, os ruídos de uma sirene, chuva, assobio, trovoada, multidões numa tourada e num jogo de futebol, crianças num pátio de recreio e guerra reproduzem à letra as palavras do vocalista, numa brincadeira que tem tanto de curioso como de inconsequente. “Bird of prey” é uma vocalização de um minuto “a capella” onde a falta de voz consegue mesmo assim fazer passar a mensagem: “Flying high, flying high, am I going to die? Bird of prey, take me on your filght.” A fechar, “The Ghost song”, em nova versão (a primeira aparece logo de início), com um acompanhamento musical inédito de Ray Manzarek, Robbie Krieger e John Densmore, soa como uma canção característica do último álbum de originais do grupo, “L. A. Woman”, pelo menos até determinada altura, quando se transforma em “disco sound” à Bee Gees. Feitas as contas, três apontamentos que não enobrecem de modo algum nem a memória do cantor nem a do grupo. O resto é uma manta de retalhos que se percorre com as recordações a virem ao de cima e a darem vontade de, uma vez mais, ir ouvir os verdadeiros Doors nos quatro momentos mais altos da sua discografia: a estreia “The Doors”, o monumental “Strange Days”, “Waiting for the Sun” e o disco ao vivo “Absolutely Live”. Quantas vezes ainda ouviremos Jim Morrison gritar “Is everybody in? The ceremony is about to begin, Wake up!” Oficializada por fim a peça do “puzzle” que faltava, é de acreditar que desta vez vai ser mesmo “The end”.