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Natalie MacMaster – “In My Hands” + Sandy Denny – “No More Sad Refrains – The Anthology” + Jean-François Dutertre – “Ballades Françaises – Volume 2” + Faubourg de Boignard – “Terra Gallica” + Vários – “Naciones Celtas”

27 Outubro 2000
FOLK


A idade do “glamour”



Para os lados da folk céltica de rosto feminino, retocam-se as imagens, esmera-se na produção e, se for caso disso, carrega-se no “sex appeal” e no “glamour”. É o caso de Natalie MacMaster, violinista canadiana com raízes familiares em Cape Breton, autora do recente “My Roots are Showing”. No novo “In my Hands” é realçada sua fotogenia e a música submete-se aos imperativos do “marketing”. Mas Natalie, como Kathryn Tickell, Eileen Ivers, ou Susana Seivane, é muito mais do que um simples rosto bonito. É verdade que o tema de abertura que dá título ao álbum é um tiro disparado ao mainstream e às estações MOR (“middle of the road”) com todas as hipóteses de agradar ao grande público, mas Natalie não perde tempo em mostrar que está longe de renegar o passado, ao utilizar em “Gramma” uma gravação da voz da sua avó de 91 anos de idade, antes de se lançar num “reel” imaculado. “Space ceilidh” é outra das curiosidades – positiva ou negativa, consoante a perspetiva… – de “In my Hands”, música de baile “ceilidh” vestida com programações eletro e sintetizadores espaciais, a fazer lembrar os Rare Air. Mas quando Natalie se lança, logo de seguida, num fair-portiano “Olympic reel”, fantástico de técnica e de swing, tudo se perdoa a esta rapariga de cabelos louros encaracolados. Alison Krauss e Sharon Shannon são duas convidadas especiais de “In my Hands”, um álbum de contrastes marcado pelo espírito da época (Rounder, import. FNAC, 7/10).

Sandy Denny, o mito e a voz, nunca morrerá na memória dos amantes da folk. A obra que legou ficará para sempre como imagem de uma vida trágica e de uma carreira prematuramente interrompida por um estúpido acidente (queda de uma escada) que pôs termo à sua vida em 21 de Abril de 1978. Personalidade insegura, senhora de uma voz e de um estilo inigualáveis, Sandy Denny notabilizou-se nos Fairport Convention e nos Fotheringay, depois de uma passagem fugaz pelos Strawbs e antes de enveredar por uma carreira a solo que se saldou pela edição de “The North Star Grassman and the Ravens”, “Sandy”, “Like An Old Fashioned Waltz” e “Rendez-Vous”. A presente coletânea (mais uma!), “No more Sad Refrains – The Anthology”, surgida pouco tempo depois do volume “An Introduction to…” que lhe foi dedicado, passa em revista, em dois CD, o melhor da sua música, incluindo clássicos com os Fairport Convention e Fotheringay, um par de temas que gravou com o projeto The Bunch e dois “demos”. “Fotheringay”, “Who knows where the time goes?”, “Crazy man Michael”, “Farewell, farewell”, “The sea”, “Late November”, “The north star grassman and the ravens”, “It suits me well”, “Solo” e “Like an old fashioned waltz” são canções que nunca deixarão de nos assombrar. Uma edição para acarinhar até ao dia em que a rosa deixar de ter espinhos (Island, distri. Universal, 9/10).

França. Jardim das delícias. Histórias da Gália profunda. Canções tradicionais dramáticas ou líricas, reunidas na série “Ballades Françaises – Volume 2”. O jardineiro dá pelo nome de Jean-François Dutertre, que, para quem não sabe, é um dos magos da folk europeia na sua vertente mais onírica e palaciana, cantor, executante de sanfona e “Épinette des Vosges”, elemento fundador da única banda folk francesa que conseguiu estar à altura (e por vezes ultrapassar!) dos Malicorne, os Mélusine, e participante no projeto seminal do clube “Le Bourdon”, responsável pela obra-prima “Le Galant Noyé”. Neste novo álbum, para o qual recrutou os seus antigos companheiros Jean-Loup Baly, Yvon Guilcher e Emmanuelle Parrenin, Dutertre assume um lado mais narrativo que nos Mélusine, com a beleza, por vezes sufocante, de baladas como “Le deuil d’amour”, “La barbière”, “Bella Louison”, a conferir a este álbum um apelo tão forte para os apreciadores de folk francófona, como para os de música antiga (Buda, distri. Dargil, 8/10).

Ainda em França, os Faubourg de Boignard divertem-se. Com “Terra Gallica”, segundo álbum deste grupo da família de “hereges” como os La Bottine Souriante, Ad Vielle Que Pourra, Blowzabella, Kepa Junkera e Cock & Bull, a folk deita às urtigas o ar sisudo e deixa as gaitas-de-foles, acordeões e violinos aventurarem-se por uma música liberta de constrangimentos formais. Programações, energia contagiante e imagens trocadas do imaginário céltico atropelam-se entre declamações e “trompe l’oeils” onde as geografias europeias, asiáticas e africanas se confundem em citações sem autor. Como se “Terra Gallica” fosse um argumento caído da “Symphonie Celtique” de Alan Stivell. Folk rock ao melhor nível. (Boucherie Productions, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).

Mais um volume duplo, o quarto da série “Naciones Celtas”, como sempre abarcando um espectro largo das chamadas “músicas célticas” que aqui se estende ao Kansas, nos EUA (!). Entre nomes consagrados – Relativity, Bothy Band, Bleizi Ruz, JSD Band, De Dannan, The Dubliners, Silly Wizard, Ar Log, Jerry Holland, Jerry O’Sullivan, Ubiña – e ilustres desconhecidos – Connie Dover (a tal norte-americana do Kansas), Mary Jane Lemond (uma Enya de Cape Breton), Jim Fidler, de Newfoundland, Dhais, e Faíscas de Xiabre, ambos da Galiza, Bucca (uns Fairport Convention da Cornualha) e MacLullagh Vannin, da Ilha de Mann, os mais interessantes –, o destaque vai para a presença de artistas canadianos, presentes pela primeira vez nas “Naciones Celtas”. Além dos já bem conhecidos La Bottine Souriante e de um dos seus elementos a solo, Yves Lambert, participam Daniel Roy, Les Charbonniers de L’Enfer, Les Batinses e Barachois, estes últimos com um delicioso pedaço de cajun reel e humor vocal francófono (Fonofolk, distri. Megamúsica, 7/10).