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Artigo de Opinião: “Crónica De Um Vício Como Outro Qualquer”

Pop Rock

10 de Abril de 1996

Agora pode satisfazer-se na Internet

CRÓNICA DE UM VÍCIO COMO OUTRO QUALQUER

O vício é comprar, acumular discos. Vinilo ou compacto, consoante o gosto. O produto mais difícil de arranjar sempre foram as raridades estrangeiras.
Nos anos 60, pura e simplesmente era preciso ir a Inglaterra. Na década seguinte, já valia a pena entrar nas lojas nacionais, onde se encontravam muitos dos discos cujas críticas líamos sofregamente na “Rock & Folk”, “Best”, “New Musical Express” e “Melody Maker”. Não havia edições nacionais e o que chegava acompanhava de perto o panorama editorial do resto da Europa. Podia passar-nos pelas mãos e pelos ouvidos praticamente todo o catálogo Vertigo, da Espiral, discos a 180 escudos que hoje valem fortunas, nas respectivas edições originais: Bem, Dr. Z, Catapilla, may Blitz, Warhorse, Beggars Opera… Na Lanalgo, até se conseguia a edição original do mítico “It’ll all Work out in Boomland”, dos T. 2… Mas havia gente sempre insatisfeita, ávida de descobrir nomes ainda mais estranhos, impelida pela sedução das capas de abrir que alimentavam as páginas de publicidade dos jornais e revistas atrás mencionados. Esses arriscavam mandar vir directamente de fora, recorrendo aos serviços de firmas como a Tandy inglesa e a COB, do País de Gales. Era um sofrimento esperar pelo pacote que o carteiro tardava em deixar à nossa porta. E o êxtase quando, por fim, geralmente já desesperados, o pacote mágico chegava às nossas mãos. Quantas descobertas e quantas desilusões. Mas, sobretudo, quanto amor pela música.
Os anos 80 foram de recessão. Foi a década das edições nacionais, das más gravações e das capas para esquecer. Importações directas desapareceram. O que sobrou sumiu-se num ápice, catado pela ansiedade do coleccionador. Como compensação, surgiram as lojas de discos especializados – Bimotor, Contraverso, as pioneiras. Regressou o prazer da descoberta: Hector Zazou, Benjamin Lew, Wim Mertens, o catálogo Made to Measure, ainda nos “Lábios de Vinho”, ou industriais, SPK, Test Dept., e as obscuridades, Nurse With Wound, Negativland, os tesouros da Recommended, Art Bears, Jocelyn Robert, Steve Moore, Wondeur Brass… Sobreviveu-se.
Sem nos darmos conta – num dos intervalos em que se pára de arrumar discos na estante ou na delirante tarefa de reconversão do vinilo para compacto -, encontrámo-nos às portas do final do século com as músicas ao virar da esquina. Tamanha disponibilidade provocou, num curto período de tempo, nos mais viciados na música, a intoxicação. David Thomas, dos Pere Ubu, dizia – e com razão – que, nos anos 90, existe música a mais.
Para cúmulo, surgiu a Internet. Para os que não desistem de querer controlar, conhecer tudo, ouvir tudo, é o fim, a “overdose”. A angústia absoluta. As listas infinitas de todos os títulos que queremos possuir piscam-nos o olho no monitor demoníaco.
Sem querer alimentar o vício, aqui se fornecem os endereços da perdição. Há um sítio denominado CD World que dispara uma lista de 100 mil títulos disponíveis, divididos por 66 estilos musicais, a preços que rondam, em média, os 11 dólares (1650 escudos, mais portes). Tecle-se http://www.CDworld.com/ No velhinho “Yahoo” (http://www. yahoo.com/entertainment/music/genres), só no universo “Progressivo” (onde se inclui praticamente tudo o que escapa ao “mainstream” e com um cheirinho a diferença…), aparece uma lista imensa de casas exportadoras, na maioria norte-americanas, ou simplesmente de particulares com relações de discos afixadas com os respectivos preços, necessariamente mais elevados, uma vez que, na maior parte dos casos, se trata de exemplares para coleccionadores. Aqui vão os endereços de duas, para a loucura: Metro Music (http://www.idsonline.com/business/metro/) e Aeon Music (http://www. mediaonline.com/biozads/aeon/html). A lista geral encontra-se em http://www. cogsci.ed.ac.uk/~philkime/RMP/fag2.html. Em Portugal, até agora, apenas a Symbiose tem disponível o seu catálogo na WWW, como oportunamente noticiou na edição deste suplemento de 21 de Fevereiro.
No caso do CD World, o pagamento faz-se através dos cartões Visa e Mastercard (por fax, não vá algum espião “on line” fazer das suas) ou, com total segurança, através de um novo processo informatizado, explicado em pormenor na secção FAQ (Frequently Asked Questions).
Sentem o suor a escorrer? Não digam que não avisámos…

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