Arquivo de etiquetas: Howe Gelb

Howe Gelb – Confluence (self conj.)

23.03.2001
Howe Gelb
Hisser
Glitterhouse, distri. Zona Música
8/10
Confluence
Thrill Jockey, distri. Ananana
7/10

howegelb_confluence

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Esqueletos no Armário
Esqueletos no armário. Howe Gelb olha-nos de frente na capa de “Hisser”, pintado de esqueleto “cowboy”, a sorrir no dia dos mortos mexicano. E “Hisser”, estreia a solo (o novo “Confluence” está prestes a sair) do mentor dos Giant Sand – dos quais foi agora editada a colectânea “Selections Circa, 1990-2000” -, bem poderia ter sido gravado num armário, quer pelo tom artesanal, quer pela quantidade de fantasias amarrotadas e suspensas em cabides que encerra. “Lo-fi” captado numa cidade-fantasma (na realidade, as gravações tiveram lugar numa velha casa em Tucson, Arizona, construída no princípio do século passado), sob os efeitos de mescalina estragada, “Hisser” é a sombra espectral desse outro grande viajante americano do escuro que é Neil Young, o reverso das cavalgadas do “cowboy” eléctrico, Stan Ridgway, e um intervalo de embriaguez nas “spoken words” de Lou Reed. Mas é nos interstícios das baladas descarnadas, em sequências e apontamentos instrumentais que remetem para os limites de arranjos “politicamente inaceitáveis”, que “Hisser” guarda os seus segredos mais fascinantes e, já agora, perturbantes.
Um velho piano vertical fabricado em 1888 afogado na cisterna, um órgão de foles dos anos 30 e uma guitarra de 1900, com a caixa em cartão e as cordas lassas (Howe recusou-se a trocá-las por umas novas), ruídos de fundo, e do fundo da noite, vozes descoladas como papel de parede, valsas de pé-quebrado, ecos, becos e subterfúgios agarram-se como lagartos ao verde dos cactos do deserto. Bobines partidas de um filme mudo repetem infinitamente as imagens de um “western” burlesco onde bonecos de corda dançam num salão de baile do princípio do século. Em “Hisser”, a voz, as histórias e os sons trocam de lugar e de tempo (“americana” em Viena?) com a Belle Époque de Pascal Comelade e o sentido de palavras que iludem – “Intro speck” são dez segundos de introspecção, “Thereminender” junta “there” com “mine”, para dar a ouvir um solo de theremin que desaparece num buraco de silêncio. Grandaddy e Lisa Germano são os convidados especiais deste “saloon” de alucinações.
Em simultâneo com “Hisser” surge no mercado português o novo “Confluence”, visão assente nos carris de uma linha férrea apontada para um horizonte que tanto pode conter quimeras, como desembocar na desolação. Os pianos foram de novo esfregados com naftalina, as cordas da guitarra mantêm-se lassas, o órgão de foles continua asmático, a fantasmagoria ganhou uma “phantom drums”, mas, no geral, a música está mais em conformidade com a linha clássica dos “singersonwriters” dos anos 60 (um dos temas foi mesmo gravado em Woodstock…), nomeadamente Neil Young. Howe Gelb segue só numa viagem sem retorno em direcção a uma América desesperadamente à procura de reencontrar os velhos mitos. “In a perfect world you can do what you want/You can say what you will, you can get what you feel/You won´t be misunderstood/If it stars out bad, it´ll end up good/In a perfect world”, canta no tema de abertura. “Poor lonesome cowboy” em luta contra o tempo.

Howe Gelb – Hisser (self conj.)

23.03.2001
Howe Gelb
Hisser
Glitterhouse, distri. Zona Música
8/10
Confluence
Thrill Jockey, distri. Ananana
7/10

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Esqueletos no Armário
Esqueletos no armário. Howe Gelb olha-nos de frente na capa de “Hisser”, pintado de esqueleto “cowboy”, a sorrir no dia dos mortos mexicano. E “Hisser”, estreia a solo (o novo “Confluence” está prestes a sair) do mentor dos Giant Sand – dos quais foi agora editada a colectânea “Selections Circa, 1990-2000” -, bem poderia ter sido gravado num armário, quer pelo tom artesanal, quer pela quantidade de fantasias amarrotadas e suspensas em cabides que encerra. “Lo-fi” captado numa cidade-fantasma (na realidade, as gravações tiveram lugar numa velha casa em Tucson, Arizona, construída no princípio do século passado), sob os efeitos de mescalina estragada, “Hisser” é a sombra espectral desse outro grande viajante americano do escuro que é Neil Young, o reverso das cavalgadas do “cowboy” eléctrico, Stan Ridgway, e um intervalo de embriaguez nas “spoken words” de Lou Reed. Mas é nos interstícios das baladas descarnadas, em sequências e apontamentos instrumentais que remetem para os limites de arranjos “politicamente inaceitáveis”, que “Hisser” guarda os seus segredos mais fascinantes e, já agora, perturbantes.
Um velho piano vertical fabricado em 1888 afogado na cisterna, um órgão de foles dos anos 30 e uma guitarra de 1900, com a caixa em cartão e as cordas lassas (Howe recusou-se a trocá-las por umas novas), ruídos de fundo, e do fundo da noite, vozes descoladas como papel de parede, valsas de pé-quebrado, ecos, becos e subterfúgios agarram-se como lagartos ao verde dos cactos do deserto. Bobines partidas de um filme mudo repetem infinitamente as imagens de um “western” burlesco onde bonecos de corda dançam num salão de baile do princípio do século. Em “Hisser”, a voz, as histórias e os sons trocam de lugar e de tempo (“americana” em Viena?) com a Belle Époque de Pascal Comelade e o sentido de palavras que iludem – “Intro speck” são dez segundos de introspecção, “Thereminender” junta “there” com “mine”, para dar a ouvir um solo de theremin que desaparece num buraco de silêncio. Grandaddy e Lisa Germano são os convidados especiais deste “saloon” de alucinações.
Em simultâneo com “Hisser” surge no mercado português o novo “Confluence”, visão assente nos carris de uma linha férrea apontada para um horizonte que tanto pode conter quimeras, como desembocar na desolação. Os pianos foram de novo esfregados com naftalina, as cordas da guitarra mantêm-se lassas, o órgão de foles continua asmático, a fantasmagoria ganhou uma “phantom drums”, mas, no geral, a música está mais em conformidade com a linha clássica dos “singersonwriters” dos anos 60 (um dos temas foi mesmo gravado em Woodstock…), nomeadamente Neil Young. Howe Gelb segue só numa viagem sem retorno em direcção a uma América desesperadamente à procura de reencontrar os velhos mitos. “In a perfect world you can do what you want/You can say what you will, you can get what you feel/You won´t be misunderstood/If it stars out bad, it´ll end up good/In a perfect world”, canta no tema de abertura. “Poor lonesome cowboy” em luta contra o tempo.