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Holger Hiller – “Little Present”

Pop Rock

29 de Novembro de 1995
Álbuns poprock

Holger Hiller
Little Present

IMPORT. CONTRAVERSO


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Em ponto algum da embalagem ou do próprio disco vem indicado o nome de uma editora. Edição de autor ou simples estratégia de ocultação, é mais um disco ao nível da reputação deste alemão antigo elemento dos Palais Schaumburg. “Little Present”consiste numa série e gravações efectuadas em vários locais da cidade de Tóquio, onde Hiller se deslocou para visitar um filho seu, de naturalidade japonesa. São 13 segmentos, indexados em 26, cada um dividido em duas partes, uma delas “com histórias e ambientes”, a outra com “música”. Da manipulação de samplers que caracteriza toda a primeira fase do autor, expressa numa espécie de “sinfonismo concretista” presente em discos como “Ein Bundel Faulnis in der Grübe”, “Oben im Eck” e “As Is”, Hiller passou posteriormente para investigações na área da “dub”, antes de chegar a este documento sonoro de “environmental music”. Um passo lógico, no sentido da passagem da manipulação de sons instrumentais para a manipulação, numa escala mais ampla, das próprias paisagens acústicas da cidade japonesa. Excertos de programas de televisão, sons de rua, conversas telefónicas ou em apartamentos, a voz do filho, ruídos de proveniência incerta são reconstituídos por Hiller numa “sucessão rápida e em constante mudança”, de modo a “interpretar” e “substituir” o ambiente “natural” por outra realidade, subjectiva, construída a partir dos mesmos materiais. Entre a música infantil, a tradição japonesa, o “jingle” à maneira de um Yasuaki Shimizu em “Music for Commercials”, o desenho animado e a arquitectura onírica, “Little Present” é um passeio virtual por Tóquio, como nunca ninguém a viu ou ouviu antes. (7)

Holger Hiller

LP

11 DE MAIO DE 1989
EXPRESSO

HOLGER HILLER

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Ao falarmos hoje em vanguarda teremos forçosamente de referir o nome de HOLGER HILLER. Desconhecido de quase todos, um génio para quem conhece a sua música. Para os primeiros, um conselho: Escutem os sons que este senhor faz e pasmem. Depois, já refeitos do choque, podem deitar fora os 80% dos vossos discos, cuja posse vos fará corar de vergonha. Mas antes leiam este artigo e vão aguçando o apetite.
Comecemos por uma breve biografia musical. Depois de uma educação e treino musicais que abrangeram campos tão diversos como a música improvisada, música terapêutica e pesquisa musical com crianças, HILLER começou a sair da casca e a aventurar-se por áreas de mais fácil acesso. Assim, após a tempestade de punk, trabalho com músicos de grupos tornados lendários na cena underground alemã, como os DER PLAN, D.A.F. e EINSTURZENDE NEUBAUTEN. Algumas experiências bizarras desta altura incluem uma banda sonora para o clássico do Expressionismo alemão, o filme “Dr. Caligari” de MURNAU, composta ao vivo durante a projecção pública do mesmo e em que as imagens serviram de estímulo directo para a feitura da música.
Já na década de 80 fundou os PALAIS SCHAUMBURG que rapidamente abandonou para se dedicar de novo a actividades menos ortodoxas: Um “12” com a participação de barqueiros Vietnamitas ou uma nova versão para uma ópera para crianças originalmente composta pelo erudito PAUL HINDEMITH. Este período culmina com a sua própria ópera “Guten Morgen Hose” (“Bom dia, calças”) em que HILLER utiliza exclusivamente vozes de pessoas da rua, trazidas directamente para o estúdio e instadas a improvisarem as partes vocais, para além de samples de outros discos. Dificilmente imagino o resultado, mais facilmente imagino as caras dos eventuais auditores.
Finalmente os álbuns a solo que o impõem definitivamente junto das minorias esclarecidas: “Eins Bundel Faulnis in der Grube” e mais recentemente, “Oben im Eck”. Ambos constituindo a bíblia do sampling inteligente. E se o primeiro é excepcional, o mais recente é definitivamente uma obra-prima. Estes dois discos vão aparecendo, de quando em quando, em número reduzido de exemplares, por algumas discotecas, mais atentas da capital. Ficam a saber.
Desde há cinco anos para cá, HOLGER HILLER tem trabalhado como produtor e participado em espectáculos e bienais por essa Europa fora. Para além de projectos relacionados com a Rádio e o Cinema, HILLER é o inventor do “Scratch-Video”(!). Contada resumidamente a sua história, passemos à música propriamente dita. Em qualquer dos dois álbuns o sampler é definitivamente privilegiado. HILLER é seu rei e senhor, revelando uma mestria total e um absoluto rigor na utilização desta técnica, propensa a certo tipo de facilidades. O resultado sonoro situa-se algures entre a música de cabaré e a música concreta do ano 2000, com “Nursery rhymes” para crianças à mistura. Se BRECHT ou K. WEILL compusessem a meias com os E. NEUBAUTEN e com DIAMANDA GALAS a cantar, o resultado seria talvez semelhante a qualquer destes discos. Ou então definamo-lo como “Sample-Operas” para esquizofrénicos esclarecidos.
Só para despistar, refira-se ainda a presença, em “Oben im Eck”, de MIMI IZUMI KOBAYASHI, a japonesa que toca piano e produz o último de MATHILDE SANTING. Amantes do Novo, pesquisadores das regiões mais longínquas da Música, estes dois discos foram feitos especialmente para vocês. Ouçam e rendam-se. Como eu.
P.S. A fotografia que acompanha este artigo é a de um ouvinte que não resistiu ao choque e à comoção provocados pela audição destes dois discos. São precisas pois certas cautelas!…

Holger Hiller – Oben Im Eck (1986): aqui



Holger Hiller – Holger Hiller

15.09.2000
Holger Hiller
Holger Hiller (8/10)
Mute, distri. Zona Música

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LINK (Palais Schaumberg – S/T – 1981)

Alguns poderão ver nele um Stockhausen de trazer por casa, o que não é vergonha nenhuma, se pensarmos que foi este alemão que nos anos 80 meteu o arsenal sónico e conceptual da música contemporânea erudita dentro de um sampler fazendo sair do outro lado uma audaciosa fusão de electrónica operática com a pedreira da música concreta, brincadeiras proibidas e… rock ‘n’ roll. O krautrock deve-lhe a sobrevivência nas duas últimas décadas ao algemar as vastidões cósmicas dos planates com as correntes do punk e gente como Felix Kubin ou Oleg Kostrow venera-o de joelhos. Depois de ter passado praticamente despercebido nos Palais Schaumburg, Hiller desfrladou a sua bandeira de originalidade sem paralelo em dois álbuns seminais: “Ein Bundel Faulnis in der Grube” e “Oben im Eck”. Os posteriores “As is” e, ainda com mais convicção, “Demixed”, enfiam-se na mesa de remisturas e “Little Present”, já dos anos 90, é um postal ilustrado de paisagens sonoras de Tóquio oferecidas ao seu filho de cinco anos residente mo Japão. Com o novo “Holger Hiller” o compositor alemão quebra um jejum de meia década com mais uma inspirada manobra de equilibrismo que, por entre um labirinto de corredores, desfaz à martelada e ri-se às gargalhadas do drum ‘n’ bass, da música industrial e de todos os estilos começados por “electro”. O sampler é uma picareta, a Escola de Viena um chiqueiro e, correndo o risco de apanhar com uma tarte de natas na cara, diria que este homem é o Zappa que a Alemanha nunca teve, um robô louco mestre de Tobin ou a continuação, no presente, do que os Faust poderiam ter feito (“Pulver”) de uma maneira diferente da que fazem agora. Mas Holger Hiller é único. Não chega?