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Harold Budd + Bill Nelson – “Harold Budd E Bill Nelson Na Aula Magna – Para Ouvir De Olhos Fechados”

Secção Cultura Domingo, 03.11.1991


Harold Budd E Bill Nelson Na Aula Magna
Para Ouvir De Olhos Fechados


A música de Harold Budd e Bill Nelson deve ser ouvida com as pálpebras em descanso. Para meditar sobre a vida, desfrutar de uma grande paz interior ou simplesmente dormir. Houve quem adorasse e quem se entediasse. Em todo o caso fez-se silêncio na Aula Magna, em Lisboa.



Pouco mais de meia casa espalhada, anteontem à noite, pelo auditório da alameda da Universidade, disposta a, melhor ou pior, descansar do “stress” citadino, já que a música da dupla a tal se presta, independentemente da sua vertente transcendental. Com alguns minutos de atraso sobre a hora prevista Bill Nelson sobe ao palco para anunciar que o “set” iria ser dividido em três partes: guitarra a solo e fitas pré-gravadas, Harold Budd em piano solo e, por último, os dois juntos.
Percebe-se de imediato que Nelson não se sente muito à vontade a tocar em público. Não para quieto um minuto, ameaçando a todo o momento derrubar o microfone com o braço da guitarra ou tropeçar num fio qualquer. O primeiro tema é uma improvisação de guitarra, estilo Robert Fripp, sobre sons electrónicos e um discurso previsivelmente incompreensível de William Burroughs. Nos seguintes, Bill Nelson toca guitarra, estilo Robert Fripp, sobre sons electrónicos e um discurso incompreensível de William Burroughs. Momento alto quando o guitarrista toca guitarra, estilo Robert Fripp, sobre sons electrónicos e um discurso incompreensível de William Burroughs. Silêncio. Apresenta Harold Budd, “um grande amigo, grande pianista e grande compositor” e retira-se.

Um Descanso

Budd agradece aos portugueses a sua “gracious hospitality” e toca ao piano uma sequência improvisada, nos acordes de ré bemol maior, “the ultimate chord”, como lhe chama, o mesmo da célebre peça para gongo que dura 24 horas, e Mi maior, respectivamente, naquele que constitui o melhor momento de todo o concerto. Apetece fechar os olhos e entrar no nosso nirvana particular. Até porque um holofote de luz rosa (a mesma que um dia Philip K. Dick tomou por Deus e o enlouqueceu?) está apontado aos nossos olhos, acrescentando tonalidades irreais e problemas oftalmológicos à candura hipnótica da música. Música inviolável às investidas do tempo e da razão. Sons do céu, que elevam e enlevam. Para ouvir em solidão. Tudo oo resto acabou por ser supérfluo.
Bill Nelson regressa na terceira parte para e juntar ao pianista que, até ao fim, veste a pele de Erik Satie, fornecendo o suporte harmónico sobre o qual o guitarrista vai tecendo delicadas filigranas, na guitarra eléctrica ou na acústica, com ou sem efeitos, em “estilo Fripp” ou na técnica “bottleneck”, em “glissandos” intermináveis ou, em certos momentos, unicamente com a emoção. Por instantes a música sugere a dos Cluster com Brian Eno, em sobreposições rítmicas e repetições próximas do minimalismo. Budd recita, numa voz pausada e monocórdica, alguns poemas, acompanhados ao piano. Bill Nelson não consegue resistir ao efeito “Lorenin”, mal disfarça um bocejo e dá dois ou três pulinhos para acordar.
Um dos melhores momentos do dueto, uma peça abstracta à maneira de ‘Karlheinz Peixinho’ com toques de ‘Zé Maria Xenakis’, rompe no espaço silêncios e ecos desmesurados mas é interrompido de forma abrupta pelo aplauso prematuro de alguém talvez arrancado em sobressalto aos prazeres de Morfeu. Como se os músicos receassem, de algum modo, aborrecer. Não aborreceram nada, antes pelo contrário, para muitos foram um descanos. Finda a função, o público, pede, por delicadeza, um “encore”. Os músicos anuem e voltam ao embalo. A calma quase se transformara em coma. Já tocou para a saída?

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Harold Budd – “O Pianista Harold Budd Actua Hoje Em Lisboa – O Verbo Em Movimento”

Secção Cultura Sexta-Feira, 01.11.1991


O Pianista Harold Budd Actua Hoje Em Lisboa
O Verbo Em Movimento


Música e poesia confundem-se na obra de Harold Budd, compositor / pianista que hoje actua em Lisboa. Não é todos os dias que se assiste ao espectáculo do verbo em movimento.



Harold Budd, que hoje actua, às 22h30, na Aula Magna, em Lisboa, acompanhado pelo guitarrista Bill Nelson, aprendeu o ritmo e a circularidade do tempo com os minimalistas americanos, integrado na cena “avant gard” californiana dos anos 60, essa época de todos os possíveis.
Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley inventavam então a música sem fim. Vagas cósmicas que ainda hoje afluem à praia, a que chamaram “minimalismo” e “repetitivas”, por insuficiência da razão. Mais longe foi o papa do movimento, LaMonte Young, no seu “Teatro da música eterna” seguindo pelas ondas até ao oceano do Silêncio. Com ele Harold Budd compreendeu o valor da distensão temporal, da hipnose. Gravou uma peça para gongo chinês solo “The candy-apple revision” que ressoava ininterruptamente por 24 horas. “Madrigals of the Rose Angel”, escrito para um coro feminino em “topless”, mostra que o humor nunca deixou de estar presente na sua música.
O mundo só percebeu que existia Harold Budd quando um aristocrata chamado Brian Eno resolveu iluminar, de forma discreta como é seu timbre, as bizarrias dos então “outsiders” Gavin Bryars, Michael Nyman, David Toop e Penguin Café Orchestra, entre outros, na editora “Obscure”. “The Pavillion of Dreams”, editado nessa série, dava a conhecer um Harold Budd dividido entre a interiorização extática e um estilo pianístico próximos de Erik Satie e as liberdades jazzísticas concedidas ao saxofone de Marion Brown.

O Som Das Palavras

“The Plateaux of Mirror”, o álbum seguinte, viria a mostrar a via escolhida para o futuro: a viagem até à nascente, ao “não-ser” que serve de alavanca e motor do mundo. A descoberta da força das palavras, além dos significados. E de que a poesia começa pelo som. Música das palavras, por natureza livres, mágicas, antes de enformarem o conceito. Antes mesmo de se mitificar no símbolo, o Verbo é esse Som que rasga as trevas, permitindo a organização harmónica a que chamamos Vida.
“Lovely Thunder”, “The moon and the Melodies” (com os Cocteau Twins), “The Pearl” (com Brian Eno), “The Serpent in the Quicksilver” (música para instalações), “The White Arcades”. Que América se desvela nessas melodias que as palavras libertam? A revelação deu-se, curiosamente, com a visão de uma obra do artista italiano Sandro Chia, reunindo pintura e poesia. “Uma luz desceu sobre a minha cabeça”, afirma o compositor quando se refere à génese poética do seu novo álbum, “By the Dawn’s Early Light”, primeiro em que o texto irrompe através da voz humana, na introdução e conclusão declamadas.
A outro nível, a música e os títulos referem-se a uma geografia específica, a lugares habitados pela imaginação e gravados no marfim das teclas dopiano, qual estrada de Santiago, onde as estrelas se erguem no eixo vertical aos veios da terra, delimitando o caminho a seguir até a catedral. Imagine-se então e habite-se essa catedral de luz erigida nos grandes espaços de uma Califórnia mítica, de contornos indefinidos ao ponto de se evolar, miragem, nos grandes calores do deserto em Victorville que o pianista aprendeu a decifrar. Chame-se a Harold Budd “ambiental”, “minimal”, “impressionista” ou, seguindo a moda, “Pós-moderno”. Qualquer das definições se lhe aplica. Nenhuma é suficiente para exprimir a serenidade admirável de uma música que, gerada pelo génio humano, se eleva a outras esferas. Acima de tudo, uma música que ensina a escutar.

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Harold Budd + Bill Frisell + Paco de Lucia – “Universos Paralelos” (artigo de opinião)

Pop-Rock Quarta-Feira, 23.10.1991

UNIVERSOS PARALELOS

Harold Budd, Bill Frisell e Paco de Lucia vão estar entre nós. Um piano e duas guitarras. O silêncio, a cidade e o fogo. Três sensibilidades diferentes que apenas se encontram no gosto pela perfeição. Frisell traça Nova Iorque em papel quadriculado. De Lucia é a emoção à flor dos dedos. Budd respira o infinito. Fruir a música é também essa viagem entre a realidade e o sonho.

Não fora Brian Eno e poucos saberiam hoje quem é Harold Budd. Com efeito foi graças a um disco gravado e editado na série “Obscure”, de Eno, que o pianista fez chegar ao mundo as reverberações do silêncio. “The Pavillion of Dreams”, assim se chamava o disco. Título que diz tudo, ou quase. A imagem, esboçada pela fantasia, diz que há um pavilhão de vidro no meio do jardim. Dentro do pavilhão está um piano de cauda. Em cima do piano, taçvez um ramo de violetas. Murchas. No exterior deve chover. E o sol, quando chegar, há-de trespassar as gotas de água e iluminar o piano abandonado.

Budd: Superfícies Polidas



Harold Budd começou por escrever poemas, “sem propósito algum”. Tal como a sua música. O piano de Harold Budd não conta história nenhuma, como fariam os românticos. A música está lá. Vale por si. Não aponta nem diz coisa alguma. Ela é essa coisa. O Zen ensina-nos que ser é o mesmo que estar. Está-se na música de Harold Budd, como num lugar. Seja qual for esse lugar: no cimo de um monte, no interior de um quarto ou num recanto da memória. Uma vez o músico deu com uma monografia do pintor italiano Sandro Chia, com a seguinte legenda: “Uma luz desceu sobre a minha cabeça, como uma súibita madrugada.” A frase serviu de mote para o seu disco mais recente, “By the Dawn’s Early Light” o único na sua discografia em que são utilizados textos, neste caso declamados.
Há quem fale de minimalismo ao referir-se à obra deste pioneiro que fez parte da vanguarda californiana dos anos 60. De facto, é difícil chamar-lhe outra coisa se considerarmos obras como as que então compôs, como “Lirio”, um solo de gongo com a duração de 24 horas. Mais tarde, escreveu “Madrigals of the rose angels”, para harpa, percussão, violoncelo, luzes e um “coro feminino em ‘topless’” (devem ser vocalizações sem as oitavas superiores). Depois foi o encontro com Eno e a música que geralmente associamos ao seu nome: um “perpetuum mobile” harmónico, feito de cintilações de piano. Em paralelo, um universo extático, que ilumina as obsessões ficcionais de Erik Satie.
“The Plateaux of Mirror” e “The Pearl” (ambos com Brian Eno) orquestram o silêncio, depurando-o de todas as impurezas. São, como os títulos sugerem, espelho e pérola. Superfícies polidas que reflectem interiores, o mar, o céu. Repare-se, entretanto, na beleza dos títulos, a que Budd dá a maior importância: “The Serpent in the quicksilver / Abandoned cities” (composto para várias instalações multimédia), “The moon and the melodies” (com Robin Guthrie e Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins), “Lovely thunder”, “The white árcades”. Escuta-se a música das palavras. As sugestões que encerram. “By the dawn’s early light” é mais sombrio, mas não menos belo. A beleza desta música está próxima do classicismo grego. No rigor e na exactidão das formas. Perfeição fria. Por isso, às vezes, assustadora. Harold Budd diz: “Desde muito novo que adoro música que entre directamente pela veia jugular. E a arte que sabe ser extremista sem recorrer a truques.” No concerto português, tocará acompanhado do guitarrista Bill Nelson (dos Be Bop de Luxe à companhia de David Syvian, a distância percorrida) e do percussionista John Spence.

Frisell: O Coração Da Paranóia



E, de súbito, o ruído do tráfego nova-iorquino, a vertigem da colmeia urbana, o movimento fraccionado e luciferino. Bill Frisell habita no coração da paranoia mas sabe deitar água na fervura. Cresceu a ouvir B. B. King, Paul Butterfiled e Buddy Guy. Cedo encontrou o jazz (e que os puristas perdoem a heresia…) na ECM, editora para a qual grava “In Line”, “Rambler” e “Lookout for Hope”, este último, mais que os anteriores, evidenciando um enorme ecletismo, através de incursões em áreas como o reggae ou o rock. Depois, troca a ECM pela Elektra Nonesuch, especializada na edição de “clássicos da vanguarda”. “Before We Were Born” e “Is That You?” são o resultado dessa mudança. Para muitos, este discos são geniais (a “Down Beat” considerou o segundo Álbum do Ano), para outros são simplesmente chatos. Talvez a designação mais apropriada seja “genialmente chato”. Bill Frisell foi “genialmente chato” nas duas vezes em que tocou em Portugal, integrado nos Naked City. Agora, à terceira, espera-se que não o seja de vez. Vem acompanhado de Joey Baron (outro Naked City, dos não chatos), na bateria, e de Kermit Driscoll (mais conhecido por “Cocas”, integra actualmente os President, de Wayne Horvitz).
Ao longe vibra uma guitarra flamejante. É Paco de Lucia, um dos expoentes da guitarra de flamenco, daqueles que parecem ter sete dedos em cada mão. O seu nome verdadeiro não é Paco, mas Francisco. Francisco Gomes, mais concretamente. Nasceu em Cádis, filho de família humilde. Pela folha de promoção fica-se a saber que “ser humilde em 1947, em Espanha e ainda por cima no Sul, significava que a vida não era fácil”. Hoje ser humilde implica uma vida mais fácil, talvez mesmo um certo “status”. Aprendeu a tocar guitarra com o pai. Parece que foi “duro”, “doloroso” e “difícil”. Mas valeu a pena. Paco de Lucia tornou-se um verdadeiro virtuoso. Hoje, faz o que quer da guitarra, arrancando-lhe sons que sabem a sangue, a rosas, a vinho, a vento, a bocas carnudas, a sapateado, a poeira levantada na estrada por “roulottes” ciganas, a castanholas, ao Sul, ao orgulho, à vida que pulsa nas veias, a morte, ao sangrar da alma à procura de altura, pelas cordas acima.

De Lucia: A Alma À Procura Da Altura



Paco De Lucia, também ele, cedeu ao jazz. Lado a lado com Chick Corea ou com John McLaughlin e Al di Meola, em “Saturday Night in San Francisco” e “Passion, Grace and Fire”, este um “must” da guitarra acústica. A solo assina obras como “Fantasia Flamenca”, “El Duende Flamenco”, “Fuente e Caldal” e “Almoraine”. E uma homenagem ao mestre e ao flamenco em “Manuel de Falla”. Sem esquecer aquele que foi o seu maior êxito comercial, “Solo Quiero Caminar”. “Zyriab”, recentemente editado entre nós, é um exercício brilhante de flamenco-jazz, etéreo, fluindo com a intensidade de lava que escorre por dentro. Acompanham o guitarrista nesta sua deslocação ao nosso país Ramon Sanchez Gomez, seu irmão, também na guitarra, José Gomez, vocalista (irmão de Ramon e, por consequência, irmão de Francisco, aliás, Paco), Ruben Dantas, percussionista brasileiro, Carlos Benavente, no baixo, Jorge Pardo, saxes e flauta, e Manuel Soler, dançarino. Resta seguir a sua música, pela noite e pelo sol.

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