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Harold Budd – “Luxa”

Pop Rock

16 de Outubro de 1996

Harold Budd
Luxa
ALL SAINTS, DISTRI. MVM


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Contrariando a tendência recente que indicava uma importância crescente dada às palavras, “Luxa” orienta de novo as coordenadas musicais de Budd para a música ambiental. “Luxa” divide-se em quatro secções. A primeira, “Butterflies with tits”, inclui seis temas de cariz impressionista em que o piano é a voz narrativa principal de quadros luminosos alusivos a alguns dos artistas preferidos de Budd, deste século, com títulos estranhos como “A sidelong glance from my round Nefertiti”. “Inexact shadows”, quatro esboços com apenas alguns segundos cada, fazem a ponte para a terceira secção, “Smoke trees”, em que o pianista ilustra a vertente mais sombria e reflexiva da sua música, numa linha próxima de “The Shutov Assembly”, de Brian Eno. A última secção, “Laughing Innuendos”, engloba duas dedicatórias, “Marion Brown (sweet Earth flying)”, piano solo, numa recriação do universo sonoro deste compositor, que Budd, aliás, já interpretara, em “The Pavillion of Dreams”, e “Steven Brown”, um híbrido de sintetizadores construído sobre a música dos Tuxedomoon. Com “Luxa”, Harold Budd demonstra uma vez mais que “ambiental” e “sedativo” não são necessariamente sinónimos. (8)



Harold Budd & Hector Zazou – “Glyph”

Pop Rock

6 de Dezembro de 1995
Álbuns poprock

Tempos de seca

HAROLD BUDD & HECTOR ZAZOU
Glyph (6)

Made to Measure, distri. Megamúsica


hb

Harold Budd e Hector Zazou, muito juntinhos, aderiram à moda da “etno-seca”. Caso fossem outros, a coisa passava com uma piada. Mas, dado que são quem são, convirá fazer alguns esclarecimentos. A temível, anedótica ribombante batida “seca” (vamos chamar-lhe assim, para abreviar e dado que a contrapartida “etno” até nem está presente neste disco) é rigorosamente igual em todos os discos onde aparece. Não acreditamos que dezenas, centenas de músicos tenham ouvido na cabeça ou sentido no coração o mesmo ritmo. Trata-se então de um modelo de produção. Que soa a falso.
Veja-se: no contexto em que se insere – seja no étnico de fusão ou no ambiental ritmado -, a batida “seca” está a mais. O lado étnico dispensa-a porque já tem os seus ritmos próprios e naturais. O ambiental, por seu lado, não tem ritmo nenhum. Logo, qualquer acrescento “antinatura” soa como intruso. A batida “seca” é um compromisso. Uma tentativa de tornar acessíveis, logo, mais comercializáveis, dois campos musicais considerados “difíceis”. Não é carne nem peixe, mas uma excrescência monstruosa. E incómoda. Neste sentido, a “seca” equipara-se ao “disco-sound” dos anos 70. O que de início constituiu alguma inovação transformou-se em poluição.
Abstraindo-nos deste pequeno senão, “Glyph” evidencia algumas das traves-mestras sobre as quais repousam as obras passadas de Budd e Zazou. As aguarelas de orvalho do pianista, a relojoaria fractal do argelino naturalizado francês.
Os títulos, cuidadosamente escolhidos, são invenções do autor de “Plateaux of Mirror”, conhecido pelo seu gosto pela escultura fonética e poética das palavras. De Budd decorrem ainda as sequências declamadas, pontuando as diversas geometrias instrumentais, algo que o pianista introduziu na sua estética a partir de “By Dawn’s Early Light”, álbum de 1991. Zazou contribui com as notas discordantes, provocando alguma inquietação e ondas mais picadas nas águas quase sempre serenas de “Glyph”. Entre os poemas, a contemplação e a “seca” rítmica, ainda se arranjou espaço para uma canção sem sal na voz de Lian Amber. Na ficha técnica, além do habitual colaborador de Zazou, Renault Pion, encontramos os nomes de B.J. Cole, Barbara Gogan (não canta, apenas toca guitarra), Mark isham, Lone Kent e Brendan Perry.
Budd, Zazou e tantos outros que se deixaram adormecer à sombra de Brian Eno andam a precisas que se lhes espete um alfinete num sítio que eu cá sei. Para ver se arrebitam.



Harold Budd – “She Is A Phantom”

Pop Rock

8 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Fantasmas que falam

HAROLD BUDD
She Is A Phantom

New Albion, import. Ananana


hb

Cabecinhas para trás e vamos a relaxar. Para dar descanso aos neurónios não há melhor do que a música de Harold Budd. O compositor – que começou por ser minimalista, escreveu uma peça com 24 horas de duração para gongo solo, descobriu as potencialidades sónicas de um coro feminino em “topless” e, finalmente, deu o braço a Brian Eno – continua aqui uma das suas paixões de sempre, as palavras. Na peça principal que dá o título ao álbum, composta em 1971, Budd desenvolve um processo de escrita musical em forma de “suite” no qual o ponto de partida são os títulos/frases, descritos por si como “fantasias”, “observações” ou “recordações”: “Emboldened by a fresh view of my visage, I take stock my dreams perish” ou “She’s by the window”. You can see her face faintly through the encrustated crystal”… Um acto de “descoberta literária” empreendido em conjunto com o grupo electro-acústico Zeitgeist (vibrafone, marimbas, percussões várias, piano, sintetizador e sopros de madeira). O início, “Breathless, she left her shoe by my favorite bourdelle, I”, dá uma pista falsa, numa caminhada circular e apressada “a la” Philip Glass (piada ao autor de “Einstein on the Beach”?…), que se repete em “Breathless… II”. Adiante, o percurso é o mesmo de sempre – e sempre diferente – por um jardim oculto muito próximo do céu. Um passeio pelos meandros do silêncio. As flutuações do piano ou do vibrafone são flores delicadas. Cheiram a perfume de anjos. Só é pena que, de vez em quando, Budd quebre o encantamento, quando declama textos que transformam a alucinação em redundância. Mas é por pouco tempo. Um resmungo, e reentramos no sonho. Ela (a música?) é um fantasma. Sonho ou sono, permanecemos no domínio da realidade literária. O tema final, “In Delius’ slepp”, de 1974, não tem, segundo Budd, nenhuma relação com o compositor Frederik Delius (1862-1934), autor, também ele, do “tone poem” “Over the hills and far away”), embora “conjure” as mesmas “imagens de um panteísmo inglês” que eram o seu timbre. A parte inicial de um piano inspira-se num solo de celeste de Sun Ra, mas o lirismo continua a ser a palavra de ordem. Harold Budd, impressionista. Um dos seus projectos futuros é a criação de uma peça intitulada “1000 chords”, para “cores sónicas flutuando livremente”. Como Steve Roach ou Robert Rich, outros dois compositores californianos, expoentes da escola electrónica americana, Harold Budd cresceu na contemplação das paisagens desérticas do Mojave. A sua música reproduz a eterna mutação das dunas e a vibração do ar quente do deserto. As palavras são castelos de areia desfeitos pelo vento. (8)