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Hariprasad Chaurasia – “Meditative Romance”

Pop Rock

3 de Maio de 1995
álbuns world

PRÃNÃYÃMA

HARIPRASAD CHAURASIA
Meditative Romance (8)

New Earth, distri. Alma Nave


hc

Para a maioria dos ouvidos ocidentais, a música indiana começou por ser um excelente campo de manobras alucinatórias para os jovens cérebros que o LSD, o “hash” e a erva puseram a planar na época de todas as descobertas e transgressões que foi a segunda metade dos anos 60. Uma das imagens emblemáticas desta atitude – que, na altura, era difícil de desligar de um certo folclore, no sentido pejorativo do termo – encontra-se na obra-prima do desenho animado psicadélico “Yellow Submarine”, quando, logo no início, na cena das portas que se abrem e fecham, uma delas deixa ver George Harrison em meditação no alto de uma montanha, envolvido por um arco-íris de cores em mutação e uma típica “drone” de “Tampura” indiana. Ravi Shankar era então um dos “gurus” preferidos de toda a gente, incluindo os Beatles. A sua “sitar” ajudou muita gente a sonhar acordada nos míticos festivais de Wright e Woodstock. Depois, a música indiana passou um pouco de moda, até porque o estalo provocado pelo “flash” de substâncias como a heroína e a coca não é muito compatível com a intemporalidade e os padrões estéticos da música e do espírito da Índia ancestral. Assim, a “raga” (forma tradicional da música indiana) recolheu de novo aos territórios mais bem comportados, comos e aceita que sejam, das músicas clássica e etnográfica.
O ressurgimento, de há alguns anos a esta parte, da agora denominada “world music”, alterou de novo este estado de coisas. Como consequência, a música indiana voltou a fazer ouvir as suas “drones” infinitas, como se, entretanto, nada se tivesse passado e ela tivesse permanecido sempre ali, extática, ressoando pela eternidade. Hariprasad Chaurasia é um nome lendário, sendo considerado o melhor intérprete de flauta (“bansuri”) indiano da actualidade. A sua técnica é indissociável das técnicas de controlo da respiração (“prãnãyãma”) do ioga, o que lhe garante uma fluidez e uma força espiritual, apenas possíveis de obter se enquadradas num método de desenvolvimento interior.
“Meditative Romance” inclui três “ragas” gravadas ao vivo num festival de música realizado, em 1991, em Berlim. “Kerwani” é a mais meditativa das três, com a flauta a abrir uma vasta tapeçaria de sensações psico-sensoriais sobre a omnipresente “drone” das “tampuras” de Deva Waduda e Aseema. “In raag des” é mais jovial, desenvolvendo-se sobre os vários andaimes rítmicos elaborados pelas “tablas” de Pandit Mandan Mishra. “Indian folklore”, ao contrário das outras duas, toma por base a música tradicional indiana, mantendo, contudo, o mesmo ambiente de romantismo – um termo que, aqui, convém não associar despreocupadamente ao conceito tradicional que lhe está inerente no racionalismo ocidental… – que caracteriza a totalidade de “Meditative Romance”. Claro que esta música exige do auditor uma quietude e disponibilidade interiores talvez difíceis de estabelecer a partir dos parâmetros de vida da sociedade europeia moderna. Mas vale a pena o esforço. Ou será melhor dizer o abandono?…
Que sons e harmonias são estes, afinal, que, por uma subtil deslocação da atenção, se destacam do fundo desta imensa tapeçaria cósmica? Estão lá de facto ou é a nossa mente que, subitamente liberta, assume a sua condição de criadora? Eis, no fundo, uma técnica da meditação através da música. Como diz o japonês Osho: “A meditação é a arte de ouvir o som que não tem som, a arte de ouvir a música do silêncio – aquilo que os adeptos Zen chamam ‘o som de palmas de uma só mão’.”
De Hariprasad Chaurasia encontra-se igualmente disponível “Now”, em duo com o teclista Amareesh Leib, um trabalho mais acessível orientado para o mercado “new age”, além de uma obra mítica de música indiana dos anos 60, “Call of the Valley”, agora remasterizada e editada com o selo “Hemisphere”, de qual se falará em breve nesta rubrica.