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Artigo de Opinião: Os melhores de sempre – música portuguesa – Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce – “Cantares da Beira”

Pop Rock

10 de Abril de 1996
Os melhores de sempre – música portuguesa

Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce
Cantares da Beira


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Como foi

O Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce formou-se pouco tempo antes da gravação do primeiro disco, “Cantares da Beira”. Na origem da sua formação, está, diz Isabel Silvestre, solista principal, “o gosto de cantar da gente do Manhouce”. “Uma função vital. Trabalhava-se e cantava-se na ceifa, nas malhas, em todos os trabalhos agrícolas o cantar era parte integrante.” Um canto que vai ainda buscar alento e alimento “a outra fonte, religiosa”, a “dois conventos perto, de Arouca e de São Cristovão de Lafões”. “As pessoas assistiam aos actos litúrgicos e transportavam-nos para os seus trabalhos, sobretudo agora na época da Semana Santa. Davam-lhes a volta, aquela volta que o povo costuma dar àquilo de que gosta.”
De 1982 para cá, o grupo sofreu algumas alterações. “Temos ainda muita gente do primeiro grupo, as pessoas essenciais continuam, e há gente nova.” Isabel Silvestre considera “interessante” a existência actual de “um espectáculo diferente do habitual”, com “três grupos, um de cantares, outro de danças, também de Manhouce, e um terceiro, de teatro, de São Pedro do Sul”. Idealizado por Jaime Galheiro, “um homem do teatro”.
Isabel Silvestre canta “desde miúda”. “Uma das coisas que Manhouce consegue é ter música desde o berço. Desde o berço até à cova. Do ‘Laru’, uma canção de ninar, para acalentar e adormecer os meninos, até ao ‘Senhor fora’, quando o padre vai visitar o doente que está muito mal.”
O reportório do grupo é constituído por canções “quase, quase só de Manhouce”. “Manhouce tem várias influências. Dos trabalhos que se iam fazer fora, ao Douro ou ao Alentejo, mas também a influência do mar. Passava por aqui a estrada romana que ligava Porto a Viseu. As pessoas pernoitavam e durante essa noite havia uma troca de saberes. Temos uma série de canções do mar como ‘Andorinha ligeira’, ‘Vai marinheiro, vai, vai’ ou ‘Olha a barca, olha a barca’.”
Todo este reportório não está sujeito a modificações. “As canções permanecem exactamente como nos foram transmitidas, simplesmente, temos a preocupação de arranjar um tom em que as três vozes se consigam harmonizar.”
“Cantares da Beira” surgiu da vontade forte, partilhada por todos os elementos de grupo, de conservar a sua música. “As pessoas da minha geração têm e tiveram a preocupação de gravar. Agora liga-se a televisão e há música. As pessoas desinteressaram-se das outras coisas. E há gravadores, gira-discos, carrega-se num botão e a música está feita. Nós tínhamos pena. Preocupava-nos deixar perder as cantigas.” A oportunidade para gravar surgiu durante uma actuação do grupo em Lisboa, na FIL. “Quando saímos do palco veio uma senhora ter connosco perguntar-me se não queríamos gravar. Tomáramos nós” A senhora era a Margarida, actualmente casada com David Ferreira. Assim aconteceu, fomos por aí abaixo e gravou-se o disco.”
Para Isabel Silvestre, a influência do produtor Mário Martins foi determinante para não se sentir a transição do espaço rural para o interior do estúdio. “Esteve em Manhouce, para escolhermos o reportório.” Relembra uma ocasião especial, “marcante não só para ele”, como para o próprio grupo. “Estávamos na escola primária, o local onde ensaiámos, um dos elementos fazia anos, era Inverno, estava frio. Fomos para casa desse elemento, fizemos uma fogueira, ele foi buscar um presunto. Olhe, a noite deixou de ser noite!”
“Cantares da Beira” foi gravado numa única sessão sem sobressaltos. “Apenas se pediu ao baixo que cantasse mais perto do microfone e fizesse com a voz aquilo que normalmente seria um bombo a fazer.” Dito desta maneira, não se adivinham as contingências que rodearam a presença do grupo nos estúdios de Paço de Arcos. “Chegámos de manhã e o disco estava gravado à tarde. As pessoas trabalhavam, saímos daqui á noite, chegámos a Lisboa às tantas da madrugada e às nove da manhã estávamos a gravar.” Aconteceu assim em todos os discos. Num deles, tinham mesmo marcado uma entrevista com o Presidente da República, então o general Ramalho Eanes. “Às quatro da tarde. Tínhamos estado no Brasil e trazíamos de lá uma mensagem para entregar. Cantámos na Sala dos Retratos e ainda bebemos um Porto.”
Depois de “Cantares da Beira” seguiram-se outras gravações. Com outros meios e uma produção mais forte, que no álbum de cantares religiosos tornou mediático o nome do Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce e famosa a sua voz principal, Isabel Silvestre. Nesta transição há quem considere que alguma da genuinidade (e ingenuidade…) original se perdeu, substituída pelo profissionalismo e pelo gosto de agradar. Isabel Silvestre nega que tal tenha acontecido. “A maneira de o grupo cantar as canções está absolutamente a mesma. Não sabemos cantar diferente. Fui uma das pessoas que estiveram sempre contra fazer-se arranjos. Disse mesmo: ‘Olha, se vocês fizerem isso, saio, imediatamente, não estou aqui a fazer nada.’ Temos realmente que pegar naquilo que nos foi legado e dá-lo a conhecer tal e qual. Não temos o direito de andar a desfazer aquilo que foi guardado durante tanto tempo.”
Isabel Silvestre, actual presidente da Junta de Freguesia de Manhouce, reparte o seu tempo entre o grupo e o Gabinete de Expressão Musical e Dramática desta localidade, onde faz recolhas, de Manhouce e da zona de Lafões. “Estou metida dentro de uma camisa de sete varas. Quase não tenho tempo de ter tempo para mim.”
Tem também publicado o livro “Cancioneiro Popular de Manhouce”, estando prevista a saída, em Setembro, de “Memória de Um Povo”, uma obra “mais completa”, onde faz um levantamento de “lenga-lengas, contos, ladainhas, provérbios e gastronomia” de Manhouce. “Tudo aquilo que faz parte desta terra e desta gente.”
Na forja está a edição, em Setembro, na EMI-VC, do seu primeiro álbum a solo, do qual, por agora, não quer adiantar pormenores, e de uma colectânea, “uma coisa ainda no ar”, a sair, talvez, no próximo Verão, dos Cantares de Manhouce.

Como é

Entre a pureza, por vezes rude e impenetrável, do “étnico” e a sofisticação do “trad. arr.”, o Grupo de Cantares de Manhouce transpôs com a maior simplicidade a ponte que une o rigor do estudo ao prazer da escuta descrompometida. “Cantares da Beira”, colecção ainda não maculada pelas garras e mandíbulas do mercado, é uma claridade que dia após dia corre o risco de se apagar. Se o método e escolha de reportório estavam aqui ainda longe de quaisquer preocupações de agradar aos ouvidos acomodados da cidade, como viria a acontecer no posterior “Cânticos Populares Religiosos” – um álbum destinado a enfileirar nas prateleiras de “world music”, ao lado das vozes búlgaras que então se faziam ouvir com força a ocidente -, o que se deve procurar em “Cantares da Beira” é, antes, a intimidade com as raízes, a não adulteração dos gestos e ciclos primordiais, a pureza infantil de dizer na voz activa o que a alma canta quando o corpo trabalha.
O Grupo de Cantares de Manhouce faz o que deveria ser feito em cada localidade deste país de esquecimento. Preservar e dignificar uma tradição. Mantê-la viva e actual e acarinhá-la. Transmiti-la de geração em geração como um elo que garante a identidade e a linguagem. Acontece assim, bem perto de nós, na Galiza. Acontece assim na Irlanda. Acontece assim em todos os lados onde a ideia de “civilização” ultrapassa a mera lógica mercantilista e contabilística. Manhouce tem a sorte de ter o seu grupo, como Carvalhais a sua tuna, ou o Alentejo os seus corais. Mas depois, quando os mais velhos desaparecerem, o que ficará? Quais e quantos os náufragos que sobreviverão ao naufrágio causado pela incultura, pela estupidez e pelo desinteresse oficiais de um Estado com o cadáver engravatado numa forca de Bruxelas?
Isabel Silvestre e o Grupo de Cantares de Manhouce cumprem uma tarefa de que outros se aproveitarão para facturar, sempre em nome do povo, sempre em nome da Kultura. Mas o que importa é que o seu canto, o canto de “Don Solidon”, “Ó meu amor quando fores” ou “Lá vem o vento da noite” chegue ao destinatário certo. Ao que, em silêncio, no bulício do século, no gesto ritual que amanha a terra, no devaneio da noite que o fogo aquece contra a pedra, demanda saciar-se na água da fonte.



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