Arquivo de etiquetas: Goran Bregovic

Goran Bregovic – Ederlezi (conj.)

26.06.1998
World
Quatro Casamentos E Um Funeral
Uma semana de colecções. De alta costura ou trapos de pronto a despir. Do chique dos Balcãs ao revivalismo inglês, com uma passagem a ferro das fardas célticas.

LINK

“Ederlezi”, subintitulado “Canções para Casamentos e Funerais”, reúne música composta por Goran Bregovic para bandas sonoras nos últimos dez anos. Constitui também o material de base utilizado pelo compositor servo-croata na sua recente apresentação ao vivo em Portugal. São cinco os excertos de OST (“Original soundtrack”) aqui incluídos: “O Tempo dos Ciganos”, “Arizona Dream” e “Underground”, todos de Emir Kusturica, com quem Bregovic mantém uma sólida aliança, “A Rainha Margot”, de Patrice Chéreau e “Toxic Affair”, de Philomene Esposito.
Composições do próprio Bregovic de sabor balcânico preenchem a maior parte desta colectânea, cuja curiosidade maior acba por ser a participação de algumas figuras da pop e da world music internacional. Assim temos Iggy Pop a cantar “TV Screen”, num registo tipo Bowie em “Cat people”, enfeitado por coros étnicos e um toque tecnológico. Cesária Évora interpreta “Ausência”, um dos momentos mais belos e deslocados do disco, enquanto a israelita Ofra Haza faz estremecer a voz de emoção religiosa em “Elo hi (anto nero)”. Mas a escolha mais estranha recai no “crooner” romântico mais bizarro de toda a história do rock, Scott Walker, que, precisamente, “croona” no seu modo de barítono da 5ª dimensão em “Man from Reno”. O actor Johnny Depp faz uma narração, toda filme negro, em “American Dreamers”.
Fora estes momentos de excepção temos a habitual mistura de fanfarras, baladas e cânticos dos ciganos dos Balcãs, montados umas vezes sem grandes artifícios, outras apoiadas em orquestrações, outras ainda programados cirurgicamente na mesa de mistura. Uma cor típica para um compositor atípico. (Mercury, distri. Polygram, 6.)

Típicos têm sido ao longo dos últimos 20 anos os Gwendal, grupo da Bretanha cuja particularidade é o facto de gostarem mais de tocar música irlandesa do que da sua terra natal. Gravaram um álbum decente em 1976, “À Vos Désirs”, onde combinavam com astúcia a folk de bombarda, violino e “biniou” com um jazz nervoso, fórmula que estenderam ao máximo no longo tema “Mon joli scooter”. A partir daí estenderam-se. Os sintetizadores entraram a matar, deteriorando progressivamente os álbuns posteriores. “Aventures Celtiques” (título original!) é uma colectânea que teve o bom gosto de seleccionar o lado mais “trad.” do grupo, incluindo temas que vão do álbum de estreia de 1974, “Irish Jig”, ao recente “Pan Ha Diskan”, de 1994 (vencedor do prémio Charles-Cros). Um tom de conteção cortado por idiotices como “Bee New” e “Le Reggae gai de Gueret”, onde as guitarras eléctricas lembram que Alan Stivell não está só na sua demência pimba. Apesar de tudo, um álbum simpático, de um grupo teimoso. E um casamento jeitoso. (EMI Music France, distri. EMI-VC, 7.)

“Celtic Voices” e “L’Imaginaire Irlandais” (títulos originais!) são duas montras da Keltia, editora instituição da Bretanha. Mas olhem, estas vozes e este imaginário são quase todos da Irlanda e de outras regiões britânicas. Em “Celtic Voices” são temas repescados de diversos álbuns de gente como Loreena McKennitt (que, por acaso, é canadiana…), The Iron Horse, Talitha McKenzie, Seamus Begley & Stephen Cooney, Tannas, Capercaillie, John Spillane, Altan, Noirín Ni Riain, Anúna, Karen Matheson e Kila. Pelo meio aparecem timidamente os bretões Skolvan e Dan Ar Braz. É um disco bonito e, garanto-vos, totalmente céltico.
“Límaginaire Irlandais” segue a mesma lógica estendal. Mistura coisas boas (Donal Lunny, Dervish, uma Máire Breatnach irreconhecível para melhor, Maighread Ní Dhomhnaill, Mary Bergin, Máire Ní Chathasaigh & Chris Newman) com coisas poprockchunga abomináveis (Picture House, Naimee Coleman, eleanor McEvoy, Revelino), coisas new age (Anúna), coisas country (Sinéad Lohan), coisas conhecidas e curiosas (Sinéad O’Connor a fazer hip hop), coisas que aprenderam com “Riverdance” (Stockton’s Wing). Enfim, coisas que acontecem quando o mercado pressiona… Um casamento precário e um funeral. (Keltia, distri. Megamúsica, 6 e 5.)

Coisas que não acontecem com os Steeleye Span, cuja integridade apenas sofreu ligeiros rombos num passado relativamente recente. “Original Masters” é um duplo álbum e aprimeira edição remasterizada de um dos grupos que, nos anos 70, revolucionou o conceito de folk nas ilhas britânicas. Embalado por um grafismo progressivo, ostentando com orgulho um som – finalmente – de luxo, a voz de Maddy Prior brilha a grande altura nesta colecção de preciosidades extraídas de uma mina cujos veios mais brilhantes abarcam os álbuns “Please to See the King”, “Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides Again”, “Below the Salt”, “Parcel of Rogues”, “Now We Are Six”, “Commoner’s Crown”, “All Around My Hat”, “Rocket Cottage”. Faltam peças da estreia, “Hark! The Village Wait”, mas, em compensação, temos o inédito “Bonny Moorhen” e uma versão ao vivo de “The Wife of Usher’s Well”. Um excelente cartão de visita a gritar para que remasterizem com urgência a discografia completa do grupo. Bodas de prata de um casamento feliz. (2XCD BGO, import. Virgin, 8.)