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Gonçalo Pereira Acelera Na Colectânea “Guitarristas”: Tricotar A Mil À Hora – entrevista –

24.04.1998
Gonçalo Pereira Acelera Na Colectânea “Guitarristas”
Tricotar A Mil À Hora
Da “Marcha Turca”, de Mozart, e dos “Jardins Proibidos”, de Paulo Gonzo, para uma formidável interpretação a solo, em disco e ao vivo, de um tema de inspiração escatológica, Gonçalo Pereira revela-se como um guitarrista que vai dar que falar.

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Gonçalo Pereira, 24 anos, autodidacta, é o guitarrista de Paulo gonzo. Na estrada e do álbum que fez furor no Verão passado, “Jardins Proibidos”, Gonçalo tocou já vezes sem conta. “126SC”, incluído na recém-lançada colectânea “Guitarristas”, e uma aparição ao vivo no Rock City revelaram-no como um guitarrista de extraordinários recursos. Em breve lançará o seu primeiro álbum a solo. Em Junho, na mesma altura em que vai sair o novo disco de Paulo Gonzo…

FM – Que significa “126SC”, o título do tema com que participa em “Guitarristas”?

GONÇALO PEREIRA – É melhor não dizer!… É “126 cagalhões”. Houve um engano na capa, o título original era “126 SC”, ou seja “sopa de cagalhão”. Nos ensaios o baterista queria tocar a música de maneira mais lenta. “126” é o número da batida. Ele queria tocar para aí a 113. Eu e o baixista não concordávamos nada e saiu mesmo assim, “126 cagalhão!”.

FM – Mas no disco toca os instrumentos todos, a guitarra, o baixo, os teclados e as programações…

GONÇALO PEREIRA – Teve que ser, porque, sem querer falar contra os meus colegas, havia um prazo estabelecido e eu fui o único que o cumpri.

FM – Esta sua primeira aparição a solo é um alternativa ao seu trabalho como músico acompanhante de Paulo Gonzo, na medida em que não teve que se submeter a qualquer tipo de controlo?

GONÇALO PEREIRA – O Paulo Gonzo não obriga ninguém a estar na sombra, antes pelo contrário, às vezes até nos vai buscar ao fundo do palco. Agora é verdade que, como músicos, temos que usar uma certa inteligência, saber-nos situar no contexto em que estamos. É um bocado saber equilibrar os pratos da balança. Com o Paulo Gonzo sou, como diz, bastante “controlado” pelo produtor, para fazer assim ou assado.

FM – Como é que apareceu a versão da “Marcha turca”, de Mozart, que tocou a quatro mãos, ao vivo, com o baixista, no Rock City?

GONÇALO PEREIRA – Quando comecei na guitarra, tive que provar primeiro ao meu pai que sabia tocar bandolim! A “Marcha turca” foi a primeira coisa que aprendi a tocar no bandolim. Tive que mostrar que tinha assimilado bem as coisas, para merecer a guitarra.

FM – Na ficha técnica de “Guitarristas” o seu nome aparece como Gonçalo “Tricot” Pereira. De onde lhe vem essa alcunha?

GONÇALO PEREIRA – Foi o Paulo Gonzo que me a pôs. Tem a ver com uma técnica, o “picado”, que usava muito nos ensaios. ele começava logo a gozar, fazia o gesto de tricotar: “Lá está ele no seu ‘tricot’. Olha, faz-me aí umas meias para o Natal!…”

FM – Quais são os seus heróis da guitarra?

GONÇALO PEREIRA – Há dois super-homens. O Steve Vai, um gajo indescrítivel, tanto na técnica como na expressão ou nas ideias loucas que lhe passam pela cabeça, e o Nuno Bettencourt, que é um pequeno monstro. Mas podia também falar dos Satrianis do costume.

FM – O que é mais importante para si, enquanto guitarrista, a técnica ou a expressão?

GONÇALO PEREIRA – Não só na guitarra, gosto de pensar como músico. Quando pego num baixo ou numa bateria, também tento fazer a minha música. O mais importante, e o mais difícil, é conseguir um bom balanço.

FM – A velocidade de execução é importante?

GONÇALO PEREIRA – Acho que sim. Há “n” pessoas, leigos, entre aspas, como a dona de casa que está a ouvir a rádio que, provavelmente, sentir-se-à cativada por uma coisa mais simples, tipo “canção de embalar”. Depois, há pessoas que precisam de outro tipo de estímulos, de ouvir uma malha muito mais virtuosa. No fundo, o mais importante é sentires-te realizado com o que stás a tocar, mas sem nunca esquecer quem nos está a ouvir. A questão é que a velocidade é superimportante, a necessidade de fazer coisas difíceis que, normalmente, estão associadas à rapidez. Quem disser que não gostava de saber tocar o “Voo do moscardo”, de Rimsy-Korsakov, ou a “Marcha Turca” do Mozart, ou é aldrabão ou preguiçoso. Ou invejoso. Mas um músico não tem que ser super-rápido para ser um supermúsico. O que é preciso é ter-se balanço, “groove”, conhecer-se a si mesmo.

FM – No Rock City estava cheio de adrenalina, superando as falhas técnicas do material, quase como uma vingança.

GONÇALO PEREIRA – Normalmente tenho muita adrenalina. E o tema que toquei pedia essa adrenalina. Se não a tiver, soa uma porcaria, como um exercício de estilo. Por outro lado, nessa ocasião, estava a ficar um bocado furioso com os problemas que estava a ter com o cabo da guitarra e com o amplificador. Consegui canalizá-los de uma forma positiva. Houve uma altura em que tirei o “jack” da guitarra e estive quase para me ir embora. Só que o público não tinha culpa e não merecia isso. Achei que devia, fui mesmo obrigado, a tocar o tema como deve ser.

Nota:
Guitarras em voo picado
No passado dia 15 o Rock City abriu as portas às guitarras eléctricas, na festa de lançamento da colectânea “Guitarristas”, editada pela Tornado/Música Alternativa. Foi a noite dos guitarristas de “segunda linha”, apostados em mostrar que, pelo menos em termos técnicos, são tão bons ou melhores que os consagrados. Entre eles, dois consagrados. Um deles Rui Veloso, que esteve em grande naquilo em que é melhor, os blues. Veloso participa na colectânea, em “Out Blues”, com António Mardel e João Allain. O outro foi Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, que também se divertiu numa dessas “jamas” de ocasião.
Mas um nome se destacou dessa longa noite, em qu eprevaleceram duas facções musicais, o heavy metal e o jazz de fusão: Gonçalo Pereira, “axeman” da banda de Paulo Gonzo. Um cabo de guitarra defeituoso não o impediu de deixar toda a gente abananada com uma versão da “Marcha turca” de Mozart tocada a quatro mãos com Dick. Já com um cabo em bom estado Gonçalo Pereira disparou um solo lancinate, em “126SC”, o tema com que participa na colectânea. Foi esse o momento mais alto de uma noite onde também estiveram presentes Miguel Mascarenhas (da banda de Rui Veloso), Luis Fernando (Adelaide Ferreira), Luis Arantes (Rap, D. Season), Luis Moreno (Doutores e Engenheiros), António Mardel (Belusíadas), Renato Gomes (UHF), Zé Pino (Blue Jeans), Alexandre Manaia (GNR, Pedro Abrunhosa), Paulo Barros (Tarântula), Domingos Caetano (Íris), Tiago Reis (Gang), Carlos Pires (Mercuriocromos), João Allain (Go Graal Blues Band), Tarot (Jack Sun Five), Hugo Sá (Álibi) e João Lopes (STS Paranoid). Já quase no final a coisa baixou um pouco de nível, com versões de Supertramp e Queen e um sósia de Robert Plant a cantar “Knockin’ on heaven’s door”, de Bob Dylan. Não chegou para quebrar uma noite de peso em que as guitarras voaram em voo picado.

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Gonçalo Pereira Edita “Upgrade”

04.02.2000
Gonçalo Pereira Edita “Upgrade”
Guitarra Ponta-De-Lança


gp

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“Upgrade” é o segundo álbum de Gonçalo Pereira, antigo guitarrista de Paulo Gonzo. Um álbum de guitarra, mas também de histórias pessoais onde cabem o “Movimento Perpétuo” de Carlos Paredes e um olhar sobre o mal vivido durante a crise de Timor, onde utiliza o intervalo do diabo.

“Upgrade” foi lançado no mercado aproximadamente um ano depois da estreia deste executante virtuoso da guitarra eléctrica, “Tricot”. Para Gonçalo Pereira trata-se, de facto, de um “upgrade” (melhoramento) do disco anterior, fruto do contacto que manteve durante este intervalo de tempo com o seu público. “Este CD foi um bocado moldado e composto, tendo em consideração os gostos do público que me é fiel.” Que gostos são esses? “As pessoas procuram no meu tipo de música um escape. Poderem entrar por um tema dentro, para uma espécie de sonho, uma viagem. Não é o típico disco com temas de três minutos feitos com a preocupação de passar na rádio.”
“movimento Perpétuo”, uma versão em guitarra eléctrica de um original de Carlos Paredes, dura 1m28; logo a seguir, “O Mal” demora dez minutos a exorcizar o “Mefistófeles que existe dentro de cada um de nós”. “movimento Perpétuo” já andava no pensamento de Gonçalo Pereira há algum tempo. “É um dos temas mais puxados, em termos técnicos, que o Carlos paredes compôs, que comecei a trabalhar por desafio”, explica o guitarrista para quem o virtuosismo não é um acto gratuito, mas uma necessidade interior. “Não é uma preocupação”, garante. “O mais importante é o ‘feeling’, o sentimento.” Além de Paredes, Steve Vai, Nuno Bettencourt, Joe Satriani e Paco de Lucia são outros dos seus heróis da guitarra. Guitarristas velozes.
Gonçalo, considerado o “melhor guitarrista português”, há dois anos, pelos leitores da revista “Raio-X”, não nega o gosto pela velocidade de execução, mas ainda aqui apenas pelo “gozo de sentir o controlo sobre o instrumento, de modo a poder fazer tudo o que a inspiração sugere”. “É como jogar à bola, há posições no terreno que dão mais prazer do que outras. Os putos, quando jogam à bola, ninguém quer ir para a baliza, querem ir todos lá para a frente marcar golos, precisam da adrenalina, da acção.” Gonçalo Pereira gosta demarcar golos com a guitarra, um verdadeiro ponta-de-lança, embora não se considere um “fundamentalista”. Para manter a forma como atacante, Gonçalo Pereira treina guitarra todos os dias, de há 12 anos a esta parte.
Todos os temas de “Upgrade”, compostos pelo próprio, partem de “episódios vividos” e resultam de uma crença: “A música instrumental tem uma beleza rara, capaz de estabelecer uma cumplicidade enorme com o ouvinte, sem a imposição da letra.” O tema “O mal” foi composto “numa altura em que a situação de Timor se estava a agudizar” e foi gravado no Verão “em que aconteceu todo aquele rebuliço das guerrilhas”. Gonçalo Pererira usou neste tema o “trítono”, o intervalo do diabo, uma quarta aumentada, que 2na Idade Média levava os compositores à fogueira”.
“Upgrade” já anda a ser tocado na estrada desde Outubro do ano passado. Esteve em Lisboa nos auditórios das lojas Valentim de Carvalho e da Fnac numa minidigressão que passará em breve pela Virgin. A primeira edição, de 2000 cópias, já está esgotada. “Mais do que muitas bandas nas quais se aposta muito e depois se revelam ‘flops’.”
Gonçalo Pereira, além de tocar e compor, dá aulas particulares de guitarra. Eléctrica e acústica. No horizonte paira a possibilidade de gravação de um álbum “unplugged”. Para já será lançado um vídeo didáctico de técnica de guitarra, o primeiro deste tipo feito em Portugal, destinado tanto a iniciados, como a alunos mais avançados. Mais tarde poderá surgir uma banda de rock, com vocalista, com “uma química de equipa”. “’Upgrade’ é a penas uma gaveta da minha cabeça”, explica. “O projecto onde me masturbo, sem me importar se vão gostar ou não. Um projecto de culto.”

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