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Vários – “In Memoriam – Gilles Deleuze” + “Vários – “Folds and Rhizomes for Gilles Deleuze”

Pop Rock

23 de Outubro de 1996
poprock

Rizomas na interzone

VÁRIOS
In Memoriam – Gilles Deleuze (8)
2xcd Mille Plateaux, distri. Symbiose
Folds and Rhizomes for Gilles Deleuze (7)
Sub Rosa, distri, Symbiose


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Gilles Deleuze, autor de “Rhizome” e “Mille Plateaux” (aproveitada para nome da nova editora), entre outras obras, suicidou-se em Novembro do ano passado, pondo termo a uma longa doença. Sempre foi figura cara aos experimentalistas das sonoridades electrónicas de sinal ameaçador. De uma só assentada, fizeram-lhe duas homenagens. A primeira é estimulante, aliando a teoria filosófica à prática musical. A segunda é mais modesta mas não menos interessante, de um ponto de vista exclusivamente musical.
No tema inicial de “In Memoriam”, o filósofo em pessoa enuncia a metáfora fundamental: “Começar pelo primeiro princípio é um pouco um método que evoca o modelo da árvore: procura-se em primeiro lugar a raiz. Mas existe um segundo método, ou um segundo modelo, que é o da erva. A erva cresce pelo meio.” É vago mas sugestivo, adaptando-se a todo um conceito sobre a origem e a funcionalidade da música. Aparece tudo escrito, de forma convincentemente complexa e confusa para um leigo, no texto assinado por Achim Szepanski, que acompanha a edição grossa em digipak.
O tema central é o da máquina, logo, do corpo, biológico e da obra de arte. Logo, da música electrónica. Vinte e seis nomes, entre os quais os Zoviet France, Cristian Vogel (da escuderia Recommended), Atom Heart, Chris & Cosey (dois ex-Throbbing Gristle), Trans AM, Jim O’Rourke (produtor de “Rien”, o novo álbum dos Faust), DJ Spooky, Oval (autores de uma recente remistura dos Tortoise) e Scanner, estendem a música electrónica para além dos limites do ambientalismo, do industrialismo e da música computacional, criando fórmulas onde a sistematização matemática se alia à linhas energéticas do acaso. Música de máquinas. Música do corpo. “O que significa fazer música electrónica? Que a matemática é a base de toda ela, a regra, o algoritmo? Que é música que acontece no universo dos sintetizadores, monitores, midis, computadores? A outra questão é: como é que a música electrónica funciona? Esta segunda questão não é redutível à primeira, antes segue um modelo paradoxal: tornar audível o inaudível (…) lidando com coordenadas como ‘retardamento’, ‘velocidade’, ‘sobreposição’, ‘desfasamento’, ‘condensação’… ou seja, com as funções e componentes do som.”
Compreende-se. A vibração electrónica faz parte do domínio virtual, não existindo na natureza. A criação no universo electrónico processa-se – ou é – através da manipulação de ondas e de informação. Manipulação do tempo e do caos. Na música electrónica (como é perspectivada neste disco, bem entendido) o meio confunde-se com o corpo sonoro, escultura sónica, criando no instante as suas próprias regras e os seus acidentes.
Curiosamente, o título do segundo álbum – da série “Diários utópicos”, da Sub Rosa (com quatro longas faixas dos Mouse on Mars, Main, Oval e Scanner, terminando num pósfacio de David Shea com Tobias Hazan) – complementa a metáfora da árvore. O rizoma é o caule subterrâneo, coberto de escamas em vez de folhas, que cresce no subsolo. Ou na “interzone” mental, zona virtual de poder que Burroughs e Cronenberg formalizaram em “O Festim Nu”. “On the edge of a grain of sand” é o título sintomático da contribuiçao dos Zoviet France, pioneiros do obscurantismo sónico que veio pôr um novo (e mais sombrio) acento na música concreta, no ambientalismo e nos novos acusmáticos (Biota, Steve Moore, PGR, Jocelyn Robert). Implosão e explosão. Ordenamento das moléculas musicais em redor de um buraco negro central. O sentido é o das forças e pulsões organizacionais da máquina e da energia, mas também o da “rautschen” (“murmúrio”) subliminar, deleuziano. Não confundamos esta estética da divinização da máquina (Deus “ex machina”) com o aparecimento de outra corrente recente da música electrónica que evoluiu a partir do ambientalismo, a sugestivamente designada “Sombient” ou “Ambient noir”, localizada nas margens do silêncio e do vazio siderais, derivação da new age da Hearts of Space para o subsom da “Fathom”, presente nos últimos trabalhos da Robert Rich (com Brian Lustmord) e Steve Roach. “Sombient”, que possui já o seu manifesto na colectânea “The Throne of Drones”, sobre a qual escreveremos proximamente.
Geograficamente, “In Memoriam” posiciona-se nos antípodas de Brian Eno. Uma e outra música elabora sobre o tempo e a sua anulação/transgressão. Mas enquanto o autor de “Apollo Atmospheres” encara a eternidade, concertando o fluir dos acontecimentos sonoros num dispositivo sem princípio nem fim, evoluindo a partir de uma noção de intemporalidade, os maquinistas da sombra jogam, com idêntico objectivo, em conceitos como repetição (seria útil a análise da obra de Deleuze “Diferença e Repetição”, ciclicidade e programa.
Na música de Eno a máquina tende a anular-se. O som tem como limite ideal o desaparecimento do sujeito que o produz. Nos homenageantes do filósofo, a despersonalização funciona de maneira inversa. A máquina é o centro, a voz, o ‘fiat lux’ e o filtro condutor de toda a “praxis” sonora (e filosófica…). Eno representa, na terminologia deleuziana, o método da árvore que cresce em direcção à luz. Os seus discípulos músicos seguem o modelo do rizoma, evoluindo de forma tentacular rente ou debaixo do solo. Qualquer destas duas concepções ambiciona, como já referimos, a criação de um corpo novo. O corpo crístico, num caso. A mutação do corpo, tornado apenas carne, no sentido cronenberguiano, no outro.
“In Memoriam” é um manifesto perturbante e musicalmente arrebatador do Apocalipse mediático visualizado por McLuhan e desmontado por Deleuze. A máquina, o homem-máquina são, então, o órgão e o veículo que, extrapolando as palavras do filósofo, “libertam um puro acontecimento, livre de acidentes da vida interior e exterior, isto é, da subjectividade e da objectividade do que acontece”.