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Susana Seivane – “Susana Seivane” + Alain Pennec – “Turbulences” + Skeduz – “Livioù” + La Marienne – “Chap’Ti, L’Va Loin” + Gentiane – “Musique d’Auvergne” + Garmarna – “Vedergällningen”

Sons

24 de Setembro 1999
WORLD – FOLK


Os Pecados da Casta Susana


ap

As estatísticas não mentem: Já há, pelo menos tantas mulheres como homens a tocar gaita-de-foles na Galiza. A tradição já não é o que era, diz-se, e parece que é verdade. Acautelem-se, portanto, Nuñez e Gudiños, as novas estrelas estão aí, vestem saias e prometem não descansar enquanto o seu domínio não for absoluto. Descontando o exagero, a verdade é que se assiste ao despontar, na Galiza, de uma nova geração de gaiteiras cuja técnica rivaliza com a dos seus congéneres masculinos. E se Cristina Pato terá razões para se queixar, no seu disco de estreia, de uma produção desastrosa, já Susana Seivane tem motivos de sobra para se regozijar. Aos primeiros sons de “Susana Seivane”, em “Jotabé” ou na sensual “Xota de Niñodaguia” (Kathryn Tickell que se cuide!) torna-se claro que não aprendeu a tocar gaita ontem (na realidade já o faz desde os quatro anos de idade, quando o pai e o avô a presentearam com um instrumento especialmente desenhado para ela). E que comentários tecer quando a ouvimos tocar, no sempre difícil registo lento, do modo como o faz, em “Muiñeira do muiño de Peizás”? Está lá tudo: fluência e uma prodigiosa riqueza do timbre e das ornamentações, a par de uma originalidade rigorosamente cultivada sem a qual é já hoje difícil a qualquer gaiteiro galego evidenciar-se no meio da imensa concorrência. Acompanhada por quatro elementos dos Milladoiro, a bela Susana (ver foto da capa) deslumbra nesta estreia que, mais do que auspiciosa, constitui já um clássico na moderna música de raiz tradicional galega. (Do Fol, distri. Farol, 9)

Reputado executante do acordeão diatónico, que adoptou nos finais dos anos 70, depois de abandonar a bombarda e a gaita-de-foles, a frequência regular das festou-noz e as fileiras dos Sonerien Du, Alain Pennec enveredou por uma carreira a solo da qual já recolhera dividendos no excelente “Alcoves”. Em “Turbulences” retoma o imaginário céltico trabalhado em moldes inovadores através de uma selecção de temas que abrange Bach, Dan Ar Braz, composições próprias e da harpista Aurore Breger (em evidência nos belíssimos “Trois garçons du Lion d’Or” e “Luna llena”, poalha de estrelas capaz de atrair as fadas) e os inevitáveis tradicionais, da Bretanha mas também dos Balcãs, como em “Taraf de trentemoulk”, ou da Escócia, em “The Abercairney highlanders”, com o acordeão a desdobrar no solo e no acompanhamento do bordão tradicionalmente desempenhados pela gaita-de-foles. “The white petticoat”/La jig de la guilde/Lost by Laggan moor” entra nos domínios do folk rock mas os puristas sentir-se-ão recompensados com uma “Suite plinn” como mandam as regras. (Keltia, distri. Megamúsica, 8)

Também da Bretanha, os Skeduz mostram-se menos excitantes que Pennec neste seu segundo álbum de genérico “Livioù” (“Cores”). Armados com os tradicionais bombarda e gaita-de-foles (a biniou-koz bretã), não se permitem grandes ousadias, contentando-se com o arredondamento rítmico das percussões e da guitarra, demasiado “light” para o nosso gosto, ou com a introdução de algum exotismo, como em “Liv”, estranha união do canto bretão com a hipnose das Arábias. Uma produção algo débil contribui para que “Livioù” não seja de molde a provocar grande entusiasmo. (Keltia, distri. Megamúsica, 6)

Ainda da Bretanha neste caso das ilhas Vendée e com um enfoque diferente, chegam os La Marienne, formados em 1979, como parte da Association de Recherche et d’EXpression pour la Culture POpulaire” de Vendée (A. R. EX. C. PO.). “Chap’Ti, L’Va Loin” foi editado em 1986, mas só agora encontrou lugar nos escaparates nacionais. Mas como mais vale tarde do que nunca, justifica-se plenamente uma audição atenta desta combinação, absolutamente deliciosa, de sanfona, gaita-de-foles, violino e acordeão diatónico – principais instrumentos solistas – com sabor a mar, teatro de histórias umas vezes felizes, outras tenebrosas, desenroladas entre neblinas misteriosas e lugares insondáveis. Onde os La Bottine Souriante se riem na praia os La Marienne dançam de noite no meio de feiticeiras no alto das falésias. (Mémoire des Vendées, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Mas a França não é só a Bretanha, prova-o a existência de uma tradição ilustre de grupos que contribuíram para a importância de que a folk francesa goza hoje no panorama europeu. E se é indiscutível que Alan Stivell foi o primeiro embaixador gaulês no velho continente não é menos verdade que, desde muito cedo, as atenções começaram a recair no resto do hexágono, em nomes como os Malicorne, Mélusine, Maluzerne, Le Grand Rouge ou La Bamboche, para nomear apenas os principais. Os Gentiane pertencem a essa fornada, com uma formação de luxo da qual fazem parte Jean Blanchard e Bernard Blanc, dos La Bamboche, e Emmanuelle Parrenin, dos Mélusine. “Musique d’Auvergne”, gravado originalmente para a editora Cezame em 1976, concentra-se no reportório da região de Auvergne, privilegiando as danças (bourée, valsa, mazurka, marcha, scottish) e, segundo as notas de capa, a “combinação original de instrumentos, a par da pesquisa ao nível dos arranjos e a valorização de temas menos conhecidos”. Os amantes da sonoridade da cabrette (uma das várias modalidades de gaita-de-foles francesas), superiormente executada por Blanchard (um dos nomes mais importantes de sempre da folk francesa), e da voz multitexturada de Parrenin (que também toca sanfona e espineta) encontrarão em “Musique d’Auvergne” – álbum complementar do seminal “Le Galant Noyé” do colectivo do clube “Le Bourdon”, do qual, aliás, a cantora fazia parte – motivos de sobra para entrar em órbita. Heréticos, abstenham-se. (Music & Words, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

E como o Inverno está à porta, nada melhor do que abrir a porta do frigorífico e deixar entrar ar, da Escandinávia, através do mais recente trabalho dos Garmarna, “Vedergällningen”, no qual, é triste dizê-lo, se deixaram, desta feita sim, infectar pela síndrome Hedningarna. Tecnofolk e o adequado naipe de vozes femininas (na realidade é apenas uma, de Emma Härdelin, mas houve o cuidado de a gravar em multipistas para parecer um coro…) preenchem tempo e gastam a paciência até se chegar a coisas mais relevantes como “Halling Jaron” ou “Sorgsen ton”. Mais em virtude da qualidade intrínseca dos temas (tradicionais) do que pela originalidade da interpretação, usado e abusado pelas Värtinnä. “Herr holkin” é assustadoramente medíocre e “Bläck” mostra que os Garmarna estão atentos aos truques de produção em voga. Bill Laswell e Jah Wobble, estão à espera de quê para deitar as mãos aos Garmarna? Já se nota a falta do álbum de remisturas… (Massproduktion, distri. MC – Mundo da Canção, 6).



Hedningarna – “Hippjokk” + Garmarna – “Guds Spelemän”

POP ROCK

12 Março 1997
world

Companheiros de escola

HEDNINGARNA
Hippjokk (8)
Silence, distri. MC – Mundo da Canção

GARMARNA
Guds Spelemän (8)
Xxource, distri. MC – Mundo da Canção


hed


gar

Olhem lá para a pinta de malucos dos meninos. São os suecos Hedningarna, a coqueluche da música, hã…, tradicional escandinava, no seu muito aguardado regresso discográfico, agora reduzidos a um trio. Quer dizer que neste seu novo álbum os três meninos – Anders Stake, Hällbus Totte Mattsson e Bjӧrn Tollin – ficaram sem as meninas, Sanna e Tellu, as bruxinhas boas dos anteriores e fabulosos “Kaksi” e “Trä”. Foi-se também embora a sanfona assassina (se calhar explodiu mesmo…). A loucura instrumental, essa, permanece, se bem que, agora, num registo mais normalizado e, por isso, menos escandaloso. Além disso – surpresa –, as vozes de Stake e Mattsson cumprem satisfatoriamente o registo de arrebatamento xamânico característico dos Hedningarna, tarefa que antes pertencia à falange feminina.
Fazendo o ponto da situação, temos que o grupo sedimentou um estilo que tem vindo a fazer escola, não só no seu país de origem: um tribalismo exacerbado – nalguns casos de ressonâncias quase africanas – que, paradoxalmente, levando em conta a evolução sofrida pelo grupo de “Kaksi” para “Trä”, dispensa nesta sua nova fase, quase por completo, a componente electrónica. Nesta medida, “Hippjokk” pode ser encarado como um retorno discreto às proximidades da tradição, como acontecia no álbum de estreia, “Hedningarna”. Algo que se pode verificar com nitidez em temas como “Dufwa” ou “Skåne”, o que poderá significar uma tomada de consciência quanto ao esgotamento de uma fórmula de ruptura que terá atingido em “Trä” os seus limites.
Poderoso, como seria de esperar, mais do que nunca apoiado no frenesim das percussões (estonteantes, faixas como “Bierdna” ou “Kina”), “Hippjokk” deixa de fazer da estratégia de choque uma questão de honra, ao mesmo tempo que mostra que os Hedningarna estão bem se saúda, provavelmente até libertos do peso de uma responsabilidade que os obrigava a transportar, sozinhos, o fardo da revolução.
Libertos de qualquer pressão, os Garmarna prosseguem, por seu lado, o seu caminho de renovação da música de raiz tradicional sueca, neste caso ainda com a voz de Emma Hårdelin a conferir uma força adicional às polifonias colectivas, “drones” de sanfona, samplagens e percussões etno-rock que tornam único o som dos Garmarna, inovadores dentro da tradição sueca, sem contudo a atirarem pela borda fora, como, apesar de tudo, ainda fazem os Hedningarna. Todavia, a aproximação entre estes dois grupos faz-se sentir em temas como “Min man”, “Varulven” ou “Herr Holger”, fenómeno de simbiose, não de todo desejável, provocado pelo atrás mencionado “efeito de escola” dos autores de “Kaksi”, o que não acontecia no anterior álbum dos Garmarna, “Vittrad”. Apetece dizer que os Garmarna, num altura em que os Hedningarna parecem ter chegado a uma encruzilhada, foram buscar influências a “Kaksi” e “Trä”, assumindo-se como os continuadores de um trabalho ainda com novas potencialidades por explorar.
“Hallings” da Noruega, um poema do povo “saami”, baladas medievais, histórias de lobisomens e tragédias de família desdobram-se nos tons de vermelho que se tornou a cor fundamental, tanto da embalagem como dos sons, de “Gude Spelemän”. Os Garmarna decidiram trocar a poesia pela energia.





Varttina – “Aitara” + Garmarna – “Vittrad” + Henry Kaiser & David Lindley – “The Sweet Sunny North”

Pop Rock
18 de Outubro de 1995
Álbuns world

Vida para além dos Hedningarna

VÄRTTINA
Aitara (8)

Xenophile


varttina

GARMARNA
Vittrad (9)

Xxource


gar

HENRY KAISER & DAVID LINDLEY
The Sweet Sunny North (8)

Kosh International
Todos distri. MC-Mundo da Canção


hk

O sucesso estrondoso alcançado pelos suecos Hedningarna acarretou algumas vantagens mas também algumas desvantagens. A principal vantagem foi ter chamado a atenção para uma região, a Escandinávia, cuja música tradicional andou sempre afastada dos principais centros de decisão do mundo “folk”. A maior desvantagem está em que, rapidamente, um número razoável de grupos da mesma proveniência geográfica descobriu o filão e tratou de “imitar” os autores de “Kaksi!” e “Trä”, transformando numa fórmula o que na origem era uma música profunda e genuinamente original. O “perigo” da criação do que poderíamos chamar uma escola Hedningarna, por muito boa que seja a música de grupos como os Den Fule ou Hoven Droven (só para citar os mais aplicados), está na normalização, padronização, do que seria um “som escandinavo”. Algo que poderíamos situar no cruzamento da herança tradicional com uma prática estilística firmemente enraizada no jazz (cujos paradigmas recuam ao pioneirismo dos Sammla Mannas Mama e Arbete & Fritid), a par de uma certa “anarquização” (leia-se “selvajaria”) dos arranjos. No caso dos Garmarna, as semelhanças com os Hedningarna são até bastante ténues. É antes na música medieval ou no imaginário “folk” imposto pela vaga irlandesa dos anos 70 que a música de “Vittrad” se afirma.
Por muito que a terminação fonética seja a mesma, a verdade é que os Garmarna se dirigem a gostos educados num passado mais remoto, que assistiu já a várias “revoluções”. Depois, nem a sanfona explode nem a voz de Emma Härdelin pertence à tribo das feiticeiras, como fica amplamente demonstrado em temas de uma beleza interiorizada como “Inte sorja vi…”, “Liten kersti” , “Domschottis” e “Styvmodern”, bem mais chegados às litanias rosa-gelo de Agnes Buen Garnas, em “Rosensfole”, que ao furor “viking” dos diabos de “Trä”. Em poucas palavras: excepcional.
As Värttina são outra coisa, mais solar e, a julgar por este seu quarto álbum, divertida. Depois dos magistrais “Oi Dai” e “Seleniko”, o grupo vocal, de novo apoiado numa secção instrumental variada, regressa de cara lavada e decidido a investir num alargamento de mercado. Em “Aitara”, as Värttina aumentaram a voltagem e arredondaram as arestas rítmicas. São agora uma banda folk-rock (“Outona omilla mailla” e Kannunkaataja” a passarem na rádio, numa emissão rock?…). Sem vergonha. Com a bateria e o baixo a baterem com força. Forçam a dança, sem hipótese de resistência. Mas, ó maravilha, no camiho da euforia, o ritmo tropeça em momentos como “Maamo” (“mãe”) e silenciamo-nos e sabemos que a Finlândia ancestral continua a respirar na alma destas sacerdotisas. As Värttina estão, é certo, mais cosmopolitas e sofisticadas, o que retirou à sua música um pouco da sua coloração “étnica”, patente nos álbuns anteriores. Mas apostamos que “Aitara” trará para o grupo uma legião de novos admiradores.
Por fim, temos o “caso” Kaiser, Lindley e o seu “affaire” Noruega. Henry Kaiser e David Lindley são dois americanos com um pé nas “novas músicas” e outro na música tradicional. Como todos os americanos que se prezam, sentem-se bem no papel de turistas. Só que, para eles, não é só ver e fotografar. Metem as mãos no fogo, que é como quem diz, no melhor que a música tradicional das regiões que visitam tem para oferecer, e com ele fazem “cocktails” de originalidade e, diga-se de passagem, legitimidade garantidas. Como já acontecera na anterior aventura, em dois volumes, passada em Madagáscar (“A World out of a Time”), a dupla reuniu alguns dos melhores grupos e solistas vocais e instrumentais, desta feita da Noruega, nalguns casos não lhes tocando, noutros metendo a colher, isto é, guitarras de todo o tipo, para obter exóticos exemplares de “world music” de focagem incerta. Mais uma vez, levam na bagagem bastante que contar e uma obra que é, em simultâneo, um tratado de etnomusicologia e um divertimento.