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Fridge – “Eph” + Labradford – “E Luxo So”

Sons

22 de Outubro 1999
POP ROCK


Atom Darth Vader

Fridge
Eph (9)
Go Beat, import. Lojas Valentim de Carvalho
Labradford
E Luxo So (8)
Blast First, import. Lojas Valentim de Carvalho


fridge

lab

Com “Ceefax” e “Semaphore” os Fridge já tinham lançado o aviso de que são uma banda para seguir de perto, capaz dos mais altos voos. E se qualquer destes álbuns dava já indicações de estarmos perante um grupo que não se contenta em seguir os mandamentos do pós-rock, com as obrigatórias vénias ao krautrock ou ao Progressivo, o novo “Eph” explode como uma estrela em direcção a um sinfonismo electrónico tingido pelo jazz e por uma pop instrumental estratosférica. Sim, pop, leram bem, mas uma pop com a forma de vapores, perfumes e cintilações desconhecidos na Terra. “Ark” abre o disco com pulverizações de uma beleza asfixiante, aumentando progressivamente de densidade e deixando entrar elementos residuais, segundo o método Biota/Mnemonists, até ao sufoco final. “Meum” é ambiental, minimal, cristal, claustro, zen, new age para curar robôs neuróticos. O ritmo fragmenta-se e surgem vozes interceptadas do éter, em “Transience”, antes de uma lenta ascensão conduzir a lugares que seria melhor evitar. O psicadelismo entrou no pós-rock com este tema monumental. Em “Of” o espectro de um avião Concord revela uma paisagem bucólica/minimalista habitada pelos Biosphere. Refracções, feedback e delay obscurecem “Tuum” que, em “Sad ischl” deriva para uma incursão de saxofones jazzy à la Tuxedomoon (de “Desire”) sobre harpejos de sintetizador analógico e uma melodia celebratória do crepúsculo da Europa que traz ecos de “Desperate Straights”, da conjunção Henry Cow Slapp Happy. “Yttrium” consegue aquilo que os Stereolab andam há anos a tentar: a “easy listening” do futuro. O longo tema derradeiro, “Aphelion”, começa por instalar-se nos territórios do free rock abertos pelos Isotope 217º e Supersilent, uma música visceral com raízes na estética de jazz tribal cultivada pelo selo ESP nos anos 60, para finalmente entrar, e nunca mais sair, num mantra psicadélico de violinos que levantam o pano do teatro de música eterna de LaMonte Young. O que os Tortoise deixaram por fazer em “TNT” lograram os Fridge concluir de forma admirável com “Eph”, o pai do pós-rock sinfónico, o guerreiro-vilão, como Darth Vander, capaz de manejar o lado negro da força. A capa, curiosamente, lembra “Atom Heart Mother”, dos Pink Floyd, sem a vaca.
O novo dos Labradford dá sono. Mas calma, não se vão já embora! Acontece que “E Luxo So” é o álbum mais terapêutico que ouvi nos últimos tempos. O sono chega como uma bênção para nos mergulhar num estado de semi-realidade onde os sons são como nuvens que se formam e desfazem adquirindo as formas que a imaginação lhes quiser dar. Mais ainda do que no anterior “Mi Media Naranja” os Labradford deixam falar o silêncio através de guitarras reverberantes, pianos e cordas hipnóticos e electrónica soporífera. No tema nº 3 (sem título, como todos os outros), a música sugere uma junção de Roger Eno com “Alan’s psychedelic breakfast” um tema dos Pink Floyd, de novo do álbum “Atom Heart Mother, enquanto o nº 6 poderia ser uma vinheta de “Another Green World” de Brian Eno. Mas quando julgamos poder descansar neste estado de contemplação algo avisa de que uma realidade diferente pode estar escondida por detrás: zumbidos, frequências quase inaudíveis atravessam periodicamente “E Luxo So” como sinais provenientes de outra dimensão. Percebemos então que o que os Labradford fazem é empurrar-nos suavemente para o outro lado do espelho.



Fridge – Happiness

12.10.2001
Fridge
Happiness
Domino, distri. Ananana
6/10

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Do pós-rock, versão kraut britânico, de “Ceefax”, os Fridge reforçaram a componente electrónica nos dois álbuns seguintes, os magníficos “Semaphore” e “Eph”. “Happiness” tenta a surpresa, compondo uma imagem mais seca e acústica, ilustrada por títulos descritivos como “Drum machines and glockenspiels”, “Sample and clicks” ou “Drums bass sonics and edit”. A ênfase posta na descrição dos meios técnicos utilizados, aliada à divisão do tempo no tema de abertura, “Melodica and trombone”, remetem para “Four Organs/Phase Patterns”, supra-sumo do minimalismo, com assinatura, ainda nos anos 60, de Steve Reich. Mas o programa diverge no que resta de “Happiness”, um desfile de acordes de guitarra cansada e compassos tirados da sebenta do pós-rock, ocasionalmente cortados por breakbeats marotos ou, em “harmonics”, pedaços da orquestra do Café Pinguim. Não chega para proporcionar a felicidade.

Fridge – Semaphore

08.05.1998
Fridge
Semaphore (7)
Output, import. Lojas Valentim de Carvalho

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O pós-rock está a chegar à idade adulta, a julgar pelos mais recentes trabalhos dos Tortoise, Trans AM, Ui, Gastr Del Sol e Tone Rec. A esta elite não se juntam, por enquanto, os Fridge que, depois de “Ceefax”, um álbum que terá feito as delícias dos incondicionais dos Neu!, atingem, no entanto, neste seu terceiro álbum, a maturidade capaz de os libertar do peso excessivo das influências. “Semaphore”, embalado numa vertiginosa sequência de fotografias destituídas de mensagem (“Ceefaz” era todo branco, à maneira dos Faust), arranca com uma batida mecânica, fazendo gala de uma agressividade que a seguir se diluirá num gosto acentuado pelo ambientalismo. Consumada a marca do “krautrock” restava ao Fridge enveredarem por vias mais pessoais que passam aqui pela descoberta da melodia em desenvolvimento de guitarras que se deixam adormecer em “grooves” demetal. Por vezes a música recorda um grupo como os Dif Juz (uma das pérolas menosprezadas da 4AD dos anos 80), noutras são ainda os Neu!, no seu lado mais amplo e aquático, de “Neu!75”, a fazer sentir a sua presença. Na conjugação e alternância deste lado cinematográfico da sua música com temas com base em programações electrónicas (semelhantes, na forma, aos utilizados pelos Trans AM no recente “The Surveillance”) constroem os Fridge a sua auto-estrada sinalizada por semáforos de nevoeiro.