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Fred Frith Guitar Quartet – “Upbeat”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


Fred Frith Guitar Quartet
Upbeat (7)
Ambiances Magnétiques, distri. AudEO


ff

Um pouco como fez Robert Fripp com a sua League of Gentlemen, também Fred Frith reuniu o seu próprio “ensemble” de guitarras, com a diferença de que, enquanto o guitarrista dos King Crimson distribuiu tarefas por alguns dos seus alunos, o antigo guitarrista dos Henry Cow chamou para seu lado três instrumentistas de créditos firmados: René Lussier (ex-Conventum), Nick Didkovsky (Doctor Nerve) e Mark Stewart. “Upbeat” é uma demonstração feliz do que pode ser feito com uma guitarra eléctrica, a solo – cada um dos músicos teve uma faixa à disposição – ou em trabalho colectivo. Experiências com “drones”, fragmentações harmónicas e tímbricas, desmultiplicações rítmicas, exploração de sonoridades e técnicas de execução pouco ortodoxas, ao estilo da série “Guitar Solos” organizada há anos pelo próprio Frith, criam momentos de interesse e intensidade variada, no que constitui um objecto prioritariamente dirigido aos adeptos da guitarra. Para Fred Frith, pólo aglutinado deste “ensemble” de virtuosos nada académicos, “Upbeat” serve ainda como pretexto para o humor que sempre o caracterizou (dos Henry Cow a álbuns deliciosos como “Cheap at Half the Price” ou “Live, Love, Larf and Loaf”), mas que tem andado algo arredado da sua discografia “de câmara” mais recente. Rock ‘n’ roll, ragtime e outros anacronismos contrastam com momentos mais duros numa arrumação por títulos na prateleira dos advérbios: “stinky”, “spitty”, “squinty”, “speedy”, “feety”, “slinky”, “skinny”, “sinky”…



French, Fred, Kaiser, Thompson – “Live, Love, Larf and Loaf” + “Invisible Means”

Pop Rock

 

5 JUNHO 1991

IMPORTAÇÃO DO CATÁLOGO DEMON RECORDS

 

FRENCH, FRED, KAISER, THOMPSON

Live, Love, Larf and Loaf (1987) ****

Invisible Means (1990) ***

french

 

french2

Logo pelo título percebe-se que é uma brincadeira. Jon French (antigo companheiro de Captain Beefheart), Fred Frith (guitarrista genial, compositor genial, produtor genial, fundador de grupos geniais como Henry Cow, Art Bears, Skeleton Crew, etc, enfim – um herói), Henry Kaiser (guitarrista genial, com inclinações – como Frith, aliás – para tratar a guitarra de forma pouco ortodoxa) e Richard Thompson (guitarrista genial, membro fundador dos Fairport Convention, movendo-se com todo o à-vontade entre as cenas folk e “avant-garde”, colaborando, por exemplo, com o inclassificável gordo dos Pere Ubu, David Thomas) juntaram-se para uma boa piada que acabou por resultar brilhante. Rock’n’roll, “pastiches” de música chinesa, “surfin’ USA”, de Chuck Berry, jazz paranóico, vale tudo, num “cocktail” explosivo de humor delirante, virtuosismo instrumental e canções de se lhes tirar o chapéu. Três anos depois, o quarteto tornou-se mais sisudo. Os “quatro da vida airada” levaram-se a sério e acabaram por fazer um disco à beira do rock “mainstream”. A excelência técnica, obviamente, permaneceu.

Live, Love, Larf & Load
Invisible Means


 


Fred Frith – O Grande Explorador

BLITZ

19.12.89
VALORES SELADOS

FRED FRITH

O GRANDE EXPLORADOR

ff

Fred Frith é indiscutivelmente uma das personalidades mais marcantes e fascinantes da música actual. Os seus múltiplos talentos de instrumentista, compositor e produtor estendem-se praticamente a todas as áreas.

«The Top Of His Head», publicado muito recentemente pela Made to Measure, confirma a sua permanente capacidade de inovar e de nos espantar. Vale a pena arriscar a sua audição. Falo para os ignorantes, é claro, que os outros já adquiriram de certeza pelo menos cinco exemplares do disco. «Quem é Fred Frith?» perguntam os primeiros. Já explico.
Fred Frith é o homem com o dom da ubiquidade. Está em todas, como se costuma dizer. Não há músico ou grupo importante que não esteja de algum modo ligado ao seu nome. Senão, vejamos a lista: como membro em «full-time» fez parte dos Henry Cow, Art Bears, Massacre, Skeleton Crew e Aksak Maboul. Como músico convidado ou/e produtor participou em discos de (por ordem alfabética): Bill Laswell, Bob Ostertag/Phil Minton, Brian Eno, Derek Bailey, Etron Fou Leloublan, Golden Palominos, Henry Kaiser, John Zorn, Lol Coxhill, Martin Bisi, Material, Negativland, Nicky Skopelitis, Orthotonics, Polka Dot Fire Brigade, René Lussier, Residents, Robert Wyatt, Swans, Tenko, Violent Femmes, Zeena Parkins e Zazou/Bikaye. Se souberem de mais, escrevam.
Juntem a isto uma intensa actividade ao vivo em tudo o que é sítio, integrado em obscuras «Big Bands» ou sozinho, entretido a atirar com objectos sortidos para cima da sua guitarra e perguntem: «Como é possível?» ou «E ainda gravou discos a solo?» É verdade. Gravou discos em seu próprio nome; e que discos!
No primeiro não arriscou muito. Chama-se «Guitar Solos» (74) e é isso mesmo. Só que os solos dão de molde a colocá-lo imediatamente ao lado de Hendrix ou de Fripp, como um dos grandes, dos maiores inovadores nesse instrumento. A sua linguagem é única, desmultiplicando-se (e mesmo desdividindo-se) em complexidades harmónicas, rítmicas e tímbricas absolutamente assombrosas que vão das explosões atonais concretistas a um som límpido e cristalino que até parece o dos Shadows ou o Rui Veloso se tocasse harpa. Se me é permitida a comparação, Frith é o Miles Davis da guitarra.
Agora atenção: «Gravity» e «Speechless» (respectivamente de 80 e 81) são duas obras-primas da música desta década. Frith apelida-as de «música de dança» mas está a brincar. Ou se calhar não. O que é a dança? Segundo Curt Sachs, na contracapa de «Gravity», dança «é a vitória sobre a gravidade, sobre tudo o que pesa e oprime, transformação do corpo em espírito, a elevação da criatura ao criador, a imersão no infinito, o divino», ao que Frith logo acrescenta: «O que pode não ter nada a ver com este disco mas é um bom ponto de partida.»
Nestes dois discos, além da guitarra, do violino e do xilofone (os seus instrumentos habituais), Frith encarrega-se ainda das percussões, teclados e manipulações electrónicas. Em «Gravity» participam os membros do colectivo sueco Sammla Mannas Maltid e os americanos Muffins. Em «Speechless» são os franceses Etron Fou Leloublan além dos seus parceiros nos Massacre, Fred Maher e Bill Laswell.
É difícil definir a sua música. Música universal, talvez? Música das músicas? «World Music» traficada? O melhor é ouvir. Há tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo que nos perdemos. Felizmente. O som exótico de steel bands confunde-se com o folclore dos Balcãs. As ambiências industriais cruzam-se e misturam-se com fragmentos de gaitas-de-foles e solos de guitarra gravados de trás para a frente e outra vez para trás e eu sei lá, é uma orgia onde se abraçam múltiplas referências e tradições. A música do Terceiro Mundo (tão cara ao músico) é a solução? Ou do quarto, ou do quinto?
«Live in Japan» (82, em dois volumes) apresenta-nos a sua faceta de improvisador, entre o genial e o chato. «Cheap At Half The Price» (de 83, para a Ralph Records, a mesma dos Residents) é uma extravagância construída à base de canções que lembram por vezes os primeiros discos de Brian Eno, outras, o célebre quarteto(?) incógnito. Coincidência ou influência?…
«The Technology Of Tears» é um duplo do ano passado composto para peças de bailado. Depuração formal de um estilo, testemunho requintado de um universo musical ímpar. Frith revela a melodia oculta na dissonância e as descontinuidades der todas as melodias, quando dissecadas ao microscópio. Operação difícil mas de resultados fascinantes.
«The Top Of His Head», agora importado pela Contraverso, é uma surpresa a vários níveis. Começando pela própria editora, a belga Made To Measure, pelo menos aparentemente afastada das anteriores propostas do músico. Em «The Top…» Fred Frith como que adapta os seus próprios métodos às estratégias e pressupostos estéticos daquela editora. O som e a embalagem ostentam o habitual pendor classizante, mas com o fundador dos Henry Cow empenhado em dinamitar pela ironia e por dentro esse mesma imagem. Atente-se, por exemplo, no solo redundante de guitarra de «Hold On Hold» ou na canção «This Old Earth», interpretada por Jane Siberry. Em ambos os casos é rompido o tom sério presente em quase todo o disco. Frith nunca se satisfaz enm permanece durante muito tempo no mesmo lugar. Quando julgamos reconhecer uma entoação mais familiar ou uma referência a obras anteriores somos imediatamente despistados por constantes fugas para a frente. A sequência lógica (se é que é lógica) com que se encadeiam os diversos temas é praticamente indecifrável. Talvez vendo o filme. Sim, é verdade, já me esquecia de referir que «The Top Of His Head» é a banda sonora de um filme de Peter Mettler. Estranho filme deve ser, a avaliar pelos sons que o acompanham.
«The Top Of His Head» é um disco que desconcertará os mais acomodados, sem dos de mais difícil abordagem de toda a colecção MTM. Por vezes há aproximações à música de Benjamin Lew, como em «The Way You Look Tonight» e mais frequentemente aos mundos desse outro excêntrico que é Peter Principle, dos álbuns «Sedimental Journey» e, sobretudo, «Tone Poems».
«New Music»? Mas se Fred Frith já a faz de há dezassete anos para cá quando os Henry Cow chocaram com os preconceitos da época. As pessoas e que não têm reparado…

The Top of His Head: aqui