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Frank Zappa – “Does Humor Belong In Music?” (notícia / artigo de opinião / fetiche / coisas que seduzem / DVD)

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5 Dezembro 2003
fetiche
coisas que seduzem


zappa
nóia



“O humor faz parte da música?” pergunta Zappa em “Does Humor Belong in Music?”, DVD que apresenta o guitarrista, falecido há dez anos, ao vivo no “The Pier”, Nova Iorque, a 26 de Agosto de 1984. A pergunta, é, já, uma piada. O homem que pôs uma audiência alemã de milhares a fazer a saudação nazi sabia do que falava. Cada espetáculo seu era uma “performance” inclassificável. Zappa corroeu os alicerces da pop e do rock americanos, injetando-os com o pesticida do génio e da loucura. Ouçam-no e vejam-no remasterizado em títulos tão desbragados como “Hot plate heaven at the Green hotel”, “Honey, don’t you want a man like me?”, “Dinah-Moe Humm” e “Cosmik
Debris”.

Frank Zappa, “Does Humor Belong in Music?” EMI, distri. EMI-VC, €26, preço FNAC



Frank Zappa – “Have I Offended someone?”

Pop Rock

12 Março 1997
reedições

Cantar não ofende

FRANK ZAPPA
Have I Offended someone? (8)
Rykodisc, distri. MVM


fz

Mesmo depois de morto, Frank Zappa continua a fazer ondas. Depois da fantástica colecção de excentricidades contidas no triplo CD “Läther”, a Rykodisc, editora que actualmente detém todos os direitos de edição, representação e distribuição da obra do músico, está prestes a lançar no mercado “Have I Offended someone?”, desta feita uma colectânea “politicamente incorrecta” de 15 canções favoritas do autor, seleccionadas pelo próprio em 1993, pouco tempo antes da sua morte. Entre o alinhamento incluem-se “Bobby Brown goes down”, “Catholic girls”, “Dinah-Moe humm” e “Valley girl” – o “single” que obteve mais sucesso nas listas de vendas, subindo, em 1982, ao 32º lugar do “top” da “Billboard” –, além de duas versões ao vivo, inéditas, de “Tinsel town rebellion” e “Dumb all over” e montagens e misturas diferentes das originais.
É o lado mais corrosivo de Frank Zappa, exposto num humor sem regras, que vergastou praticamente todos os temas tabu da sociedade norte-americana. Quem foram os ofendidos? As mulheres, os homens, os judeus, os católicos, os músicos, os executivos da indústria musical, o poder religioso e os franceses, na listagem elaborada, com não menos humor, pelo autor da excelente folha informativa que acompanha esta edição.
Opinião diferente tinha Frank Zappa, até porque, como Groucho Marx, também ele nunca poderia ser sócio de um clube que o aceitasse como sócio: “As pessoas que se ofendem mais com as minhas letras parecem ser os críticos de rock. O público, em geral, gosta delas.” Zappa teve, aliás, outra observação bastante sagaz sobre o jornalismo rock: “Pessoas que não sabem escrever e que fazem entrevistas a pessoas que não sabem pensar, com o objectivo de fazer artigos para pessoas que não sabem ler.”
Um dos seus temas mais bem sucedidos, o já citado “Valley girl”, em que é possível escutar a voz da sua filha Moon Unit, mereceu-lhe o seguinte comentário: “A pior coisa sobre este disco é o facto de ninguém o ter ouvido realmente… Tudo o que se disse sobre esta canção nunca tocou no ponto principal, que é a maior parte das pessoas serem cabeças de vento.” As pessoas, claro, riram-se e o sucesso da canção desencadeou na altura um fenómeno de “marketing” que incluiu a venda de “t-shirts”, marmitas de refeição, cosméticos e até um convite a Zappa para aparecer numa série de televisão e num filme, que acabou por ser feito sem a sua participação.
Na Noruega, onde muita gente não percebe peva de inglês, “Bobby Brown goes down” foi outro dos raros sucessos de vendas de Zappa. A canção fala de uma relação sado-masoquista entre um jovem e a sua “dominatrix”. Nos Estados Unidos, a transmissão radiofónica foi proibida, mas na Noruega e também na Alemanha e Áustria, como ninguém se deu ao trabalho de traduzir a letra, a canção chegou aos “tops”. Ou talvez te há chegado porque alguém traduziu a letra…
Mas a melhor declaração, proferida por Zappa em pleno tribunal, durante a campanha anticensura que empreendeu, nos anos 80, contra a organização puritana norte-americana PMRC, que advogava a classificação etária para os discos de rock, é um mimo de candura misturada com cinismo: “É minha convicção pessoal que nenhuma letra de canção pode ferir quem quer que seja. Não existe nenhum som que possa ser emitido pela boca nem palavra que possa sair da boca com poder suficiente para mandar uma pessoa para o inferno.” Sim que mal pode fazer escutar uma voz de “falsetto”, amaneirada até aos limites da bichice, cantar “I’m so gay, and I like to be that way” sobre um ritmo “disco” tirado do clássico de Giorgio Moroder e Donna Summer “I feel love”? Frank Zappa, na sua última estalada.



Frank Zappa – “Freak Out” + “Absolutely Free” + “We’re only in it for the Money” + “Cruising with Ruben and the Jets” + “Uncle Meat” + “Hot Rats” + “Waka/Jawaka” + “The Grand Wazoo” + “Over-Nite Sensation” + “One Size Fits All”

Pop Rock

12 Março 1997
reedições


Ratos Quentes


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Dos mais de 50 álbuns que constituem o legado discográfico de Frank Zappa (F.Z.), a solo ou com os Mothers of Invention, todos reeditados pela Rykodisc, com distribuição MVM, seleccionámos, segundo um critério assumidamente subjectivo, 10 obras que consideramos fundamentais, dos anos 60 e 70, correspondentes à fase de maior inspiração. De notar que em meados da década de 80 o próprio Zappa se encarregou de controlar o processo de remasterização e, nalguns casos, remistura da totalidade da sua discografia, tendo as presentes reedições obtido a sua aprovação.

Freak Out

Estreia dos Mothers of Invention, editada originalmente em 1966 num duplo álbum. A presente reedição foi remasterizada e remisturada por F.Z., em 1987. Em pleno movimento “flower power”, Zappa introduzia a nota de discordância nu discurso construído sobre a colagem, detritos de rock’n’roll e estilhaços de jazz. Inclui a “suite” “Help me, I’m a rock” e a paulada na cabeça dos “hippies” que é “Who are the brain police?” (9)

Absolutely Free

Mais experimental que o disco de estreia, “Absolutely Free” é o álbum comprovativo da influência seminal que os Mothers exerceram nas vanguardas da década de 70, em particular sobre dois dos seus baluartes, os Henry Cow, em Inglaterra, e os Faust, na Alemanha. O CD inclui dois temas extra que não figuram no original, em vinil, de 1967: “Bil leg Emma” e “Why don’tcha do me right?”. (8)

We’re only in it for the Money

Uma das obras-primas dos anos 60. Manifesto do contrapoder, com a sátira da capa a “Sgt. Pepper’s”, nunca antes o humor fora tão corrosivo nem a música tão inovadora. Em 1967, os “hippies” eram ridicularizados, o sistema feito em cacos e a revolução provocava gargalhadas. “The idiot bastard son”, “Flower punk”, “Take your clothes off when you dance”. As letras foram, na altura censuradas. “What’s the ugliest part of your body?” (“Qual é a parte mais feia do teu corpo?”). Resposta: “I know it’s your miiiinnnd!” (10)

Cruising with Ruben and the Jets

De 1968, remisturado por F.Z. em 1984. Paródia em torno da música para adolescentes, da “surf music” dos Beach Boys ao melaço das vocalizações “doo-wop” dos grupos dos anos 50. Canções de amor. Zappa era um romântico. O disco mais tradicionalista da carreira do músico que é, ao mesmo tempo, um dos mais subversivos. E uma delícia para os ouvidos. (8)

Uncle Meat

Editado em 1969 como banda sonora do filme com o mesmo nome. Remisturado por F.Z. em 1987, com reedição em CD duplo. O álbum de todos os experimentalismos e malabarismos. O serialismo e a música de câmara manipulados ao mesmo nível que o rock e a anedota. O segundo compacto contém mais de 30 minutos, para muitos massacrantes, de diálogos extraídos do filme, e a versão original de “King Kong”, com o violinista francês Jean-Luc Ponty, que posteriormente gravaria uma versão alargada do mesmo tema, num álbum com o seu nome. (8)

Hot Rats

Primeiro álbum a solo de Frank Zappa, gravado em 1969 e remisturado em 1987, para alguns, a sua obra-prima, é, sem dúvida, aquele que impõe o nome do músico como um dos “virtuoses” da guitarra. Aqui com as colaborações de Captain Beefheart e dos violinistas Jean-Luc Ponty e Don “Sugarcane” Harris. A presente reedição inclui informação adicional codificada, que pode ser lida nos sistemas Macintosh e Windows em qualquer computador com um “drive” de CD-ROM para leitura de CD áudio. (9)

Waka/Jawaka

Na mesma linha de “Hot Rats”, “Waka/Jawaka”, de 1972, inclui o longo tema com este nome, um novelo de “jazz” e de virtuosismo instrumental levado até ás suas consequências mais bizarras. Com uma secção de metais em que pontifica o trompete de Sal Marquez e as presenças de fabulosos executantes como Don Preston, George Duke e Aysnley Dunbar. (9)

The Grand Wazoo

Ainda de 1972, “The Grand Wazoo” aumenta ainda mais a complexidade e a importância de Frank Zappa como um dos maiores compositores do século XX. Uma “big band” que inclui os mesmos solistas do anterior “Waka/Jawaka”, aumentada por uma secção de madeiras e outra de percussões, recria e desmonta todos os estilos de música moderna, da popular à erudita. Um “monstro” de pormenores inesgotáveis que adquire novos sentidos em cada audição. (8)

Over-Nite Sensation


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Quando ouvimos pela primeira vez, rimos a bandeiras despegadas. É o álbum que mais directamente apela aos jogos de humor e ao absurdo de situações desopilantes que retratam os Estados Unidos da estupidez. Das palavras às construções musicais, só por si, desopilantes, é um murro nas convenções e umas cócegas na inteligência. “Camarillo brillo”, “Dirty Love”, “Montana”. Um monumento ao génio. A presente reedição, ao contrário da anterior, separa este disco de “Apostrophe”. (9)

One Size Fits all

Nas entrelinhas do título esconde-se a obscenidade como forma de arte. Em 1975, Frank Zappa manipulava como queria o seu universo musical multifacetado, mas, por esta altura, já com contornos perfeitamente codificados. O “establishment”, que sempre combateu, começava a aceitá-lo. F.Z. ganhava o estatuto de compositor excêntrico e os próprios “tops” se preparavam para acolher a graça das suas dissidências. “One Size Fits all” é um típico disco de fusão, com doses cuidadosamente equilibras de humor e virtuosismo instrumental (com a presença do “blueman” Johnny “Guitar” Watson, onde, pela primeira vez, “edits” de estúdio e ao vivo são colados numa mesma canção. Estratégia que viria a ser utilizada em vários álbuns seguintes. (8)