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Filipa Pais – “A Porta Do Mundo”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
28 Março 2003


FILIPA PAIS
A Porta Do Mundo
Ed. e distri. Vachier & Associados
7|10



Pertence a uma geração intermédia da música popular portuguesa que assimilou José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto e Vitorino mas que nem sempre soube encontrar o lugar certo de resistência à voragem do tempo. “A Porta do Mundo” poderá facultar-lhe a chave que falta para lhe abrir as portas do sucesso. Depois de um par de temas com algo de Mafalda Veiga enfiado nas notas, “A Porta do Mundo” provoca o primeiro sobressalto com o tradicional “Não se me dá que vindimem”. A partir daqui é impossível escapar ao fascínio. Sente-se uma nostalgia indefinível nesta música que junta a solenidade da música de câmara com a pureza da música tradicional, como numa “Estrada do Sul” onde o Alentejo se ilumina banhado por uma outra lua extravagante. “Zacaria”, com assinatura de João Paulo Esteves da Silva, junta o tipo de expressividade de Amélia Muge com uma toada medieval. Duas grandes e tristes canções, “A porta do mundo” e “Quem sonha quem”, antecedem um pacote de “50.000 caixas de charutos”, de Ricardo Dias (brilhante no acordeão) a provar que a voz de Filipa Pais pode ir tão longe quanto quiser. A seguir a um tema de Vitorino e a uma “Cantiga de amigo” com a varinha mágica de José Afonso, “Em todas as ruas te encontro” oferece, a fechar, a auspiciosa estreia de Filipa como compositora. “Este é o meu lugar. Vou ficar”, canta ela em “E se”. “A Porta do Mundo” parece dar-lhe razão.



Essa Treta De Sermos Todos Amigos – artigo

Pop Rock

21 de Dezembro de 1994

ESSA TRETA DE SERMOS TODOS AMIGOS

Natal, tempo de tradição. De rituais que se repetem. Mas para Filipa Pais e Júlio Pereira, dois músicos que de perto convivem com a música tradicional e que o PÚBLICO juntou num almoço em Lisboa, esta época diz pouco, no que diz respeito aos seus aspectos mais convencionais. Concordam ambos que a reunião da família é o mais importante. A cantora de “L’ Amar” ainda sente prazer em dar e receber prendas. Quanto ao instrumentista e autor de “Acústico”, o dia de Natal limita-se a ser um período de férias forçadas, amizade ao cronómetro, demagogia e mais trânsito nas horas normais.


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Escolheu-se para local de repasto o restaurante O Fumeiro, especializado na cozinha tradicional das Beiras. Mãozinhas de vitela para Júlio Pereira, um cozido à Beirão portentoso para Filipa Pais, antecedidos pelo petiscar de morcelas, linguiça em vinha de alhos, farinheira, salpicão, queijo da serra e requeijão. Comida forte, amenizada por um Quinta do Cotto de 91, de veludo, óptimo para confortar o espírito mas também para dissolver resistências interiores e desatar a língua.
Satisfeito o paladar, o natal passou a tema de conversa. Relembraram-se festejos passados em família. O Natal de hoje, esse, parece já não dizer nada tanto a Filipa Pais como a Júlio Pereira. Afinal, um dia de Inverno como outro qualquer. Ou quase… “Nunca sei quando é que é sexta, ou sábado, ou… só sei quando é domingo porque é o dia em que não encontro ninguém para jantar. Dias de festa, não sei o que é isso!” – diz Júlio Pereira, o mais desencantado dos dois – “A minha relação com o Natal é uma coisa muito estranha. De repente começo a aperceber-me que há muito trânsito às horas normais. Ligo a televisão e é só anúncios. E depois há aquela coisa dos telefonemas dos amigos e da família e só aí é que tenho consciência que é natal. Aliás, o natal resume-se para mim simplesmente a ir almoçar a casa dos meus pais.” Júlio Pereira passou sempre o Natal na cidade. “Só as férias grandes, em miúdo, é que eram passadas na Beira baixa.” Nos últimos anos, porém, essa rotina foi quebrada, com o dia de Natal passado em Braga “na casa de uma família de amigos”. Júlio Pereira não vive de facto o espírito de Natal. “De facto não tenho prática”, diz, “o Natal para mim é uma espécie de férias inevitáveis”.
“Estou chocada!”, foi o comentário proferido em tom de brincadeira por Filipa Pais, embora reconhecendo que para si o Natal “já não tem nada a ver” com o que era “quando tinha sete anos”. Nessa altura, embora o pai da cantora não fosse religioso nem ela própria seja baptizada, “o que acontecia era sempre uma grande festa familiar”, normalmente na casa da mãe, no Campo Pequeno, em Lisboa. “Eu tinha já nessa altura a preocupação de oferecer prendas a outras pessoas, a mesma preocupação que me persegue agora. Nunca acreditei no Pai Natal mas o meu pai faia sempre aquela coisa de estarmos todos na sala e ele a fingir de Pai Natal, aquele número que já toda a gente sabia. Íamos todos à chaminé buscar as prendas todas.”
Júlio Pereira também nunca se deixou “enganar”: “Lembro-me de estar à espera no outro dia, acordar cedo e ir a correr para a chaminé. Mas tive azar porque faço anos a 22 de Dezembro. A prenda era sempre uma só.” “Horrível!”, exclama Filipa Pais. “Não gosto da demagogia em torno do Natal”, continua o homem do cavaquinho, da braguesa e do bandolim, “essa história de sermos todos irmãos nesta data sempre me meteu muita aflição. O pretexto de uma amizade pontual situada num dia tal do ano em que temos todos que ser amigos e darmos coisas uns aos outros é uma coisa ridícula”. Filipa Pais concorda. Para ela, todo esse lado do Natal “é uma treta!”. O que não a impede de viver um pouco o espírito natalício, já que vai participar no Natal dos Hospitais, que este ano se realiza no Hospital Júlio de Matos. “Antes no Júlio de Matos do que no Júlio Pereira!”, acrescentou de imediato o instrumentista. “Mas quando recebes postais de Natal dos teus amigos, não gostas?”, pergunta a cantora. “Não, de tal maneira que nem sequer os mando. Mas atenção tens que perceber que como faço anos a 22, até 25 é uma zona de festa mas muito ligada ao meu nascimento e não ao do Cristo.”
Filipa Pais dá e recebe prendas no Natal. Júlio Pereira, só ao filho e aos pais. “Gosto ainda mais de receber prendas quando não estou à espera”, diz a cantora, que as oferece apenas quando lhe “apetece”, não só no dia de Natal nem no dia de anos. Para ela, este Natal vai ser igual ao dos últimos anos, passados com a família em Lisboa. Júlio Pereira tenciona passar a véspera na casa da família de José Afonso e o almoço do dia de Natal com os pais. “Depois já sei que vai ser uma seca ao jantar, não sei se vou ter alguém com quem jantar. Está tudo fora.”
Seguiram-se os brindes de Natal. Júlio Pereira foi directo à questão: “Desejo que a minha própria editora se lembre, nesta data festiva, de informar as pessoas, o país, que saiu um disco meu.” Filipa Pais, mais evasiva, deseja que não haja “mal-entendidos” entre ela, as pessoas com quem trabalha e os seus amigos. E garante que, “egoisticamente”, a prenda que mais gostaria de receber era “uma casa boa, em Lisboa, mesmo no centro, com uma boa vista e jardim”. E a seguir outra casa “fora de Lisboa”. “Tinha que ser um pai Natal muito rico!” E, já agora, que o seu disco “venda bem”. Em tom menos materialista, Filipa Pais gostaria ainda que este Natal lhe trouxesse a possibilidade de “estar sempre muito bem e ter a capacidade para resolver todas as questões que poderão existir no próximo ano”. “Paz, paz, paz para o mundo inteiro” são ainda os votos da cantora, de imediato contrariados por Júlio Pereira. “Não acredito na paz nem um bocadinho! Se houvesse paz, a vida não tinha piada nenhuma. Claro que estou a falar da tal paz, sinónimo de pasmaceira, de sermos todos irmãozinhos a vivermos democraticamente as mesmas coisas.”
Prendas, Júlio Pereira contenta-se com uma: “Fui informado que o Naná Vasconcelos quer tocar comigo.” “A gente espera sempre o melhor”, continua, “sou músico, sempre fui e acho que vou ser, por isso o que espero é continuar a ter imaginação e saúde”. “Saúde! Saúde, sim!”, corrobora Filipa Pais, “saúde física e mental”. “Não acho que os discursos de Natal sejam eficazes”, acrescenta Júlio Pereira, “da mesma maneira que não faz sentido um fulano qualquer que nesse dia vai entregar umas roupas velhas a um mendigo na rua. Não acredito nesse gesto. Que esse gesto modifique a atitude do próprio mendigo. Além disso, os sistemas políticos reviraram toda a simbologia do Natal, que se transformou na época de maior consumo em qualquer país industrializado.” Para Júlio Pereira, o mais importante passa “pelo encontro de pessoas que gostam de estar umas com as outras, várias vezes ao longo do ano e não, como faz muita gente, resumir tudo num momentinho, no Natal”.
O almoço prosseguiu, e com ele o desfiar do rosário de algumas das misérias que minam a música portuguesa. Mas essas são histórias de todo o ano e não será o Pai Natal que as vai resolver. E Filipa Pais acabou a cantar o “Feliz Natal”…

EMENTA

Vinho tinto, Quinta do Cotto, colheita de 1991
Entradas: (farinheira, moira, morcela, linguiças em
vinha d’alhos, presunto, salpicão, queijo da serra,
requeijão).
Júlio Pereira: Mãozinhas de vitela
Filipa Pais: Cozido à beirão
Leite creme
Café
Whisky

Júlio Pereira – Acústico
Filipa Pais – a partir daqui…