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Fennesz, O’Rourke, Rehberg – “The Magic Sound of Fenno’Berg”

24 de Março 2000
POP ROCK


Fennesz, O’Rourke, Rehberg
The Magic Sound of Fenno’Berg (8/10)
Mego, distri. Matéria Prima



Está a tornar-se verdadeiramente fascinante assistir ao desenvolvimento das correntes mais liberais da música electrónica actual. O mais recente capítulo de uma saga que parece interminável é “The Magic Sound of Fenno’Berg”, realização colectiva com base em improvisações “separadas e depois coladas” de Christian Fennesz, Jim O’Rourke e Peter Rehberg. Sentem-se, descontraiam-se e gozem tanto quanto puderem esta sequência verdadeiramente notável de ideias postas em prática segundo um método que alia a lógica à loucura mais desalinhada. São filmes em 3D e som “sensaround” de uma civilização distante onde tudo é possível e lícito, e a surpresa e o risco acontecem a todo o momento. A electrónica junta-se à música electro-acústica, de acordo com uma atitude próxima da dos Faust e de experiências do tipo que a canadiana Diane Labrosse tem levado a cabo na editora Ambiances Magnétiques. O tema final, “Fenn O’Berg theme”, é um mundo à parte dentro da sucessão de mundos de “The Magic Sound of Fenno’Berg”: uma superprodução de Hollywood, em reverso de easy-listening, realizada por um Cecil B. de Mille transformado em zombie, onde samples de “Moonraker” de John Barry formam o sustentáculo de uma banda sonora composta por uma simbiose mutante dos High Llamas, Stereolab e Holger Czukay num passeio de sonâmbulos à meia-noite no túnel do terror. Um álbum difícil. Um álbum “sexy”. Um álbum mágico. Um álbum de aventuras.

Orchester 33 1/3 – “Maschine Brennt” + B. Fleischmann – “Pop Loops for Breakfast” + Fennesz – “Plus Forty Seven Degrees 56’ 37’’ Minus Sixteen Degrees 51’ 08’’”

Sons

3 de Dezembro 1999
POP ROCK


Orquestra de Vila Chã

Orchester 33 1/3
Maschine Brennt (8)
Charizma, distri. Ananana
B. Fleischmann
Pop Loops for Breakfast (8)
Charizma, distri. Ananana
Fennesz
Plus Forty Seven Degrees 56’ 37’’ Minus Sixteen Degrees 51’ 08’’ (8)
Touch, distri. Matéria Prima


orch

Não lembraria ao diabo começar um disco com um tema de 41 minutos mas foi isso mesmo que fizeram os austríacos Orchester 33 1/3 em “Maschine Brennt”, digno sucessor do álbum homónimo de estreia, quanto a nós um dos melhores trabalhos discográficos de 1997. O longo tema em questão, que dá título ao álbum, é uma homenagem ao escritor Max Brand, pseudónimo de Frederick Faust, autor de centenas de “best-sellers” e da personagem Dr. Kildare. Passam-se coisas inquietantes nesta longa viagem pela música da orquestra mas nem sempre com aquela dose de interesse e acutilância que a dimensão do tema justificaria. Um pavimento de electrónica ambiental/industrial sustenta súbitas erupções dos metais que longe de quaisquer heresias “free” aparecem aqui completamente subjugados a um meticuloso trabalho de escrita que os coloca entre as progressões harmónicas dos Urban Sax e marchas funerárias de jazz de New Orleans. Há ainda sequências de ruído de máquinas em funcionamento e interlúdios vocais completando um todo algo descosido que ora se eleva aos cumes atingidos pelos Art Zoyd em “Berlin” ora divaga durante largos minutos sem destino por um pântano de detritos electrónicos onde não se vislumbram quaisquer formas de vida. Um trabalho de fôlego, sem dúvida, que procura romper com os métodos prévios instaurados pela orquestra mas que acaba por soçobrar perante a desmesura de propósitos. As restantes seis faixas de “Maschine Brennt” incluem um terramoto de baixas frequências pelo que parece ser um sax barítono tratado electronicamente, em “Daily plasma”, uma incursão não menos telúrica no “hip hop”, em “Lower ass side mix”, uma curiosa intersecção de efeitos vocais e truncagens sonoras em “Review” e, a fechar, um solo de piano na gaveta, “Reise nach Berlin”. Longe de ser uma obra-prima, “Maschine Brennt”, não mancha porém a reputação daquela que foi uma das bandas mais originais a emergir da nova cena electrónica europeia nos últimos anos.
Christof Kurzmann e Christian Fennesz eram os dois maestros da Orchester 33 1/3. Extinto o projecto colectivo que integrava mais de uma dúzia de elementos, gravaram cada um a sua estreia a solo. O primeiro fundou a editora Charizma e escudou-se no pseudónimo B. Fleischmann para rubricar “Pop Loops for Breakfast”, um delicioso álbum de electrónica romântica na linha de “Beautronics” dos Isan, obviamente inspirado nas duas referências germânicas mais citadas nos últimos tempos: Cluster e Pyrolator. Puro deleite auditivo.
Já Christian Fennesz – que há alguns meses actuou no Lux-Frágil e se prepara para produzir o novo álbum dos portugueses Supernova – optou por uma obra mais intelectual, ainda que também no seu caso exclusivamente electrónica. Mas enquanto o seu ex-colega se revela sensível à melodia e com uma atenção aos timbres mais sedutores criados pelos samplers e sintetizadores, Fennesz programou o seu universo de bits segundo coordenadas menos evidentes e a exigirem uma dose maior de disponibilidade. Sem referências aparentes que permitam balizar os limites deste lugar onde decorrem mil fenómenos bizarros, é passo a passo e com as antenas em regime de captação máxima que se caminha até ao ponto exacto que Fennesz traçou no seu mapa pessoal. Diluviano, misterioso, por vezes hermético, “Plus 47º 56’ 3’’ Minus 16º 51’ 0’’” é uma emissão radiofónica emitida de um planeta nos confins da galáxia e recebida em segredo na estação ferroviária deserta ilustrada pela capa. Em Vila Chã, algures no Norte de Portugal.



Fennesz – Endless Summer

07.12.2001
Fennesz
Endless Summer
Mego, distri. Matéria Prima
7/10

LINK

Originalmente título de uma colectânea de 1974 dos Beach Boys, compilada por Mike Love, “Endless Summer” culmina uma operação de reconversão genética da música pop e o fim do idealismo. O surf nas ondas do sonho da geração de 60 morreu na praia e o naufrágio do sonho americano é aproveitado pelo austríaco Christain Fennesz como matéria de oscilação para outro tipo de ondas. Se David Thomas e os Pere Ubu ainda conservam, na mesma devoção à banda de Brian Wilson, os traços de um romantismo dilacerado, o antigo elemento da Orchester 33 1/3 – que num EP de 1998 já pulverizara outra canção dos rapazes da praia, “Don’t Talk (put your head on my shoulder)”, do álbum “Pet Sounds” – liquefaz aquele imaginário num oceano de clicks & cuts, aqui bem mais chegado às margens tranquilas do chill-out. Um chill-out com rugas, bem entendido, a deformar o smile da geração “rave”. Enquanto o anterior álbum, “+47º 56’ 37” – 16º 52’ 08””, impressiona pelo abstraccionismo e poder de análise, “Endless Summer” confirma o talento de Fennesz como bricoleur, capaz de arrancar insuspeitas melodias ao ruído e de cortar em pedaços e estética monumental que ele próprio ajudou