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Fairport Convention – “Fairport Convention” + “What We Did On Our Holidays” + “Unhalfbricking”

(público >> y >> world >> crítica de discos)
11 Julho 2003


FAIRPORT CONVENTION
Fairport Convention
8|10

What We Did on our Holidays
9|10

Unhalfbricking
9|10
Island, distri. Universal

fairport convention
quem sabe para onde o tempo vai



No manifesto de intenções de “Fairport Convention”, álbum de estreia de 1968 da banda que viria a tornar-se a instituição da folk rock inglesa, pode ler-se: “What we played – The best of the singers-songwriters, music of almost suicidal variety, mind boggling complicated arrangements of ostensibly simple songs, anything that other groups wouldn´t touch”. Ainda com Judy Dyble e Martin Lamble (que viria a morrer num acidente de viação), “Fairport Convention” arranca para este rally com o que poderia ser um clássico dos The Byrds, “Time will show the wiser”, de Emitt Rhodes, e prossegue com “I don’t know where I stand”, título apropriado para uma vocalização frágil e tocante de Dyble, na linha do que faria nos Trader Horne. Álbum variado, integra influências da pop psicadélica, britânica e americana (como na delirante versão de “Jack O’Diamonds”, de Dylan, algures entre os Grateful Dead e os Jefferson Airplane), com Ashley Hutchings, futuro fundamentalista da tradição rural, a revelar inusitada destreza na escrita de coisas tão bizarras como “The lobster”. A reedição, remasterizada, inclui quatro temas extra, entre os quais “Suzanne”, de Cohen, e “Morning glory”, de Tim Buckley. Um clássico menor e, para os que apenas conhecem fases posteriores do grupo, uma surpresa estonteante.
No ano seguinte, Alexandra Elene MacLean Denny, Sandy Denny, entrara já para o grupo, em substituição de Judy Dyble, fazendo de “What we Did on our Holidays” algo de especial que abre com o clássico que daria nome ao seu primeiro projeto fora do grupo, “Fotheringay”. Abrangendo ainda temas de Dylan (“I’ll keep it with mine”) e Joni Mitchell (“Eastern rain”), o psicadelismo, o “cajun” ou os “espirituais” (Denny a fazer de Joplin em “The Lord is in this place, how dreadful is this place?”), bem como um “Book song” de Ian Matthews, o álbum introduz o conceito de “folk elétrica” em “Mr. Lacey” ao mesmo tempo que aparecem os primeiros arranjos de tradicionais, entre os quais “Nottamun town” e “She moves through the fair”, prenúncio da direção que o grupo viria a seguir.
“I’ll keep with mine” vale pela vocalização de Denny, em veia já explorada no álbum de 1967 de apresentação dos Strawbs, “All of our Own Work”, e “Meet on the ledge”, um original de Thompson, com aquele “swing” característico dos The Byrds que os Fairport tão bem adaptaram a uma inconfundível “britishnes”, figura na galeria dos melhores temas do grupo.
Ainda de 1969, outra peça-chave, “Unhalfbricking”, título sugerido por Denny em mais do que provável estado de euforia etílica. “Genesis hall” ostenta a marca de uma voz em estado de graça. Poucas vezes Sandy Denny terá cantado como nesta canção de abandono, capaz de nos arrebatar naquele tom que apenas se encontrará, na música inglesa, em “I Want to See the Bright Lights Tonight”, de Richard e Linda Thompson. Denny que em “Si tu dois partir”, versão “cajun” e cantada em francês de um tema de Dylan, volta a abrir caminho ao “boom” do folk rock inglês dos anos 70, por bandas como os Steeleye Span, Matthews Southern Comfort ou Albion Country Band, e se mostra superlativa no jazzy “Autopsy”, onde está já tudo o que se pode encontrar na sua brilhante discografia a solo.
O mantra de 11 min. e único tradicional do álbum, “A sailor’s life”, é apresentado pela cantora de “world” Sheila Chandra como contendo os genes da música de fusão, na síntese de 2000 anos de canto tradicional védico com os timbres e modos da música irlandesa. O mesmo que, sem que ninguém desse conta, e na mesma altura, também fizeram os Mr. Fox e que em “Liege and Lief” iria ainda mais fundo. Depois, foi neste disco que os Fairport contrataram a sua estrela, o violinista Dave Swarbrick, aqui ainda um dos convidados, a par de Ian Matthews, Dave Mattacks (baterista que marcaria a rítmica futura dos FC) e Trevor Lucas (pilar dos Fotheringay). Apesar de três originais de Dylan, “Unhalfbricking” apresenta, pela primeira vez, o estilo distinto que levaria os Fairport ao estatuto mítico de que ainda hoje gozam. Mesmo que Denny lançasse ao vento as dúvidas e a interrogação ao destino – que para si seria trágico – em “Who knows where the time goes?”. “Não receio o tempo”, canta. E é todo um tempo de beleza gloriosa que desaba sobre nós.

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Fairport Convention – “Jewel in the Crown” + “Old, New, Borrowed, Blue”

Pop Rock

26 de Junho de 1996
world

O mapa do tesouro

FAIRPORT CONVENTION
Jewel in the Crown (8)
Green Linnet, distri. MC-Mundo da Canção
Old, New, Borrowed, Blue (6)
Woodworm, distri. MVM


fc1

fc2

Velhos são os trapos. O adágio cumpre-se uma vez mais, desta feita nos decanos Fairport Convention, pais do “folk rock” e actual instituição em que o único militante da formação dos anos 60 é Simon Nicol, permanecendo Dave Pegg desde “Full House”. Quando exemplos recentes apontavam para que o grupo não conseguisse evitar que a respeitabilidade do seu nome se arrastasse pela lama, não sendo mais do que uma anedota contada infindavelmente até perder qualquer réstia de graça, eis que este grupo de anciãos se encheu de brios e, como por um passe de mágica, recuperou a magia de tempos passados. Talvez porque numa editora como a Green Linnet não se brinca, sendo que “Jewel in the Crown” é o primeiro álbum da banda inglesa gravado com este selo de prestígio. Os Fairport Convention recuperaram o seu orgulho e, mais importante ainda, a confiança e a convicção que lhes permitiram sair do marasmo em que se encontravam. Percebemos nesta jóia da coroa a energia de antiguidades de enorme valor como “Full House” ou “Babbacombe Lee”, em preciosidades esquecidas no baú como “Slip jigs and reels” (que, ao contrário do que o título indica, é uma canção, escrita pelo menosprezado Steve Tilston) e “Kind fortune”, com a banda no seu melhor de sempre, onde até um malabarista como Ric Sanders parece ter por fim aprendido onde se escondiam os segredos do violino de Dave Swarbrick. Por onde andava o grupo que voltou a conquistar a alegria e o espírito “folky” de antanho num tema como “The naked highwayman” ou no instrumental “The youngest daughter” (de novo com Sanders em grande), “Travelling by steam”, de Huw Williams? O mesmo grupo que teve a coragem de se aventurar de novo pelo registo épico, em “The islands”, de Ralph McTell, outro dos grandes momentos de “Jewel in the Crown”, ou pela tristeza despojada do maravilhoso “She’s like the swallow”. Além dos tradicionais, Jez Lowe, Clive Gregson e Leonard Cohen, este numa leitura “country” de “Closing Time”, são outros compositores aos quais os Fairport Convention souberam acrescentar as virtudes da sua “ressurreição”. Noutro registo, posterior a “Jewel”, em “Old, New, Borrowed, Blue”, o grupo recuperou o seu lado acústico numa série de inéditos na via instrumental de “Expletive Delighted”, terminando com versões ao vivo de clássicos como “Genesis hall”, “The deserter”. “Crazy man Michael” e “Matty groves”, cujo maior defeito é fazer lembrar que nunca a voz de Simon Nicol conseguirá substituir as interpretações imortais de Sandy Denny.



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Fairport Convention – “Tipplers Tales”

Pop Rock

8 JULHO 1992
REEDIÇÕES

FAIRPORT CONVENTION
Tipplers Tales

CD, BGO, distri. Variodisc

FC

Datado de 1978, “Tipplers Tales” é o derradeiro álbum dos Fairport Convention com o violinista Dave Swarbrick, já antes confrontado com a ameaça de surdez provocada pela potência decibélica da banda nos espectáculos ao vivo. Para trás tinham ficado clássicos do folk rock, como “What We Did on Our Holidays”, “Unhalfbriking”, “Liege & Leaf” e “Full House”, os três primeiros contando ainda com a voz da malograda Sandy Denny.
Permanece neste disco ainda viva a energia e o amor ao cancioneiro tradicional britânico, expresso de forma soberba na versão longa do épico “Jack O’ Rion”, que inclui partes escritas por Swarbrick, e nos clássicos “Reynard the fox” e “John Barleycorn”. Uma energia que o envelhecimento dos músicos das primeira formações da banda – além de Swarbrick, Simon Nicol e Dave Pegg (Richard Thompson e Dave Mattacks já tinham abandonado, atraídos por músicas bem afastadas da folk) – levou à sua inevitável queda, para a espaços ressurgir, como no álbum de instrumentais “Explective Delighted”, último álbum digno do nome e da herança legados pela lenda Fairport Convention.
Ric Sanders bem procura hoje manter acesa a chama, nos discos e nos espectáculos de reunião que anualmente celebram o aniversário da banda. “Tipplers Tales” ainda tem brilho próprio. Depois, pouco restaria para além do cintilar da recordação. (8)

aqui



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