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Annie Lennox – “Um Rosto Por Detrás Da Máscara” (televisão / canal 2)

rádio e televisão >> segunda-feira, 25.01.1993
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Um Rosto Por Detrás Da Máscara



ELA É dona de uma voz espantosa e de uma presença em palco avassaladora. É, além disso, a imagem plástica vídeo por excelência. Ela é Annie Lennox, diva – num disco, o primeiro que gravou a solo, e num teledisco do mesmo nome. “Diva” é também o título do espectáculo que a RTP apresenta hoje à noite em Últimas Notas, filmado em Veneza, com a realização de Sophie Muller.
Nele são exploradas as mil e uma mutações visuais da cantora que, ao longo de dezenas de telediscos, mudou outras tantas vezes de pele e de personalidade, desempenhando um sem-número de personagens, de anjo a dona-de-casa em fúria, de andrógino a mulher fatal.
O local das filmagens não poderia ser mais apropriado. Cidade também ela de mil rostos e matizes. Veneza, feminina e aquática, cobre-se todos os anos pelo Carnaval, de disfarces e maquilhagem, transformando-se no baile de máscaras mais faustoso do mundo.
Em “Diva”, o filme, Annie Lennox – divorciada em termos conjugais e artísticos do seu ex-companheiro nos Eurythmics, Dave Stewart – encena a transfiguração de si própria e a composição da máscara. Parte-se de um rosto e de um corpo em carne e osso de uma mulher que nos últimos tempos tem sido fustigada pela adversidade, para se assistir à mudança progressiva dos traços, na construção da “outra”. Imagem de alta definição, plasticina de sonhos, veículo de transmissão de uma realidade simulada – “Sweet dreams are made of this”.
Neste aspecto Annie Lennox é verdadeiramente, a par de Madonna, a diva da pop, enquanto assume e incarna o carácter fugaz e a sucessão de imagens e artifícios que se autodevoram e constituem a própria essência daquele tipo de linguagem. Madonna expõe-se, comercializa-se, em fotos e teatralizações do escândalo, e gere o tempo por fases, que planeia com antecedência, avançando cada nova ousadia apenas na altura exacta em que esta se revelar rentável. Lennox disfarça-se, joga na ambiguidade e usa um tempo mais rápido, subliminar. A autora de “Sex” agita o próprio e os fantasmas e fantasias seus derivados, em palco. A cantora de “Sexcrime” brinca com lugares-comuns e subverte arquétipos. De forma talvez mais inteligente, sem dúvida menos perversa. Ambas gozam e perturbam. Annie Lennox çeva vantagem pelo menos numa coisa: é mais bonita.
É esta mulher-manequim, de pose gelada e voz tórrida, a mesma que um dia se deixou emocionar e filmar sem máscara na companhia de Aretha Franklin, para, sem subterfúgios, cantarem juntas “Sisters (are doin’ it for themselves)” e que, noutra ocasião, gravou um álbum intitulado “Be Yourself Tonight”. Veremos de falava ou não verdade.
Canal 2, às 01h00