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Eric Montbel – Le Jardin de L’Ange (conj.)

07.05.1999
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Os Anjos Não Recebem Herança

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“Le Jardin de L’Ange”, o jardim dos anjos, é o mais recente álbum a solo de Eric Montbel, dos Lo Jai, depois de “Charbretas, les Cornemuses à Miroirs du Limousin” e “Ulysse”. Executante de várias modalidades de gaita-de-foles (“cornemuse”), mas também, neste caso, de flauta e órgão de foles, Montbel subintitulou este seu trabalho, “Noels, Cantiques, Miracles & Merveilles”, uma colecção de instrumentais e temas vocalizados das regiões de Nivernais, Périgorde e Provença, em que a religiosidade se casa com um sentido estético apurado e uma dose equilibrada de erudição. A entrada, muito Lo Jai, com “D’où vient-tu betrgère?” evolui com subtileza para uma música de carácter religioso, acentuado por um par de vocalizações da soprano Marie Rigaud e pelo órgão de igreja. Sylvie berger, pelo contrário em temas como “D’où vient-tu betrgère?”, “Saint Pierre qui porte la croix” ou “Le jour de Pâques Fleuries”, faz lembrar a saudosa Marie Yacoub. Contando com a presença de Renat Jurie (vocalista convidado em dois temas) e com outro músico dos Lo Jai, Guy Bertrand (voz, sanfona, flautas e clarinete de bambu), “Le Jardin de L’Ange” combina, de forma admirável, o sagrado e o profano, indo, decerto, corresponder às expectativas, quer dos apreciadores de folk, quer dos de música antiga. (Al Sur, distri. Megamúsica, 9).

Um salto até à Irlanda para verificar o estado de evolução de Cathie Ryan que, no seu álbum de estreia, “Cathie Ryan”, deixara já boa impressão. O novo \, frase inspirada num ciclo da mitologia irlandesa em que Oisin e Fionn discutem entre si qual é a melhor música do mundo, mostra uma cantora mais amadurecida. A voz de Cathie tanto faz lembrar June Tabor, como Dolores Keane ou Sandy Denny. Por vezes as três juntas, como em “At the foot of Knocknarea”. Mas o que poderia significar descaracterização acaba por provocar um efeito de familiaridade difusa. Os arranjos, repartidos entre a cantora e Gerry O’Beirne, cultivam uma abordagem leve que, nalguns casos (“I’m going back”, “Understanding love”), se aproxima da folk ligeira de uma Mary Black, enquanto “Coaineacht na dtri muire” repousa nas mesmas fantasias célticas de Enya e dos Clannad. Uma voz com a naturalidade e a versatilidade de Cathie Ryan merece enveredar por um caminho mais nobre e com outro tipo de exigências. Para já, aprecie-se a excelência instrumental do convidado Seamus Egan, dos Solas, ou divague-se ao som de “Lovely Willie”, num registo sobrenatural idêntico ao de June Tabor em “Angel Tiger” e “Against the Streams”. (Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção, 6).

Ainda no domínio dos novos celtas, o bretão Dan Ar Braz insiste na mesma fórmula, que tantos dividendos lhe rendeu, de “L’Heritage dês Celtes”, uma mega-produção feita a pensar no mercado, seguindo as pisadas de “Riverdance”, de Bill Whelan, e “A Irmandade das Estrelas”, de Carlos Nunez. Este novo capítulo da “Herança dos Celtas” foi gravada ao vivo no Zénith, de Paris, até preencher dois compactos inteiros, o que significa seca a dobrar. Porque se “L’Heritage des Celtes”, na sua concepção inicial, era um álbum sem dúvida afectado pela megalomania mas que conseguia equilibrar o excesso de meios com uma apreciável dose de bom-gosto, esta sequela, pelo contrário, descamba num tipo de mediocridade que, infelizmente, já conhecemos vinda de um tipo chamado Alan Stivell… Ouça-se “Evit Ar Bars” e perceber-se-à de imediato o que queremos dizer. Ou “Dir há tan”, na melhor tradição rock circense dos actuais Tri Yann. O facto de “Zénith” ser gravado ao vivo (mas misturado no mítico Windmill Lane de Dublin) não serve de desculpa. É um desconsolo verificar a desproporção entre a importância e quantidade dos convidados presentes (Karen Matheson, Gilles Servat, Carlos Nunez, Donald Lunny, Nollaig Casey, Jacques Pellen, Donald Shaw e a Bagad Kemper, entre outros) e a fraca qualidade musical daí resultante. Dancemos, enfim, com um suspiro nos lábios, ao ritmo do pesadote “The chesnut tree – The Dreraming Sea”, composto por Maire Ní Chatasaigh. Ou deixemo-nos esmagar pelo poder da Bagad Kemper que se rende aos deuses da Galiza em “Aires de Pontevedra”, um dos melhores temas desta herança céltica lançada ao desbarato. (Saint George, distri. Sony Music, 5).

A esperança de que nem tudo está perdido no reino da fusão regressa com “Le Grand Encrier”, de Alain Genty. O naipe de músicos, entre os quais, Jacky Mollard (violino e guitarra), Jean-Michel Veillon (flauta), Patrick Molard (gaita-de-foles escocesa e breta~) e Yann-Fanch Kemener (voz), é do melhor que se pode encontrar na Bretanha. Genty encarrega-se de modernizar o “ensemble” através do recurso ao baixo eléctrico, guitarra, teclados e programações. Entre o jazz, a electrónica e o típico canto tradicional bretão, com modulações “new age”, não faltam em “Le Grand Encrier”, exemplos de como fazer experimentação com modelos tradicionais sem os destruir. Ouça-se, a este propósito, “L achasse au tigre”, um tema que, ainda por cima, sabe rir de si próprio, em tropeções pelo reggae, a música indiana, o jazz-rock a la Gong e a dança de casino. Quem quiser pode conferir se está tudo nos conformes da tradição, pela gaita-de-foles de “Peklenig”. Um solo de se lhe tirar o chapéu. (Keltia, distri. Megamúsica, 7).

O Sol nascer a oriente, como se sabe. Mas talvez nem todos saibam que também pode nascer da garganta inglesa, com ascendência indiana, Sheila Chandra, rotulada na colectânea “Monsung: A Real World Retrospective”, pelo jornal de música “Billboard”, como “uma das vozes mais maravilhosas à face da Terra”. “Monsung”, título inspirado no primeiro grupo da cantora, Monsoon, reúne temas dos seus três ´lbuns gravados para a editora de Peter Gabriel, “Weaving my Ancestors Voices” (1993), “The Zen Kiss” (1994) e “ABoneCroneDrone”. Neles a cantora exibe o seu estilo vocal inconfundível em que as tradições e técnicas vocais indianas e célticas se confundem, “a capella”, em jogos com efeitos de reverberação ou sobre “drones” criadas electronicamente que nos dois excertos da longa peça “ABoneCroneDrone” se aproximam do puro minimalismo. LaMonte Young adoraria. E quem pensar em Noirin Ní Riain ao escutar “Sacred Stones” não está muito longe da verdade. Meditemos pois, banhados por esta voz luminosa. (Real World, distri. EMI-VC, 7).