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Skolvan + Storvan + Strobinell + Anne Auffret + Jean Baron + Michel Ghesquière + Bleizi Ruz + Jean Blanchard – Eric Montbel – “Pés Na Terra E Cabeça No Céu” (vários / céltica / folk)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.03.1992


PÉS NA TERRA E CABEÇA NO CÉU

Nas últimas semanas tem-se assistido ao dilúvio de compactos que chegam em catadupa às lojas nacionais e põem a cabeça em água e os bolsos vazios aos “malucos da folk”, para usar o termo utilizado há anos pela mítica rubrica da Rock & Folk. Da Bretanha à Irlanda, com uma escapadela à Dinamarca e aos países do Leste, é o retorno em força da tradição.



Durante anos foi o deserto. Discos de folk em Portugal resumiam-se a esporádicas importações dos Fairport Convention ou Steeleye Span, os únicos nomes remanescentes do “folk bloom” do início dos anos 70 que conseguiam romper o bloqueio do desconhecimento e do desinteresse a que era votados pela maioria dos “media”. Mantida a chama por um contingente restrito de “resistentes”, que atravessaram incólumes os anos de decadência da “música progressiva”, a fúria niilista dos rapazes dos alfinetes na orelha e a torre de Babel que sobreveio na aldeia global em que se transformou a década de 80.
Aos poucos, um número cada vez maior de consumidores de sons, saturados da plastificação vigente e da constante avalanche de pseudo-novidades em que a pop se foi atulhando, descobriram progressivamente a perenidade de uma música capaz de sobreviver, evoluir e transformar-se, sem que o essencial se perdesse. A música folk, tradicional, roots, world, ou de raiz étnica, como lhe quiserem chamar, conseguia até a proeza de derrotar o inimigo mais perigoso que consiste em estar na moda.
Hoje, em Portugal, não param de chegar aos escaparates discos das principais editoras do género. Louve-se a persistência e o amor à causa, desde há anos evidenciados pela VGM, a portuense Mundo da Canção e, mais recentemente, a Megamúsica, sem esquecer o pioneirismo da Nébula ou, sobretudo ao nível dos concertos os minhotos da Etnia.
Segue-se uma breve resenha de novos álbuns, entre novidades e reedições, a partir de agora disponíveis no nosso país, representando algumas tendências da folk actual, com particular destaque para a música tradicional da Bretanha, uma das que com mais insistência e razão de ser faz vibrar o “animus” e “anima” nacionais.

Os Círculos Célticos Da Bretanha

Da editora Keltia, três discos fabulosos: “Kerzh Ba ‘n’ Dans” dos Skolvan; “Digor ‘n Abadenn” dos Storvan; e “Na Aotrou Liskildri” dos Strobinell. Qualquer deles de fazer corar de vergonha as mais recentes senilidades de Alan Stivell. Os três recuperam a sonoridade, a instrumentação, os rituais e as danças da Bretanha, acrescentando-lhes a energia que o “fim da História” acarreta e a riqueza de arranjos que os tornam esteios do Universal.
“Kerzh Ba ‘n dans” (“Entrem na dança”) alterna os “na dro”, “laridés” e as típicas “suites” de dança “dans fisell” e “dans Plinn” (verdadeiramente mágicas as ressonâncias da língua bretã…) com originais do grupo e uma valsa irlandesa. Os Skolvan foram formados em 1984 por três professores do Conservatório Regional de Música e Dança Tradicionais da Bretanha. De académico só o virtuosismo evidenciado no manejo da bombarda, do violino e do “biniou” (gaita-de-foles) bretões. Dois vocalistas tradicionais participam nos “cantos e retoma de canto” (“Kan Há Diskan”), que alguns conhecerão na versão feminina popularizada pelas irmãs Goadec.
Mais fiéis a uma certa pureza interpretativa, os Storvan (designação imaginária tirada de um romance de Julien Graco, “Aub Château d’ Argol”) constroem longas sequências de danças tradicionais, apoiadas no jogo flauta / bombarda / “bouzouki” / violino, com incidências nas gavotas e nas marchas e melodias da região de Vannes. Nas “Ronds de St. Vincent”, a música nasce das entranhas do tempo, a partir da gravação “in loco” de uma festa rural que, sem ruptura, dá lugar à festa instrumental no estúdio. Brilhante.
“Brilhante”, “alucinante”, “comovente”, são alguns dos adjectivos que não chegam para traduzir o prazer proporcionado pela audição da música dos Strobinell e deste seu “senhor Liskildri”. “Strobinell” significa em bretão “sortilégio”, o mesmo sortilégio que em ocasiões muito especiais, durante as “festas de noite” (“Fest-Noz”), incendeia os dançarinos que, transportados pela magia da música, rodopiam até chegar ao transe. Jil Lebart (voz, clarinete, bombarda, gaita-de-foles), Patrig Ar Balc’h (bombarda, “tin whistle”), Yann Herri Ar Gwicher (flautas transversais e de ébano) e Riwall Ar Menn (guitarra) pertencem à estirpe dos bardos do século XX. Na sua música, o sagrado recupera toda a força do seu significado, de sublime, excelso, puro, inviolável, de diálogo santificado entre a tríade dos mundos: Deus, homem e Natureza, espiralados no fogo e no movimento simbolizados, na imagética bretã celta, pelo “Na Triskell”. Com os Strobinell, dançar significa a vertigem de se perder de si próprio para se ganhar além. Bater com os pés na terra e com a cabeça no céu. Comungar com o Todo.
Sagrados são também os cânticos religiosos da Bretanha recolhidos e interpretados por Anne Auffret (voz e harpa), Jean Baron (bombarda e ocarina) e Michel Ghesquière (órgão de foles) em “Sónj – Musiques Sacrées de Bretagne” ou, se quisermos, “Kanticou E Vro Breiz”, recolhidos da colecção “Kanticou Brezonek”. Orações matinais, cânticos místicos de contemplação e de união com Cristo, de Natal, se suplicação à Virgem, de adoração ao Santo Sacramento ou de comunhão, interpretados com a elevação que o diálogo com Deus exige. Menos extrovertido, destituído da fogosidade e do telurismo dionisíaco patente nos grupos atrás referidos, “Sónj” soa menos exuberante e mais uniforme na simplicidade e contenção dos arranjos. Orações do vento e do mar, da altura das falésias da Bretanha.
Os Bleizi Ruz já levam 18 anos de carreira, mas apenas cinco discos gravados. Gravado ao vivo em Brest, “En Concert” serve para mostrar todo o ecletismo desta banda, que estará em Portugal na 3ª edição do Festival Intercéltico, a realizar no Porto em Abril próximo. Por vezes quase cedendo às tentações de “fusionismos” tardios que acabaram por ser fatais aos Gwendal e ao próprio Stivell, os Bleizi Ruz não perdem, porém, nunca de vista as fontes vivificadoras. Do “cajun” à bretã do tema inicial, passam com toda a agilidade para a febre cigana ou para as danças da Moldova. Sempre com a Bretanha no sangue, presente nas texturas e modulações das bombardas e da gaita-de-foles, manuseadas pelo mestre Bernard Quillien, eufórico, entre o apelo eléctrico da guitarra-baixo e do acordeão-Midi.
Finalmente, registe-se a edição em compacto de mais duas gemas de música tradicional francesa, embora não especificamente bretã, dedicadas à divulgação de dois instrumentos particulares: “Cornemuses”, de Jean Blanchard (inesquecível a sua presença nos últimos Encontros da Tradição Europeia, com a sua Grande Bande de Cornemuses) e Eric Montbel, que, como o nome indica, se debruça sobre a gaita-de-foles; e o álbum “Vielleux du Bourbonnais”, do grupo homónimo, em que são explorados o reportório e as diversas técnicas de interpretação da sanfona. Obras de grande utilidade para quem quiser saber pormenores sobre estes instrumentos, sem excluir, é claro, as respectivas virtudes musicais, que, por si só, valem a audição e (para os aficionados) aquisição dos discos. Todos os títulos referidos, a que se podem acrescentar outros, de Dan Ar Braz (“Musique pour les silences à venir”), Bagad Kemper (Musico n the Square”, vol. 4, e “The Best of…”), Gwalarn (“A-Hed Na Amzer”), Na Triskell com Gilles Sevat (“L’Albatros fou”) e do ex-malicorne Gabriel Yacoub (“Bel”), são distribuídos pela Mundo da Canção.

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Vários – “Pés Na Terra E Cabeça No Céu” (céltica, folk)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.03.1992


PÉS NA TERRA E CABEÇA NO CÉU

Nas últimas semanas tem-se assistido ao dilúvio de compactos que chegam em catadupa às lojas nacionais e põem a cabeça em água e os bolsos vazios aos “malucos da folk”, para usar o termo utilizado há anos pela mítica rubrica da Rock & Folk. Da Bretanha à Irlanda, com uma escapadela à Dinamarca e aos países do Leste, é o retorno em força da tradição.



Durante anos foi o deserto. Discos de folk em Portugal resumiam-se a esporádicas importações dos Fairport Convention ou Steeleye Span, os únicos nomes remanescentes do “folk bloom” do início dos anos 70 que conseguiam romper o bloqueio do desconhecimento e do desinteresse a que era votados pela maioria dos “media”. Mantida a chama por um contingente restrito de “resistentes”, que atravessaram incólumes os anos de decadência da “música progressiva”, a fúria niilista dos rapazes dos alfinetes na orelha e a torre de Babel que sobreveio na aldeia global em que se transformou a década de 80.
Aos poucos, um número cada vez maior de consumidores de sons, saturados da plastificação vigente e da constante avalanche de pseudo-novidades em que a pop se foi atulhando, descobriram progressivamente a perenidade de uma música capaz de sobreviver, evoluir e transformar-se, sem que o essencial se perdesse. A música folk, tradicional, roots, world, ou de raiz étnica, como lhe quiserem chamar, conseguia até a proeza de derrotar o inimigo mais perigoso que consiste em estar na moda.
Hoje, em Portugal, não param de chegar aos escaparates discos das principais editoras do género. Louve-se a persistência e o amor à causa, desde há anos evidenciados pela VGM, a portuense Mundo da Canção e, mais recentemente, a Megamúsica, sem esquecer o pioneirismo da Nébula ou, sobretudo ao nível dos concertos os minhotos da Etnia.
Segue-se uma breve resenha de novos álbuns, entre novidades e reedições, a partir de agora disponíveis no nosso país, representando algumas tendências da folk actual, com particular destaque para a música tradicional da Bretanha, uma das que com mais insistência e razão de ser faz vibrar o “animus” e “anima” nacionais.

Os Círculos Célticos Da Bretanha

Da editora Keltia, três discos fabulosos: “Kerzh Ba ‘n’ Dans” dos Skolvan; “Digor ‘n Abadenn” dos Storvan; e “Na Aotrou Liskildri” dos Strobinell. Qualquer deles de fazer corar de vergonha as mais recentes senilidades de Alan Stivell. Os três recuperam a sonoridade, a instrumentação, os rituais e as danças da Bretanha, acrescentando-lhes a energia que o “fim da História” acarreta e a riqueza de arranjos que os tornam esteios do Universal.
“Kerzh Ba ‘n dans” (“Entrem na dança”) alterna os “na dro”, “laridés” e as típicas “suites” de dança “dans fisell” e “dans Plinn” (verdadeiramente mágicas as ressonâncias da língua bretã…) com originais do grupo e uma valsa irlandesa. Os Skolvan foram formados em 1984 por três professores do Conservatório Regional de Música e Dança Tradicionais da Bretanha. De académico só o virtuosismo evidenciado no manejo da bombarda, do violino e do “biniou” (gaita-de-foles) bretões. Dois vocalistas tradicionais participam nos “cantos e retoma de canto” (“Kan Há Diskan”), que alguns conhecerão na versão feminina popularizada pelas irmãs Goadec.
Mais fiéis a uma certa pureza interpretativa, os Storvan (designação imaginária tirada de um romance de Julien Graco, “Aub Château d’ Argol”) constroem longas sequências de danças tradicionais, apoiadas no jogo flauta / bombarda / “bouzouki” / violino, com incidências nas gavotas e nas marchas e melodias da região de Vannes. Nas “Ronds de St. Vincent”, a música nasce das entranhas do tempo, a partir da gravação “in loco” de uma festa rural que, sem ruptura, dá lugar à festa instrumental no estúdio. Brilhante.
“Brilhante”, “alucinante”, “comovente”, são alguns dos adjectivos que não chegam para traduzir o prazer proporcionado pela audição da música dos Strobinell e deste seu “senhor Liskildri”. “Strobinell” significa em bretão “sortilégio”, o mesmo sortilégio que em ocasiões muito especiais, durante as “festas de noite” (“Fest-Noz”), incendeia os dançarinos que, transportados pela magia da música, rodopiam até chegar ao transe. Jil Lebart (voz, clarinete, bombarda, gaita-de-foles), Patrig Ar Balc’h (bombarda, “tin whistle”), Yann Herri Ar Gwicher (flautas transversais e de ébano) e Riwall Ar Menn (guitarra) pertencem à estirpe dos bardos do século XX. Na sua música, o sagrado recupera toda a força do seu significado, de sublime, excelso, puro, inviolável, de diálogo santificado entre a tríade dos mundos: Deus, homem e Natureza, espiralados no fogo e no movimento simbolizados, na imagética bretã celta, pelo “Na Triskell”. Com os Strobinell, dançar significa a vertigem de se perder de si próprio para se ganhar além. Bater com os pés na terra e com a cabeça no céu. Comungar com o Todo.
Sagrados são também os cânticos religiosos da Bretanha recolhidos e interpretados por Anne Auffret (voz e harpa), Jean Baron (bombarda e ocarina) e Michel Ghesquière (órgão de foles) em “Sónj – Musiques Sacrées de Bretagne” ou, se quisermos, “Kanticou E Vro Breiz”, recolhidos da colecção “Kanticou Brezonek”. Orações matinais, cânticos místicos de contemplação e de união com Cristo, de Natal, se suplicação à Virgem, de adoração ao Santo Sacramento ou de comunhão, interpretados com a elevação que o diálogo com Deus exige. Menos extrovertido, destituído da fogosidade e do telurismo dionisíaco patente nos grupos atrás referidos, “Sónj” soa menos exuberante e mais uniforme na simplicidade e contenção dos arranjos. Orações do vento e do mar, da altura das falésias da Bretanha.
Os Bleizi Ruz já levam 18 anos de carreira, mas apenas cinco discos gravados. Gravado ao vivo em Brest, “En Concert” serve para mostrar todo o ecletismo desta banda, que estará em Portugal na 3ª edição do Festival Intercéltico, a realizar no Porto em Abril próximo. Por vezes quase cedendo às tentações de “fusionismos” tardios que acabaram por ser fatais aos Gwendal e ao próprio Stivell, os Bleizi Ruz não perdem, porém, nunca de vista as fontes vivificadoras. Do “cajun” à bretã do tema inicial, passam com toda a agilidade para a febre cigana ou para as danças da Moldova. Sempre com a Bretanha no sangue, presente nas texturas e modulações das bombardas e da gaita-de-foles, manuseadas pelo mestre Bernard Quillien, eufórico, entre o apelo eléctrico da guitarra-baixo e do acordeão-Midi.
Finalmente, registe-se a edição em compacto de mais duas gemas de música tradicional francesa, embora não especificamente bretã, dedicadas à divulgação de dois instrumentos particulares: “Cornemuses”, de Jean Blanchard (inesquecível a sua presença nos últimos Encontros da Tradição Europeia, com a sua Grande Bande de Cornemuses) e Eric Montbel, que, como o nome indica, se debruça sobre a gaita-de-foles; e o álbum “Vielleux du Bourbonnais”, do grupo homónimo, em que são explorados o reportório e as diversas técnicas de interpretação da sanfona. Obras de grande utilidade para quem quiser saber pormenores sobre estes instrumentos, sem excluir, é claro, as respectivas virtudes musicais, que, por si só, valem a audição e (para os aficionados) aquisição dos discos. Todos os títulos referidos, a que se podem acrescentar outros, de Dan Ar Braz (“Musique pour les silences à venir”), Bagad Kemper (Musico n the Square”, vol. 4, e “The Besto f…”), Gwalarn (“A-Hed Na Amzer”), Na Triskell com Gilles Sevat (“L’Albatros fou”) e do ex-malicorne Gabriel Yacoub (“Bel”), são distribuídos pela Mundo da Canção.

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Eric Montbel – Le Jardin de L’Ange (conj.)

07.05.1999
World
Os Anjos Não Recebem Herança

ericmontbel_jardin

“Le Jardin de L’Ange”, o jardim dos anjos, é o mais recente álbum a solo de Eric Montbel, dos Lo Jai, depois de “Charbretas, les Cornemuses à Miroirs du Limousin” e “Ulysse”. Executante de várias modalidades de gaita-de-foles (“cornemuse”), mas também, neste caso, de flauta e órgão de foles, Montbel subintitulou este seu trabalho, “Noels, Cantiques, Miracles & Merveilles”, uma colecção de instrumentais e temas vocalizados das regiões de Nivernais, Périgorde e Provença, em que a religiosidade se casa com um sentido estético apurado e uma dose equilibrada de erudição. A entrada, muito Lo Jai, com “D’où vient-tu betrgère?” evolui com subtileza para uma música de carácter religioso, acentuado por um par de vocalizações da soprano Marie Rigaud e pelo órgão de igreja. Sylvie berger, pelo contrário em temas como “D’où vient-tu betrgère?”, “Saint Pierre qui porte la croix” ou “Le jour de Pâques Fleuries”, faz lembrar a saudosa Marie Yacoub. Contando com a presença de Renat Jurie (vocalista convidado em dois temas) e com outro músico dos Lo Jai, Guy Bertrand (voz, sanfona, flautas e clarinete de bambu), “Le Jardin de L’Ange” combina, de forma admirável, o sagrado e o profano, indo, decerto, corresponder às expectativas, quer dos apreciadores de folk, quer dos de música antiga. (Al Sur, distri. Megamúsica, 9).

Um salto até à Irlanda para verificar o estado de evolução de Cathie Ryan que, no seu álbum de estreia, “Cathie Ryan”, deixara já boa impressão. O novo \, frase inspirada num ciclo da mitologia irlandesa em que Oisin e Fionn discutem entre si qual é a melhor música do mundo, mostra uma cantora mais amadurecida. A voz de Cathie tanto faz lembrar June Tabor, como Dolores Keane ou Sandy Denny. Por vezes as três juntas, como em “At the foot of Knocknarea”. Mas o que poderia significar descaracterização acaba por provocar um efeito de familiaridade difusa. Os arranjos, repartidos entre a cantora e Gerry O’Beirne, cultivam uma abordagem leve que, nalguns casos (“I’m going back”, “Understanding love”), se aproxima da folk ligeira de uma Mary Black, enquanto “Coaineacht na dtri muire” repousa nas mesmas fantasias célticas de Enya e dos Clannad. Uma voz com a naturalidade e a versatilidade de Cathie Ryan merece enveredar por um caminho mais nobre e com outro tipo de exigências. Para já, aprecie-se a excelência instrumental do convidado Seamus Egan, dos Solas, ou divague-se ao som de “Lovely Willie”, num registo sobrenatural idêntico ao de June Tabor em “Angel Tiger” e “Against the Streams”. (Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção, 6).

Ainda no domínio dos novos celtas, o bretão Dan Ar Braz insiste na mesma fórmula, que tantos dividendos lhe rendeu, de “L’Heritage dês Celtes”, uma mega-produção feita a pensar no mercado, seguindo as pisadas de “Riverdance”, de Bill Whelan, e “A Irmandade das Estrelas”, de Carlos Nunez. Este novo capítulo da “Herança dos Celtas” foi gravada ao vivo no Zénith, de Paris, até preencher dois compactos inteiros, o que significa seca a dobrar. Porque se “L’Heritage des Celtes”, na sua concepção inicial, era um álbum sem dúvida afectado pela megalomania mas que conseguia equilibrar o excesso de meios com uma apreciável dose de bom-gosto, esta sequela, pelo contrário, descamba num tipo de mediocridade que, infelizmente, já conhecemos vinda de um tipo chamado Alan Stivell… Ouça-se “Evit Ar Bars” e perceber-se-à de imediato o que queremos dizer. Ou “Dir há tan”, na melhor tradição rock circense dos actuais Tri Yann. O facto de “Zénith” ser gravado ao vivo (mas misturado no mítico Windmill Lane de Dublin) não serve de desculpa. É um desconsolo verificar a desproporção entre a importância e quantidade dos convidados presentes (Karen Matheson, Gilles Servat, Carlos Nunez, Donald Lunny, Nollaig Casey, Jacques Pellen, Donald Shaw e a Bagad Kemper, entre outros) e a fraca qualidade musical daí resultante. Dancemos, enfim, com um suspiro nos lábios, ao ritmo do pesadote “The chesnut tree – The Dreraming Sea”, composto por Maire Ní Chatasaigh. Ou deixemo-nos esmagar pelo poder da Bagad Kemper que se rende aos deuses da Galiza em “Aires de Pontevedra”, um dos melhores temas desta herança céltica lançada ao desbarato. (Saint George, distri. Sony Music, 5).

A esperança de que nem tudo está perdido no reino da fusão regressa com “Le Grand Encrier”, de Alain Genty. O naipe de músicos, entre os quais, Jacky Mollard (violino e guitarra), Jean-Michel Veillon (flauta), Patrick Molard (gaita-de-foles escocesa e breta~) e Yann-Fanch Kemener (voz), é do melhor que se pode encontrar na Bretanha. Genty encarrega-se de modernizar o “ensemble” através do recurso ao baixo eléctrico, guitarra, teclados e programações. Entre o jazz, a electrónica e o típico canto tradicional bretão, com modulações “new age”, não faltam em “Le Grand Encrier”, exemplos de como fazer experimentação com modelos tradicionais sem os destruir. Ouça-se, a este propósito, “L achasse au tigre”, um tema que, ainda por cima, sabe rir de si próprio, em tropeções pelo reggae, a música indiana, o jazz-rock a la Gong e a dança de casino. Quem quiser pode conferir se está tudo nos conformes da tradição, pela gaita-de-foles de “Peklenig”. Um solo de se lhe tirar o chapéu. (Keltia, distri. Megamúsica, 7).

O Sol nascer a oriente, como se sabe. Mas talvez nem todos saibam que também pode nascer da garganta inglesa, com ascendência indiana, Sheila Chandra, rotulada na colectânea “Monsung: A Real World Retrospective”, pelo jornal de música “Billboard”, como “uma das vozes mais maravilhosas à face da Terra”. “Monsung”, título inspirado no primeiro grupo da cantora, Monsoon, reúne temas dos seus três ´lbuns gravados para a editora de Peter Gabriel, “Weaving my Ancestors Voices” (1993), “The Zen Kiss” (1994) e “ABoneCroneDrone”. Neles a cantora exibe o seu estilo vocal inconfundível em que as tradições e técnicas vocais indianas e célticas se confundem, “a capella”, em jogos com efeitos de reverberação ou sobre “drones” criadas electronicamente que nos dois excertos da longa peça “ABoneCroneDrone” se aproximam do puro minimalismo. LaMonte Young adoraria. E quem pensar em Noirin Ní Riain ao escutar “Sacred Stones” não está muito longe da verdade. Meditemos pois, banhados por esta voz luminosa. (Real World, distri. EMI-VC, 7).

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