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Elena Ledda – “Elena Ledda E O Erotismo Das Danças Do Sul” (concertos)

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terça-feira, 16 Setembro 2003


Elena Ledda e o erotismo das danças do Sul

Elena Ledda

CASTRO VERDE Cineteatro
dia 13, 22h00
Bastante público



O Verão não dá tréguas e Castro Verde, em pleno Baixo Alentejo, torra ao sol. Felizmente beneficiou do refrigério da música, no festival Planície Mediterrânica, integrado na programação do Sete Sóis Sete Luas, que terminou no domingo com espetáculos de Lula Pena e dos Ficções.
A felicidade fez-se sentir no sábado, no cineteatro da vila, quando os ouvidos e a alma acolheram a música da cantora da Sardenha Elena Ledda, responsável pelos projetos Suonofficina e o atual Maremannu, e senhora de uma voz capaz de deixar qualquer um de rastos (o calor não conseguiu tal). Até certo ponto, pelo menos. É que, se quase todos se encantaram, houve também quem se mostrasse indiferente a esta voz que ora transporta uma religiosidade a roçar o sublime, ora faz estremecer os corpos com o erotismo que atravessa, como um arrepio na pele, as danças do Sul. Mas nem o erotismo nem o sagrado foram suficientes para calar uma parte do público, que insistiu em conversar na plateia em voz alta, enquanto a criançada corria e guinchava pelas cochias.
No palco, os músicos cantavam com devoção uma liturgia ou polifonias dirigidas a Deus. Valeu que Deus, incluindo quando veste as roupagens de Terra, mesmo quando não se respeita o silêncio que lhe é devido, sabe fazer-se ouvir através das vozes que se colocam ao seu serviço. A de Elena Ledda é uma delas.
Umas vezes grave, outras gracioso, só ou apoiada por uma segunda voz, o canto de Elena escancarou sobre a noite de Castro Verde uma abóboda de estrelas. Cantou lengalengas e canções de ninar que há séculos fazem adormecer e acalmar as crianças (menos as do Cineteatro de Castro Verde) e espantam os papões. Emocionou ao interpretar um tema em curdo. Criou padrões intrincados nas polifonias a duas vozes. Improvisou com inspiração entre o transe ritual e acentos contemporâneos moldados no minimalismo. Os dois instrumentistas, um no bandolim outro no baixo elétrico, reforçaram a componente rítmica de alguns temas com balanço folk-rock, contribuindo para a descompressão de uma música que, nos momentos de elevação, não admite qualquer tipo de interferências.
Quando, porém, a religiosidade se materializou em citações diretas a Nossa Senhora e ao Menino Jesus ou na laicização musical dos cânones de uma missa tradicional, houve na sala quem, mais materialista, se agitasse na cadeira e desviasse o rosto, incomodado. Absorta – e, no entanto, tão próxima – no seu êxtase, imune às pressões da revolução, Elena Ledda fez o que tinha a fazer, cantando como uma diva em trânsito entre os enlevos do céu e as delícias da Terra. No final, quase todos se renderam, ovacionando-a de pé.

“Cante” alentejano e jazz com humor
Antes de Elena Ledda, cantaram as Camponesas de Castro Verde, com uma curta mas sentida sessão de “cante” alentejano. A anteceder o concerto propriamente dito, na rua, em frente ao anfiteatro, já tinham atuado os Funk Off, banda de jazz cómica italiana que coloca a música ao serviço do humor e vice-versa. As suas fanfarras, tão swingantes como desbragadas (algures entre os Bandemónio e os Madness, como se ouviu alguém comentar), as coreografias de circo, a interação com o público, as ordens berradas em jeito de “rap” ao megafone, as poses Monty Python e uma alegria e movimentação contagiantes arrancaram sorrisos, gritos, palmas e passos de dança à pequena multidão que se juntou em redor desta “big band” de “jazzmen” faz-tudos.
Mas a noite tinha ainda reservadas outras surpresas. A seguir ao concerto, numa tenda improvisada, um baile tradicional reavivou, ao som das violas campaniças, os ancestrais passes de dança que, durante séculos, foram repetidos no Alentejo, mas que a passagem do tempo vai apagando dos corpos e das memórias dos mais novos. Nada tradicionais, os Chocalhos subiram depois ao estrado para continuar o baile. Misturaram valsas e mazurkas, reggae e rock, batucadas e andamentos medievais, um tema dos Milladoiro e toques dos Gryphon. Têm um ágil percussionista (ao que parece, antigo elemento dos Ciganos de Oiro) e um “virtuose” flautista (flautas transversal e de bisel) e executante de instrumentos de sopro medievais que irá dar que falar. O CD de estreia dos Chocalhos, que têm tudo para triunfar menos o nome, sairá em breve.
Quando, por fim, um grupo de gaiteiros se juntou à festa, o Alentejo deixou de ser árabe para sucumbir à sedução celta. Vasta, ardente e luminosa planície mediterrânica, puxaram-na para Norte, mas continua a ser ela. Eixo em redor do qual a nova Europa irá bailar.

EM RESUMO
Castro Verde assistiu a um concerto memorável por uma das grandes vozes atuais do Mediterrâneo. Antes, divertiu-se à grande com as tropelias dos Funk Off. Pena a falta de respeito de algum público presente no cineteatro.