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Eileen Ivers – Crossing The Bridge (conj.)

19.02.1999
Folk
Dos Dois Lados Da Ponte

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“Wild Blue”, o anterior álbum de Eileen Ivers, apresentava já os sinais inconfundíveis de uma intérprete com aspirações ao estrelato, ou, pelo menos, a uma maior projecção mediática. O novo passo da violinista, “Crossing the Bridge”, assinala, de facto, a passagem de uma ponte. Da anterior editora Green Linnet para a actual Sony vai a distância que separa uma executante dedicada, prioritariamente, à música tradicional (embora já numa perspectiva não redutora) de uma aspirante a voos mai saltos. “Gravewalk”, o tema de abertura, comprova de imediato a mudança de agulhas, com uma guitarra eléctrica a fazer as despesas e um ritmo bem marcado de folk rock, mais rock do que folk. E, se os compassos do “reel” ou do “jig” ainda são perceptíveis nos “sets” instrumentais, as orquestrações, em ecrã gigante e technicolor, remetem temas como “Bygone Days” para as exposições galantes de “Riverdance” oupara a vertente mais “superstar” dos Chieftains. “Whiskey & Sangria” é um flamenco-reel com muito pouco “whiskey” e “Crossing The Bridge” um exercício de hip hop com direito a sopros de jazz, violinices grapellianas e, pasme-se, riscos de “scratch”.
Seja qual for o ponto de vista com que se encare esta evolução brutal de Eileen Ivers, o resusltado soa como uma fusão e altíssima qualidade, a milhas de distância dos arremedos, com o mesmo intuito e bem menos conseguidos, da violinista rival, Eliza Carthy, em “Red Rice”. A partir daqui as coisas tornam-se mais tradicionais, o mesmo não é dizer convencionais. As sonoridades “cool” de um órgão Hammond, compassos híbridos (de calipso, em “Islanders”) e, sempre, execuções violoinísticas de altíssimo quilate (como numa, talvez demasiado rebuscada e ávida de exibicionismo, “Polka.com”, ou no fantástico “drive” de “Crowley’s/Jackson’s”) estão longe de se pautar pelo convencionalismo. Num álbum com estas características é condição necessária a presença de convidados de renome e, neste aspecto, “Croosing The Bridge” não fica atrás de nenhuma das listas elaboradas pelos Chieftains, Dan Ar Braz ou Carlos Nunez apresentando como credenciais os nomes de Seamus Egan, Steve Gadd (baterista de jazz), Jerry O’Sullivan, Joanie Madden, John Boswell (pianista new age), A Di Meola (guitarrista de jazz rock que dispensa apresentações), Alex Acuna, Tommy Hayes e Lew Soloff (trompetista de jazz). Com múltiplos sabores, dos mais tradicionais à nova cozinha, “Crossing the Bridge” pretende agradar a gregos e troianos. E agrada, se o cortarmos em fatias. (Sony Classics, distri. Sony Music, 7.)

Sempre em forma, há longos anos, estão os escoceses Tannahill Weavers. O seu mais recente trabalho, “Epona” (deusa celta identificada com o cavalo), é a continuação de um trabalho cuja qualidade, dignidade, seriedade e longevidade apenas terão paralelo, em terras do Norte, com os Whistlebinkies ou os House Band. Uma seriedade que aqui chega ao ponto de incluir, no livrete, um glossário de termos gaélicos ou simplesmente da gíria popular. Logo no tema inicial, sentimo-nos imediatamente fulminados por uma execução “assassina”, nas “highland pipes” e nas “scottish small pipes”, de Duncan J. Nicholson, num “Interceltic set” de fazer gemer de prazer. A voz de Roy Gullane, daquelas nasaladas e com tudo no sítio, como se costuma dizer, provoca o mesmo efeito no tema seguinte, “When the kye come hame”. E assim sucesivamente, até ao fim, com o prazer a renovar-se, faixa a faixa, através daquilo que de melhor a boa música celta tem para oferecer: poder de evocação, a poesia e forças que a massificação e os sonhos virtuais não conseguem vencer. Nas notas de capa o grupo declara, aliás, num texto cheio de ironia, que este seu 14º álbum será o último deste século, avisando que o próximo poderá “ser gravado num suporte suficientemente pequeno para subsituir um botão de camisa” ou até “ser metido, por engano, na ranhura de um parquímetro”.
“Epona” faz brotar algo de profundo, que não pode ser traduzido por palavras. As entoações e ornamentações e a consonância interior que provocam não se eencontram em mais nenhuma música do mundo. Chamem-lhe magia. Chamem-lhe um sonho com a capacidade de, respondendo ao chamamento, se tornar realidade. Chamem-lhe a brisa, a pedra e o musgo que nascem dentro de cada um de nós. A deusa “Epona” leva-nos no seu dorso até ao coração do mistério. (Green Linnet, distri. MC – Mundo da Canção, 8.)

Sem surpresas, mas com o virtuosismo que sempre acompanha as melhores formações irlandesas, os Moving Cloud apresentamse no mercado português com “Foxglove”, um álbum ortodoxo pautado pelas prestações instrumentais de Paul Brock, no acordeão de botões, Maove Donnelly e Manus NcGuire, ambos no violino, e Kevin Crawford, na flauta, “tin whistle” e “bodhran”, com o acompanhamento de piano de Carl Hession. A estes juntam-se as participações de três convidados muito especiais, Gerry O’Connor, ex-Four Men & A Dog, no banjo, Johnny “Ringo” McDonnagh, ex-De Danann e membro actual dos Arcady, nos “bones”, Garry O’Briain, ex-Skaylark, actualmente nos Buttons & Bows, na guitarra rítmica, e Trevor Hutchinson, da banda de Sharon Shannon, no contrabaixo. Sequências imaculadamente interpretadas de “reels”, “jigs” e outras danças dos reportórios irlandês, baile musette, franco-canadiano, escocês e de Cape Breton formam um todo instrumental que coloca os Moving Cloud na primeira divisão das bandas exclusivamente dedicadas à música de dança. (Green Linnet, distri. MC – Mundo da Canção, 8.)