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Edgar Nogueira – Entrevista

Pop Rock

12 FEVEREIRO 1994
EM PÚBLICO

EDGAR NOGUEIRA *


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Quando começou a interessar-se e a tocar guitarra portuguesa?
Comecei aos 13, 14 anos, em Ansiães de Amarante, a tocar violino, em várias reconstituições de tunas. Mais tarde vi um instrumento que os velhotes de lá admiravam muito, que era a guitarra. Comecei a ficar com o bichinho no ouvido. Um velhote ensinou-me algum fado corrido, num instrumento ainda com cinco cordas. Mais tarde acabei por pôr-lhe mais uma “ida” de cordas [corda dupla], à maneira da guitarra de Coimbra. Frequentei depois o Instituto Gregoriano durante um ano ou dois. Mas dedicar-me à guitarra a sério foi só quando já era homem. Vim para Lisboa em 67 e a partir daí apaixonei-me de facto pela guitarra. Comecei a procurar escolas mas não as havia ou então ninguém sabia da guitarra portuguesa. Ninguém dava aulas nessa altura, era um círculo muito fechado, reduzido às casas de fado. Fui obrigado a pegar nos discos – de José Nunes, o trio de Jorge Fontes, Jaime Santos, Francisco Carvalhinho, Carlos Paredes – e a ouvi-los para aprender. Até conhecer Fernando Freitas, que me deu por fim algumas aulas. Mais tarde tive o prazer de conhecer o professor Martinho da Assunção, esse sim, grande conhecedor de música e do fado. O profissionalismo aconteceu só em 1974. Acompanhei todos os fadistas menos a Amália, que tinha o seu grupo privativo, e o Carlos do Carmo: Maria Velejo, Tristão da Silva, Fernando Maurício, a Cidália, Maria da Fé… Mais tarde, no restaurante típico Luso, toquei com o Francisco José, Tony de Matos, Rui de Mascarenhas, etc.

Mas prefere a guitarra instrumental solista, não é verdade?
Sempre me disseram que era bom a fazer variações. Onde eu me sinto de facto eu é como solista. No meu disco mais recente, todo instrumental, o CD “Abril em Portugal”, juntei o fado com temas clássicos. Mas mesmo os fados têm sempre um pequeno arranjo. O próprio tema “Abril em Portugal” que lá está não é o do Raul Ferrão, mas o meu, embora o mote seja dele. Ao Camões também lhe deram motes para ele fazer redondilhas e não foi por isso que ele deixou de ser Camões. Agora, tenho uma profundidade maior, mas não nesse disco, que é para o povo. Para o público mais sectário, mais erudito, tenho outros números, que já fizeram com que eu em tempos fosse chamado o “Paganini português” da guitarra. Por exemplo, “A Dor do Verbo”, o verbo como um todo, Deus ou a natureza. Só para pessoas já muito evoluídas.

Quer comentar uma frase de Carlos Paredes, quando ele disse que a guitarra portuguesa era um instrumento moribundo?
Pois, em relação ao Carlos Paredes, somos contrários. Não na arte – sempre o admirei e vou continuar a admirá-lo – mas noutro aspecto. Ele disse sempre isso da guitarra, que era um instrumento moribundo e que só dá para tocar a música que sai dos dedos. Eu já há anos que digo que não. E provei-o. Quando pus um “Voo do Moscardo”, uma “Marcha Turca”, umas “Czardas” ou um “Para Elisa”, todas estas músicas que se dão no Conservatório, no disco. A guitarra pode tocar as pautas. Gosto de tocar música clássica com o cunho próprio da guitarra que tem a ver com o fado. Mas considero a guitarra um instrumento erudito por natureza. E que me toca o coração. Tem muito a ver com o nosso corpo. Num disco como “Peças imortais”, de 88, estudei peças de Mozart ou de Beethoven e dei-lhes uma forma nova.

“A Dor do Verbo” é um título que remete de imediato para um certo misticismo. Considera-se um místico?
Está a tocar num ponto que acho muito giro. Houve uma altura em que as pessoas se riram por eu ter dito que na “Marcha Turca” o Mozart me tinha autorizado a tocá-la na guitarra. Andava às voltas com a adaptação da pauta para a guitarra, quando um dia tive um sonho. Sabe o que é uma pessoa estar a dormir e ouvir uma pessoa, com a figura de Mozart – admito que possa ter sido uma imagem criada pelo cérebro – a dizer assim: “Eh pá, põe! Fica bem à guitarra!” não tem nada a ver com bruxaria. Também já estive à beira do mar e tentar fazer um exército com os peixes. São experiências. Na lagoa de Santo André, ia para lá, despia-me, entrava na água e pensava no que Cristo dizia, que quem tem fé faz tudo. Depois desisti. Já fazia essas experiências antes de aparecerem os livros do Rampa [Lobsang Rampa]. Senti-me uma ve deitado no chão e estar de fora a ver o m eu corpo de cima. Nessa altura tinha tido uma paixão muito grande, estava só, depois casei e deixei de ter tanto tempo para pensar nisso. De facto o pensamento humano é incontrolável. Podemos ir muito longe.

Projecta todas essas crenças e experiências na música que faz?
Sabe como é que saiu “A Dor do Verbo”? Relaciona-se com um tema meu antigo, “Canção de amor”, que o Artur Albarran nessa época passava na rádio, num programa para os pescadores. Tinha acabado de conversar, logo a seguir ao 25 de Abril, sobre o MPLA e os acontecimentos de Angola. Comecei a ficar um bocado… como dizer, a arrefecer… Vi que as coisas não estavam a ser bem, bem aquilo que a gente desejava. Quando há uma mutação na sociedade, ela só pode ser considerada positiva se tudo for para melhor. Agora se for só numas coisas e as outras ficarem ainda piores, já não é a mutação perfeita. Nessa altura andava com uma espiritualidade muito avançada. Mas regressando à história. Vinha de carro da Taberna d’El Rey, a ouvir rádio, quando comecei a sentir uma dor, psicológica e no corpo todo. Trazia a guitarra no carro – foi numa altura em que estava casado só com a guitarra –, parei o carro e foi então que ouvi o Artur Albarran apresentar a tal minha “Canção de amor”. Peguei na guitarra e consolei-me a mi próprio. Pus-lhe a mão como nunca tinha posto e saiu-me um tema de jacto. Cheguei a casa, voltei a tocá-lo e gravei-o logo. Era aquilo. Toda a dor que tinha desapareceu. Dormi descansado. Em segundos tinha-me sido transmitida uma ideia que depois me levou cinco minutos a desenvolver. Na altura houve que pusesse a hipótese de ter sido a influência de um espírito do ar que andasse por ali.

Acredita em Deus? Quem é Deus para si?
Está a fazer a pergunta a um indivíduo que também sabe algumas coisas de ciência. Mas que acredita num ser único que comanda. Mas claro, o meu Deus não será aquele Deus com uma chibata para nos bater. Está a falar com um cristão. Acredito em Cristo, por aquilo que ele disse, continuo a acreditar que ele detém tudo. Acredito nele, não porque tenha falado comigo, embora gostasse de o ter conhecido na sua época. Acredito nele como filho de Deus, o único que venceu a morte. Só por isso ele é o verdadeiro herói, filho do todo. Mas é óbvio que se Deus disse a Moisés que era superior ao sol, e que ele nem o podia ver, mandando-lhe enterrar o rosto na areia para não o ver passar, não posso sequer imaginá-lo como ser. Ele é que fez a natureza, que nós pensamos que dominamos, quando afinal somos é dominados. Acredito em Deus, mas não sei como defini-lo.

Como é que o sente?
Ah, como o sinto, sim! Sinto-o e obedeço-lhe sempre nos momentos críticos. E tento que ele, o espírito, me oiça. Sou um pecador, mas, como costumo dizer, um pecador ameno. Cumpro as leis da humanidade. Acho que Deus nunca me tem abandonado. Não vou atrás de fanatismos – essas novas igrejas aparecem só por causa da solidão –, estou muito seguro no aspecto teológico, religioso. Com isto não quero dizer que sou o mais perfeito de todos, mas sou muito seguro. Só acredito em Cristo, não nesse malucos que vão aparecendo por aí. Quando vier um homem à Terra que, na altura em que um russo ou um americano quiserem carregar num botão para lançar bombas de neutrões, só com o dedo fizer desaparecer tudo – esse será o Cristo. Está escrito que ele aparecerá de novo. Não acredito é nos milagres e nos milagreiros de agora. A também acredito no homem. Se estiver doente, vou a um bom médico. Porque acho que Cristo só não cura. Aqui parece que fiquei um bocado sem fé, não é?

* Intérprete, compositor e professor de guitarra portuguesa. Autor de três álbuns e um CD, “Abril em Portugal”, editado no ano passado pela Metrosom.