Arquivo de etiquetas: Divine Comedy (The)

Entrevista: The Divine Comedy / Neil Hannon – “Lascívia Animal”

Pop Rock

19 de Junho de 1996

The Divine Comedy actuam em Portugal e lançam novo álbum

Lascívia animal

“Inspiration” e “Promenade” e o mais recente “Casanova” são, até à data, três momentos de um percurso de que não se conhece, por enquanto, a chave certa. O mistério dos Divine Comedy é o lugar de eleição de Neil Hannon, um irlandês de 25 anos que faz da afectação modo de vida e da maquilhagem musical uma lei.


nh

“Casanova” é teatro, sexo, amores canibais e um caleidoscópio de referências que vão de Burt Bacharah a Marc Almond, de Scott Walker a Peter Hammill. A pop na voz de um excêntrico. Ou de um comediante. Entre outras coisas, Neil Hannon explicou ao PÚBLICO a estratégia de choque para se ir para a cama com alguém.

PÚBLICO – “Casanova” representa uma mudança radical em relação ao anterior “Promenade”, até a sua maneira de cantar mudou. A que se deve esta inflexão?
NEIL HANNON – Quanto à voz, aprendi a cantar de uma forma decente (risos). Basicamente, altero tudo em cada novo álbum. Depois, deram-me desta vez uma grande quantidade de dinheiro para o fazer, o que me permitiu fazer canções superarranjadas (“Over arranged”m no sentido de excesso). O ambiente também é inteiramente diferente, mas o princípio por detrás das canções é o mesmo…
P. – E esse princípio é…
R. – Oh… Não sei! São canções que são eu. Encaradas de cada vez de um ângulo diferente.
P. – Pode dizer-se que trabalhou desta vez como um actor?
R. – Num certo sentido, sim. Mas por outro lado há neste álbum uma honestidade maior. Pretendi descrever o que me estava a acontecer de facto, mais do que em “Promenade”, onde sobretudo fantasiava. “Casanova” é mais corajoso.
P. – Porque escolheu a personagem de Casanova para base temática?
R. – Ironia total. Obviamente, não andei atrás de duas mil mulheres, mas dei o meu melhor.
P. – O amor é um jogo perigoso, que pode conduzir ao inferno, como diz em “Through a long and sleepless night”?
R. – No início, nunca parece perigoso, não é? Começar algo que não se termina pode ser um dos caminhos…
P. – A expressão “louco de amor” diz-lhe alguma coisa?
R. – O amor não teve que ver tanto como isso. Foi mais lascívia animal.
P. – Uma forma de paixão?
R. – Sim, a falta de uma coisa e o excesso de outra.
P. – Há neste álbum uma série de influências ou de permutas com universos musicais de outros autores. Scott Walker, por exemplo.
R. – Não se pode dizer que partilhe da sua visão, mas certamente que partilho do cepticismo da sua obra dos últimos anos da década de 60. A sua vertente mais actual, expressa em “Tilt”, é demasiado sombria para mim.
P. – Quer dizer que não é uma personalidade tão estranha quanto ele?
R. – Não me consigo imaginar a fazer um álbum como esse. Gosto em demasia da melodia. Tenho no subconsciente uma sensibilidade pop. Como se me tivesse alimentado de pop e vivido com ela toda a vida. Não se pode fugir a isso. Mesmo que quisesse ser vanguardista, provavelmente não o conseguiria. A única coisa que ambiciono é escrever canções engraçadas.
P. – E Peter Hammill. Há faixas onde canta e até grita como ele…
R. – Tem havido muitas pessoas a dizer-me o mesmo, mas a verdade é que não conheço a sua música. É muito embaraçoso.
P. – Que discos ouvia na sua adolescência?
R. – Comecei por ouvir alguns horrores dos anos 80, como Nik Kershaw. Evoluí para os U2, como toda a gente nessa altura, e diplomei-me com os REM, mais tarde com os My Bloody Valentine, fechando o ciclo com o retorno aos anos 60 e a Scott Walker.
P. – David Bowie?
R. – Nunca o ouvi com muita atenção, embora o admire.
P. – Citei-o porque a introdução de “Songs of love” lembra fortemente o Bowie de “The Man who Sold the World”.
R. – Acha? Basicamente, tenho ouvido sempre uma quantidade de música, por acidente, na televisão, por exemplo. Há muita música neste mundo e não se pode fugir a ela. Procuro não ouvir muita coisa em casa, voluntariamente, isso não ajuda a ser original, acidentalmente podemos começar a usá-la.
P. – Hoje que toda a gente fala do “easy listening”, assume ter sido influenciado por este género musical em “Casanova”?
R. – Sem dúvida que há elementos de “easy listening”, mas não estava consciente do movimento até ao momento em que terminei o álbum. Na verdade, aquilo que as pessoas classificam como “easy listening” é em geral música pop orquestral dos anos 60, música por que me tenho interessado nos últimos cinco ou seis anos. Muita dessa música é tudo menos fácil (“easy”), muito menos o meu álbum, que é mais do género “hard listening”…
P. – É impossível não pensar em Marc Almond, dos Soft Cell, quando o ouvimos a si na abertura do disco, em “Something for the weekend”, no mesmo ambiente de festa decadente…
R. – Sem dúvida, é muito Marc, embora sempre achasse que ele canta de uma forma demasiado rude, aguçada, para o meu gosto. À parte isso, admiro-o muito. Para dizer a verdade, não o ouvi muitas vezes, apenas me ouço a mim próprio (risos).
P. – “Charge” é um universo à parte, onde a sua voz se passeia por vários registos, desde o teatro de Kurt Weill à personificação de um “crooner”.
R. – Mudo constantemente. Sou como um monstro, um monstro cheio de lascívia. Esse tema, em particular, é bastante violento, uma espécie de má estratégia militar que pode ser interpretada de várias maneiras. É um tema difícil de analisar. Quando escrevi o que pode ser considerado o primeiro lado do álbum, a preocupação era desenvolver várias imagens baseadas no facto de se fazer qualquer coisa para ir para a cama com alguém. “Charge” é como que o zénite desse estado de espírito, uma tentativa desesperada. No resto do álbum, foi como se partisse tudo em bocadinhos para descobrir o que é que se esconde e existe realmente por detrás de tudo isto. É completamente só instinto sexual.
P. – Que processo seguiu para compor este autêntico caleidoscópio que é “Casanova”?
R. – Cinco por cento de inspiração mais 95 porcento de trabalho duro. Há na minha música muito mais de instintivo do que me é em geral atribuído. Uma espécie de fluência que ao longo do processo de gravação acrescenta pormenores que não existiam no momento da composição.
P. – Como é que transpõe esse processo para o palco?
R. – Com uma banda tradicional, com piano, órgão Hammond, bateria baixo, duas guitarras e eu a cantar, o mesmo formato que utilizarei na minha actuação em Portugal.
P. – “Casanova” é um trabalho de paixão ou um trabalho de ironia?
R. – De certo que não é um trabalho de amor! Mais de desespero. Tive bastantes problemas em descobrir o que fazer depois de “Promenade”. Este álbum nasceu de uma frustração.
P. – O trabalho de um matemático ou o trabalho de um padre?
R. – Certamente que quero passar uma mensagem para as pessoas, mas ao mesmo tempo acho que não tenho o direito de o fazer, sou apenas um simples irlandês (risos).
P. – Uma questão de moral, portanto?
R. – Tenho demasiadas morais no coração, acho eu.
P. – O trabalho de um amante de livros (o “booklover” de “Promenade”) ou o trabalho de um amante de espectáculo?
R. – Apenas o trabalho de um amante.
P. – Nesse tema de “Promenade”, faz uma lista de escritores. No novo disco, na introdução de “Theme from Casanova” descreve a ficha técnica. Qual a explicação para este gosto pela enumeração?
R. – Começou por ser apenas uma piada. A seguir a uma canção como “Through a long and sleepless night”, procurei no tema seguinte uma espécie de alívio dessa tensão acumulada, como uma reacção química. Não resultou tão bem como quis porque no final de “Theme from Casanova” voltam a acontecer coisas estranhas, como uma trovoada. É uma das minhas músicas preferidas.
P. – Ainda a propósito desse tema, fala de esquizofrenia…
R. – Porque vai do ridículo ao sublime, em quatro minutos. É uma súmula de tudo o que quis dizer no álbum, sem ter de cantar uma única palavra.
P. – Três cores para definir “Casanova”?
R. – Púrpura, escarlate e uma espécie de azul-turquesa pálido e doentio…
P. – Vamos acabar com o velho jogo das associações. Dou-lhe um nome e você faz um comentário rápido. Está de acordo?
R. – Não sou muito bom nesse jogo, mas vamos a isso.
P. – Ray Davies.
R. – Terry encontra-se com Julie.
P. – Bryan Ferry.
R. – O senhor sexo.
P. – Phil Spector
R. – “Wall of sound”
P. – Burt Bucharah
R. – Um encanto encantador.
P. – Julie Andrews
R. – Não consigo deixar de pensar na aparência dela agora, uma visão que não é nada agradável.
P. – Deus
R. – Inverosímil.
P. – Neil Hannon
R. – Ainda mais inverosímil.



The Divine Comedy – “Promenade”

Pop Rock

15 de Junho de 1994
ÁLBUNS POPROCK

The Divine Comedy
Promenade

Setanta, import. Contraverso


dc

Neil Hannon tem aquele ar entre o seminarista e o perverso que caracteriza os verdadeiros “dandies” ingleses. Mas Neil Hannon, além do aspecto, é um notável escritor de canções – canções cheias de sentimento, humor, erudição e, algumas vezes, grandiloquência, a combinação perfeita a que é fácil chamar pretensiosa. Hannon tem, de facto, pretensões de classicismo. Se, no álbum anterior, ele abrira já o livro das melodias perfeitas que permitia comparar os Divine Comedy a uma ressurreição, nos anos 90, dos Kinks, o novo “Promenade” vestiu-se ainda com maior rigor, carregando com mais força na sofisticação dos arranjos para cordas – como se Michael Nyman tivesse virado pop – e deslizando no escorrega de um piano tocado à hora do chá na biblioteca de uma velha mansão inglesa. Os Divine Comedy estão no cruzamento de um madrigal, uma sala de leitura, uma igreja, Roger Eno, Nyman, e a “mod generation” dos anos 60. A pose, bem entendido, é cultivada até ao limite, com o artista a deixar-se fotografar em sugestões de crucificação ou com a pirâmide do Louvre por fundo, arvorando uma expressão mista de altivez e distanciamento. O intelectual mas também o iconoclasta assoma em “The booklovers”, cuja letra se resume a enunciado exaustivo de escritores, dos românticos aos contemporâneos, cada um acompanhado por um ruído, um cumprimento, uma exclamação ou uma onomatopeia, intercalado de um refrão irresistível. “Geronimo”, “Don’t look down”, “The summerhouse” ou “Neptunes daughter” insinuam-se da mesma maneira no ouvido, audição após audição. Mas é no último tema deste passeio pelo jardim que Neil Hannon atinge o estado de graça, em “Tonight we fly”, pouco menos de três minutos de pura magia passados com Peter Pan, verdadeira lição de voo pela terra do Nunca. Desde a estreia dos Smiths que um álbum não reunia um naipe de canções deste quilate. (8)