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Diamanda Galás – “Schrei X”

Pop Rock

22 Janeiro 1997
pop rock

Diamanda Galás
Schrei X
MUTE, DISTRI. BMG


dg

Aranhas, esqueletos, monstros, coisas informes e ameaçadoras, a artista encharcada em sangue. Brrr!… Só a imagens da capa metem medo. Diamanda Galás faz gala em assustar-nos. O texto interior informa que “Schrei X” “foi feito em completa escuridão” ao mesmo tempo que aconselha a “tocar o disco apenas com o volume no máximo”, esclarecendo que “não se trata de música ambiente”. Ficamos esclarecidos e preparados para as piores torturas auditivas e psicológicas. A diva personificadora da sida que recentemente actuou entre nós, no CCB, em Lisboa, faz-nos a vontade. “Schrei X” é o disco mais radical e, eventualmente, de audição mais insuportável, da sua discografia. Diamanda grita e arranha e grunhe do princípio ao fim de 24 curtos segmentos (metade deles registados ao vivo) de horror sobre a alienação, a claustrofobia e a dor, temas da sua especial predilecção, sobre os quais lança o anátema da sua voz de feiticeira enlouquecida. De um ponto de vista conceptual, faz sentido ver nesta obliteração total das formas musicais convencionais, uma vontade de ruptura que não se esgota na mera provocação, mas antes procura expurgar toda a superficialidade do acto de criação artística. Quanto ao prazer auditivo que se poderá retirar deste mesmo acto, estamos conversados. “Schrei X” poderá soar como “new age” a ouvidos masoquistas. Para os outros, sobreviver incólume a este ritual de uma voz infectada pela raiva, já será um feito. O vírus alastrou à alma da música. (6)



Diamanda Galàs – “Plague Mass”

Pop Rock

15 MAIO 1991

MISSA DO CORPO AGONIZANTE

DIAMANDA GALAS
Plague Mass

LP duplo e CD, Mute, distri. Edisom

dg

A 10 de Dezembro de 1989, Diamanda Galas é presa por conduta desordeira e provocatória, ao interromper uma missa celebrada na Catedral de St. Patrick. Em Agosto, do ano seguinte, o Governo italiano acusou-a de blasfémia contra a Igreja Católica, por ocasião de uma “performance” de “Plague Mass”, celebrada no Palácio dos Medici. À Igreja Católica parece não ter servido de emenda. Passados três meses sobre a acusação, nos dias 12 e 13 de Novembro, a Catedral de St. John, The Divine, em Nova Iorque, a segunda maior do mundo, abria as suas portas à herege, autorizando a profanação. Para o padre Conrado Balweg, a essência da missa celebrada por Galas trata apenas da “libertação do jugo da opressão”. Cabe à instituição religiosa a última palavra.
“Plague Mass” sumaria e potencia a trilogia “Masque of the Red Death”, acrescentando-lhe a força suplementar do som ao vivo e a carga simbólica proporcionada pela sobreposição do “negro” ao “branco” conotado com o local da realização. De facto, não deverá ser vulgar ver no interior de uma catedral uma mulher nua da cintura para cima, envolta em fumos e luzes vermelhas, banhando o corpo desnudo e possesso em sangue ritual. Foi isso mesmo que aconteceu em St. John, nesses dois dias em que ao Diabo foi dada permissão para entrar. O disco permite imaginar o caos. Terrífica como nunca, a voz de Diamanda Galas (com uma extensão de três oitavas e meia que lhe permite ir do soprano ao tenor), abandona-se à histeria, na sucessão de gritos impossivelmente agudos de “There are no more tickets to the funeral”, que ocupa a totalidade do lado A do primeiro disco. Espectáculo da morte. Acusação enfurecida contra todos os que deixam morrer milhares de seres humanos, por vergonha de olhar, e que na morte e sofrimento alheio encontram motivos justificativos de uma moral apodrecida. Só nos Estados Unidos, o número de vítimas da sida ascende já a um total equivalente ao dos soldados americanos mortos na II Guerra Mundial. Michael Flanagan, presidente da Documentation of AIDS Issues and Research Foundation compara “Plague Mass” ao “Requiem”, de Benjamin Britten, pelas vítimas daquele conflito. “Foste testemunha?” – a questão, repetida até à exaustão enquanto não se obtiver uma resposta satisfatória. “This is the law of the plague” abre o segundo lado. A voz fundida com a electrónica, sobre as monstruosas percussões de David Linton e Ramon Diaz. Texto do “Leviticus”, a lei antiga, capítulo 15 do Antigo Testamento. “I wake up and I see the face of the devil”, gospel torturado que prolonga ainda mais a agonia. Tempo de “Confissão” – “nessa casa nao há tempo para compaixão, apenas para a confissão/ no teu leito de morte apenas querem saber uma coisa/ se confessas.” Depois, a grande blasfémia – “Give me sodomy or give me death”. Disco dois – “How shall our judgement be carried out upon the wicked?”. Textos das “Revelações” e de Malcolm X. Durante “Consecration”, o corpo e a voz de Galas cobrem-se de sangue. “Este é o meu corpo, este é o meu sangue” – a blasfémia parece não ter limites. O sangue dos PWA (Person with AIDS, “pessoas com sida”) é comparado ao de Cristo. Recuperados de “The Divine Punishment”, as imprecações de “Sono l’antichristo”, lançadas ao Senhor no interior da sua própria casa, e o grito de “Cris d’aveugle”, solto do inferno, por Tristan Corbière. Por fim, “Let my people go” – “o diabo decidiu a minha morte/ e espera até ter a certeza/ de que todas as suas ovelhas negras/ morram antes de ser descoberta a cura”. A audição de “Plague Mass” pode constituir uma experiência, libertadora para uns, traumática para outros. A interface voz/electrónica, humano/máquina permite todas as liberdades ou todas as aberrações, consoante a perspectiva. Electrónica, aqui manipulada por Blaise Dupuy e Michael McGrath, que, na óptica da cantora, tem a grande vantagem de “tornar a besta mais visível”. Ópera do “Fim dos Tempos”, “Plague Mass” solta todos os fantasmas, liberta os ódios mais recônditos, incendeia mesmo os espíritos mais adormecidos. Declaração de guerra sem tréguas aos sentidos e às mentes aprisionadas nas morais instituídas. Canto do corpo agonizante. Impossível a indiferença, diante da chaga aberta, de onde escorre o sangue e o sofrimento.

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Diamanda Galàs – A Flor Do Mal

Pop Rock

 

15 MAIO 1991

 

A FLOR DO MAL

 

Chamam-lhe vampira, bruxa ou coisas piores. Tem uma obsessão sombria pela morte e pelas trevas. Basta escutar uma vez a sua voz para se perceber que sim. Diamanda Galas canta e compõe como se de uma vingança se tratasse. Gravou litanias a Satã e uma trilogia sobre a praga do século, a sida. Mistura religião com perversões várias. Finalmente, registou uma missa negra integral, num duplo álbum gravado ao vivo numa catedral católica. Sinais do fim. Diamanda Galas grita o estertor lancinante desse fim.

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“Plague Mass”, duplo ao vivo, representa o desafio total. A guerra global, de todos contra todos e cada um contra si próprio. Culminar de um percurso alucinante e de uma música e atitude desmesuradas, quase sobre-humanas na maneira como almejam superar todos os tabus, estéticas e morais tradicionais, à procura de uma sobre-realidade para além da alegria e da dor, do bem e do mal. Das “Litanies of Satan” à actual missa negra celebrada no seio da própria Igreja católica, é sempre a consagração e celebração do homem “novo”, cuja vontade de poder não carece dos deuses para se exercer. Afinal, mais uma das periódicas tentativas de destruir o sagrado. Mas, para melhor ajuizar sobre as intenções da senhora, nada melhor que contar a sua história. Deixa-se à imaginação o que fica por contar.

 

 

Da vida e da morte

 

Diamanda Galas nasceu americana, mas corre-lhe sangue grego nas veias. Xinogalas, o apelido paterno. Os pais, gregos de facto, pertencem à casta dos Manatis, equivalente grega dos sicilianos. Como estes, a ideia de vingança desempenha um papel primordial no seu imaginário. A dor também. Diamanda, à maneira das carpideiras, contratadas para chorar e lamentar a morte alheia, canta os males da humanidade, as suas doenças, o desespero. “Chorar um ou dois dias é uma coisa. Chorar por contrato, 15 ou 20, é outra completamente diferente – torna-se um ritual extático que transcende a banal piedade dos americanos.”

Diamanda Galas passou os primeiros anos de vida a congeminar vingança. Contra os ricos, os poderosos, os vilões da humanidade. Comunista? Nem tanto. Tem mais a ver com um mau feitio congénito, que ela própria, de resto, reconhece. Escreveu um manifesto em defesa dos Black Leather Beavers, associação de “carácter humanitário”, de vigilantes da rua, decididos a acabar com os violadores de mulheres. “Acabar” mesmo, o que passa pela castração dos órgãos viris dos prevaricadores. “Com os violadores, o problema reside nos ‘tomates’. Removidos estes, está resolvido o problema.” Há um paralelo evidente entre esta atitude e a música da senhora. Mas o ódio e a violência radicam finalmente numa autodescoberta. No reconhecimento da própria morte, inadiável. Diamanda não consegue suportar o peso desta evidência, que considera “insultuosa”. A morte não há-de ficar a rir-se – assegura. “Quando o momento chegar, serei eu a tomar conta da situação. Quando os deuses decidirem levar-me, rir-me-ei na cara deles. Há-de haver uma seringa espetada no meu braço, tão rapidamente que eles nem chegarão a perceber o que se passou.” Diz estas coisas com o ar mais natural do mundo. Só pede a todos os santinhos que a mãe nunca venha a saber. A personalidade da “diva de negro” ficou completa numa ocasião em que viu e ouviu Jimi Hendrix. Antes, queria estudar bioquímica. A partir desse momento crucial pretendeu ser a própria bioquímica. Para ela, homens e mulheres como Hendrix, Antonin Artaud, Maria Callas ou Charlie Parker possuem um poder especial, uma forma de energia sacrificial intensíssima que tudo inflama e consome na sua chama abrasadora. O problema é que as pessoas possuidoras de tal dom geralmente não duram muito. Como forma de prevenção contra eventualidades desagradáveis, Galas não desdenha a hipótese de uma transfusão e regeneração total do sangue, à maneira da famosa condessa Bathory, vampira lésbica que prolongava a vida e a juventude à custa de beber o sangue de raparigas virgens que ela própria seduzia. Como é que Diamanda faz para manter a voz e a energia é lá com ela. De resto, virgens já há poucas. Sangue, ainda vai havendo. Recorde-se, a propósito, que em recentes espectáculos ao vivo apareceu em palco com o corpo completamente encharcado do líquido vital. Paranóia do sangue e da sua contaminação, a sida, a agonia, o lento envenenamento.

 

 

O teatro da crueldade

 

O termo, inventou-o Artaud, surrealista escorraçado por Breton, em nome da ortodoxia. O teatro inseparável da vida, confundidos na voragem e vertigem de uma encenação única. Os espectáculos, melhor dizendo, as “performances” de Diamanda Galas estendem o conceito aos limites da loucura religiosa. Rituais de auto-imolação e violência desmedida. Diamanda Galas, feiticeira do século XX, na consumação de missas negras em louvor de Satã, o “grande acusador”. A raiva. O fogo, simultaneamente devorador e purificador. Sempre que actua ao vivo, pensa inevitavelmente em “deitar fogo à audiência”. Sobre o palco, transfigura-se. As fronteiras sexuais são abolidas. “Todos os grandes ‘performers’” – diz – “têm de ser forçosamente travestis, no sentido de deixarem de ser homens ou mulheres para passarem a animais, répteis ou insectos.” No seu caso, afirma-se mais próxima da condição de insecto. Não surpreende por isso que provoque frequentemente nas audiências um temor supersticioso. As pessoas chamam-lhe “bruxa”, para exorcizar o medo. “É uma reacção sobretudo masculina. Tem que ver com uma certa forma de energia que, se apropriada e irradiada por uma mulher, é considerada errada.” Assim, muitos homens vêem nela como que um sexo com dentes, síndrome da “vagina dentatta”, castradora da virilidade, física mas sobretudo psíquica, do macho dominador. Anos antes dos actuais rituais satânicos, Diamanda Galas não sabia como destilar toda a raiva que sentia e “não sabia explicar”. Começou por actuar nas ruas. Mais tarde, alguns “radicais” do Living Theatre, mais assustados com as suas proezas e faculdades catalisadoras, aconselharam-na a cantar em institutos de doentes mentais, insinuando mesmo a possibilidade dela própria ficar internada por uns tempos. Diamanda aceitou o conselho, contribuindo assim para o aumento da população esquizofrénica americana. Mas avisou logo que a sua música não podia considerar-se propriamente terapêutica. Tinha mais que ver com as “schrei-performance”, características do teatro expressionista alemão, que pretendiam alargar as fronteiras da personalidade humana. Diamanda queria ir mais longe – estender esses limites ao ponto de transformar a personalidade “numa espécie de entidade-síntese entre a ‘besta’ e a máquina”. Sobre o assunto tem uma teoria. Acredita que todos os problemas surgiram quando as pessoas “começaram a fazer separações arbitrárias entre os hemisférios esquerdo e direito do cérebro”. A solução? “Ser capaz de articular as pequenas ‘nuances’ malévolas da personalidade, mostrar a natureza humana para além do bem e do mal, de que falavam Nietzsche, Sade, Poe e Baudelaire, uma espécie de protoplasma contraditório, eminentemente esquizofrénico.”

 

 

A Praga

 

A praga é a sida. Diamanda Galas invectiva-a nos álbuns: “The Divine Punishment”, “Saint of the Pit” (ambos de 1986) e “You Must be Certain of the Devil” (1988), as três partes da trilogia “Masque of the Red Death”, título inspirado num conto sobre a peste de Edgar Allan Poe. Várias pessoas das suas relações morreram da doença, incluindo o irmão e a sua melhor amiga. Não espanta pois a revolta e a obsessão. Espantoso é o modo como Diamanda Galas consegue alargar o significado e as implicações morais do problema, conferindo-lhe uma dimensão global e apocalíptica. Recorrendo a textos de poetas simbolistas como Charles Baudelaire, Gérard de Nerval e Tristan Corbière ou a textos bíblicos do Antigo Testamento (aquele em que emerge a figura do Deus castigador), Diamanda Galas procede a um meticuloso trabalho de inserção dos mesmos num diferente e perturbante contexto. Invertem-se os valores fundamentais do cristianismo. Satanás passa a ser o justiceiro, o “acusador” (segundo a terminologia hebraica), aquele que aponta o dedo ao “inimigo”, o poder instituído, a indiferença, o medo, o ostracismo. O sofrimento dos condenados pela sida é comparado à agonia de Jesus crucificado.

A revolta de “The Divine Punishment” é a mesma de Lúcifer, contra a autoridade divina. A música assume contornos litúrgicos, nos cânticos salmódicos, nas lamentações de “Free among the dead” e “Deliver me from my enemies”. O super-homem é o homem condenado, o estóico absoluto, mitificado no anticristo que a própria Galas encarna em “Sono l’antichristo” – a “provação”, a “salvação”, a “carne martirizada”, o “sacrifício”, o “louco sagrado”, a “merda de Deus”. “Saint of the Pit” prossegue pelas mesmas vias demenciais. Textos de Nerval e Corbière. “L’ Heautontimouroumenos” (o autotorturador), extraído das “Flores do Mal”, de Baudelaire, insuportável: “Sou o espelho onde se revê a própria fúria/ a faca e a ferida revolvida/ o carrasco e a vítima/ o vampiro das minhas próprias veias/ pertenço à grande legião dos perdidos.” Talvez devido à crescente aceitação das massas, a terceira e derradeira invocação da trilogia é assumidamente mais suave que as anteriores, poética e musicalmente falando. Suprema ironia, há espaço para dançar. Ao ritmo da dor alheia. Convida-se ou empurra-se quem ouve para o papel de inquisidor. Sofrimento e prazer misturam-se na fase terminal da doença e da raça humana tal como a conhecemos. “Gospels” de vésperas de finados. Diamanda canta “Swing low sweet chariot” escondendo as facas e as cicatrizes na penumbra. “The Lord is my shepherd” – o Senhor é o pastor que conduzirá e libertará as almas. Mas que senhor é este que traz consigo as chaves do céu e do inferno? “Maldição!” – gritam os condenados, os proscritos do medo, traídos e aliciados por uma terra prometida que não puderam escolher. O grande grito, a confrontação final haveria de ter lugar no interior do próprio templo, na celebração do sangue contaminado – eucaristia invertida de um mundo sem luz.

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