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Vincent Clarke & Martyn Ware – “Spectrum Pursuit Vehicle”

Y 13|JULHO|2001
discos|escolhas


VINCENT CLARKE & MARTYN WARE
Spectrum Pursuit Vehicle
Mute, distri. Zona Música
7|10



Estão mal dispostinhos? Sentem-se cansados? O stress aperta? Não se preocupem, Vincent Clarke e Martyn Ware, dois homens com passado feito nos anos 80 na área da electropop – o primeiro nos Depeche Mode e Yazoo, o segundo nos Human League e Heaven 17 – têm a cura ideal para o vosso mal-estar. “Spectrum Pursuit Vehicle” é chill-out, quase new age, que recupera o som de passarinhos, ondas do mar e frequências eletrónicas terapêuticas, tiradas da farmácia de Brian Eno, Laraaji e KLF. Mas não se pense que é só tomar o comprimido. Não. “Spectrum Pursuit Vehicle” foi construído sobre sólidas teorias científicas e é o segundo disco a ser gravado com as novas tecnologias “Platina Logic Audio”, sendo o som “espacializado” com software de visualização Animix 3D no Institute of Sonology. Assim, sim. Tudo em 3D e com a chancela de um instituto. Diz a promoção que o disco se destina a “criar no ouvinte um estado de profunda relaxação” e que deve ser ouvido num estado “ensonado” e com os altifalantes nos ouvidos, de maneira a tirar o máximo partido do software utilizado, capaz de criar som surround a três dimensões. Feita a audição de acordo com estas recomendações, “Spectrum Pursuit Vehicle” se não abriu as portas a uma nova dimensão, criou pelo menos um estado de apaziguamento agradável. Depois, cada uma das seis faixas corresponde a uma cor e ambiente específicos. Há um tema para nos transportar até ao céu, outra até à praia, outro até ao interior de um útero, outra para debaixo de água, outra ainda para uma floresta. Em suma: umas férias virtuais baratas.



Depeche Mode – “Ultra”

Pop Rock

4 Abril 1997

DEPECHE MODE
Ultra (7)
Mute, distri. BMG


dm

Da onda “electropop” que assolou as Ilhas Britânicas nos anos 80, composta por grupos como os Human League, Tubeway Army, Berlin Blondes, Yazoo, Blancmange, Soft Cell, Depeche Mode e Orchestral Manoeuvres in the Dark, sobreviveram apenas os dois últimos, à custa de uma sucessão de reciclagens inteligentes, ainda que, nalguns casos, oportunistas.
Na prática, tanto os OMD como os Depeche Mode andaram, quase sempre, a reboque das diversas tendências da música de dança que foram emergindo ao longo da última década. Curiosamente, porém, assiste-se hoje a um revisionismo do “electropop”, revalorizando-se uma estética que, na primeira encruzilhada com que se deparou, na sua geração original, derivou para dois extremos que não poderiam ser mais divergentes: a pop sintética e plastificada para consumo adolescente e a música industrial, que por sua vez se desmultiplicou em vários movimentos.
Esta valorização está na base do retorno a algumas das premissas estéticas originais do movimento, por parte dos OMD e dos Depeche. Os primeiros recuperaram o seu lado mais espacial e psicadélico no álbum do ano passado, “Universal”, os Depeche Mode, neste seu novo trabalho, incorporando de forma perfeitamente coerente as melodias pop que sempre os caracterizaram, num formato heterogéneo que desloca subtilmente a rítmica do “trip hop” para os domínios mais adocicados do grupo.
No capítulo dos efeitos especiais, “Ultra” está saturado de pequenos e grandes achados, nomeadamente nas introduções dos 11 temas, onde David Gahan, Andrew Fletcher e Martin Gore ensaiam, com gozo óbvio, novas combinações da tecnologia computorizada com a estrutura da canção pop. Afirmado este gosto experimentalista – assumido sem rodeios no belíssimo e sombrio instrumental “Jazz thieves” –, que, de resto, nunca abandonou os Depeche Mode e, ainda hoje, mantém toda a sua premência em álbuns como “Construction Time Again” e “Black Celebration”, sínteses do “electropop” com o industrial, o trio desfaz-se em vacalizações de uma simplicidade desarmante.
Próximos da claustrofobia Trickyana no tema de abertura, “Barrel of a gun”, próximos do pós-rock em “The Bottom Line” (com a participação do baterista dos Can, Jaki Liebezeit) ou na descompressão, talvez excessiva, do último, “Insight”, um aceno aos Tears for Fears de “Shout”, os Depeche Mode alargam a sua mensagem de estetas divertidos que pretendem fazer drama, trocando o seu papel de bebés Kraftwerk pelo de adultos armados de ironia, adeptos do “glamour” eléctrico do final do século.



Depeche Mode – “Speak And Spell” + “A Broken Frame” + “Construction Time Again” + “Some Great Reward” + “Black Celebration”

Pop Rock

10 FEVEREIRO 1993
REEDIÇÕES

DEPECHE MODE
Speak and Spell (5)
A Broken Frame (6)
Construction Time Again (8)
Some Great Reward (6)
Black Celebration (7)

CD Mute, distri. Edisom


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Pop electrónica ou electropop era como se chamava aos filhos, netos, primos e sobrinhos dos Kraftwerk que à entrada dos anos 80 resolveram pôr a mecânica electrónica ao serviço da canção pop. De uma lista imensa de grupos, sobressaíram, entre outros, os Orchestral Manoeuvres in the Dark, Human League, Heaven 17, Tubeway Army, Telex, Soft Cell, Silicon Teens, Berlin Blondes, Yazoo, Tears for Fears, Blancmange, New Musik, Japan e, claro, os Depeche Mode, cuja discografia de 1981 a 1986 está a partir de agora disponível no suporte compacto, a preço reduzido.
A banda de Alan Wilder, Andrew Fletcher, David Gahan e Martin Gore começou por não se distinguir da concorrência. “Speak and Spell” mostra uns Depeche Mode nitidamente influenciados pelos irmãos gémeos da corrente de Sheffield: Heaven 17 e Human League. Os primeiros em “Boys say go” e “Shout”, os segundos em “Nodisco”, “Tora! Tora! Tora!” e “Any Second Now”, este último uma réplica exacta da fase inicial deste agrupamento, correspondente ao EP “The dignity of labour”. Por outro lado, faixas como “Any second now” e “Dreaming of me” dificilmente se distinguem do que soava para as bandas dos Orchestral Manoeuvres. No seu todo, “Speak and Spell” (que inclui quatro temas extra) é minimalista à maneira dos Silicon Teens (é preciso não esquecer que a produção, em ambos os projectos, esteve a cargo de Daniel Miller, um dos impulsionadores do movimento), jogando numa batida primária próxima do “disco sound”.
No disco seguinte, “A Broken Frame”, os Depeche Mode deixam a música gelar. As canções desaceleram, as harmonias vocais tornam-se rebuscadas, dando a ideia de a banda se querer assumir como uns Beach Boys da era cibernética. Álbum sombrio, à imagem da capa, belíssima, inclui duas das canções mais inspiradas que até agora saíram da pena de Martin Gore, “See you” e “The Meaning of love”. Mas momentos há em que a música parece ter sido composta a metro, acabando por desvalorizar o todo.
“Construction Time Again” marca o apogeu, em termos de inspiração e originalidade, dos Depeche Mode. Menos preocupada em atingir franjas alargadas de mercado, a banda aproxima-se, em termos de conceito e sonoridade, da música industrial, havendo quem na altura considerasse os Depeche Mode uma versão pop dos Einstürzende Neubauten. Sem faixas só para encher, como acontecia nos álbuns anteriores, “Construction Time Again” deixou livre o caminho para Andrew Fletcher levar mais longe a experimentação no projecto que encetou a solo, Recoil.
Talvez assustados com a própria ousadia, os Depeche Mode dão um passo atrás com “Some Great Reward”. As posições extremam-se. Desta feita despojado de melodias que ficassem facilemente no ouvido, o álbum socorre-se de uma encarnação pirosa de Freddy Mercury, em “Somebody”, compensada pelo reforço da componente industrial, em “People are people” e, sobretudo, “Master and servant”. “If you want”, por sua vez, é o “Within you, without you” (George Harrison) da electropop, com “sitars” sintéticas a darem o tom.
Em “Black Celebration”, álbum conceptual sobre o “negro”, da “vida na chamada idade espacial” ao vestuário, os Depeche Mode voltam a acertar. Regressam as boas canções (“A question of lust”, “It doesn’t matter two”, “A question of time”, “Stripped”) a par do investimento no experimentalismo, explorado em profundidade nos três temas extras incluídos, do “proto dub” rodoviário de “Breathing in fumes” ao ambiente Urban Sax mais Suicide criado em “Black day”. Dos Depeche Mode de pode dizer que desde então perderam o estilo. O que, estando a ideia de “estilo” associada à própria génese da banda, é grave. Veremos o que o próximo capítulo tem para nos dizer – um novo álbum, “Songs of Faith and Devotion”, com edição prevista para Março.

Speak And Spell
A Broken Frame
Construction Time Again
Some Great Reward
Black Celebration