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Dèanta – Whisper of a Secret (conj.)

14.11.1997
FOLK
“Whisper” Contra “Whisky”
Segredos, cansaço e um beijo. Ou onde se prova que o “whisky” escocês tem um travo bem mais amargo que o “whiskey” irlandês…

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Comparando com outros grupos da sua geração, os Dèanta não terão o virtuosismo e, sobretudo, a vitalidade, dos Dervish, nem a experiência dos Altan, mas em compensação não lhes falata sensibilidade nem subtileza. Provavelmente, a tudo isto não será alheio o facto de o grupo ser constituído na sua quase totalidade por mulheres (a excepção masculina é Eoghan O’Brien, na harpa). A esta falta, digamos assim, de músculo corresponde, em “Whisper of a Secret” (“O sussuro de um segredo” a contrastar com a “trovoada” do álbum anterior), a interiorização de um reportório quase exclusivamente constituído por temas tradicionais, na sequÊncia do que já acontecera nos dois primeiros álbuns, “Déanta” e “Ready for the Storm”.
As Déanta, como os Dervish, assumem-se como representantes da veia mais clássica da “folk” irlandesa, dispensando quer os confrontos estilísticos quer uma leitura mais polémica da tradição. Clássica é, então, mas cheia de delicadez e “nuances”, a interpretação dos “sets” instrumentais, ficando reservadas para os “gourmets” as delícias do canto de Mary Dillon, de uma expressividade que aproveitam o melhor das divas Dolores Keane e Triona Ni Dhomnaill. Quem julga ter encontrado as chaves do céu na praga das compilações “celtic” faria melhor em escutar uma balada como “Lone Shanakyle”. Uma harpa, ao fundo, um lago de teclados e a voz de Mary Dillon a transbordar de pureza e sentimento vão directos ao âmago da tal Irlanda do verde aguado e das neblinas misteriosas. (Green Linnet, distri. MC-Mundo da Canção, 8)

Na Escócia, pelo contrário, falta-se cada vez mais ao respeito à tradição. Desde que a Greentrax mudou a sua imagem de marca, abrindo portas aos prevaricadores, nada permaneceu como dantes na terra dos “kilts” e das “Highland pipes”. Os Shooglenifty e os Bùrach são os dois grupos da casa que mais longe estão a levar a revolução. É, no mínimo, curiosa a forma como cada um deles evoluiu do primeiro para o segundo álbum. Os Bùrach vêm de “The Weird Set”, um álbum alucinante, por culpa do entusiasmo contagiante do violinista Gavin Marwick, confrontando-se neste seu novo trabalho com atroca de três elementos, saindo Marwick, Jimmy McLeod e Lynne O’Hara, entrando para o seu lugar Eoghain Anderson, Roy Waterson e Gregor Borland, respectivamente na bateria, baixo e didgeridoo, e violino, o que obrigou, necessariamente, a um desvio musical.
Numa primeira audição, “Born Tired” provoca algumas resitências. “Traição!”, clamarão de imediato os mais intolerantes. Não será bem assim, embora se compreenda uma reacção destas. É que “Born Tired”, tomando embora ainda como base noções tradicionais, rompe de forma ostensiva com elas. Chamemos-lhe “folk progressivo”, se quisermos, a verdade é que “Born Tired” soa diferente de tudo o que já se ouviu antes na área do tradicional, em particular nas canções vocalizadas por Alison Cherry, cuja voz possui o timbre e a doçura de outra Alison, Alison Statton, dos Young Marble Giants.
Ultrapassado, porém, o choque inicial, somos forçados a reconhecer que estas mesmas canções (“Nothing left to say” e “Ring around the moon2 estão longe de poderem ser chamadas baladas folk, mas que importa, se nos fazem olhar para tão longe…) transbordam de poesia e de emotividade, a voz de Alison Cherry mais parecendo a de um fantasma de criança a cantar-nos coisas tristes e com sabor a cereja. Os Bùrach afastaram-se da ortodoxia, é verdade, mas o nicho que actualmente ocupam merece uma visita demorada. (Greentrax, distri. MC-Mundo da Canção, 8)

Os Shooglenifty, pelo contrário, regrediram. Se em “Venus in Tweeds”, o álbum de estreia, o grupo sugeria uma atitude equivalente à dos Hedningarna, jogando na explosão, na fragmentação e no excesso de electricidade, agora, em “A Whisky Kiss”, é o reaccionarismo encapotado. Explicando melhor, cada tema funciona invariavelmente a partir da mesma regra: sobre uma base rítmica rock ou timidamente tecno, da bateria e do baixo eléctrico, de uma simplicidade tocando as raias da pobreza, os dois solistas principais – Angus R. Grant, no violino, e Garry Finlayson, no banjo – seguem, afinal, a via do tradicionalismo, em “reels” e “jigs” que o peso e o volume do acompanhamento quase sufocam.
O andamento de temas como “Da eye wifey” ou “The price of a pig” recorda os Fairport Convention, sendo estes, na altura, igualmente criticados pela forma como ousaram desafiar os cânones. A diferença está em que nos Shooglenifty ninguém se chama Richard Thompson ou Dave Mattacks, e a música destes escoceses troca o trabalho de criação pela força de automatismos pretensamente destinados a enfatizar o factor “música de dança”. Dito isto, claro que os elefantes também têm o direito de dançar. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 6).