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Dead Can Dance – “Wake”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
13 Junho 2003


DEAD CAN DANCE
Wake
4AD, distri. MVM
7|10



Aos Dead Can Dance se deve o enobrecimento do “gótico”, que em grupos como os The Cult ou Bauhaus era sinónimo de vampiros amantes de “rock”, cruzes e olheiras. Os Dead Can Dance cobriram-no com o manto dourado da realeza, em “Dead Can Dance” (84), “Spleen and Ideal” (85) e “Within the Realm of a Dying Sun” (87), contraponto pop de uma estética marcada por tons mais carregados em nomes como Brian Lustmord ou The Zone. ”Aion”, de 90, é o corolário do aprofundamento do “gótico”, através da apropriação da música antiga de teor erudito. Na fase mais recente os Dead Can Dance incorporaram elementos da “world music”, como em “Spiritchaser”, ganhando em universalidade o que perderam no apelo inicial de banda de culto para rituais pagãos. A antologia “Wake”, reduzindo a dois CDs a caixa de 4, “Limited Box Set”, editada em 2001, acompanha esta evolução, na altura em que também o vídeo “Toward the Within” (antes apenas disponível na mesma caixa) é editado em separado, em formato PAL. O DVD reúne, além das imagens dos concertos de 93 no Mayfair Theatre, Santa Monica, cinco temas-extra não incluídos no vídeo original.



Dead Can Dance – “Spiritchaser”

Pop Rock

12 de Junho de 1996
poprock

Rituais na câmara secreta

DEAD CAN DANCE
Spiritchaser (8)
4AD, MVM


dcd

O primeiro tema chama-se “Nierika” e o título é igual ao de um álbum do mexicano Jorge Reyes, mas as coincidências entre a banda de Brendan Perry e Lisa Gerrard e o autor de “Mexican Music Pre-Hispanic” não se ficam por aqui. “Spiritchaser” é de todos os álbuns gravados até à data pelos Dead Can Dance aquele que leva mais fundo e mais longe a vertente ritualista, num registo idêntico ao praticado por Reyes. Nesse tema, como nos dez minutos de “Song of the stars”, Perry, gerrard e uma equipa seleccionada de convidados, utilizam instrumentos rituais, percussões de pedra e chuva, ruídos de animais, cânticos étnicos. Mas o lado atmosférico, mais que os habituais sombreados góticos, aligeira o que poderia confundir-se com uma das alquimias invertidas (das quais bandas como Death in June, Current 93 ou Sol Invictus foram pioneiras) que caracterizam uma das vertentes da música do final deste século. Na contracapa, ao lado de uma invocação vodu, pode ler-se: “Nas culturas onde a música ainda é usada como força mágica, a construção de um instrumento envolve sempre o sacrifício de um ser vivo. A alma desse ser vivo fica a fazer parte do instrumento, permitindo deste modo que os sons dos ‘mortos que cantam’, sempre presentes ao nosso lado, se façam ouvir [de “Harmonies of heaven and earth” de Joscelyn Godwin].” Os Dead Can Dance não vão tão longe, mas o poder manipulatório da sugestão faz efeito. “Indus” mistura Diamanda Galas sob a acção de narcóticos com música antiga e indiana, e “Song of the dispossessed” poderia ser o encontro de Sting com os Tuxedomoon. “Song of the Nile” é um transe, sonho, em câmara lenta, viagem astral pelo interior de uma pirâmide em estado de vida suspensa que se prolonga até à Idade Média virtual da derradeira cerimónia, “Devorzhum”, “drone” de mil reflexos e murmúrios à luz da lua. O melhor Dead Can Dance desde “Aion”.



Concertos – Dead Can Dance – Dead Can Dance Assombram Madrid – “Espanta Espíritos”

Pop Rock

26 de Junho de 1996

Dead Can Dance assombram Madrid

ESPANTA ESPÍRITOS

Madrid assistiu no Sábado passado ao ritual gótico dos Dead Can Dance perante uma assistência alucinada que se vestiu a preceito de “zombies” e vampiros para os receber. Tambores, muitos tambores, envolveram a voz sobrenatural de uma princesa dos livros e os espectros dançaram em liberdade em noite de “Haloween”.


dcd

A tarde fora triste para “nuestros hermanos”. Tragédia nacional, com a selecção espanhola a sucumbir aos pés dos algozes ingleses. Só faltavam os Dead Can Dance para o sábado ser “sabbath” negro em Madrid. Dia de finados. Noite boa para a banda de Lisa Gerrard e Brendan Perry encher de sons lúgubres e gemidos góticos o Teatro Monumental da capital espanhola. E, já agora, de pessoas, uma vez que a sala estava à cunha.
Ambiente a condizer. O negro imperava nas vestes de uma falange jovem da assistência. Elas com “look” vampirela, rendas e luto, cabelos eriçados, maquilhagem fosforescente, bruxinhas sensuais a afiar a pose e as garras. Algumas pintadas de branco marmóreo para melhor se parecerem com cadáveres. Eles ao melhor estilo Robert Smith ou, na versão “hard”, Eduardo Mãos de Tesoura. Quem não soubesse, julgaria tratar-se da enésima sessão de “Rocky Horror Show”. Mas não, eram os Dead Can Dance, na sua actual personificação de fantasmas do mundo, também eles vampiros de sons e tradições.
Passavam poucos minutos das dez quando a banda subiu ao palco. Oito músicos. Todos vestidos sem nada de especial à excepção de Lisa Gerrard que apareceu envolta em vestes de princesa medieval, túnica de um branco imaculado até aos pés, um manto azul-turquesa a cobrir-lhe os ombros, o cabelo louro, comprido, entrançado à volta da cabeça em forma de tiara, emoldurando uma face de palidez sobrenatural arrancada a um romance de Radcliffe. Na sua frente, uma cítara (saltério), que tocou como uma feiticeira a dar vida a sinos e cristais.
Esperava-se que os Dead Can Dance fizessem rodar as canções do seu novo e magnífico álbum, “Spiritchaser”, onde põem em destaque a faceta mais ritual da sua música. Afinal, num alinhamento de 14 temas, fora os “encores”, apenas quatro saíram desse disco: “Nierika”, a abrir, “Song of the dispossessed”, “The snake and the moon” e “Indus”, no fecho. Talvez porque as subtilezas que caracterizam “Spiritchaser” não se compadeçam por enquanto com as limitações técnicas de uma actuação ao vivo.
As percussões dominaram. Batuques, tambores, derboukas, bendirs, “rattlesnakes”, pequenas campainhas… “Nierika” e “Rakim” ribombaram, causando sobressaltos nos estômagos, numa invocação aos espíritos da Natureza que deu razão às doutrinas animistas professadas pela banda. Ouviram-se cantar as forças elementares, rochas, feras e vento, mas também a erva, os calhaus, as flores e pequenos bichinhos com muitas patas e antenas.
“Song of the dispossessed” mostrou Brendan Perry numa “imitação” vocal de Sting e “Yulunga” soltou da tumba as memórias do canto gregoriano, das trevas e luzes da Idade Média, embora sem os sintomas de peste que infectam as flores bizantinas dos SPK, em “Zamia Lehmanni”. O gelo derreteu-se em seguida com o Brasil a torcer-se de samba no balanço de “The snake and the moon”, para na parte final Brendan Perry experimentar as suas aptidões como guitarrista.
Chegados a “Tristan”, Lisa deixou ficar nos bastidores o manto de brancura, para se transformar na própria imagem de uma alma penada, errando por cânticos de súplica e apelos a divindades pagãs. Tristão e Isolda, ela e Brendan em diálogo de necromantes, sobre a liturgia de um órgão de filmes de terror. Neste, como em todos os temas que cantou ao longo da noite, Lisa demonstrou a imensa gama de potencialidades e registos de que a sua voz é capaz, qual Monserrat Figueras pop, borboleta esvoaçando entre as estrelas mas também vítima da sedução dos vermes e da putrefacção.
O “slow” e vocalização “à maneira antiga” de salão de baile, de Brendan, em “Dolphins”, foram uma parte gaga para esquecer, o mesmo não acontecendo quando Lisa solou pela primeira vez na cítara, em “Greek rembetiki”, de ressonâncias bizantinas. Mais guitarradas, em “American dreams”, antecederam o final, de novo em directo da campa, com seres saídos das profundezas a porem um sol negro pendurado sobre “Indus”.
Para trás tinham ficado quase duas horas de transe e nem uma única palavra dirigida a um público que não poderia ser mais fanático nem vibrante. Só já perto do final é que Lisa e Brendan se libertaram da tensão, consentindo em sorrisos que traíram o espírito de celebração “zombie” da noite. George Romero não teria encenado melhor esta procissão de figuras e sons em trânsito entre este mundo e o outro. Se é verdade, como já dissemos, que o velório gótico se sobrepôs aos rituais “etno” de “Spiritchaser”, não o é menos que os Dead Can Dance souberam teatralizar na perfeição o seu “grand guignol” de fantasmas diplomados nos vários folclores do globo.
Três encores, exigidos e recebidos pelo público madrileno com “olés”, fizeram esquecer em definitivo a desfeita que lhe fora feita de tarde, aos pontapés na bola, pelos bifes. Um “bolero” de mortos-vivos, uma batucada infernal no instrumental “Tanamakoa” e “Dreams made flesh”, com Lisa e Brendan fazendo par na cítara e nas vozes, puseram ponto final no “rondó”. Os sonhos fizeram-se carne e espantaram os espíritos. Dead Can Dance. Os mortos podem dançar.