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David Cunningham – “Voiceworks”

Pop Rock

7 OUTUBRO 1992

A VOZ E AS MÁSCARAS

DAVID CUNNINGHAM
Voiceworks

CD Eva, import. Contraverso

Manipulação. Das formas, dos sentidos e, em última análise, dos modos de escuta. Conceitos que, de forma inconfundível, passam para o centro das operações no teatro da música deste final de século. Com o advento da computorização, das técnicas de colagem digital, da samplagem e de toda a panóplia de efeitos e técnicas de gravação permitidos pela maquinaria de estúdio, o processo criativo tornou-se numa operação de laboratório. O artista, antes remetido à condição de figura à mercê dos favores da inspiração, viu-se forçado a vestir a bata de cientista e a ser, ele próprio, o artesão que controla todas as fases do trabalho, até se chegar ao produto final. Referimo-nos, é claro, a um tipo determinado de músico, para quem a “obra” se assume como um trabalho total, não confinado aos limites da escrita.
Por outro lado, como consequência do desenvolvimento imparável da tecnologia, os sons do universo deixaram de ser modelos que se procuravam imitar ou integrar num discurso musical prévio para se constituírem como a própria matéria musical, plástica, susceptível de ser manipulada até ao infinito.
Se “Possessed”, dos Balanescu Quartet, criticado neste suplemento na semana passada, é a subtil sabotagem deste enunciado – a manipulação surge como que “invertida”, o instrumento acústico “manipula” a imagem sonora electrónica – “Voiceworks”, de David Cunningham, vem recolocar o problema dentro dos parâmetros “normais”. Recorde-se ainda, a propósito, o trabalho deste autor, no início da década de 80, realizado nos Flying Lizards, que é uma outra forma de manipulação, desta feita de clássicos do rock’n’roll, efectuada pelo lado do humor e da contenção minimalista.
Em “Voiceworks” o material básico é, obviamente, a voz, singular ou no plural: de Susan Belling e, na maior parte dos temas, recolhida(s) de arquivo. O álbum conta com quatro unidades temáticas, e respectivas subdivisões: “Masks and voices”, “Canta (parte de uma peça mais extensa para bailado encomendada por Ian Spink, com o apoio do Arts Council da Grã-Bretanha), “Four songs” e “Two solos”. Em todas elas a voz ou as vozes são alteradas por processos electrónicos, nomeadamente por programas prévios de computador que determinam a estrutura composicional – “systems music”, como é vulgarmente designado este tipo de composição.
Mas se, como diz Cunningham, “a voz é o elemento [tomado em abstracto] que unifica os diversos tratamentos sonoros”, ela é também um pretexto, parte de um sistema mais vasto em que a electrónica tem como função estruturar as “vozes” de “outras músicas” (num sentido mais lato e de abstracção total a voz até pode ser, como acontece num tema, a guitarra baixo de Peter Blegvad), visando em primeiro lugar a criação de “texturas” sonoras (aquáticas, em “Water”, álbum anterior do autor, também editado este ano, com o selo Made to Measure) autónomas, existentes apenas enquanto “som gravado”, não passíveis de reprodução ao vivo.
Numa primeira leitura, poderia pensar-se estarmos perante uma entre muitas obras de “systems music”, porém David Cunningham apressa-se a acrescentar que não se trata de um “processo clínico”. Existe uma impossibilidade de controlo total. Cunningham admite (e usa em seu proveito) os “erros” inerentes ao próprio sistema e a imprevisibilidade do mesmo. Por isso se refere a um “soft system”, por oposição a música sistemática pura, e a um produto final identificável com uma “cultura não tecnológica”. Processos e discurso em tudo semelhantes aos que Brian Eno já utilizara, dirigidos embora noutra direcção.
Os resultados são brilhantes, podendo “Voiceworks” considerar-se desde já um dos melhores álbuns do ano. “Masks and voice”, uma peça coral, ostenta a grandiosidade de uma “Carmina Burana”, segundo a versão semioperática de Carl Orff. “Canta” submete a voz a uma progressiva desagregação, segundo processos idênticos aos utilizados por um dos novos compositores americanos de música electrónica, Paul de Marinis (procure-se urgentemente essa obra-prima que é “Music as a Second Language”, outro trabalho genial centrado na manipulação da voz humana, gravado para a Lovely Music). Momentos há em que “Voiceworks” navega nas mesmas águas de “Shamrock”, de Gabriel Yared. Noutras, uma espiritualidade que recorda certas oratórias do compositor alemão do séc. XVII Heinrich Schütz anela-se com madrigais da Renascença. Num dos temas assoma o espectro dos Faust e os recortes brutais da voz em “I’ve got a car and a TV” (do álbum “So Far”). Múltiplas direcções para um sentido único, de elevação. A linguagem, afinal, não é um vírus. (9)