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Corpo Diplomático – “Música Moderna” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

15 de Março de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Corpo Diplomático
Música Moderna


cd

Como foi

Verão de 1979. Os Faíscas, juntamente com os Aqui d’El Rock e os Minas e Armadilhas, um dos poucos representantes do punk português, tinham durado o tempo que uma chama demora a arder. Pedro Ayres e Paulo Pedro Gonçalves avançaram o passo lógico e criaram os Corpo Diplomático, um dos poucos grupos new wave surgidos na época devida em Portugal. António Sérgio, na altura à frente do programa Rotação, da Rádio Renascença, estava, como sempre, atento. Era amigo de alguns dos músicos, passara os Faíscas no programa. Nos Corpo Diplomático encontrou “uma atitude diferente da dos Tantras ou outros grupos afins” que então proliferavam. “O reportório tinha interesse, era bastante provocante. Lembro-me de uma letra, a de ‘Amor de guichet’, que é um gozo ao empregadinho de escritório, aquele ambiente um bocado podre dos notários, o tipo de ambientes que lá fora o punk também atacava.”
Para o popular locutor, os Corpo Diplomático eram “o espelho da nossa new wave, com uma atitude até bastante mais vincada que a de muitos outros casos que eram simplesmente pop, ou bubblegum pop.” António Sérgio cita até uma espécie de concorrente seu na altura, Luís Filipe Barros, da Rádio Comercial: “Ouvia-o dizer que os Blondie eram new wave e eu passava-me de todo. Era um disparate de todo o tamanho.” Por sua vez, Carlos Gonçalves, ou Ultravioleta, vocalista principal dos Corpo Diplomático, fala numa “estética e abordagens diferentes”, em paralelo com correntes musicais trazidas por nomes como The Normal, Human League ou Pere Ubu, na tentativa de “anular a ‘décalage’ existente entre o que se passava em Portugal e lá fora”.
Sérgio, que nessa altura estava ligado à Nova, editora discográfica responsável pela distribuição nacional dos catálogos Stiff e Sire, entre outros, “tinha uma fé especial no tandem Paulo Pedro e Pedro Ayres”. Para ele, tratava-se de “uma dupla totalmente criativa”. O passo seguinte foi convencer Hugo Lourenço, um dos responsáveis da editora, a fazer o disco. “Estávamos a ter muito êxito com o reportório internacional, em que ele não acreditava muito. Quando ouviu os Ramones pela primeira vez, jurou para nunca mais, mas daí a uns tempos os Ramones não só estavam a vender na rua como a ser compradas por grosso, até pelo Círculo de Leitores.”
Na Nova olhavam para Sérgio “um bocado como se fosse maluco”, embora reconhecessem que “havia na maluqueira dele coisas que funcionam”. Acabaram por aceitar. António Sérgio seguiu para estúdio na companhia dos músicos e de um segundo produtor, João Henrique, com créditos firmados na área do cançonetismo.
Durante as gravações António Sérgio funcionou como “catalisador”. Dos dois produtores dos disco, era ele quem “conseguia contactar” com os músicos, para quem “o João Henrique era um gajo velho, de uma escola velha”. “Tanto o Paulo Pedro, na altura ainda o conhecíamos por Paulo Canadiano, como o Pedro Ayres [Dedos Aires, nos Corpo Diplomático, depois de ter sido Dedos Tubarão nos Faíscas] eram a flor da rebeldia.” Sérgio “conhecia-lhes a linguagem, sabia a atitude deles, o que é que podia ficar num disco”. João Henrique “tinha só a noção das operações de estúdio e das poupanças”.
Em paralelo com o lançamento do álbum, foi editado um single de coleccionador, com os temas “Festa” e “Engrenagem”, de José Mário Branco, numa versão com “ruídos de maquinismos” na qual, segundo Carlos Gonçalves, o próprio autor na altura reconheceu existir uma característica “que ele próprio tinha tentado dar sem o conseguir”. Deste disco foram editados mil exemplares, “sem capa inteira”. “Era outro gozo, do tipo ‘Holidays in the sun’, dos Pistols, inspirado naquela ideia do turista parvo que anda a explorar a pobreza dos outros para fazer roteiros.” De “Música Moderna” fizeram-se igualmente mil exemplares, dos quais se terão vendido, segundo António Sérgio, “cerca de metade”.
Para a história fica ainda uma ocasião célebre, que Sérgio recorda: “Quando contratámos a Stiff, fizemos ua festinha num ‘ferry boat’, ali no Tejo. A banda convidada foram os Corpo Diplomático. Vieram pessoas da Stiff, incluindo um dos músicos da editora, o Wreckless Eric, além do ‘staff’ todo. Estavam curiosos em ouvir a banda tocar. Instalámos o grupo no tombadilho, com um PAzinho. Começaram com um instrumental qualquer e os gajos até pararam de comer e de beber, sintoma de que estavam a ouvir. Só que a seguir entrou o Ultra Violeta, ou ‘urubu’, como lhe chamávamos, o vocalista [Carlos Gonçalves]. O homem estava entusiasmado por ver os gajos ingleses. Então desatou a dançar e a cantar de uma maneira tal que pontapeava os cabos constantemente, desligando os instrumentos, uma guitarra, o amplificador… Foi um caldinho daquele tamanho. Não havia tema nenhum que chegasse a meio. Desaparecia sempre qualquer instrumento ou até mesmo a voz dele. Pontapeava tudo com umas botas em bico, estilo Joe Jackson. A partir de certa altura chegámos à conclusão de que o melhor era pôr a banda sonora que já tínhamos, uma cassete gravada com música da Stiff e da Sire.”
Depois disso o projecto “entrou num limbo”. Sobraram três músicos, Pedro Ayres, Paulo Pedro Gonçalves e Carlos Maria Trindade, para a criação dos Heróis do Mar.

Como é

“Música Moderna”, desde o título à estética da capa, uma reprodução de um cartaz de propaganda do Partido Comunista Chinês, procurou ser um manifesto de diferença e de ruptura contra, por um lado, o niilismo violento e, por vezes, sem nexo do “Punk” e, por outro, o lastro dos “sinfónicos”, que em Portugal sobreviveram para além do tempo devido na pessoa dos Tantra.
Dos Corpo Diplomático pode-se dizer que foram um dos poucos grupos aos quais a classificação “new wave” se aplicava com justiça. À energia e irreverência do “punk”, acrescentaram uma atitude diferente, de maior distanciamento e com outro tipo de linguagem, que os fazia identificarem-se com a chamada “cold wave” ou “afterpunk”, para utilizar o termo então inventado por Yves Adrien nas páginas da “Rock & Fok”. Uma estética que viria rapidamente a bifurcar-se em dois extremos opostos, a música industrial (Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire) e a electropop (Orchestral Manouevres in the Dark, Depeche Mode).
Os Corpo Diplomático, sem terem tido tempo para optar por um dos lados, fizeram a transposição possível da linguagem dos “afterpunks” europeus para um contexto nacional. A terminologia típica destes, marcada pela utilização de referentes tecnológicos inseridos numa visão cínica e apocalíptica da realidade, foi utilizada pelo grupo português para fazer crítica social a personagens e situações da vida nacional. As associações automáticas dos textos nascem de conceitos como “televisão”, “caixa neurótica clorofórmio eléctrico”, “espantalhos automáticos” ou “um botão no meu cérebro”, e o som está repleto de desfasagens e intromissões electrónicas do sintetizador, mas toda esta parafernália serve aos Corpo Diplomático para apontarem as baterias a uma “Maria” ou, como em “Amor de guichet”, a uma relação amorosa entre empregados de escritório que são bem portugueses.
É esta dicotomia entre a modernidade de um discurso europeizado em confronto com o provincianismo saloio característico da mentalidade portuguesa que torna “Música Moderna” num disco cuja descendência só anos mais tarde os Ocaso Épico, de Farinha, viriam a continuar. Como sempre acontece por estas bandas, ninguém foi atingido e “Música Moderna” foi arrumado na gaveta das loucuras inconsequentes.