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Conceptual em Portugal – artigo de opinião

Pop Rock

14 JULHO 1993

CONCEPTUAL EM PORTUGAL

“Ser Maior” é o primeiro disco de rock português a perder a vergonha de ser desmesurado nos meios e nas intenções. Para trás ficaram preconceitos e uma tradição de “conceptuais” onde os exemplos escasseiam. Os Delfins poderão ter inaugurado a era da mania das grandezas.

Comecemos por distinguir entre álbum conceptual e ópera-rock. Ambos partem de uma ideia original (ou de um conceito, daí o termo conceptual), de uma temática aglutinadora à qual a estrutura total se submete. A diferença está nos meios utilizados. Enquanto o álbum conceptual apenas difere do longa-duração (termo que os novos formatos digitais vieram tornar obsoleto) vulgar pelo lado ideológico, chamemos-lhe assim, a ópera-rock é uma espécie de superprodução que opera segundo uma lógica de novo-riquismo que visa em primeiro lugar a ostentação dos meios de produção.
Em Portugal, pelas mesmas razões, e pela negativa, devido à proverbial pobreza da indústria discográfica nacional, não houve uma ópera-rock digna desse nome, exceptuando talvez “O Nazareno”, de Frei Hermano da Câmara, versão fado-eclesiástica de “Jesus Christ Superstar” e por tal motivo afastada de uma estética rock propriamente dita. Quer dizer: em Portugal, quem quiser ouvir ópera que vá ao São Carlos.
Álbuns conceptuais houve alguns, não muitos, que procuraram seguir um dos modelos mais em voga dos anos 70. O primeiro disco conceptual produzido em Portugal, na área da música pop, tem a assinatura de José Cid e chama-se “Dez mil anos depois entre Vénus e Marte”. Nele, o então membro do Quarteto 1111 fez como se fazia na época no estrangeiro, escrevendo na ficha técnica os nomes de todos os instrumentos de teclas utilizados (quanto mais melhor, mais “progressivo” e “sinfónico” era o álbum…), sendo de bom tom virem mencionados o mellotron e o “moog synthesizer”. “Dez mil anos depois…” inspirou-se na ficção científica e é um dos primeiros discos de música popular feita em Portugal onde a electrónica ocupa um lugar destacado.
Já no ocaso da década, os Tantra procuraram imitar os Genesis, na efabulação de um imaginário fantástico, com direito a representação teatral nas apresentações ao vivo, feitas de muitas máscaras, fumos e efeitos a granel, em “Mistérios e Maravilhas”. Mais tarde, Manuel Cardoso, guitarrista e mentor espiritual da banda, encarnou no seu primeiro álbum a solo, um Frodo de cabeça pontiaguda, numa mutação monstruosa da personagem central da trilogia “O Senhor dos Anéis”, do escritor inglês J. R. Tolkien.

tantra

Nos anos 80, os álbuns conceptuais deixaram de estar na moda. Paradoxalmente, foi nesta década que Fausto gravou aquele que até à data permanece como paradigma do género, “Por este Rio acima”, obra com princípio, meio e fim, onde o compositor apresenta a sua leitura dos descobrimentos portugueses, com um talento, uma imaginação e uma originalidade que nem o próprio, em obras posteriores, conseguiu igualar. Na mesma década os Heróis do Mar agitaram as ondas do marasmo lusitano, as bandeiras e os fantasmas do nacionalismo no álbum de estreia “Heróis do Mar”, embarcando mais tarde na aventura orientalista, em “Macau”.
Já na presente década, o termo “conceptual” funcionou num nível diferente, já não ao nível da música mas do método de formação dos grupos. É o período das superbandas, com os músicos de maior nomeada em constante rotação de uma para outra formação e as editoras numa busca desenfreada de “novas” propostas, segundo uma estratégia de reciclagem que veio pôr a nu a escassez, entre nós, de ideias realmente inovadoras. É neste sentido que surgem nos últimos anos em Portugal “conceitos” como Moby Dick, LX-90 ou Piratas do Silêncio, sendo o mais consistente e o que maior sucesso obteve em termos de venda os Resistência. Mesmo assim, ainda houve quem se desse ao trabalho de procurar um tema que desse pano para mangas à criação musical. Júlio Pereira andou pelas galerias a ver quadros, escolheu os que mais gostou e fez um álbum onde as cores e as imagens se confundem com os sons: “Janelas Verdes”. Menos trabalho teve Rui Veloso, que se limitou a compor, por encomenda da Comissão dos Descobrimentos, o seu “Auto da Pimenta”, obra subordinada à mesma temática de “Por este Rio acima”, mas que teve a vantagem de levar a chancela “oficial”. Trabalho de monta, e com resultados altamente positivos, teve o letrista Carlos Tê, a quem devem ser endereçados os maiores louvores pela adaptação e recriação dos textos originais.
Outro exemplo, último até ao presente, no qual os textos funcionaram como motor e ponto de partida do trabalho criativo é o disco de Vitorino (autor cujo álbum, mais antigo, “Leitaria Garrett”, estava já próximo de um trabalho conceptual, neste caso uma série de recordações ligadas ao estabelecimento referido no título) composto sobre textos de Lobo Antunes: “Eu que me Comovo por tudo e por nada.” Para além dos casos apontados, o “conceito” dominante tem sido o do deserto. De ideias e de argumentos.



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