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La Ciapa Rusa – “A ‘Musa’ De Piemonte”

Cultura >> Quarta-Feira, 09.09.1992


A “Musa” De Piemonte



OS LA CIAPA Rusa regressam a Portugal depois de terem actuado na primeira edição dos Encontros Musicais da Tradição Europeia, onde rubricaram uma actuação memorável, para três espectáculos integrados nos Circuitos da Tradição Europeia, a realizar hoje no Porto, no Teatro Municipal Rivoli, dia 10 na Guarda, no átrio do Centro Cultural, e dia 12 em Guimarães, no Paço dos Duques. Sempre às 21h30.
Originários de Piemonte, região do Noroeste de Itália colonizada na antiguidade pelos celtas, os La Ciapa Rusa têm o seu centro de operações localizado em Alessandria, onde recolhem o material para o seu reportório. “Ciapa rusa” significa “remendo vermelho”, um antigo emblema de família que os camponeses da região costumavam utilizar para distinguir, em combate, os maigos dos inimigos.
Maurizio Martinotti (voz e sanfona) e Beppe Greppi (voz e concertina), os dois membros que restam da formação original, mantiveram vivo ao longo dos anos o fogo piemontês e uma linha de orientação musical e programática que tem permitido aos La Ciapa Rusa permanecerem na primeira linha dos grupos europeus de música tradicional. Orientação que passa pela recolha sistemática de material etnográfico efectuada nas aldeias da região e posteriormente tratado e arranjado ao estilo característico da banda.
Os La Ciapa Rusa são hoje, em Itália, o equivalente – em originalidade, profundidade, virtuosismo instrumental e ausência de pretensiosismo, qualidades às quais se junta uma boa dose de humor, nas actuações ao vivo – aos Perlinpinpin Fok, na Gasconha, ou aos lendários e já extintos Malicorne, em França. O que significa que os apreciadores do género por nada devem perder esta série de concertos da banda em Portugal.
Da actual formação dos La Ciapa Rusa, além de Martinotti e Greppi, fazem parte Devis Longo (voz, saxofone e teclados), Bruno Ratteri (voz, violino e teclados) e Patrick Novara (“musa” ou gaita-de-foles italiana, flauta e pífaro), os dois últimos, músicos de formação clássica diplomados pelo Conservatório de Milão. De lamentar apenas a não inclusão, no novo colectivo, de uma voz feminina. Deixou saudades a prestação maravilhosa de Donatta Pinti, nos espectáculos que a banda realizou nos “Encontros”.
Danças e baladas de Piemonte, juntamente com originais do grupo baseados na tradição local, combinam-se nos La Ciapa Rusa em excitantes diálogos vocais e instrumentais em que pontificam as sonoridades da concertina, da “musa”, do pífaro, instrumento de palheta dupla, em cana, utilizado nas montanhas, de som semelhante ao da bombarda e da sanfona, tocada por Martinotti com a mestria e a loucura de um Jimi Hendrix da Folk.
Os La Ciapa Rusa gravaram até à data cinco álbuns, os fundamentais “Tem da Chênt l’Archêt che la Sunada l’é Longa”, “Stranot d’Amur”, “O Senti Che Bel Cantà” e “Faruaji”, e o novo “Retanavota”, que a revista “Folkroots”, pela pena de Rod Stradling, definiu já como “uma nova e excitante era” na vida do grupo. Disponível ainda uma “Antologia” que integra temas recolhidos dos quatro primeiros álbuns, editada em compacto.