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The Chieftains – “Water from the Well” + Gaelic Storm – “Herding Cats” + Sussan Deyhim – “Madman of God” + Lama Gyurme & Jean-Philippe Rykiel – “Rain of Blessings: Vjara Chants”

10 de Março 2000
WORLD


Poço dos desejos


The Cieftains – “”

Decorridos 37 anos de carreira, os The Chieftains tornaram-se uma instituição da folk irlandesa em particular e da world music em geral. Estatuto invejável que nem a edição do anterior álbum do grupo, “Tears of Stone”, que rondava a mediocridade, conseguiu manchar. Com o novo “Water from the Well”, mais do que emendarem a mão os Chieftains vão mais longe (ou será melhor dizer mais perto?) voltando a mergulhar de corpo inteiro e em exclusivo na música tradicional do seu país. O que significa que desta vez não há estrelas rock nem música da China nem cowboiadas de qualquer espécie de ninguém. É “Irish traditional folk” como já não faziam há muito, com convidados, é certo, mas desta feita todos irlandeses, como a Belfast Harp Orchestra ou os Altan, que participam em “The Donegal set”. “Water from the Well” (“Água do Poço” é o típico trabalho de regresso às origens, quase um “arrependimento” dos anteriores “desvios”. Gravado no já habitual “Windmill studios”, em Dublin, mas também ao vivo em diversos condados da Irlanda (em Mayo, no célebre pub de Matt Molloy, em Westport, e em Donegal, Kerry, Clare…) “Water from the Well” é também uma homenagem e um roteiro de viagem a uma ilha onde a música se confunde com as paisagens e as pessoas. As belíssimas fotos e o mapa da Irlanda que acompanham esta edição são um convite para se ir a correr comprar um bilhete de avião. Mas perguntam vocês, cheios de impaciência: e a música? É notável? Única? Bom, lá única será, para quem não tiver ouvido os anteriores 352 álbuns dos Chieftains, nomeadamente toda a primeira fase da sua discografia. E notável tem sido (quase) sempre. Agora não se exijam surpresas nem grande excitação a “Water from the Well”, um álbum clássico, formal e instrumentalmente imaculado, sem concessões, em que o motivo de maior destaque será a definitiva emancipação de Kevin Conneff como cantor. O que é que se pode desejar mais dos Chieftains? Apenas que continuem. (RCA, distri. BMG, 8/10)

Entusiasmo e energia a rodos não faltam aos Gaelic Storm, jovem grupo constituído por um irlandês, dois ingleses e um americano que provavelmente se encontraram num “pub” com um “pint” na mão. “Herding Cats” é o álbum de estreia do grupo onde é visível esse espírito de jovialidade alcoólica, num folk rock sem grandes preciosismos nem pretensões cuja principal função é criar boa disposição e, com ajuda de um bom combustível líquido, fazer dançar. “After hours at McGann’s”, “Breakfast at lady A’s” (com um bom desempenho nas “uillean pipes” do convidado Eric Rigler) e “The devil went down to Doolin” (a mostrar que os Gaelic Storm têm em Samantha Hunt uma boa violinista) são os temas que permitem vaticinar um futuro promissor para o grupo. Aliás, já que se fala em combustíveis, os Gaelic Storm são a banda que aparece a tocar ao vivo na cena da festa no porão de “Titanic” o tema que fecha este álbum, “Titanic set”, outro dos bons momentos de “Herding Cats”. Curiosamente, o grupo mostra aqui maior agilidade no “jig” inicial do que no consequente “reel”, algo preso de movimentos. Esperemos que, ao contrário do que aconteceu com o navio, e apesar da trovoada, os Gaelic Storm não se afundem… (Omtown, distri. Distrimúsica, 6/10)

Sussan Deyhim é uma cantora natural de Teerão residente em Nova Iorque que já trabalhou, entre outros, com Jah Wobble, Peter Gabriel, Bill Laswell, Bobby McFerrin e Adrian Sherwood, embora o trabalho no qual a sua voz mais se notabilizou seja “Desert Equations: Azax Attra”, o lado do teclista Richard Horowitz, editado nos anos 80 para a editora Made to Measure. Não é fácil classificar o estilo vocal de Sussan Deyhim, um estilo onde as técnicas tradicionais e contemporâneas se cruzam de forma original. Pense-se em Meredith Monk perdida no meio do deserto. Ou em Meira Asher, convertida ao islamismo. Uma voz hipnótica onde a sensualidade e o mistério da música árabe se casam com uma estranha modernidade. “Madman of God” não soará estranho aos ouvidos que escutaram “Desert Equations”, com os mesmos processamentos electrónicos da voz a destacaram-se de entre a panóplia de instrumentos étnicos (Glen Velez é um dos percussionistas) num álbum que reúne melodias do reportório religioso da Pérsia, de poetas sufis dos séculos XI ao XIX, como Rûmi, Saadi e Djami. De todos eles, Sussan Deyhim destacou e transpôs para a sua voz a importância da “vibração” que une a poesia e a música no sentido da ascese espiritual. “Madman of God” é um álbum de “world music” no sentido mais lato do termo, tão “étnico” como as “Novas Polifonias Corsas” de Hector Zazou, por exemplo, ou seja, música de um mundo em que a natureza, os mitos e o diálogo com Deus se tornaram informação em circulação electrónica numa rede global. (Cramworld, distri. Megamúsica, 8/10)

O Oriente e o Ocidente voltam a cruzar-se em “Rain of Blessings: Vjara Chants”, segundo álbum resultante da colaboração do cantor e monge tibetano Lama Gyurme com o teclista francês Jean-Philippe Rykiel. Às entoações graves e aos mantras pronunciados como uma oração pelo religioso acrescenta o francês um ambientalismo electrónico que não está à altura da profundidade do canto. Ao contrário do que, numa colaboração semelhante, fez Steve Tibbetts com outro cantor tibetano, Choying Drolma, em “Chö”, Rykiel preocupou-se mais em abonecar e suavizar o sentido iniciático do seu parceiro budista do que propriamente em pontuar esse caminho para o sagrado com a simplicidade e a contenção exigidas. Vangelis e Kitaro não fariam melhor. Ou talvez fizessem se pensarmos no horripilante solo de guitarra eléctrica “mística” que corta “Offering chant” em pedaços de fruta cristalizada new age. Talvez seja assim porque já houve tempos em que Lama Gyurme costumava cantar em finais de “raves” para audiências extenuadas, desempenhando as funções de “chill out”. Deixou de o fazer entretanto porque, segundo parece, o “estado mental” dos ravers não era o mais adequado para apreender os seus propósitos de elevação espiritual… Não importa, leve-se esta “Chuva de Bênçãos” para a tenda que o efeito é o mesmo. (Real World, distri. EMI-VC, 5/10.)



The Chieftains – “Santiago”

POP ROCK

23 de Outubro de 1996
world

Irlanda em louvor a São Tiago

THE CHIEFTAINS
Santiago (9)
BMG Classics, import. Disco 3


chief

Nos últimos anos e nos últimos álbuns, os Chieftains transformaram-se em predadores. Se o repasto resultou em indigestão, no anterior “The Long Black Veil”, em “Santiago” a refeição tem o requinte cerimonial de uma festa de Babette. “Santiago” está para a música da Galiza como “Celtic Wedding” estava para a música da Bretanha. Um e outro são, como explica o, hoje, líder incontestado da banda, Paddy Moloney, a tentativa de captação de uma essência. Em termos práticos, “Santiago” resultou dos múltiplos espectáculos e digressões realizadas em conjunto com Carlos Nuñez (“por vezes, quase podia ser considerado o sétimo elemento dos Chieftains”) pelos mais diversos locais do globo. Nuñez funciona como um guia e um catalisador, sendo ele quem, actualmente, conduz os Chieftains à redescoberta de uma “juventude” que ameaçava definhar nos verdes “reels”, mil vezes revisitados, da Irlanda.
“Santiago” é pois uma peregrinação, não só a Compostela como ao mítico centro universal do mundo celta. Estão em voga projectos deste tipo. Basta recordar a ainda fresca “A Irmandade das Estrelas”, de Carlos Nuñez, precisamente sobre idêntica temática. Igualmente em voga está uma perspectivação da música tradicional segundo cânones que remontam à Idade Média, constituindo uma novidade o modo como os Chieftains vão ao encontro desta tendância, aqui maravilhosamente exemplificada na parte inicial de “Arku – dantza/Arin-arin” (na segunda, pode escutar-se a “trikitixa” de Kepa Junkera), “El besu” e, ainda com maior profundidade, em “Dum paterfamilias/Ad honorem”, do Códice Calixtino, gravado ao vivo no convento de San Paio de Antealtares, em Santiago de Compostela, com o coro Ultreia, três das cinco partes que compõem a “suite” “Pilgrimage to Santiago”. A quarta, “Não vás ao mar, Toino”, tem a de há muito aguardada participação de Júlio Pereira, no cavaquinho.
A partir daqui, o percurso alarga-se, saltando da Galiza para o México, em “Guadalupe”, com as participações de Linda Ronstadt e Los Lobos, e Cuba, em “Santiago de Cuba” e “Galleguita/Tutankhamoen”, ambos com a participação de Ry Cooder. A Galiza sacra e tradicional surge em todo o seu esplendor numa “Galician overture”, composição orquestral escrita por Paddy Moloney para a Xoven Oquestra de Galicia, que se estende através da Irlanda, Escócia e Bretanha. Mais do que uma homenagem, um cerimonial iniciático, dos mais sublimes alguma vez oficiados na catedral dos Chieftains.
Para os apreciadores da velocidade e de duelos, “Santiago” tem para oferecer o “combate” entre dois gigantes da gaita-de-foles, Paddy Moloney “contra” Carlos Nuñez, em “Dueling chanters”. O vencedor, cabe ao auditor decidir… “Minho waltz” é um tema de inspiração minhota da autoria de Matt Molloy, onde este deixa patente o seu virtuosismo e “Tears of stone” um momento de introspecção, no diálogo entre “tin whistle” de Carlos Nuñez e a harpa de Derek Bell.
O encontro da Irlanda com a Galiza fica selado a fogo no derradeiro “Dublin in Vigo”, uma sessão ora delirante, ora comovente (aquela comoção que só o álcool torna plausível…) em forma de “medley” galaico-irlandês, gravada ao vivo num “pub” de Dublin à cunha, após um concerto em Vigo, com a participação de toda a gente, incluindo cantores e bailarinos galegos. Como costuma acontecer nestas ocasiões, os nossos vizinhos tomaram, por assim dizer, conta da ocasião. Pura excitação. Música no seu estado mais puro.
E assim, em Compostela ou em casa, no templo ou no “pub”, os Chieftains conquistaram o sete-estrelo a Eternidade.



The Chieftains – “The Long Black Veil”

Pop Rock

25 de Janeiro de 1995
álbuns world

CALDO ENTORNADO

THE CHIEFTAINS
The Long Black Veil (6)

RCA, distri. BMG


chief

Está entornado, o caldo! Os Chieftains, a banda das bandas irlandesas de música tradicional, deu o primeiro passo em falso numa carreira que recentemente celebrou o seu trigésimo aniversário. Transformados em estrelas internacionais, facto a que não será alheio a sua passagem para uma multinacional, a banda do “virtuose” das “uillean pipes”, Paddy Moloney, notabilizou-se nos últimos tempos por trazer para os seus discos nomes famosos da cena pop anglo-americana. Até agora isso não impediu que a música continuasse a ter o toque e a magia especiais dos Chieftains. Era um processo controlado, no qual os convidados contribuíam com perspectivas diferentes, o que tinha inclusive a virtude de evitar que a rotina se instalasse no seio do grupo. Em “The Long Black Veil” manifestam-se porém os efeitos perversos dessa atitude, de tal forma se incorreu no excesso de enfiar “estrelas”, cada vez de nomes mais sonantes, numa música que pela primeira vez parece sofrer de obesidade e alguma ostentação. Para além de Van Morrison, aqui num monótono tema da sua autoria “Have I told you lately that I love you?”, convidado habitual dos Chieftains num passado recente, não é particularmente excitante ouvir Sting cantar “Mo ghile mear” (“Our hero”), Mick Jagger esforçar-se por dar credibilidade ao título-tema, Mark Knopfler aligeirar “The lily of the west”, ou Sinead O’ Connor a dar tudo por tudo para se parecer com uma “folk singer”, mas sem chegar aos calcanhares das grandes cantoras irlandesas tradicionais, em “The foggy dew” e “He moved through the fair” (a propósito, “The Long Black Veil” é uma espécie de “bê-á-bá” da música tradicional, com a inclusão de vários dos seus temas mais estafados). Divertida é o menos que se poderá dizer da interpretação do canastrão “crooner” Tom Jones, em “Tennesse waltz/Tennesse mazurka”, dedicada a Frank Zappa e gravada na casa do mesmo. Ry Cooder, por seu lado, acrescenta uma dose de espacialidade e faz seus “Coast of Malabar” e “Dunmore lassies”. Marianne Faithfull cumpre, com a sua voz sofredora de sempre, em “Love is teasin’”. Verdadeiramente caricata e, a nosso ver, inútil é a desbunda final dos Chieftains com os Rolling Stones (!), no tradicional “Rocky road to Dublin”, por muito que Paddy Moloney diga que foi “the most enjoyable” momento da gravação. Uma confusão onde tocam todos ao mesmo tempo, de certeza muito divertidos, e é possível ouvir, entre o chinfrim, a guitarra de Keith Richards a lançar no caos um punhado de notas de “Satisfaction”. Mas pronto, é a glória. Nos currículos de ambos já poderá constar que a maior banda folk do planeta tocou com a maior banda rock do planeta e vice-versa…
No meio do verniz dos convidados, faz pena ver escrita em letras menores o nome dos verdadeiros artífices de “Long Black Veil”, afinal aqueles que contribuem para que o projecto não vá ao fundo: o gaiteiro galego Carlos Nuñez, os acordeonistas Mairtin O’ Connor e James Keane, o guitarrista Arty McGlynn e o coro dos Anúna. São eles as verdadeiras estrelas e os pilares de “The Long Black Veil”, um disco onde os anfitriões quase têm de pedir licença para se fazerem ouvir. Esqueça-se a barafunda e procure-se conforto na vocalização, de longe a melhor do disco, do “humilde” vocalista da banda, Kevin Conneff, em “Changing your demeanour”. E agora quem é que os Chieftains poderão convidar para a próxima? Talvez o Papa?