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Bernardo Moreira Sexteto – “Ao Paredes Confesso”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
27 Junho 2003

Tema da capa “Movimentos Perpétuos à volta de Carlos Paredes”, do qual fazem parte textos de Kathleen Gomes, Mário Jorge Torres, Vítor Belanciano e este:


Paredes meias com o jazz

BERNARDO MOREIRA SEXTETO
Ao Paredes Confesso
Ed. e distri. Universal
7|10



2003 tem sido o ano em que todos se lembram de Paredes. Ele são os discos, ele são as homenagens, as antologias, as reedições. Para o ano outro haverá para se cobrir com a coroa (sem os espinhos) da glória. Quanto à música de Paredes, ela simplesmente é.
O jazz não podia ficar fora do comboio. Depois de Carlos Bica, Maria João & Mário Laginha e os novatos Verdes Sons dizerem presente ao projeto “Movimentos Perpétuos”, é a vez do contrabaixista Bernardo Moreira e do seu sexteto se lançarem na tarefa de recriar/reinventar ou simplesmente dizer Paredes de forma pessoal. “Depois” é uma força de expressão, porque o projeto há dois anos que germinou na cabeça do contrabaixista e faz este mês um ano que se concluíram as gravações de “Ao Paredes Confesso”, o disco em questão, agora editado pela Universal.
“Ao Paredes Confesso”, trocadilho com o verso fadista “nem às paredes confesso”, inclui quatro temas do genial autor de “Guitarra Portuguesa”, “Dança dos montanheses”, “Verdes anos”, “Sede e morte” e “Variações sobre uma dança popular”, e três originais de Moreira, “Canção para Carlos Paredes”, “Casa do alto” e “Ao Paredes Confesso”. Formam o sexteto, além do contrabaixista, o seu irmão João Moreira (trompete, melódica), André Fernandes (guitarra elétrica), Nuno Ferreira (guitarra elétrica), André Sousa Machado (bateria, caixa popular) e Quiné (percussão), com a participação, num dos temas, de Pedro Moreira, no saxofone soprano.
Para Bernardo Moreira, é um disco “cuja linguagem não se confunde com outras abordagens anteriores à música do Paredes”, como a de Pedro Jóia, que cita como exemplo. “Em relação ao Paredes até acho que deve haver coisas a mais do que a menos”.
Bernardo Moreira justifica a existência de “Ao Paredes Confesso” com uma “paixão” pelo guitarrista que “não é de agora”. “Tive o privilégio de fazer a primeira parte de um concerto dele, há dez anos, com o Quarteto do Mário Laginha. Apanhei um estaladão!”
A escolha de temas passou por um processo de “audição intensa”, mas o resultado acabou por ser uma “coisa natural”. “Comecei a tentar desconstrui-los e fui chegando… não sei se consegui ou não…a minha ideia não foi nunca aproveitar melodias do Carlos Paredes e dar-lhes um tratamento jazzístico e interpretá-las como se fossem temas de jazz, mas tentar ir mais longe e fundir linguagens que aparentemente são distintas mas que, no fundo, vão dar ao mesmo.”
O “bal musette”, o tango (“Canção para Carlos Paredes”), o jazz rock (“Sede e morte”) e a música tradicional portuguesa (“Variações sobre uma dança popular”) são algumas das linguagens que se atravessam no caminho do jazz e remetem para uma leitura paralela do universo de Paredes. Um universo que, como reconhece o contrabaixista, tem como centro “a alma” – algo de que “toda a gente fala mas que é difícil traduzir por palavras”. Outro é o do jazz e cruzam-se: o do jazz e o de Paredes.
Já se haviam cruzado quando o mestre da guitarra portuguesa pôs o contrabaixista Charlie Haden a gatinhar atrás de si, numa procura, dramática, de convergência, que se viria a revelar não totalmente satisfatória. Paredes, nesse aspeto, era (quando tocava) como um muro. Ou uma viagem de sentido único.
“Ao Paredes Confesso” resolve estas contradições, anulando-as. Como acontece no quase apontamento, na economia geral do álbum, que é “Verdes anos”, despojado da tensão que Paredes conferira a esta melodia composta para o filme de Paulo Rocha. Ou partindo para deambulações instrumentais que procuram solucionar as questões levantadas por distintos modos de improvisação. Trabalho árduo. “A gente no jazz sabe que regras é que estão em causa, se as quer quebrar ou não. No caso do Paredes não há regras. Ou há as regras dele”.
Bernardo Moreira, um entre vários exemplos do papel predominante – “é o nosso grito do Ipiranga!” – que os contrabaixistas portugueses (Carlos Barretto, Carlos Bica, José Eduardo…) têm assumido nos últimos tempos no jazz nacional, tem já novo projeto em mente, uma “suite” com base na poesia da sua mãe, Yvette Centeno.

Carlos Paredes – “O Mundo Segundo Carlos Paredes. Integral, 1958 – 1993”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
07 Março 2003
capa


Carlos Paredes
A GUITARRA QUE VENCEU O FADO

CARLOS PAREDES
O Mundo Segundo Carlos Paredes. Integral, 1958 – 1993
Ed. e distri. EMI-VC
10|10



Se Amália foi o fado, Paredes é a sua transcendência. Amália foi a onda, nítida e exacta. Paredes, o mar revolto e uma ideia de liberdade que não se esgota no dizer. Disse-o mesmo assim – com a raiva e a ternura de quem se deu e coroou a solidão. A integral O Mundo Segundo Carlos Paredes, agora editada, é o testemunho vivo desse caminho.



“Carlos Paredes era de uma dimensão muito difícil de definir. O Carlos vagueava no espaço: é um ser etéreo. Ele não estava cá, estava para além e acima de nós. Pairava no espaço. Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus”. É desta forma que Luiz Goes, um dos mestres do fado de Coimbra e dos primeiros músicos a privar com a arte de Paredes, define a personalidade musical e humana do autor de “Verdes Anos”, cuja obra integral acaba de ser compilada pela EMI-VC em forma de caixa, com o título “O Mundo Segundo Carlos Paredes, Integral, 1958-1993”.
O mundo segundo Carlos Paredes é um mundo que a todos fascina mas também um mundo cuja originalidade se torna difícil de enquadrar sob a lupa da análise mais fria. A música deste “ser etéreo” que, como dizia Goes, parecia pairar no espaço enquanto tocava, atinge-nos irremediavelmente na dimensão mais trágica do ser português, nesse ponto onde a mais despojada e apaixonada das solidões se sublima amorosamente pela Saudade.
Para além de Amália, Paredes foi, enquanto músico, o mais alto expoente desta interioridade, tornada beleza e arrebatamento absolutos nas cordas e na alma de uma guitarra portuguesa. Por estas razões, pelo valor documental e pelas não razões, de ordem emocional, que cada um descobrirá dentro de si, “O Mundo Segundo Carlos Paredes” é, desde já, no capítulo das reedições, o acontecimento editorial do ano.
Apresentado sob a forma de livro forrado interiormente com 37 páginas explicativas, incluindo um texto de apresentação de Ruy Vieira Nery, compõe-se de oito CDs organizados por ordem cronológica, abrangendo a totalidade do material gravado por Paredes, disperso por EPs e álbuns lançados entre 1958 e 1993. 35 anos de carreira ao longo dos quais Paredes deixou vincada a sua arte, parca em quantidade (a sua obra é escassa, comparada por exemplo, com o acervo legado por Amália), mas absolutamente imbuída de uma intensidade inigualável na música deste século.

nascer do dia
“Despertar”, título do CD de abertura, é composto por 26 temas, dos quais os primeiros quatro, os mais antigos gravados pelo guitarrista, correspondem ao EP “Fado de Coimbra”, do Dr. Augusto Camacho, excluindo-se obviamente as colaborações prévias de Paredes com o seu pai, Artur Paredes.
Descobre-se nesta introdução a nostalgia e o típico “rubato” coimbrões que marcariam, sem o esgotar, o estilo do guitarrista, vislumbrando-se desde logo sinais do seu virtuosismo. Entre os temas 5 e 8 deparamo-nos, cara a cara, com o génio musical presente no EP “Carlos Paredes”, de 1962.
Os desenvolvimentos melódicos, em forma de rapsódia, e, sobretudo, a sua exposição em termos técnicos, de imediato entraram em conflito com os dogmas ligados ao instrumento. Hugo Ribeiro, engenheiro de som presente em inúmeras gravações do mestre, ao ouvi-lo pela primeira vez numa sessão em casa de Amália, comentou: “Aquilo não tinha nada a ver com guitarra portuguesa. Ninguém tocava daquela maneira”. Não tocava, de facto. Quanto à guitarra portuguesa, tornou-se desde esse momento um instrumento nobre e arquétipo pelo qual todos os guitarristas das gerações posteriores se guiariam.
Outro EP, de 1964, apresenta “Guitarradas sob a Forma do Filme ‘Verdes Anos’”. Não era ainda o tema com o mesmo nome que se tornaria o cálice onde vamos beber a transcendência, mas as sementes, regadas, como no disco anterior, pela guitarra de Fernando Alvim, estavam já preparadas para fazer florescer uma música ainda mais sofisticada. “Frustração”, a faixa final, fere como um punhal, o derradeiro tom menor assombrando como a revelação do destino. Noite sem véus.
“Guitarra Portuguesa” (1967) constitui o álbum de estreia, através do qual o seu autor entrou em definitivo para a galeria dos imortais. Todos guardamos, no ouvido, no subconsciente ou no coração alguma destas melodias. “Dança” evidencia o lado mais enraizado na música tradicional de Paredes, enquanto “Fantasia” e “Pantomina” ilustram as suas ligações à música antiga, respetivamente da Renascença e da Idade Média. “Divertimento” sintetiza, entre a euforia e o sonho, o modo de construção melódica, rítmica e harmónica do músico. Muitas músicas numa música. Paredes e Alvim, genialmente irmanados no mesmo delírio, formam uma orquestra subliminar, atuante nos vários planos de escuta. “Romance Nº1” e “Romance Nº2” são harpa de luz e água. Paredes e Alvim, guitarras em dança sagrada. Precisamente no meio do alinhamento está “Verdes anos”. E aqui, de tão próximos e tão misteriosamente e para sempre distantes (não é isto, também, a Saudade?) resta-nos o silêncio e a entrega. Porque de silêncio e entrega, mas também de uma solidão exposta com nudez quase cruel, se trata. Música em estado puro, verdadeiro “movimento perpétuo” do qual o executante se faz puro agente mediúnico. Aquele que recebe, dá e revela.
Alguns segredos técnicos ajudaram a criar esta obra-prima. Recorda Hugo Ribeiro: “O Paredes não custava nada gravar. A grande dificuldade era conseguir ouvir a guitarra através dos altifalantes e da aparelhagem como se estivesse a um metro de distância. Eu procurava ouvir a guitarra através do microfone do ‘ponto de vista’ dos meus ouvidos em relação ao instrumento. Acabei por arranjar uma solução: fui vendo onde ouvia bem a guitarra, o que era já muito longe de Paredes. E pus lá um microfone, um outro junto de Paredes, que estava desligado; e afastava dele ao máximo a viola do Fernando Alvim…”. Completam o “Despertar” três temas extraídos do LP “Coimbra de Ontem e de Hoje” (1967) de Luiz Goes.

água corrente
“Na Corrente”, CD Nº2, abre com o tema com o mesmo nome, registado em 1969 para o documentário televisivo de Augusto Cabrita mas publicado pela primeira vez em Cd apenas em 1996. Nesta faixa Paredes tocou guitarra clássica improvisando em tempo real sobre as imagens projetadas. Um Paredes diferente, abstrato, por vezes quase ausente que desfalece para logo recuperar o fogo e o fôlego, umas vezes próximo do espírito da bossa-nova, outras num abandono triste ou na perplexidade de quem escutando fora de si, a si mesmo se escuta. O “mundo segundo Carlos Paredes” é Carlos Paredes. Em seu redor: paredes de água, paredes de diamante, paredes de cristal. Transparentes. Inquebráveis. Doze minutos e meio de vida como ela é, ou seja, música: Movimento. Enigma. Tempo. “Na corrente” é um título perfeito.
Por isso se cai aos trambolhões quando, sem aviso, a voz de José Carlos Ary dos Santos se faz a ouvir lendo poemas medievais e contemporâneos, com Paredes a acompanhá-lo. O álbum chamava-se “Espiral Op.70” (foi uma oferta de Natal da agência de publicidade Espiral, onde o poeta era um dos criativos…) e teve edição privada em 1969. Alguns solos (já na guitarra portuguesa) soam distantes. Ary declama “Meu amor, meu amor”, poema seu que Amália cantaria com música de Alain Oulman.
Vem a seguir uma raridade: “Meu País” (1970), de parceria com a cantora e atriz Cecília de Melo, então companheira de Paredes. Seis tradicionais mais outros tantos originais do guitarrista, sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. A voz faz lembrar a de Cândida Branca Flor nos tempos folk com a Banda do Casaco. Paredes ouve-a embevecido e dá-lhe um céu repintado da obra anterior. Mas céu, seja como for…
“Danças”, CD Nº3, traz “Movimento Perpétuo”, de 1971. Um clássico. Ao lado dos inéditos, o LP incluía um par de temas compostos para a banda sonora de “Mudar de Vida”, de Paulo Rocha, com a participação de Tiago Velez, na flauta, o que confere à música uma sonoridade com ressonâncias “new age” na linha da música de Paul Horn. É o álbum em que a veia improvisadora de Paredes se sedimenta num estilo reconhecível, feito de reminiscências de frases antigas projetadas, paradoxalmente, de acordo com um desejo de superação e descoberta constantes.
“Quando entrávamos para estúdio”, recorda Hugo Ribeiro, “o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar. ‘Vamos ver, se calhar, talvez…’, dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: ‘Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!’. Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal.
Há ainda “O fantoche” (outra melodia entranhada nos ouvidos de todos) que sobrou destas sessões, e outras duas versões, de fado de Coimbra que, pela sua especificidade, foram editadas separadamente em “single”. Uma delas, “Balada de Coimbra”, com arranjo de Artur Paredes, foi responsável por um desentendimento entre pai e filho. Consta que Artur se terá insurgido contra o facto do filho gravar um arranjo seu sem tocar suficientemente bem… Os restantes seis temas fazem parte de um álbum encetado em 1973 mas apenas editado em 1996 na compilação de raridades “Na Corrente”. Carlos Paredes reformulara entretanto alguns destes temas para inclusão em álbuns posteriores, “Concerto em Frankfurt e “Espelho de Sons”, bem como para uma edição exclusiva alemã, “O Oiro e o Trigo”, feita sem o consentimento da editora Valentim de Carvalho, com quem tinha contrato, o que motivaria um corte de relações entre ambas as partes.

o destino nas mãos
“As Mãos” reúne material de “É Preciso um País” (1974), com poemas e voz de Manuel Alegre, e “Que Nunca Mais” (1975), com Adriano Correia de Oliveira. No primeiro, Carlos Paredes socorre-se do “guitarrão”, uma guitarra portuguesa modificada que abrangia as escalas da guitarra clássica e da guitarra portuguesa normal. A revolução de Abril ainda fervia e os poemas de Alegre afirmavam-se em conformidade. Tempos de idealismo que o tempo não cumpriu. Paredes, com a sua proverbial generosidade e o empenhamento político, deu-se de corpo e alma a esta luta que também foi a sua mas da qual outros se aproveitaram. Digamos, para abreviar, que a guitarra de Paredes casava mal com um comício. A sua revolução era outra e foi essa que verdadeiramente modificou a música em Portugal.
Já o encontro, em dois temas, com Adriano Correia de Oliveira, seu “companheiro de estrada”, está mais próximo da corrente politizada da MPP do pós-25 de Abril, com uma veia tradicional menos dependente da mensagem e do tom panfletário veiculada pelo tom declamatório de Alegre.
A gravação ao vivo de 1982, na Ópera de Frankfurt, que deu origem a “Concerto em Frankfurt” fecha o alinhamento de “As Mãos”. O concerto foi gravado sem o conhecimento de Paredes, para não o enervar, e nele encontramos um músico em que a tristeza (o desespero?) substituíra já a melancolia romântica e o poder de afirmação de “Guitarra Portuguesa”. É fado, realmente fado, a escuridão que escorria então da sua guitarra. Tocava já como se adivinhasse um desfecho trágico, numa luta titânica contra a tirania das notas, procurando esventrá-las, magoando-as porque elas o magoavam. Redimindo-as, afinal, num “lado de lá” que chega a ser aflitivo, nomeadamente nos seis cantos que compõem a “suite” ”Seis Cantos Improvisados sobre a Cidade”, ficando o lado mais lírico reservado para as “Seis Guitarras sobre uma Fábula”.

inventar a solidão
Outra colaboração, desta feita com Carlos do Carmo, em “Fado moliceiro”, para o álbum “Um Homem no País” (1983), abre o CD seguinte, genericamente intitulado “Improvisos”. Mas a “peça de resistência” é constituída pelos dois longos “diálogos” da guitarra de Paredes com o piano de António Victorino d’Almeida que formam “Invenções Livres” (1986). Desse encontro, surgido como consequência do interesse manifestado por Paredes em encontrar pontes com outras músicas, resultaram esporádicas confluências mas, acima de tudo, a evidência de duas visões divergentes da música. Paredes tocava voltado para dentro. Vitorino d’Almeida é um extrovertido. As cascatas de piano afogaram a guitarra, outras vezes teimosamente tentando chamar a atenção da guitarra para espaços comuns, procurando atrair, aproximar mas, por fim, resignando-se à hipotética aproximação de dois monólogos em vez da comunhão. Paredes exigia, sem querer, subserviência. Ou uma complementaridade como aquela que lhe era oferecida por Fernando Alvim. Para o maestro tal seria impensável. E a Paredes um só labirinto chegava.
Em “Asas” arruma-se o imprescindível “Espelho de Sons”, revisto e aumentado na primeira transição de LP para CD. Antologia de temas antigos retrabalhados, nela descobrimos o guitarrista na sua melhor forma, conquistando a música o domínio de si mesma nas suas mais ínfimas “nuances”. Paredes tornara-se senhor do seu destino enquanto músico. Sente-se lucidez em cada frase, a visão e a sabedoria do que antes era intuição e mediunidade. Paredes ataca as notas, já não para as fazer sangrar, mas para se afirmar como igual. Não toca “contra” mas “com”. A tragédia, de inevitável, é integrada num patamar de existência superior. Paredes ganhara “Asas sobre o Mundo” (dois inéditos acrescentados ao conceito original de “Espelho de Sons”, em edição exclusiva para a TAP) e é com elas que desce o pano sobre o sexto CD de “O Mundo Segundo Carlos Paredes”.

A vida, segundo a segundo
É sabida a incompatibilidade de Paredes em dialogar com outros músicos, outras músicas. Mas nem por isso os outros músicos deixaram de tentar. Charlie Haden, nome histórico do contrabaixo no jazz, insistiu no acasalamento, propondo a descoberta a dois de novos caminhos. Tentativa de união que em 1990 foi editada em álbum, “Charlie Haden & Carlos Paredes”, no qual o contrabaixista cedeu ao guitarrista o maior espaço possível do alinhamento. Assim se inicia o CD número sete desta Integral, “Diálogos”. De Haden, apenas o hino “Song for Che”. O resto, em temas como “Dança dos camponeses”, “Marionetas”, “Balada de Coimbra”, “Divertimento” ou o incontornável “Verdes anos”, saiu da pena e do transe de Paredes. Haden remete-se a um papel discreto. A improvisação, segundo Paredes, não segue os parâmetros do jazz. É caminho escuro, mas também cravejado de estrelas e cometas. Diante da guitarra ergue-se um espelho. Onde se reflete o mundo, mas só à sua imagem. Três temas finais completam estes “Diálogos”, todos gravados na sessão realizada em 1992 no Coliseu de Lisboa com os Madredeus. Paredes interpreta só “Mudar de vida”, acompanhando o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães em “Canto de embalar” (com assinatura de Pedro Ayres e Paredes) e no original do grupo, “O navio”.
Faltava a viagem final, a que preenche o derradeiro CD, “Memórias”. Paredes, o músico, eternizou-se. Paredes, o homem, fraquejava ao fundo do túnel, desamparado, as mãos presas nas garras da doença. “Canção para Titi”, de 2000, sobrevive como testemunho pungente de uma arte que procurou – e conseguiu – redimir o mundo da dor. Foi preciso montar “takes”, colar frases e notas. Para erguer, no final, intacta, a estátua de um homem simples que quando tocava guitarra se transformava em mito. Entre o cataclismo de amor que é “Guitarra Portuguesa” e a “Valsa diabólica” que é uma das múltiplas mágoas de “Titi”, a música de Paredes cresceu, como escreve João Lopes no posfácio da Integral, “uma pura identidade em construção: uma música carnal, quase animista, ao mesmo tempo que cerebral, pedagogicamente a enunciar a sua própria ideia de liberdade (…) uma arte de não abdicar das razões da solidão”.
Ao escutarmos e – melhor ainda, ouvirmos – “O Mundo Segundo Carlos Paredes” sentimo-nos mais sós e menos sós. Mas essa é a essência da Saudade. Saudade do que somos.





Carlos Paredes (+ Fernando Alvim) – “Ensaiar Pelo Telefone” (artigo de opinião)

(público >> cultura >> portugueses >> artigo de opinião)
domingo, 16 Fevereiro 2003


ENSAIAR PELO TELEFONE

Sem a guitarra clássica de Fernando Alvim, a guitarra portuguesa de Carlos Paredes teria sido ainda mais só. Durante 25 anos falaram uma com a outra, de muitas maneiras


Carlos Paredes e a guitarra portuguesa: um único corpo em movimento perpétuo


Conheceram-se por causa de um programa de rádio em 1960, na antiga Emissora Nacional, iniciando então uma colaboração estreita que duraria um quarto de século e os levaria aos quatro cantos do planeta como embaixadores da guitarra de Portugal no mundo.
Deste encontro entre a guitarra portuguesa de Carlos Paredes e a guitarra clássica de Fernando Alvim, nasceria uma música sem paralelo que juntava o arrebatamento do fado de Coimbra à complexidade formal da música clássica.
Paredes e Alvim gravaram juntos os álbuns “Guitarra Portuguesa”, “Movimento Perpétuo”, “Concerto em Frankfurt” e uma parte de “Espelho de Sons”. E “Verdes anos” – ícone do sentimento nacional que Alvim define como “uma suitezinha com vários andamentos”.
Fernando Alvim, hoje com 64 anos, que recentemente participou como convidado num projeto de António Chainho, apresentado ao vivo no Centro Cultural de Belém, tocava no “Nova Onda”, um programa da antiga Emissora Nacional. “Acompanhava vários géneros de música, bossa-nova, fado, pop, artistas como João Ferreira Rosa, Teresa Tarouca, Hermano da Câmara, João Braga… que começaram a cantar nessa altura, por volta de 1960. No jazz, acompanhei o Ivo Maer, Justiniano Canelhas, Jorge Veloso… O programa durou até 1963.”
Um dia, Carlos Paredes ouviu uma emissão. “Telefonou-me a perguntar se estava interessado em acompanhá-lo numa música para o documentário ‘Rendas de Metais Preciosos’, do Cândido Costa Pinto. Eu também já o conhecia de o ouvir tocar na Emissora Nacional, com o pai, o Artur Paredes, e o acompanhamento do Arménio Silva… Senti uma satisfação grande por saber que o Carlos Paredes queria que o acompanhasse.”
Combinam encontrar-se na casa de Ferreira Alves, amigo de Paredes, na presença de outro guitarrista, João Torre do Vale. Estabelece-se de imediato uma “empatia musical”. Paredes convida nessa altura Alvim para tocarem juntos em casa do pai, na Rua Gomes Freire, ao Campo Santana, “a fim de começarem a trabalhar a música para o documentário”. Poucos dias depois, ensaiam pela primeira vez. Paredes toca sozinho, para Alvim, algumas peças do seu reportório de juventude: “Movimento perpétuo”, “Variações em si menor”, “Variações em ré menor”, “Variações em mi menor” e as “Danças portuguesas”, 1 e 2.
“Fiquei fascinado”, recorda Alvim, “pois revelavam um extraordinário virtuosismo e eram extremamente difíceis de executar.” Mas Paredes queixa-se da “falta do complemento rítmico e harmónico”. Os dois começam a trabalhar a música para o documentário. Esta viria a chamar-se “Fantasia” e acabaria por ser gravada na Nacional Filmes, sendo a curta-metragem posteriormente exibida no cinema Império, “durante os intervalos das sessões”. Nascia assim uma colaboração que duraria 25 anos. Tocaram juntos
pela última vez em Outubro de 1993, na Aula Magna da Universidade de Lisboa — derradeira aparição ao vivo de um Paredes já debilitado pela doença.

“Ele tocava-me coisas
pelo telefone e eu
respondia-lhe, também
por telefone, tocando as
harmonias que me
pareciam mais certas.
Ele tinha ideias que
apareciam subitamente,
eu tentava responder…”


FERNANDO ALVIM

Paredes e Alvim passam a ensaiar juntos com regularidade. “Cerca de cinco a seis horas por dia.” Quando não era possível encontrarem-se, em geral na casa de Artur Paredes, ensaiavam pelo telefone. “Ele tocava-me coisas pelo telefone e eu respondia-lhe, também por telefone, tocando as harmonias que me pareciam mais certas. Ele tinha ideias que apareciam subitamente, eu tentava responder…” Posteriormente, mudam o local de ensaios para a casa de Carlos Paredes, em Benfica.
Fernando Alvim reconhece a dificuldade de tocar com o mestre da guitarra portuguesa. “Foi um trabalho de muitas e muitas horas, durante anos, depois não havia gravadores de cassete, eram ensaios directos, na base da memorização e da digitação… Era apanhar as ‘nuances’ dele, nunca tocava da mesma maneira…”
É conhecido o modo solitário como Carlos Paredes tocava, ao mesmo tempo livre e encerrado no seu mundo pessoal. Como Charlie Haden, Alvim reconheceu essa solidão irremediável. “É verdade, nós é que tínhamos que ir atrás dele e procurar apanhá-lo.” Modesto, Alvim apenas admite poder ter tido “alguma influência” pelo modo como também ele tocava de forma inovadora: “Tinha influências do jazz e da bossa-nova e comecei a utilizar esses acordes nalgumas das variações do Paredes, o que também lhe deu a entender outros tipos de harmonias e acordes. Mas eu não estava ali a competir com ele, mas a acompanhá-lo, pura e simplesmente. Não estava a dar respostas ou a fazer diálogos. Fascinava-me de tal maneira a forma dele tocar que a única coisa que me apetecia era ouvi-lo.”
Fernando Alvim está atualmente envolvido num projeto com Pedro Caldeira Cabral (ontem mesmo deram um recital no CCB) designado “Memórias da Guitarra”, abrangendo música da Idade Média à atualidade.