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Carlos Paredes – “Recital De Carlos Paredes, No S. Luiz, Em Lisboa – O Silêncio Convulsivo”

Cultura >> Domingo, 22.03.1992


Recital De Carlos Paredes, No S. Luiz, Em Lisboa
O Silêncio Convulsivo


Lisboa homenageou ontem, no Teatro S. Luiz, o mestre da guitarra portuguesa. Carlos Paredes, como de costume, quase não deu por isso. Não vale a pena insistir, mas é verdade: a guitarra de Paredes somos todos nós.



Um concerto de Carlos Paredes é sempre motivo de júbilo e de uma certa vergonha. O júbilo de nos deixarmos levar pelo sonho que temos de nós próprios, de sermos portugueses de verdade e não os “cadáveres adiados” de que falava o poeta. E a vergonha de nos termos acomodado e habituado a que ele, Paredes, estivesse sempre à nossa mão, disponível, com a sua guitarra e com uma modéstia que nos convinha, para nos confortar da nossa mediocridade.
A música de Paredes vem de longe e do fundo, da História e das cordas de uma guitarra que, nos seus dedos, se transforma no instrumento mais completo do mundo. Assim foi nas noites de sexta-feira e sábado, no Teatro S. Luiz em Lisboa. Assim será a 25 no Rivoli do Porto.
Na sexta-feira, numa espécie de gala tardia, nem sequer faltaram Mário Soares, o hino nacional e convidados especiais. E a televisão, que gravou o acontecimento em sistema de alta definição para posterior emissão europeia.
Acompanhado por Luísa Amaro, Paredes arrancou com “Sede” para uma primeira sequência que incluiu os inéditos “Arcos de jardim” e “Cantiga para minha mãe”.

A Perna Esquerda

Primeira convidada da noite, Natália Casanova surgiu deslumbrante, sobretudo a sua perna esquerda, emergindo gloriosa da longa racha aberta no vestido negro. Pena foi que a voz da cantora dos Diva ter entrado antes de tempo na “Cantiga de Maio”, de José Afonso. Apoiada por um contra-tenor não identificado, de figura andrógina mas possuidor de excelentes recursos vocais, Natália acabou por emprestar à canção uma razoável dose de emoção e sensualidade.
Fernando Alvim, antigo companheiro de Paredes, secundou o guitarrista em “Variações em Ré menor” e “Divertimento”, antes do regresso de Luísa Amaro numa inesquecível “Dança de Camponeses”. A primeira parte do recital encerrou com um “pas de deux” coreografado pelos bailarinos Ofélia Cardoso e Francisco Pedro segundo a estética do “pulinho a compasso”: um pulinho por cada semínima, dois por colcheia e assim por diante, em progressão geométrica, não há que enganar.
Cumpridos os rituais de exposição social do intervalo (muito actor e músico presente, muita sociedade, muito vestido curto), de novo a música, com Paredes a dar o mote de “Porto Santo” para o pianista Mário Laginha improvisar no que foi um dos momentos mais altos do espectáculo.
Depois, de novo Luísa Amaro como acompanhante, em mais dois inéditos, “Mar Goês” e “Titi” e nas notas por todos ansiadas de “Verdes Anos”, as que melhor traduzem o silêncio convulsivo que vai na nossa maneira de sermos portugueses.
Fracassado, foi o encontro com Rui Veloso, a quem Carlos Paredes pediu desculpa por alguma eventual “asneira”. O diálogo instrumental não chegou a acontecer. As duas guitarras pouco tinham a dizer uma à outra. Carlos Paredes apagou-se, dando lugar a Rui Veloso que, sozinho, interpretou “Porto Sentido”.

Pelo contrário, a participação de Paulo Curado, na flauta, em “Mudar de Vida”, resultou em pleno, talvez porque o tema, gravado para o filme de Paulo Rocha e incluído no álbum “Movimento Perpétuo”, fora escrito para este instrumento.
As “Variações de Artur Paredes” fecharam a sequência oficial do programa. A sala aplaudiu de pé. Carlos Paredes levantou-se, esbarrou contra uma câmara de televisão, vagueou perdido pelo palco e agradeceu de forma desajeitada. O público pediu mais e Paredes, como sempre, fez-lhe a vontade. Pela primeira vez ficou completamente só, no centro do palco, dobrado sobre a guitarra, a confundir-nos, a emocionar-nos. Mas o guitarrista surpreendeu tudo e todos em alguns segundos de uma “brincadeira” (“os meus amigos vão-se rir de certeza”), antes de se despedir com uma nota de ironia – numa peça, inspirada em Camilo, que traduz em música os “discursos vazios e balofos com que certos senhores nos pretendem enganar” e assinada com um “tenho dito” bem-humorado.
Para todos, para cada um diferentemente, a música e a vida de Carlos Paredes servem de lição. Que poucos souberam ou quiseram estudar e aprender.

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Bernardo Moreira Sexteto – “Ao Paredes Confesso”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
27 Junho 2003

Tema da capa “Movimentos Perpétuos à volta de Carlos Paredes”, do qual fazem parte textos de Kathleen Gomes, Mário Jorge Torres, Vítor Belanciano e este:


Paredes meias com o jazz

BERNARDO MOREIRA SEXTETO
Ao Paredes Confesso
Ed. e distri. Universal
7|10



2003 tem sido o ano em que todos se lembram de Paredes. Ele são os discos, ele são as homenagens, as antologias, as reedições. Para o ano outro haverá para se cobrir com a coroa (sem os espinhos) da glória. Quanto à música de Paredes, ela simplesmente é.
O jazz não podia ficar fora do comboio. Depois de Carlos Bica, Maria João & Mário Laginha e os novatos Verdes Sons dizerem presente ao projeto “Movimentos Perpétuos”, é a vez do contrabaixista Bernardo Moreira e do seu sexteto se lançarem na tarefa de recriar/reinventar ou simplesmente dizer Paredes de forma pessoal. “Depois” é uma força de expressão, porque o projeto há dois anos que germinou na cabeça do contrabaixista e faz este mês um ano que se concluíram as gravações de “Ao Paredes Confesso”, o disco em questão, agora editado pela Universal.
“Ao Paredes Confesso”, trocadilho com o verso fadista “nem às paredes confesso”, inclui quatro temas do genial autor de “Guitarra Portuguesa”, “Dança dos montanheses”, “Verdes anos”, “Sede e morte” e “Variações sobre uma dança popular”, e três originais de Moreira, “Canção para Carlos Paredes”, “Casa do alto” e “Ao Paredes Confesso”. Formam o sexteto, além do contrabaixista, o seu irmão João Moreira (trompete, melódica), André Fernandes (guitarra elétrica), Nuno Ferreira (guitarra elétrica), André Sousa Machado (bateria, caixa popular) e Quiné (percussão), com a participação, num dos temas, de Pedro Moreira, no saxofone soprano.
Para Bernardo Moreira, é um disco “cuja linguagem não se confunde com outras abordagens anteriores à música do Paredes”, como a de Pedro Jóia, que cita como exemplo. “Em relação ao Paredes até acho que deve haver coisas a mais do que a menos”.
Bernardo Moreira justifica a existência de “Ao Paredes Confesso” com uma “paixão” pelo guitarrista que “não é de agora”. “Tive o privilégio de fazer a primeira parte de um concerto dele, há dez anos, com o Quarteto do Mário Laginha. Apanhei um estaladão!”
A escolha de temas passou por um processo de “audição intensa”, mas o resultado acabou por ser uma “coisa natural”. “Comecei a tentar desconstrui-los e fui chegando… não sei se consegui ou não…a minha ideia não foi nunca aproveitar melodias do Carlos Paredes e dar-lhes um tratamento jazzístico e interpretá-las como se fossem temas de jazz, mas tentar ir mais longe e fundir linguagens que aparentemente são distintas mas que, no fundo, vão dar ao mesmo.”
O “bal musette”, o tango (“Canção para Carlos Paredes”), o jazz rock (“Sede e morte”) e a música tradicional portuguesa (“Variações sobre uma dança popular”) são algumas das linguagens que se atravessam no caminho do jazz e remetem para uma leitura paralela do universo de Paredes. Um universo que, como reconhece o contrabaixista, tem como centro “a alma” – algo de que “toda a gente fala mas que é difícil traduzir por palavras”. Outro é o do jazz e cruzam-se: o do jazz e o de Paredes.
Já se haviam cruzado quando o mestre da guitarra portuguesa pôs o contrabaixista Charlie Haden a gatinhar atrás de si, numa procura, dramática, de convergência, que se viria a revelar não totalmente satisfatória. Paredes, nesse aspeto, era (quando tocava) como um muro. Ou uma viagem de sentido único.
“Ao Paredes Confesso” resolve estas contradições, anulando-as. Como acontece no quase apontamento, na economia geral do álbum, que é “Verdes anos”, despojado da tensão que Paredes conferira a esta melodia composta para o filme de Paulo Rocha. Ou partindo para deambulações instrumentais que procuram solucionar as questões levantadas por distintos modos de improvisação. Trabalho árduo. “A gente no jazz sabe que regras é que estão em causa, se as quer quebrar ou não. No caso do Paredes não há regras. Ou há as regras dele”.
Bernardo Moreira, um entre vários exemplos do papel predominante – “é o nosso grito do Ipiranga!” – que os contrabaixistas portugueses (Carlos Barretto, Carlos Bica, José Eduardo…) têm assumido nos últimos tempos no jazz nacional, tem já novo projeto em mente, uma “suite” com base na poesia da sua mãe, Yvette Centeno.

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Carlos Paredes – “O Mundo Segundo Carlos Paredes. Integral, 1958 – 1993”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
07 Março 2003
capa


Carlos Paredes
A GUITARRA QUE VENCEU O FADO

CARLOS PAREDES
O Mundo Segundo Carlos Paredes. Integral, 1958 – 1993
Ed. e distri. EMI-VC
10|10



Se Amália foi o fado, Paredes é a sua transcendência. Amália foi a onda, nítida e exacta. Paredes, o mar revolto e uma ideia de liberdade que não se esgota no dizer. Disse-o mesmo assim – com a raiva e a ternura de quem se deu e coroou a solidão. A integral O Mundo Segundo Carlos Paredes, agora editada, é o testemunho vivo desse caminho.



“Carlos Paredes era de uma dimensão muito difícil de definir. O Carlos vagueava no espaço: é um ser etéreo. Ele não estava cá, estava para além e acima de nós. Pairava no espaço. Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus”. É desta forma que Luiz Goes, um dos mestres do fado de Coimbra e dos primeiros músicos a privar com a arte de Paredes, define a personalidade musical e humana do autor de “Verdes Anos”, cuja obra integral acaba de ser compilada pela EMI-VC em forma de caixa, com o título “O Mundo Segundo Carlos Paredes, Integral, 1958-1993”.
O mundo segundo Carlos Paredes é um mundo que a todos fascina mas também um mundo cuja originalidade se torna difícil de enquadrar sob a lupa da análise mais fria. A música deste “ser etéreo” que, como dizia Goes, parecia pairar no espaço enquanto tocava, atinge-nos irremediavelmente na dimensão mais trágica do ser português, nesse ponto onde a mais despojada e apaixonada das solidões se sublima amorosamente pela Saudade.
Para além de Amália, Paredes foi, enquanto músico, o mais alto expoente desta interioridade, tornada beleza e arrebatamento absolutos nas cordas e na alma de uma guitarra portuguesa. Por estas razões, pelo valor documental e pelas não razões, de ordem emocional, que cada um descobrirá dentro de si, “O Mundo Segundo Carlos Paredes” é, desde já, no capítulo das reedições, o acontecimento editorial do ano.
Apresentado sob a forma de livro forrado interiormente com 37 páginas explicativas, incluindo um texto de apresentação de Ruy Vieira Nery, compõe-se de oito CDs organizados por ordem cronológica, abrangendo a totalidade do material gravado por Paredes, disperso por EPs e álbuns lançados entre 1958 e 1993. 35 anos de carreira ao longo dos quais Paredes deixou vincada a sua arte, parca em quantidade (a sua obra é escassa, comparada por exemplo, com o acervo legado por Amália), mas absolutamente imbuída de uma intensidade inigualável na música deste século.

nascer do dia
“Despertar”, título do CD de abertura, é composto por 26 temas, dos quais os primeiros quatro, os mais antigos gravados pelo guitarrista, correspondem ao EP “Fado de Coimbra”, do Dr. Augusto Camacho, excluindo-se obviamente as colaborações prévias de Paredes com o seu pai, Artur Paredes.
Descobre-se nesta introdução a nostalgia e o típico “rubato” coimbrões que marcariam, sem o esgotar, o estilo do guitarrista, vislumbrando-se desde logo sinais do seu virtuosismo. Entre os temas 5 e 8 deparamo-nos, cara a cara, com o génio musical presente no EP “Carlos Paredes”, de 1962.
Os desenvolvimentos melódicos, em forma de rapsódia, e, sobretudo, a sua exposição em termos técnicos, de imediato entraram em conflito com os dogmas ligados ao instrumento. Hugo Ribeiro, engenheiro de som presente em inúmeras gravações do mestre, ao ouvi-lo pela primeira vez numa sessão em casa de Amália, comentou: “Aquilo não tinha nada a ver com guitarra portuguesa. Ninguém tocava daquela maneira”. Não tocava, de facto. Quanto à guitarra portuguesa, tornou-se desde esse momento um instrumento nobre e arquétipo pelo qual todos os guitarristas das gerações posteriores se guiariam.
Outro EP, de 1964, apresenta “Guitarradas sob a Forma do Filme ‘Verdes Anos’”. Não era ainda o tema com o mesmo nome que se tornaria o cálice onde vamos beber a transcendência, mas as sementes, regadas, como no disco anterior, pela guitarra de Fernando Alvim, estavam já preparadas para fazer florescer uma música ainda mais sofisticada. “Frustração”, a faixa final, fere como um punhal, o derradeiro tom menor assombrando como a revelação do destino. Noite sem véus.
“Guitarra Portuguesa” (1967) constitui o álbum de estreia, através do qual o seu autor entrou em definitivo para a galeria dos imortais. Todos guardamos, no ouvido, no subconsciente ou no coração alguma destas melodias. “Dança” evidencia o lado mais enraizado na música tradicional de Paredes, enquanto “Fantasia” e “Pantomina” ilustram as suas ligações à música antiga, respetivamente da Renascença e da Idade Média. “Divertimento” sintetiza, entre a euforia e o sonho, o modo de construção melódica, rítmica e harmónica do músico. Muitas músicas numa música. Paredes e Alvim, genialmente irmanados no mesmo delírio, formam uma orquestra subliminar, atuante nos vários planos de escuta. “Romance Nº1” e “Romance Nº2” são harpa de luz e água. Paredes e Alvim, guitarras em dança sagrada. Precisamente no meio do alinhamento está “Verdes anos”. E aqui, de tão próximos e tão misteriosamente e para sempre distantes (não é isto, também, a Saudade?) resta-nos o silêncio e a entrega. Porque de silêncio e entrega, mas também de uma solidão exposta com nudez quase cruel, se trata. Música em estado puro, verdadeiro “movimento perpétuo” do qual o executante se faz puro agente mediúnico. Aquele que recebe, dá e revela.
Alguns segredos técnicos ajudaram a criar esta obra-prima. Recorda Hugo Ribeiro: “O Paredes não custava nada gravar. A grande dificuldade era conseguir ouvir a guitarra através dos altifalantes e da aparelhagem como se estivesse a um metro de distância. Eu procurava ouvir a guitarra através do microfone do ‘ponto de vista’ dos meus ouvidos em relação ao instrumento. Acabei por arranjar uma solução: fui vendo onde ouvia bem a guitarra, o que era já muito longe de Paredes. E pus lá um microfone, um outro junto de Paredes, que estava desligado; e afastava dele ao máximo a viola do Fernando Alvim…”. Completam o “Despertar” três temas extraídos do LP “Coimbra de Ontem e de Hoje” (1967) de Luiz Goes.

água corrente
“Na Corrente”, CD Nº2, abre com o tema com o mesmo nome, registado em 1969 para o documentário televisivo de Augusto Cabrita mas publicado pela primeira vez em Cd apenas em 1996. Nesta faixa Paredes tocou guitarra clássica improvisando em tempo real sobre as imagens projetadas. Um Paredes diferente, abstrato, por vezes quase ausente que desfalece para logo recuperar o fogo e o fôlego, umas vezes próximo do espírito da bossa-nova, outras num abandono triste ou na perplexidade de quem escutando fora de si, a si mesmo se escuta. O “mundo segundo Carlos Paredes” é Carlos Paredes. Em seu redor: paredes de água, paredes de diamante, paredes de cristal. Transparentes. Inquebráveis. Doze minutos e meio de vida como ela é, ou seja, música: Movimento. Enigma. Tempo. “Na corrente” é um título perfeito.
Por isso se cai aos trambolhões quando, sem aviso, a voz de José Carlos Ary dos Santos se faz a ouvir lendo poemas medievais e contemporâneos, com Paredes a acompanhá-lo. O álbum chamava-se “Espiral Op.70” (foi uma oferta de Natal da agência de publicidade Espiral, onde o poeta era um dos criativos…) e teve edição privada em 1969. Alguns solos (já na guitarra portuguesa) soam distantes. Ary declama “Meu amor, meu amor”, poema seu que Amália cantaria com música de Alain Oulman.
Vem a seguir uma raridade: “Meu País” (1970), de parceria com a cantora e atriz Cecília de Melo, então companheira de Paredes. Seis tradicionais mais outros tantos originais do guitarrista, sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. A voz faz lembrar a de Cândida Branca Flor nos tempos folk com a Banda do Casaco. Paredes ouve-a embevecido e dá-lhe um céu repintado da obra anterior. Mas céu, seja como for…
“Danças”, CD Nº3, traz “Movimento Perpétuo”, de 1971. Um clássico. Ao lado dos inéditos, o LP incluía um par de temas compostos para a banda sonora de “Mudar de Vida”, de Paulo Rocha, com a participação de Tiago Velez, na flauta, o que confere à música uma sonoridade com ressonâncias “new age” na linha da música de Paul Horn. É o álbum em que a veia improvisadora de Paredes se sedimenta num estilo reconhecível, feito de reminiscências de frases antigas projetadas, paradoxalmente, de acordo com um desejo de superação e descoberta constantes.
“Quando entrávamos para estúdio”, recorda Hugo Ribeiro, “o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar. ‘Vamos ver, se calhar, talvez…’, dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: ‘Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!’. Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal.
Há ainda “O fantoche” (outra melodia entranhada nos ouvidos de todos) que sobrou destas sessões, e outras duas versões, de fado de Coimbra que, pela sua especificidade, foram editadas separadamente em “single”. Uma delas, “Balada de Coimbra”, com arranjo de Artur Paredes, foi responsável por um desentendimento entre pai e filho. Consta que Artur se terá insurgido contra o facto do filho gravar um arranjo seu sem tocar suficientemente bem… Os restantes seis temas fazem parte de um álbum encetado em 1973 mas apenas editado em 1996 na compilação de raridades “Na Corrente”. Carlos Paredes reformulara entretanto alguns destes temas para inclusão em álbuns posteriores, “Concerto em Frankfurt e “Espelho de Sons”, bem como para uma edição exclusiva alemã, “O Oiro e o Trigo”, feita sem o consentimento da editora Valentim de Carvalho, com quem tinha contrato, o que motivaria um corte de relações entre ambas as partes.

o destino nas mãos
“As Mãos” reúne material de “É Preciso um País” (1974), com poemas e voz de Manuel Alegre, e “Que Nunca Mais” (1975), com Adriano Correia de Oliveira. No primeiro, Carlos Paredes socorre-se do “guitarrão”, uma guitarra portuguesa modificada que abrangia as escalas da guitarra clássica e da guitarra portuguesa normal. A revolução de Abril ainda fervia e os poemas de Alegre afirmavam-se em conformidade. Tempos de idealismo que o tempo não cumpriu. Paredes, com a sua proverbial generosidade e o empenhamento político, deu-se de corpo e alma a esta luta que também foi a sua mas da qual outros se aproveitaram. Digamos, para abreviar, que a guitarra de Paredes casava mal com um comício. A sua revolução era outra e foi essa que verdadeiramente modificou a música em Portugal.
Já o encontro, em dois temas, com Adriano Correia de Oliveira, seu “companheiro de estrada”, está mais próximo da corrente politizada da MPP do pós-25 de Abril, com uma veia tradicional menos dependente da mensagem e do tom panfletário veiculada pelo tom declamatório de Alegre.
A gravação ao vivo de 1982, na Ópera de Frankfurt, que deu origem a “Concerto em Frankfurt” fecha o alinhamento de “As Mãos”. O concerto foi gravado sem o conhecimento de Paredes, para não o enervar, e nele encontramos um músico em que a tristeza (o desespero?) substituíra já a melancolia romântica e o poder de afirmação de “Guitarra Portuguesa”. É fado, realmente fado, a escuridão que escorria então da sua guitarra. Tocava já como se adivinhasse um desfecho trágico, numa luta titânica contra a tirania das notas, procurando esventrá-las, magoando-as porque elas o magoavam. Redimindo-as, afinal, num “lado de lá” que chega a ser aflitivo, nomeadamente nos seis cantos que compõem a “suite” ”Seis Cantos Improvisados sobre a Cidade”, ficando o lado mais lírico reservado para as “Seis Guitarras sobre uma Fábula”.

inventar a solidão
Outra colaboração, desta feita com Carlos do Carmo, em “Fado moliceiro”, para o álbum “Um Homem no País” (1983), abre o CD seguinte, genericamente intitulado “Improvisos”. Mas a “peça de resistência” é constituída pelos dois longos “diálogos” da guitarra de Paredes com o piano de António Victorino d’Almeida que formam “Invenções Livres” (1986). Desse encontro, surgido como consequência do interesse manifestado por Paredes em encontrar pontes com outras músicas, resultaram esporádicas confluências mas, acima de tudo, a evidência de duas visões divergentes da música. Paredes tocava voltado para dentro. Vitorino d’Almeida é um extrovertido. As cascatas de piano afogaram a guitarra, outras vezes teimosamente tentando chamar a atenção da guitarra para espaços comuns, procurando atrair, aproximar mas, por fim, resignando-se à hipotética aproximação de dois monólogos em vez da comunhão. Paredes exigia, sem querer, subserviência. Ou uma complementaridade como aquela que lhe era oferecida por Fernando Alvim. Para o maestro tal seria impensável. E a Paredes um só labirinto chegava.
Em “Asas” arruma-se o imprescindível “Espelho de Sons”, revisto e aumentado na primeira transição de LP para CD. Antologia de temas antigos retrabalhados, nela descobrimos o guitarrista na sua melhor forma, conquistando a música o domínio de si mesma nas suas mais ínfimas “nuances”. Paredes tornara-se senhor do seu destino enquanto músico. Sente-se lucidez em cada frase, a visão e a sabedoria do que antes era intuição e mediunidade. Paredes ataca as notas, já não para as fazer sangrar, mas para se afirmar como igual. Não toca “contra” mas “com”. A tragédia, de inevitável, é integrada num patamar de existência superior. Paredes ganhara “Asas sobre o Mundo” (dois inéditos acrescentados ao conceito original de “Espelho de Sons”, em edição exclusiva para a TAP) e é com elas que desce o pano sobre o sexto CD de “O Mundo Segundo Carlos Paredes”.

A vida, segundo a segundo
É sabida a incompatibilidade de Paredes em dialogar com outros músicos, outras músicas. Mas nem por isso os outros músicos deixaram de tentar. Charlie Haden, nome histórico do contrabaixo no jazz, insistiu no acasalamento, propondo a descoberta a dois de novos caminhos. Tentativa de união que em 1990 foi editada em álbum, “Charlie Haden & Carlos Paredes”, no qual o contrabaixista cedeu ao guitarrista o maior espaço possível do alinhamento. Assim se inicia o CD número sete desta Integral, “Diálogos”. De Haden, apenas o hino “Song for Che”. O resto, em temas como “Dança dos camponeses”, “Marionetas”, “Balada de Coimbra”, “Divertimento” ou o incontornável “Verdes anos”, saiu da pena e do transe de Paredes. Haden remete-se a um papel discreto. A improvisação, segundo Paredes, não segue os parâmetros do jazz. É caminho escuro, mas também cravejado de estrelas e cometas. Diante da guitarra ergue-se um espelho. Onde se reflete o mundo, mas só à sua imagem. Três temas finais completam estes “Diálogos”, todos gravados na sessão realizada em 1992 no Coliseu de Lisboa com os Madredeus. Paredes interpreta só “Mudar de vida”, acompanhando o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães em “Canto de embalar” (com assinatura de Pedro Ayres e Paredes) e no original do grupo, “O navio”.
Faltava a viagem final, a que preenche o derradeiro CD, “Memórias”. Paredes, o músico, eternizou-se. Paredes, o homem, fraquejava ao fundo do túnel, desamparado, as mãos presas nas garras da doença. “Canção para Titi”, de 2000, sobrevive como testemunho pungente de uma arte que procurou – e conseguiu – redimir o mundo da dor. Foi preciso montar “takes”, colar frases e notas. Para erguer, no final, intacta, a estátua de um homem simples que quando tocava guitarra se transformava em mito. Entre o cataclismo de amor que é “Guitarra Portuguesa” e a “Valsa diabólica” que é uma das múltiplas mágoas de “Titi”, a música de Paredes cresceu, como escreve João Lopes no posfácio da Integral, “uma pura identidade em construção: uma música carnal, quase animista, ao mesmo tempo que cerebral, pedagogicamente a enunciar a sua própria ideia de liberdade (…) uma arte de não abdicar das razões da solidão”.
Ao escutarmos e – melhor ainda, ouvirmos – “O Mundo Segundo Carlos Paredes” sentimo-nos mais sós e menos sós. Mas essa é a essência da Saudade. Saudade do que somos.





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