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Orquestra Sons da Lusofonia atua hoje e amanhã no S. Luiz – “Caminho Longe”

1 de Junho 1998


Orquestra Sons da Lusofonia atua hoje e amanhã no S. Luiz

Caminho longe


sl

“Nos últimos três anos cerca de duas dezenas de músicos dos sete países lusófonos têm-se reunido regularmente para fazer música. Aos sons resultantes desses encontros chamámos, por não encontrar melhor nome para aquilo que fazemos, Sons da Lusofonia”. É uma justificação modesta de Carlos Martins para a pluralidade de músicas que se encontram e polinizam no seu projecto Sons da Lusofonia. Uma orquestra que poderia ser de jazz se não dançasse tanto em torno dos hemisférios do mundo, um grupo que poderia ser de “world music” se não retivesse tanto as prédicas e os silogismos de estilo da grande música negra. Assim como é, cabem nestes sons grandes e polidas auto-estradas urbanas e veredas perdidas entre rios e florestas tropicais, que Carlos Martins soube organizar num prolífico sistema de vasos comunicantes.
Sons da Lusofonia é um “Caminho Longe” – genérico do espectáculo -, que ata e desata as raízes e a historia do jazz, a música ligeira, a poesia declamada e o folclore dos países lusófonos africanos, do Brasil e do Oriente. Estimula-se “a investigação no campo da etnomusicologia, a experimentação musical e a prática de uma itinerância que amplie a cooperação artística entre os países lusófonos”. Por outras palavras, promove-se o diálogo. Colorindo-o com muitas cores.
“Caminho Longe” está estruturado em sete módulos musicais e coreográficos distintos. Uma viagem. Entre rituais étnicos, delírios “free” de “big band”, versos que desenham lugares e a imaginação desses lugares, e canções pop. Não se procurem grandes feitos ao nível da coreografia.
Participam nos dois espectáculos, entre elementos fixos da banda e convidados, Alcides Gonçalves, Alexandre Frazão, Alexandre Dinis, Artur Fernandes, Beto Monteiro, Dalu, Dany Silva, Edu Miranda, Filipa Pais, Filipe Larsen, Guto Pires, Loni Seiva, Mário Delgado, Mário Reis, Miguel Gonçalves e Rui Gonçalves. Ainda a participação especial de Ângelo Torres, o coro Cramol, Filipe Mukenga, Marlene Freitas, Tony Tavares, Rui Veloso e Rui Júnior.
Vai ser tudo gravado em áudio e vídeo para posterior edição de um CD, um vídeoclip e um documentário para a televisão.



Carlos Martins & Vasco Martins – Outras Índias

10.10.1997
Carlos Martins & Vasco Martins
Outras Índias (8)
Nortesul, distri. Valentim de Carvalho

Carlos Martins, saxofonista de jazz e conceptualista atento à fusão dos sons do universo, cruzou-se com Vasco Martins, navegante solitário do Mindelo, Cabo Verde, dos sintetizadores e das miragens “new age”, autor de uma trilogia intitulada “Southbound Music”. Decidiram gravar juntos, numa ponte entre duas solidões – a do Alentejo e a do Mindelo. Em busca de “Outras Índias”, lugar imaginário apenas para quem não se consegue libertar das amarras da estagnação, da intolerância e da cegueira. “Outras Índias” é um lugar – esse lugar “onde mora a beleza”, nas palavras do saxofonista – que não se encontra no jazz nem na música tradicional de Cabo Verde. Paisagem contemplativa e intimista, espaço amplo de diálogo entre os saxofones tenor e soprano de Carlos Martins com os sintetizadores e guitarra acústica de Vasco Martins (não se procurem neles outro parentesco senão o da cumplicidade musical…), “Outras Índias” avança devagar, saboreando cada nota e cada pausa. O estado de alma pode estar próximo do de um Rão Kyao só que aqui se parte para uma aventura maior. Meditativo, caloroso, exótico, deve ouvir-se com a mesma liberdade de espírito com que foi criado. O saxofone de Carlos Martins deixa-se inebriar pelas delícias mais subtis do tonalismo (Karl Jenkins, dos Soft Machine, convertido a Canterbury…), enquanto Vasco Martins sonha contrapontos de guitarra ou tece discretas tapeçarias electrónicas. Uma geografia a descobrir.

Carlos e Vasco Martins lançam “Outras Índias” – Entrevista –

10.10.1997
Carlos e Vasco Martins lançam “Outras Índias”
“Um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar”
Carlos e Vasco Martins partilham uma filosofia comum, com raízes no zen. Recusam as etiquetas. Cabo Verde é o mundo. E o jazz um ponto – ou uma ponte – de partida para o caminho do Oriente que ambos perseguem. Em “Outras Índias”, tudo se prende a algo ancestral: “Um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar.”

Em “Outras Índias” Carlos Martins e Vasco Martins fizeram, com sucesso, a fusão das raízes musicais de Cabo Verde com um discurso contemplativo que não hesitou em voltar as costas ao jazz. Para Carlos Martins, é a concretização do seu ideal de uma lusofonia verdadeiramente universal. Para Vasco Martins, uma abertura no seu refúgio “new age” com sede no Atlântico. Uma descoberta a dois.

FM – Quando é que se encontraram e como surgiu a ideia de fazer este disco?
Carlos Martins – Conhecemo-nos há uns anos através de um amigo comum, o João Freire, uma pessoa que sempre se interessou por Cabo Verde. Numa ocasião em que ele e o Vasco estiveram em Portugal, andaram à minha procura, só que o encontro não se proporcionou. Nessa altura eu tocava com a Constança Capdeville e com a Olga Pratts, que também me disse que o Vasco era de Cabo Verde e compunha. Fiquei com curiosidade em saber quem era, ainda por cima alguém com o mesmo apelido do que eu… Até que nos encontrámos finalmente em Roterdão, numa conferência sobre a diáspora cabo-verdiana. Eu ia falar sobre o que os emigrantes podem fazer fora do seu país, em termos culturais. O Vasco ia falar da música de Cabo Verde. Desse primeiro encontro resultou numa ida a Amsterdão, durante um dia inteiro. Esse dia inteiro fez este disco. Desde a visita oa museu Van Gogh até às conversas que tivemos. Chegámos ao hotel e tocámos um bocado. Vimos que as coisas funcionavam.
Vasco Martins – Eu tinha levado apenas uma guitarra para fazer uma demosntração da música de Cabo Verde.
FM – Já conheci a trilogia atlântica, “Southbound Music”, do Vasco Martins?
Carlos Martins – Já tinha ouvido algumas coisas e não era o tipo de música que eu queria fazer.
FM – E o Vasco, já tinha ouvido antes a música do Carlos?
Vasco Martins – Era um desconhecido, só sabia que era um músico de jazz com talento.
FM – Como é que os universos de ambos se ligaram? Esse passeio de que falaram deve ter sido bonito, mas depois como é que a coisa funcionou no estúdio?
Carlos Martins – A vantagem é que tudo foi articulado em Cabo Verde. Estive lá cinco dias antes de vir para cá. esses cinco dias é que fizeram com que o som se consolidasse. O que se passa é que há uma alma dentro de cada um de nós que junta, que roça numa extremidade do mesmo universo. Um universo de gostos comuns, apetências comuns e sonoridades comuns. Depois sobressaiu ainda uma certa visão zen da música, uma certa orientalidade.
FM – Os discos do Vasco não chegam ao Continente…
Vasco Martins – Gravo pela Celluloid francesa, mas os discos são mal distribuídos em Portugal. saem em Espanha, nos Estados Unidos, na Alemanha. Continuo a fazer música electrónica, mas também sinfónica e outras coisas.
FM – A música da sua trilogia é bastante universalista. De que forma trabalhou nela a influência da música de Cabo Verde?
Vasco Martins – Há duas formas de ver a questão. Uma é a intuição do ambiente onde o artista vive. A outra é o aproveitamento das raízes, das tradições. Eu utilizo ambas. Na música da trilogia, está presente a temática de Cabo Verde, mas não a utilizo de uma maneira objectiva, dou pinceladas, sou mais um impressionista.
FM – “Outras Índias” é um disco de uma grande serenidade, bastante diferente do seu discurso mais jazzístico…
Carlos Martins – Uma das coisas que mais gostei de discutir a propósito deste disco é o facto de existir uma poesia do mundo, ligada a uma certa dramaticidade da vida, que é algo constante em mim.
escrevo desde miúdo. Quando andava na quarta classe, a minha alcy«unha era o “Camões”, porque escrevia versos. E continuo a escrever, só que agora mais música do que texto. Mas há a presença constante da poesia. Logo, não sou um único Carlos Martins, nem quero sê-lo. Não tenho a mínima culpa de que as pessoas precisem mais de um único Carlos Martins, para se equilibrarem na sua crítica.
FM – O Vasco Martins funcionou como um catalisador dessa sua visão poética?
Carlos Martins – Este disco só foi possível de fazer entre mim e o Vasco. Por isso é que arranjámos um nome, “Outras Índias”, que quer dizer exactamente “outras coisas”, não digo quais, nem interessa explicar.
FM – A filosofia inerente a este disco não anda longe da partilhada por Rão Kyao, ou anda?
Carlos Martins – A orientalidade não é um factor que me inspire musicalmente, linearmente, do tipo “eu penso oriental, a música é oriental”. A orientalidade está em mim como sensibilidade. O que se passa aqui é que ando á procura de outro caminho, do Caminho do Oriente. À procura do fado, da morna e do choro lento. Mas sem tudo o queo que o Vasco tem de Cabo Verde eu não tocaria desta maneira. É uma relação interactiva.
FM – Este projecto enquadra-se na estética “new age”?
Vasco Martins – A “new age” é muito contestada na Europa porque é tida como um apêndice de filosofias orientalistas americanas. Hoje em dia, a “new age” já não é isso. Há bons músicos de “new age” a fazerem bons trabalhos, algun deles músicos de jazz.
FM – Precisamente, há, sobretudo da parte dos puristas, quem não veja com bons olhos essa “fuga” de muitos músicos de jazz para essa outra área musical…
Carlos Martins – Não sou preto, não sou americano, não vivo em Nova Iorque, não tenho que representar coisa nenhuma do jazz, tenho é que adaptar à minha música e à minha tradição tudo aquilo que aprendi do jazz, que é uma das linguagens mais belas deste século e que se tornou universal pela capacidade de improvisar e sair do seu próprio mundo e de elaborar mundos novos a uma velocidade vertiginosa. Para mim este disco é um descanso. É uma atitude assumida. Há quanto tempo é que existem uma guitarra e uma voz a cantar? É ancestral. Antes da “new age”, antes do jazz, existiu sempre um tipo a bater numas cordas, a fazer um som e a cantar. É isso que se passa neste disco, estou-me perfeitamente nas tintas para o resto. Isto para mim representa um tipo a cantar sobre as harmonias de umas cordas. É antigo, é o que eu sinto e é o que praticava quando era miúdo, com uma flautazinha no jardim.