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Este é um blog de homenagem ao maior crítico musical português de todos os tempos, precocemente desaparecido de entre nós. Usufruam da sua obra e, sobretudo, como ele desejaria, desfrutem da música que ele amava e sobre a qual escrevia.
                                                                                                               

                           

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21.05.2001
Arcebispos de Cantuária

Canterbury tornou-se uma lenda. Os novos músicos estão a redescobrir o imenso manancial oferecido por esta música que nos anos 70 se ergueu como uma catedral de um arcebispo louco no meio de um prado da velha Inglaterra.

LINK (CD 1) “Canterbury Tales – The Best of Caravan”
LINK (CD 2) “Canterbury Tales – The Best of Caravan”

Canterbury (Cantuária) é uma cidade inglesa situada no condado de Kent, a sudeste de Londres. Deu ao mundo os “Contos de Cantuária”, de Geoffrey Chaucer, e o Arcebispo. Mas isso foi antes de um pequeno núcleo de músicos se juntar na segunda metade dos anos 60 para formar o grupo que daria origem a um movimento e uma estética aos quais se convencionou chamar “cena de Canterbury” ou “som de Canterbury”.
O grupo chamava-se The Wild Flowers, nunca chegou a gravar qualquer álbum (embora, bem procurado, seja possível encontrar uma edição póstuma preenchida por actuações ao vivo) mas continha os alicerces dos dois pilares que sustentariam a primeira geração do “Canterbury Sound”: Soft Machine e Caravan. Kevin Ayers e Robert Wyatt, respectivamente vocalista e baterista dos Wild Flowers, formaram em 1967 os Soft Machine, aos quais se vieram a juntar o baixista Hugh Hopper, que também integrou os Wild Flowers, e Daevid Allen, o australiano excêntrico de cuja mente embotada pelos ácidos, o chá de haxixe, o espiritismo e as mensagens enviadas via rádio por entidades alienígenas, haveriam de brotar os Gong. Quanto aos Caravan, já tinham a sua primeira formação inscrita no “line-up” dos Wild Flowers: os irmãos David e Richard Sinclair, Richard Coughlan e Pye Hastings. É deste grupo que agora nos surge o pacote da sua discografia para a Deram, re-remastrizada e enriquecida com temas e informação adicionais.

No País Das Maravilhas
Mas que som era este, afinal, que, extinta nos anos 70 a base do Progressivo sobre o qual evoluiu até meados da década, se estendeu pelos anos 80, dos EUA ao Japão, em grupos como Happy The Man, However ou Kenso, e prosseguiu revitalizado pelos 90, onde foi adoptado pelo pós-rock de Chicago dos The Sea And The Cake ou pelos neo-psicadélicos Gorky’s Zygotic Minci?
A música, o estilo, a estética, as imagens com selo Canterbury ficaram demarcadas desde o início. Robert Wyatt e Richard Sinclair impuseram um estilo e uma filosofia vocais e poéticos que renegavam o tom mais politizado do “flower power”, como eclodira do outro lado ao Atlântico, em São Francisco, personalizado por bandas como os Jefferson Airplane e os Grateful Dead, em assumpção absoluta de uma “britishness” paralela à dos Beatles e dos Kinks, na pop.
Em vez dos mergulhos violentos na mente e das consequentes ressacas de Grace Slick e Jerry Garcia, imersos no “acid rock” e nas doutrinas pregadas pelo papa de LSD, Timothy Leary, Richard Sinclair e Robert Wyatt pegaram ao colo no lado mais surrealista e poético do psicadelismo. A Alice de Lewis Carroll bebeu o seu chá com o chapeleiro maluco às cinco em ponto, num prado de Kent. David Sinclair, nos Caravan, e Mike Ratledge, na “Máquina Mole”, estabeleceram o contraste. À suavidade, mas também às derivações intrincadas, tecidas como uma tapeçaria “nonsense”, que eram as canções moldadas pelas vozes pop de Richard Sinclair e Robert Wyatt (de que a canção “The Moon in June”, incluída no já divergente “Third”, dos Soft Machine, será o exemplo mais sublime), contrapuseram o “fuzz” do órgão electrónico e fraseados jazzy que dispensavam a herança do rhythm ‘n’ blues, onde foi beber a geração mais nova do rock progressivo.

Como As Flores De Um Jardim
Mas no fundo desta poção mágica que também albergava uma nostalgia difusa pela bossa-nova e aragens folk, agitava-se algo indefinível, uma elegância e um mistério que, apesar das inevitáveis dissidências que proliferariam através de uma miríade de correntes derivadas do som original, conferiam unidade ao “som de Canterbury”.
“Volume Two”, dos Soft Machine (1969), e “If I Could Do It All Over Again, I’d Do It All Over You” (1970), também o segundo álbum, dos Caravan, são os dois paradigmas da escola de Canterbury. A chávena de chá de Alice quebrar-se-ia na produção posterior destes dois grupos, em particular dos Soft Machine, que a partir de “Third” encetariam uma das aventuras mais fascinantes de um grupo pop pelo jazz. Os Caravan mantiveram-se mais tempo fiéis à fábula, cedendo apenas ao fim do quinto álbum, “For Girls Who Grow Plump in the Night” (1973).
Mas a aventura de Canterbury dispensava os seus progenitores. Criara-se uma espécie de família, cujos membros não cessaram de difundir, sob formas mais ou menos personalizadas, o legado dos Caravan de dos Soft Machine. O “Canterbury Sound” espalhara-se como as flores de um jardim, polinizando o Progressivo com a sua aura colorida. Apareceram radicais e moderados, dissidentes e tradicionalistas, cada qual acrescentando uma letra, uma frase, à história. Os mais ilustres foram os Hatfield and the North, com Dave Stewart, Pip Pyle e os irmãos Sinclair. Gravaram duas obras-primas que prolongaram o lado mais lúdico e swingante dos Caravan. O lado experimental e cerebral encontra-se nos Egg e, posteriormente, nos National Health, projectos de Dave Stewart, Gilgamesh e Soft Heap orientaram as “canterbury tales” segundo as coordenadas do jazz, os primeiros sob a batuta de Alan Gowen (já falecido, teclista “honorário” dos National Health), os segundos, segundo o comando de Hugh Hopper que, depois do terramoto a solo, “1984”, se dedicou a tentar fazer descarrilar o comboio do jazz-rock. O que os Soft Machine haviam perdido a partir de “Third”, conservou-o Robert Wyatt nos Matching Mole e Kevin Ayers na sua tão disparatada como genial discografia a solo. Os Gong, muitas vezes conotados, com ou sem razão, com o espírito de Canterbury, são algo mais. O seu bule de chá era uma nave espacial. E se estivermos atentos, percebemos que a sua “rádio gnome invisible” continua a emitir.
Canterbury tornou-se numa lenda. Os novos músicos, aqueles com dois dedos de testa, estão a redescobrir o imenso manancial oferecido por esta música que se ergue como a catedral de um arcebispo louco no meio de um prado da velha Inglaterra.
Richard Sinclair, em “R.S.V.P.”, de 1994, diz em jeito de despedida dessa época, numa das canções, “What’s rattlin’? (“O que é que está a fazer barulho?”): I’m bored with Caravan, Fleetwood Mac and Uncle Sam/I’m sick of Tangerine Dream, Hatfield and Soft Machine/Radio Gnome and Henry Cow/We’re not part of that now”, mas acaba a perguntar: “One question we all dream/”What’s doing Mike Ratledge? (…) What’s doing Robert Wyatt?/What’s doing Kevin Ayers?/What’s rattling Mike Doodlage?”.

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