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The Byrds – “Mr. Tambourine Man” + “Turn! Turn! Turn!” + “Fifth Dimension” + “Younger Than Yesterday”

Pop Rock

22 de Maio de 1996
reedições poprock

Mais jovens do que ontem

THE BYRDS
Mr. Tambourine Man (9)
Turn! Turn! Turn! (7)
Fifth Dimension (9)
Younger Than Yesterday (10)
Columbia, distri. Sony Music


byrds

Hitchcock fez deles os maus da fita. Mas para um número considerável de novas bandas pop, os Byrds funcionam como uma das referências principais, na arte de conjugar a liberdade das guitarras com a sedução de uma melodia saída directamente do paraíso. O presente pacote de reedições, em separado, dos quatro primeiros álbuns da banda, sucede à anterior caixa produzida por Bob Irwin, que aqui se responsabilizou pelo trabalho de remasterização. Além da notável melhoria sonora, há a destacar ainda a inclusão de seis “bonus tracks”, extraídos na maioria das sessões de “Mr. Tambourine Man”, por álbum, e a reprodução do “design” das capas originais, acompanhado de textos de introdução à história do grupo e de comentários individuais para cada faixa.
“Mr. Tambourine Man”, de 1965, é, ainda hoje, um álbum seminal, fruto da inspiração de quatro individualidades cuja alquimia resultou no casamento perfeito entre a tradição das raízes “country” e um rock urbano simultaneamente enamorado pela melodia e pela electricidade. Dylan e Pete Seeger são os mestres revisitados e devolvidos de forma luminosa pela guitarra encantatória de Roger McGuinn e as vocalizações em órbita de David Crosby, servindo de engodo para as capacidades de composição reveladas por Gene Clark, que nesta estreia do grupo pretendeu “apenas” transcender os segredos vocais já então apresentados ao mundo pelos Beatles.
No álbum seguinte, gravado no mesmo ano e editado em 1966, os Byrds prestam tributo aos espirituais, ao “gospel” (o título do álbum e do tema de abertura, subintitulado “To everything there is a season”, deriva de uma adaptação de Pete Seeger do “Livro do Eclesiastes”), à “country music” e, de novo a Dylan, cuja leitura do texto do clássico “The times they are a-changin’” é aqui inteiramente subvertida. Gene Clark continua a transformar os seus desgostos de amor em grandes canções, enquanto se tornava num hábito o fecho numa veia satírica.
Depois de se terem despedido no álbum de estreia com uma versão da “country singer” Vera Lynn, usada no filme de Kubrick, “Dr. Strangelove”, os Byrds aceleravam e desviavam em proveito próprio a tonalidade do velho “standard” de “cowboys” “Oh! Susannah”, transformando-a numa deliciosa canção pop. Já agora, não, não são os R.E.M. que tocam em “If you’re gone”. Mas a ligação, talvez excessiva, a um certo classicismo, expresso na inteira adesão a modelos estéticos e ideológicos declaradamente norte-americanos como que normalizam “Turn! Turn! Turn!”, afastando-o da maior liberdade de movimentos e criatividade evidente nos outros álbuns.
“Fifth Dimension”, também de 1966, dá um passo gigantesco. Os Byrds descobriam e, até, antecipavam o psicadelismo. As guitarras soltam-se em estruturas cada vez menos lineares, as vozes viajam e redescobrem-se nessa maior profundidade de campo, com as despesas de composição a serem asseguradas maioritariamente por McGuinn e David Crosby, com arranjos orquestrais a cargo do mago da excentricidade, Van Dyke Parks, mas arrumados com método. O título-tema e “Mr. Spaceman” ilustram o gosto do primeiro pela ficção-científica, enquanto a realidade dura e crua se confunde com o pesadelo em “I come and stand at every door”, história da deambulação fantasmagórica de uma criança morta em Hiroxima. O onirismo atinge o auge em “Eight miles high” (vale a pena escutar a versão alternativa incluída na sequência de bónus), uma das mais inspiradas “drug songs” de todos os tempos, ainda que os seus autores a justifiquem com uma falsa inocência, dizendo tratar-se simplesmente de um voo rotineiro de avião… Não que os aviões não estejam presentes na quinta dimensão dos Byrds. O tema final, “2-4-2 fox trot”, voa ao som dos reactores de um jacto, numa curiosa antecipação de um certo “industrialismo” alucinatório, enquanto “Hey Joe (where you gonna go)” fala sem truques na manga da mentalidade “hippie”, que, mais ou menos na mesma altura, Frank Zappa arrasava pela sátira na recriação deste mesmo tema incluído no genial “We’re only in it for the Money”.
Se “Fifth Dimension” é a porta de acesso ao jardim, o álbum seguinte, “Younger than Yesterday”, editado em 1967, dá a conhecer cada canteiro dos “Mind gardens” descritos na quase “raga” vocal com este nome assinada por David Crosby. As tensões entre os vários músicos, que então ameaçavam a estabilidade do grupo, originaram um conjunto inigualável d canções, no meio das quais não é possível detectar uma única nota ou verso “para encher”. Do balanço corrosivo adornado por um naipe de sopros de “So you want to be a rock’n’roll star” até às “trips” de LSD do caleidoscópico “Renaissance fair” e “Thoughts and words”, passando pela intrusão de vozes alienígenas em “C. T. A. – 102” (a propósito do qual propomos, à laia de diversão, um jogo de adivinhas com solução em “Wolf City”, dos Amon Düül II…), “Younger than Yesterday” ergue-se como um rival de obras como “Sgt. Pepper’s”, dos Beatles ou “Pet Sounds”, dos Beach Boys, enquanto testemunho global e visionário – embora através de um discurso que não poderia ser mais personalizado – das vibrações, sonhos e inquietudes de toda uma geração.