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Improvisors Pool – “Backgrounds For Improvisors” + Hans Ulrik, Steve Swallow, Jonas Johansen – “Trio” + Ahmad Jamal – “In Search Of Momentum (1-10)” + Buster Williams Quartet – “Lost In A Memory” + Angelica Sanchez – “Mirror Me” + Jason Moran – “The Bandwagon”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 6 Setembro 2003

O calor do sol volta a apertar neste final do Verão. O do jazz, idem. O piano de Ahmad Jamal queima. O de Angelica Sanchez refresca. E o de Jason Moran exibe-se. Um mergulho na piscina da improvisação pode ser uma boa opção.


Improvisação a banhos na piscina

IMPROVISORS POOL
Backgrounds for Improvisors
FMP, distri. Trem Azul
8 | 10

HANS ULRIK, STEVE SWALLOW, JONAS JOHANSEN
Trio
Stunt, distri. Multidisc
8 | 10

AHMAD JAMAL
In Search of Momentum (1-10)
Dreyfus, distri. Megamúsica
7 | 10

BUSTER WILLIAMS QUARTET
Lost in a Memory
AGB, distri. Dargil
7 | 10

ANGELICA SANCHEZ
Mirror me
Omnitone, distri. Trem Azul
8 | 10

JASON MORAN
The Bandwagon
Blue Note, distri. EMI-VC
7 | 10


Quem se dispuser a mergulhar na piscina da improvisação, caso não saiba nadar, deverá averiguar em primeiro lugar se tem ou não tem pé. É que não são poucos os casos de afogamento de incautos bem intencionados mas pouco previdentes. Nem dos que se esmagaram contra o fundo da piscina por não terem reparado que estava vazia. A Improvisors Pool é uma piscina de jazz alemã criada em Berlim em 1992 na sequência de uma série de aulas lecionadas por Alexander von Schlippenbach a uma classe de alunos da Hochschule der Künste (“escola de arte”), interessada no estudo e na interpretação de obras do pianista, compositor, arranjador e fundador, nos anos 60, da Globe Unity Orchestra. A relação entre composição e improvisação esteve desde o início no centro das atenções desta orquestra de “free jazz”. Sabe-se, ou há quem saiba, que quanto mais sólida é a arquitetura de uma peça musical, mais liberdade é concedida a um bom improvisador. Isto mesmo defende o saxofonista Sam Rivers, convidado do grupo, quando afirma que “a good jazz composition creates a framework for the improvisation” e que “given the strenght of their rhythmical moment, the themes can actually propel the improviser”. Sete composições servem para demonstrar a validade deste princípio que levou o saxofonista a subintitular a presente gravação de 1995 “Backgrounds for Improvisors”. Sam Rivers é um músico/improvisador que durante décadas viveu fora – ou antes – do seu tempo e, mesmo aos 71 anos, foi difícil ao coletivo de jovens músicos alemães assimilarem a liberdade de discurso e os seus modos de articulação com uma banda de maiores dimensões. Rivers é o visionário para quem o tempo nunca é linear (algo que terá apreendido com Cecil Taylor) mas matéria subjetiva de e em distensão contínua, como se pode comprovar pela composição de 29 minutos, da sua autoria, aqui incluída, “Background”, onde a métrica se alarga através da multiplicação pelos quatro saxofonistas da Pool. Schlippenbach limpa a piscina de detritos, renova a água e faz as contas para que no final tudo bata certo (o solo de piano que jorra a meio do tema é um teste à resistência e economia dos materiais de construção). Sem afogamentos nem inundações. Com ou sem boia, vale a pena lançarmo-nos nos remoinhos e correntes destes “Backgrounds for Improvisors”, um banho estimulante de arrojo e criatividade.
Mais domesticada mas não menos possuída pela energia é a música de “Trio”, com Hans Ulrik, nos saxofones soprano e tenor, Steve Swallow, no baixo elétrico, e Jonas Johansen, bateria e pandeiro. Bastaria o prazer de reescutar o “drive” de um dos mestres do baixo elétrico, Steve Swallow, para recomendar a audição. Swallow mostra-se imparável, desenhando com insuperável clareza incessantes motivos rítmicos e melódicos que Ulrik aproveita da melhor maneira para colocar por cima os timbres, roucos e quentes, e os fraseados, por vezes de cepa rollinsoniana, dos seus sopros. Jazz de grande solidez, assente na tradição, imbuído de urgência e da exploração de novas ideias.
Quem não se pode queixar de falta de energia e de capacidade de “ataque” é o veterano pianista (72 anos) Ahmad Jamal, na liderança de outro trio, no caso formado por Idris Muhammad (bateria) e James Camack (baixo), em “In Search of Momentum (1-10)”. O modo como o pianista “ataca” as notas e articula acordes e harpejos no tema de abertura indicia inquietação e o desejo de “falar alto”, arrancando de cada sequência de notas principalmente as suas potencialidades rítmicas. Não há sombras, nem manchas nem nevoeiros impressionistas, mas a vontade de exprimir com máxima clareza as “nuances” da inspiração. Nem a ternura de “I’ve never been in love before” resiste ao clamor dos “clusters”.
Miles Davis, os Jazz Messengers e McCoy Tyner fazem parte do currículo do contrabaixista e compositor Buster Williams. E Herbie Hancock, com quem colaborou, nos anos 70, em três obras importantes deste pianista, “Mwandishi”, “Crossings” e “Sextant”. “Lost in a Memory” apresenta-o em quarteto com o vibrafonista Stefon Harris, a pianista Geri Allen e o baterista Lenny White. Em equilíbrio “entre a disciplina e a criatividade”, a escrita e o aproveitamento do instante, Buster assina a maioria das composições num registo próximo do “hard bop”, apoiado nas linhas de “walking bass” que caracterizam o seu estilo. O piano de Geri Allen e o vibrafone de Stefon Harris (regra geral, com a caixa de ressonância aberta ao máximo) conferem colorido tímbrico e delicadeza a um álbum marcado pela competência mas que só teria a ganhar com um pouco mais de arrojo. A balada “Deja”, dedicada a um neto, e “I thought about you”, em andamento inicial de valsa, versão de um tema anteriormente tocado por Miles Davis (atenção ao swingante solo de vibrafone), são genuinamente tocantes, enquanto “Why should I pretend”, estreia de Buster como vocalista, não resistiu a socorrer-se do melaço de cordas sintéticas para acentuar os gemidos de solidão de um coração partido.
Começar por ouvir Elton John e Boy George poderá não ser o melhor caminho de aprendizagem para um pianista de jazz. Mas foi assim que aconteceu com Angelica Sanchez, jovem de ascendência mexicana cujo primeiro instrumento foi o clarinete. Seguiram-se as audições de Tito Puente, Willie Bobo, Dave Brubeck, os Modern Jazz Quartet e o Miles de “Miles Smiles”. No fim, aproveitou tudo para desenvolver um estilo discreto de execução e uma ausência de preconceitos que lhe permitem tocar tanto a música sacra de Olivier Messiaen como a “country” de Merle Haggard ou fazer a reconversão de um velho “boogie pop” dos T. Rex. “Mirror me”, porém, é jazz ao mais alto nível, tendo a pianista criado, à semelhança dos Improvisors Pool, uma série de “environments” dirigidos à criatividade dos solistas, aspeto que tanto confirma o excecional talento do algo menosprezado Michael Formanek, no baixo, como revela um notável saxofonista tenor e improvisador, na pessoa de Tony Malaby. O seu diálogo, terno e ferrugento, com a conjunção de metal e água da pianista, no título-tema, é um dos pontos altos e de maior extravagância de “Mirror Me”.
É, a par de Matthew Shipp e Uri Caine, um dos pianistas da moda. Chama-se Jason Moran, “nasceu” com o grupo de Greg Osby e tenta aproveitar da forma que mais lhe convém a onda que lhe é favorável. No novo “The Bandwagon”, gravado ao vivo no Village Vanguard, tendo a secundá-lo Tarus Mateen, no baixo, e Nasheet, na bateria, Jason dá “show”. De técnica, bem entendido. E de “musical awareness”, como deixa a entender a inclusão de um “Intermezzo, op.118, no.2”, de Brahms, capaz de colocar o rapaz na mesma fila do conservatório de Keith Jarrett mas, infelizmente, desfeito por um despropositado acompanhamento de baixo “ó-pra-mim-como-sou-rápido”. “Ringing my phone” aposta no uníssono piano/voz e nas onomatopeias, “Out front” é bom trabalho a três e “Gentle shifts south” um inusitado monólogo. Neste, como noutros temas, Jason “scata” alto e bom som sobre as notas do piano mas a precipitação de música sem a preocupação de exibir um estilo moderno e abrangente chega, paradoxalmente, com “Planet rock”, repleto de citações, incluindo “Trans Europe Express”, dos… Kraftwerk! Tudo se transforma. A vivacidade, a sensibilidade, a entrega e o humor dão a mão às mãos e – “helas” – Jason Moran, esquecendo-se de o publicitar, mostra que é mesmo um grande pianista.