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Bleizi Ruz, De Danann – “Irlandeses De Danann Dão Festival De Virtuosismo No Último Dia Do Intercéltico – A Alegria E A Fúria Vieram Do Mar”

Cultura >> Segunda-Feira, 06.04.1992


Irlandeses De Danann Dão Festival De Virtuosismo No Último Dia Do Intercéltico
A Alegria E A Fúria Vieram Do Mar


Bleizi Ruz e De Danann fecharam em força e com virtuosismo o Festival Intercéltico que durante três dias decorreu na cidade do Porto. Portugal, Galiza, Astúrias, Bretanha, Inglaterra e Portugal foram os pólos de um mundo nascido do mar e de um tempo que teimam em permanecer vivos. Cumpriu-se o ritual.



Sábado, derradeira noite do Intercéltico. Últimos folguedos. Festa em que estiveram presentes os sons do mar, as pulsações da Natureza que firma os corpos e os sonhos que rompem o futuro. Lotação esgotada. Que chamamento ou chama atrai o homem para estas músicas que o tempo poliu? Entusiasmo. Celebração. Ritual. Os Bleizi Ruz vieram da Bretanha e da chuva. Os Beleizi Ruz gostam e desejam a chuva – disseram-no em palco. Eric Liorzou, Loic LeBorgne, Bernard Quillien e Philippe-Janvier deram início à função com um “laridé” e nunca mais pararam. Mantiveram-se mais fiéis à Bretanha do que o seu álbum ao vivo, “En Concert”, deixava adivinhar. As passagens, esperadas, pelo “cajun” e pela música dos Balcãs enriqueceram um concerto do qual o mínimo que se poderá dizer é que foi vibrante.
Philippe Janvier e Bernard Quillien dialogaram, lutaram e quase rebentaram as bochechas na estridência das bombardas. Luc Lierzou cruzou-se com elas em ritmos e síncopes impossíveis arrancadas da guitarra. Loic Leborgne deu “show” no acordeão diatónico com ligação MIDI, o que lhe permitiu, por exemplo, imitar o som de uma harpa. Quillien, sempre bem-humorado, contou histórias – sobre ciclistas ecológicos, casamentos regados com Ricard e cabeças cortadas servidas em Jerusalém. Houve espaço para “mensonges” intimistas e para os delírios de um saxofone baríotono soprado por Janvier. Respirou-se chuva e sol. Subiu-se às montanhas da Bulgária e da Roménia. No final, os quatro músicos improvisaram sobre cadências bretãs. A gaita-de-foles irrompeu, um pouco fora de tom, em diálogo com a bombarda. O “kan há Diskan”, de canto e resposta, também fez a sua aparição, extrovertido, vibrante, afirmativo da individualidade linguística e cultural da Bretanha.

Irlanda Em Ritmo De Loucura

Sobre os De Dannan é difícil transcrever o virtuosismo instrumental e a “fúria” criativa de todos os seus elementos. Frank Gavin faz do violino um brinquedo cujas cordas parecem não conhecer limites. O violino arde literalmente nas suas mãos, e salta, mergulha, esgueira-se e incendeia o resto da música. Frank disse piadas, riu-se e gozou com os guinchos de “yeahouyupiuoiu” da assistência. Nota de apreço ao público que, desta vez, esteve muito bem. Riu nas alturas certas e não bateu escusadas palmas (fora de) compasso. Apenas os guinchos “yeahouyupiuoiu” não terão tido a pronúncia correcta, como, de resto, os músicos foram os primeiros a assinalar. Mas, na generalidade, não desiludiu.
Regresso aos De Dannan para mais um pouco de entusiasmo crítico: espantosa a “conversa” rendilhada mantida entre o bouzouki de Alec Finn e a guitarra desse grande senhor que é Arty McGlynn. E que dizer do solo de “bodhran” (instrumento de percussão) de Colin Murphy? O melhor é nem dizer nada, só visto e ouvido, para perceber como é possível criar melodias com um osso a bater numa pele. Frankie Gavin juntou-se-lhe num solo de “tin whistle” de cortar a respiração (principalmente a do próprio músico que, exagerando um pouco, não terá afastado os lábios do pequeno tudo metálico durante quase cinco minutos). Mais discreto mas não menos eficaz, Aidan Coffey manteve a máquina em andamento com o seu acordeão, embora neste caso, não fosse possível afastar o fantasma de mestre Mairtín O’Connor.
Claro que houve uma cantora. Os De Danann jamais dispensaram uma voz feminina, nos já longos anos que levam de carreira. Eleanor Shanley não terá feito esquecer a profundidade de uma Dolores Keane (ainda é novita, com os anos vai lá) mas saiu-se bem. Cantou sem fífias um difícil tema a solo, outro de Dylan e as tradicionais baladas de descanso entre a vertigem dos “reels”, “jigs” e “hornpipes”, (escolhidos na maioria do álbum recente “1/2 Set in Harlem”) que para qualquer cantora irlandesa que se preze são canja.
Fechou com loucura o Intercéltico: no “encore”, ao som de “Hey Jude” dos Beatles que deu lugar a nova sequência endiabrada de danças. O público pediu mais mas já se fazia tarde. O ciclo céltico dava a volta completa e de novo se abria em espiral. Até ao próximo ano, com a promessa de uma semana irlandesa.

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Matto Congrio, Maddy Prior Band, Bailia Das Frores, Llan De Cubel, Bleizi Ruz, De Danann “Terceira Edição Do Intercéltico Começa Hoje No Porto – Pelo Caminho Das Estrelas”

Cultura >> Quinta-Feira, 02.04.1992

Terceira Edição Do Intercéltico Começa Hoje No Porto
Pelo Caminho Das Estrelas

Durante três dias, a música folk vai trazer de volta a animação à cidade do Porto, com gaitas-de-foles, violinos e bombardas. É o Festival Intercéltico, na sua terceira edição, tornado “ex-libris” cultural da capital nortenha. “Estes celtas são loucos”, já dizia Obélix. Ao Porto vai-se pelas estrelas.



Ao contrário das duas anteriores edições, em que a programação incidiu em regiões específicas do mundo celta, casos da Galiza em 1990, e da Bretanha, em 1991, este ano o Intercéltico estende-se à Irlanda, Inglaterra, Bretanha, Astúrias, Galiza e Portugal, de maneira a, pela primeira vez, fazer jus à designação que ostenta. De Danann, Maddy Prior Band, Bleizi Ruz, Llan de Cubel, Matto Congrio e uma “bailia das frores” encenada por António Tentúgal são os nomes agendados.
Também o leque das chamadas actividades paralelas se alargou. A organização – da Mundo da Canção, numa iniciativa do pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto – voltou a apostar numa política de enquadramento cultural do certame, que visa fomentar, de facto, e não ao sabor de oportunismos a reboque da moda, o gosto do público pela música tradicional.
Assim, desde segunda-feira e até sexta, funciona no teatro Rivoli, no Porto, um Curso de Aproximação à gaita galega, em regime de seminário aberto ao público, com a participação do gaiteiro D. Jesus Olimpio Giraldez Rio. Tempo dos jovens portugueses ganharem pulmão e soprarem com força nas gaitas. Nas gaitas alheias porque infelizmente as nossas desafinam.
Mas há outras coisas para aprender e entreter neste Intercéltico que dispensam a utilização da caixa toráxica. Por exemplo: uma exposição de instrumentos musicais (no CRAT – Centro Regional de Artes Tradicionais) e outra sobre o barco Rabelo (embarcação que figura no logotipo, criado pela primeira vez para o festival, por Tentúgal). Ou videoramas e diaporamas sobre as nações célticas, com música e paisagens a condizer. Para quem quiser comprar os discos e livros da praxe haverá uma banca bem recheada logo à entrada do Rivoli. E porque não adquirir um artefacto de inspiração céltica, construído por um artesão galego, digamos, o caldeirão de Panoramix, um saquinho com restos de Stonehenge ou uma miniatura da catedral de Santiago de Compostela.
Festa é festa e por isso não faltará a gastronomia. Fala-se à boca pequena numas queimadas galegas a realizar em local incerto. Os verdadeiros degustadores celtas poderão sempre seguir a pista pelo olfacto. “O que está em cima é como o que está em baixo.” Os caminhos do céu correspondem aos da terra. E aos do estômago.

caixa
GRUPOS INTERVENIENTES
Quinta-Feira, 2 de Abril
MATTO CONGRIO (Galiza)
A Galiza tradicional dá as mãos à pop, ao rock e á “salsa”. Os Matto Congrio não têm preconceitos. Carlos Nunez, líder e gaiteiro da banda, tem uma folha de serviços de se lhe tirar o chapéu: trabalhous com o grupo de gaitas “Xarabal” com o qual gravou a caixa (4 LPs) “Instrumentos Populares Galegos”, participou no duplo CD “Cornemuses en Europe” (gravação ao vivo com os melhores gaiteiros solistas da Europa, no festival da Cornualha, disponível por altura do Intercéltico), e gravou com os Chieftains a banda sonora de “A Ilha do Tesouro”. Os restantes Matto Congrio são Anxo Lois Pintos (gaita-de-foles, violino), Santiago Cribeiro (acordeão, teclados), Diego Bouzón (guitarras), Pancho Alvarez (baixo, bandolim) e Isaac Palacin (bateria, percussões).

MADDY PRIOR BAND (Inglaterra)
Esteve no Folk Tejo do ano passado onde as condições acústicas não perdoaram. Para Maddy Prior, vocalista dos Steeleye Span, “irmã” de June Tabor das Silly Sisters e intérprete de música antiga na Carnival Band, o regresso a Portugal constitui uma espécie de vingança. A sua voz justifica por si só toda a atenção, sejam quais forem os músicos acompanhantes, neste caso: Nick Holland (teclados), Richard Lee (contrabaixo), Mick Dyche (percussões) e Steve Anftee (guitarra). Discografia seleccionada: “Please to see the King”, “Tem Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides Again”, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues” (todos com os Steeleye Span), “Summer Solstice”, “Folk Songs of The Olde England”, vols. 1&2, (com Tim Hart), “No More to the dance” (Silly Sisters), “A Tapestry of Carols” (Carnival Band).

Sexta-Feira, dia 3
BAILIA DAS FRORES (Portugal / Galiza)
Projecto de António Tentúgal, que utilizará todo o espaço do teatro Rivoli para recriar o ambiente e os mitos da Ibéria medieval. Cerimónia que girará à volta dos quatro elementos que ligam Portugal e a Galiza: a terra, o mar, a saudade e a língua. Com músicos dos Vai de Roda e alguns convidados especiais: a cantora Uxia (ex-na Lua), um gaiteiro galego, Paulo Marinho (Sétima Legião), três sanfonineiros portugueses (que equivalem a 100% do total nacional), cantadeiras, pauliteiros, palhaços, bugios e o mais que se verá. Discografia: “Vai de Roda”, “Terreiro das Bruxas”.

LLAN DE CUBEL (Astúrias)
Utilizando uma instrumentação exclusivamente acústica, o reportório dos Llan de Cubel inclui, para além do folclore asturiano, tradicionais da Irlanda, Escócia, Bretanha e País de Gales. Tocaram ao lado de Alan Stivell, Oskorri, Chieftains, Tannahill Weavers, Milladoiro e Capercaillie, entre outros. Formação composta por Jose Manuel Cano (guitarra), Guzmán Maqués (violino, bouzouki, voz), Elias Garcia (bouzouki, voz), Marcos Llope (flauta, tin whistle, voz) e Fonsu Mielgo (acordeão, tambor e gaita-de-foles asturianos, tin whistle, voz). Discografia: “Deva”, “Na Llende”.

Sábado, dia 4
BLEIZI RUZ (Bretanha)
Os Bleizi Ruz (lobos vermelhos) há 18 anos que animam as tradicionais “Fest noz” (à letra: festas de noite) da Bretanha. Celebraram o aniversário com um disco ao vivo, “En Concert”. Aliás, para estes bretões (“ils sont fous ces bretons”, como diria Obélix) todas as ocasiões são boas para celebrar. Por isso a sua música assimilou ao longo dos anos as influências irlandesas, galegas, balcânicas ou a “cajun” do Louisiana. Para dançar sempre, seja qual for a origem do ritmo. A vertente séria pode ser encontrada nos “kan há’ diskan” (cantos de resposta) em que são peritos. Cantados em bretão porque “essa é uma forma de se ser bretão”. Os lobos são Eric Liorzou (guitarra, bandolim, sintetizador, voz), Bem Creach (baixo) e Bernard Quillien (bombardas, flauta, gaita-de-foles, voz). Discografia selecionada: “Coz Liorzou”, “Klask ar Plac ‘h”, “Pell há Kichen”.

De Danann (Irlanda)
Banda lendária, do “folk revival” irlandês dos anos 70, ao lado dos Planxty e dos Bothy Band. Sobreviveram da formação original o flautista (violinista Frankie Gavin e Alec Finn (guitarra, bouzouki). Pelos De Danann passaram, ao longo de várias formações, grandes vocalistas femininas como Dolores Keane, Mary Black ou Maureen O’Connor, presentes as três no álbum “Song for Ireland”. No Porto a responsabilidade cabe a Eleanor Shanley. Completam a formação que actuará no Intercéltico Arty McGlynn (outro grande guitarrista), Colin Murphy (bodhran) e Aidan Coffey (acordeão). Discografia selecionada: “De Danann”, “Selected Jigs, Reels & Songs”, “A Song for Ireland”, “Ballroom”, “Anthem”.

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Skolvan + Storvan + Strobinell + Anne Auffret + Jean Baron + Michel Ghesquière + Bleizi Ruz + Jean Blanchard – Eric Montbel – “Pés Na Terra E Cabeça No Céu” (vários / céltica / folk)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.03.1992


PÉS NA TERRA E CABEÇA NO CÉU

Nas últimas semanas tem-se assistido ao dilúvio de compactos que chegam em catadupa às lojas nacionais e põem a cabeça em água e os bolsos vazios aos “malucos da folk”, para usar o termo utilizado há anos pela mítica rubrica da Rock & Folk. Da Bretanha à Irlanda, com uma escapadela à Dinamarca e aos países do Leste, é o retorno em força da tradição.



Durante anos foi o deserto. Discos de folk em Portugal resumiam-se a esporádicas importações dos Fairport Convention ou Steeleye Span, os únicos nomes remanescentes do “folk bloom” do início dos anos 70 que conseguiam romper o bloqueio do desconhecimento e do desinteresse a que era votados pela maioria dos “media”. Mantida a chama por um contingente restrito de “resistentes”, que atravessaram incólumes os anos de decadência da “música progressiva”, a fúria niilista dos rapazes dos alfinetes na orelha e a torre de Babel que sobreveio na aldeia global em que se transformou a década de 80.
Aos poucos, um número cada vez maior de consumidores de sons, saturados da plastificação vigente e da constante avalanche de pseudo-novidades em que a pop se foi atulhando, descobriram progressivamente a perenidade de uma música capaz de sobreviver, evoluir e transformar-se, sem que o essencial se perdesse. A música folk, tradicional, roots, world, ou de raiz étnica, como lhe quiserem chamar, conseguia até a proeza de derrotar o inimigo mais perigoso que consiste em estar na moda.
Hoje, em Portugal, não param de chegar aos escaparates discos das principais editoras do género. Louve-se a persistência e o amor à causa, desde há anos evidenciados pela VGM, a portuense Mundo da Canção e, mais recentemente, a Megamúsica, sem esquecer o pioneirismo da Nébula ou, sobretudo ao nível dos concertos os minhotos da Etnia.
Segue-se uma breve resenha de novos álbuns, entre novidades e reedições, a partir de agora disponíveis no nosso país, representando algumas tendências da folk actual, com particular destaque para a música tradicional da Bretanha, uma das que com mais insistência e razão de ser faz vibrar o “animus” e “anima” nacionais.

Os Círculos Célticos Da Bretanha

Da editora Keltia, três discos fabulosos: “Kerzh Ba ‘n’ Dans” dos Skolvan; “Digor ‘n Abadenn” dos Storvan; e “Na Aotrou Liskildri” dos Strobinell. Qualquer deles de fazer corar de vergonha as mais recentes senilidades de Alan Stivell. Os três recuperam a sonoridade, a instrumentação, os rituais e as danças da Bretanha, acrescentando-lhes a energia que o “fim da História” acarreta e a riqueza de arranjos que os tornam esteios do Universal.
“Kerzh Ba ‘n dans” (“Entrem na dança”) alterna os “na dro”, “laridés” e as típicas “suites” de dança “dans fisell” e “dans Plinn” (verdadeiramente mágicas as ressonâncias da língua bretã…) com originais do grupo e uma valsa irlandesa. Os Skolvan foram formados em 1984 por três professores do Conservatório Regional de Música e Dança Tradicionais da Bretanha. De académico só o virtuosismo evidenciado no manejo da bombarda, do violino e do “biniou” (gaita-de-foles) bretões. Dois vocalistas tradicionais participam nos “cantos e retoma de canto” (“Kan Há Diskan”), que alguns conhecerão na versão feminina popularizada pelas irmãs Goadec.
Mais fiéis a uma certa pureza interpretativa, os Storvan (designação imaginária tirada de um romance de Julien Graco, “Aub Château d’ Argol”) constroem longas sequências de danças tradicionais, apoiadas no jogo flauta / bombarda / “bouzouki” / violino, com incidências nas gavotas e nas marchas e melodias da região de Vannes. Nas “Ronds de St. Vincent”, a música nasce das entranhas do tempo, a partir da gravação “in loco” de uma festa rural que, sem ruptura, dá lugar à festa instrumental no estúdio. Brilhante.
“Brilhante”, “alucinante”, “comovente”, são alguns dos adjectivos que não chegam para traduzir o prazer proporcionado pela audição da música dos Strobinell e deste seu “senhor Liskildri”. “Strobinell” significa em bretão “sortilégio”, o mesmo sortilégio que em ocasiões muito especiais, durante as “festas de noite” (“Fest-Noz”), incendeia os dançarinos que, transportados pela magia da música, rodopiam até chegar ao transe. Jil Lebart (voz, clarinete, bombarda, gaita-de-foles), Patrig Ar Balc’h (bombarda, “tin whistle”), Yann Herri Ar Gwicher (flautas transversais e de ébano) e Riwall Ar Menn (guitarra) pertencem à estirpe dos bardos do século XX. Na sua música, o sagrado recupera toda a força do seu significado, de sublime, excelso, puro, inviolável, de diálogo santificado entre a tríade dos mundos: Deus, homem e Natureza, espiralados no fogo e no movimento simbolizados, na imagética bretã celta, pelo “Na Triskell”. Com os Strobinell, dançar significa a vertigem de se perder de si próprio para se ganhar além. Bater com os pés na terra e com a cabeça no céu. Comungar com o Todo.
Sagrados são também os cânticos religiosos da Bretanha recolhidos e interpretados por Anne Auffret (voz e harpa), Jean Baron (bombarda e ocarina) e Michel Ghesquière (órgão de foles) em “Sónj – Musiques Sacrées de Bretagne” ou, se quisermos, “Kanticou E Vro Breiz”, recolhidos da colecção “Kanticou Brezonek”. Orações matinais, cânticos místicos de contemplação e de união com Cristo, de Natal, se suplicação à Virgem, de adoração ao Santo Sacramento ou de comunhão, interpretados com a elevação que o diálogo com Deus exige. Menos extrovertido, destituído da fogosidade e do telurismo dionisíaco patente nos grupos atrás referidos, “Sónj” soa menos exuberante e mais uniforme na simplicidade e contenção dos arranjos. Orações do vento e do mar, da altura das falésias da Bretanha.
Os Bleizi Ruz já levam 18 anos de carreira, mas apenas cinco discos gravados. Gravado ao vivo em Brest, “En Concert” serve para mostrar todo o ecletismo desta banda, que estará em Portugal na 3ª edição do Festival Intercéltico, a realizar no Porto em Abril próximo. Por vezes quase cedendo às tentações de “fusionismos” tardios que acabaram por ser fatais aos Gwendal e ao próprio Stivell, os Bleizi Ruz não perdem, porém, nunca de vista as fontes vivificadoras. Do “cajun” à bretã do tema inicial, passam com toda a agilidade para a febre cigana ou para as danças da Moldova. Sempre com a Bretanha no sangue, presente nas texturas e modulações das bombardas e da gaita-de-foles, manuseadas pelo mestre Bernard Quillien, eufórico, entre o apelo eléctrico da guitarra-baixo e do acordeão-Midi.
Finalmente, registe-se a edição em compacto de mais duas gemas de música tradicional francesa, embora não especificamente bretã, dedicadas à divulgação de dois instrumentos particulares: “Cornemuses”, de Jean Blanchard (inesquecível a sua presença nos últimos Encontros da Tradição Europeia, com a sua Grande Bande de Cornemuses) e Eric Montbel, que, como o nome indica, se debruça sobre a gaita-de-foles; e o álbum “Vielleux du Bourbonnais”, do grupo homónimo, em que são explorados o reportório e as diversas técnicas de interpretação da sanfona. Obras de grande utilidade para quem quiser saber pormenores sobre estes instrumentos, sem excluir, é claro, as respectivas virtudes musicais, que, por si só, valem a audição e (para os aficionados) aquisição dos discos. Todos os títulos referidos, a que se podem acrescentar outros, de Dan Ar Braz (“Musique pour les silences à venir”), Bagad Kemper (Musico n the Square”, vol. 4, e “The Best of…”), Gwalarn (“A-Hed Na Amzer”), Na Triskell com Gilles Sevat (“L’Albatros fou”) e do ex-malicorne Gabriel Yacoub (“Bel”), são distribuídos pela Mundo da Canção.

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