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Sitiados – “Último Dia Da Festa Do ‘Avante!’ – Estado De Sítio”

Cultura >> Terça-Feira, 08.09.1992


Último Dia Da Festa Do “Avante!”
Estado De Sítio


O último dia da Festa do “Avante!” proporcionou algumas novidades: sanitários sem luz, “lasers” nacionalistas e novos meios de pedagogia partidária. O triunfo pertenceu aos Sitiados, que ofereceram à multidão a única coisa que esta queria: desbunda. Para o ano, fica a sugestão de um chá dançante.



Loucos. Loucos e cegos. Fomos loucos porque não compreendemos o significado profundo da Festa, o da solidariedade, da lama e da poeira partilhadas em democracia rumo ao socialismo. Aliás, na Festa do “Avante!” tudo é partilhado: as febras, o garrafão, os Chieftains, o comício, o Adriano, a música que se ouve ao mesmo tempo em todos os palcos, os odores, os encontrões, as bichas, o lixo, o grande arraial do menor múltiplo comum.
A felicidade estampa-se nos rostos dos jovens estendidos na alcatifa naturista da Atalaia. Há um brilhozinho nos olhos e fumos e pó nas veias e nos pulmões. Há muita alegria, muita música e toda a gente se trata por tu. Três dias de folia comunitária em que apenas é proibido estar sozinho. Loucos, loucos, que não percebemos isto. E cegos porque não vimos com olhos de ver, com a acuidade da foice e a veemência do martelo. A poeira não serve de descuilpa. Foi a cegueira e só ela que não deixou ver a beleza imensa das multidões que se entrechocam e dançam e comem e bebem e tombam. Em êxtase, tombam muito. Maravilhoso de se ver. Bela, muito bela, a cena protagonizada por dois jovens que numa das alamedas principais do recinto, lutavam, ao murro e à cadeirada, numa alusão simbólica à luta de classes. As massas, agradadas, capataram a subtileza do conceito e aplaudiram, incitando ao despique de dois sers humanos em luta sob um sol tórrido e vermelho, protagonistas de um mito que os transcende, onde se degladiam proletariado e capital. Como não nos emocionarmos com o teatro da vida? Só por brutalidade.

Subversão Sanitária

Coisa bela foi também uma das inovações tecnológicas presentes este ano na festa do jornal comunista, apresentada em regime experimental, na noite de Domingo: as instalações sanitárias, vulgo urinóis, sem luz eléctrica. Em princípio esta inovação teria como objectivo tornar os actos de libertação orgânica em acções revolucionárias, de vasto alcance político e social, empreendidas na obscuridade e, em simultâneo, símbolos da escuridão ecológica em que chafurda o mundo capitalista.
Mas não só de ideologia viveu a jornada de encerramento de mais uma edição da festa do “Avante!”. A música, claro, mereceu um lugar de destaque. Música portuguesa, no palco 25 de Abril, protagonizada no comício do partido e nas actuações dos Sitiados, Resistência e Rui Veloso. Delicioso assistir à prestação do grupo de Pedro Ayres Magalhães, “desalinhado” da anterior orientação nacionalista, empertigado numa versão delicada de “Traz outro amigo também”, de José Afonso. Os Resistência procuraram ser subtis, privilegiando, como consta no seu plano de intenções, a “mensagem” e os textos. Tão subtis que, depois do espectáculo “infernal” dos Sitiados, não chegaram a aquecer uma assistência mais interessada em abanar o capacete, como se costuma dizer, do que em ser educada na luta por uma vida melhor, debaixo de um céu azul que ficará, segundo a letra do hino de solidão e rebeldia “Não sou o único” com que fecharam a sua actuação.

Temas Ordinários

Antes de Rui Veloso subir ao palco, teve imensa graça assistir ao “show” de lasers baseado em imagens dos Descobrimentos, com muitas caravelas e cruzes de Cristo, dentro da mais pura estética que ajudou a ilustrar os compêndios da “longa noite” fascista. Longa foi também a noite passada na companhia do autor do recente “Auto da Pimenta”. O guitarrista portuense e a sua banda deram um espectáculo de rigor e profissionalismo, passando em revista temas conhecidos da sua discografia. Com solos “bluesy” à mistura, novos arranjos e as palavras de Carlos Tê, sempre valiosas. Mas tudo se arrastou excessivamente e a noite acabou em anti-apoteose.
Mais valia terem sido escolhidos os Sitiados para o concerto de encerramento. João Aguardela, Sandra Baptista, João Marques, Fernando Fonseca e Jorge Cuco perceberam bem a onda colectiva e trataram de lhe dar corda, que combustível já havia. Temas populares, velocidade de execução, o diálogo bem-humorado com a assistência chegaram para provocar o delírio e a celebração desenfreada. Os Sitiados são os apaches do rock português. João Aguardela fez a apologia da mentalidade xunga e anunciou temas “um bocado ordinários”, com versos inspitados como “a minha sogra é um micro-ondas, é um esquentador, é um frigorífico, é um vibrador” ou a “Cabana do pai Tomás”, sobre “um arquitecto que gostava de ter sido realizador de filmes pornográficos”. O público aderiu, cantou às ordens do João – “primeiro só as moças, agora só os homens. Vá lá, agora todos” e saltou, fazendo levantar mais algumas toneladas de poeira. Sandra Baptista, correu que se fartou pelo palco, agarrada ao seu “acordeão mágico”, a querer justificar as suas declarações no jornal da Festa: “palco, para mim é um orgasmo, público, é ele que me faz chegar ao clímax!”. “Ponha aqui o seu pezinho” mereceu quadras populares entoadas por cada um dos elementos da banda. O frenesim que entretanto se instalou proporcionou decerto à Sandra um grande número de seguidores. “Sex, dust & rock ‘n’ rol.” O pessoal não pedia mais.

The Chieftains – “The Chieftains Actuam Na Festa Do ‘Avante!’ – O Brilho Da Esmeralda”

Cultura >> Sábado, 05.09.1992


The Chieftains Actuam Na Festa Do “Avante!”
O Brilho Da Esmeralda


Os Chieftains, como Turlough O’Carolan, Joyce, Beckett, os castelos, o whiskey Bushwills ou a cerveja Guiness, são uma instituição e um emblema da Irlanda. Actuam hoje à noite na Festa do “Avante!”. A música tradicional porta-voz da outra revolução.



De entre as trevas do obscurantismo marxista uma jóia resplandece. Coberta de poeira, sem dúvida. Maculada pela ideologia, é verdade. Mas nem por isso menos brilhante. É a Festa do “Avante!” que o Partido Comunista Português organiza todos os anos nos arredores da capital. E, convenhamos, do capital.
Este ano, o programa musical prescindiu daqueles grupos do Leste com nomes de luta repescados do imaginário bolchevique da Revolução de Outubro, centrando-se as atenções na actuação, sábado às 22h, dos irlandeses The Chieftains. Afinal a continuação de uma política de destaque dado à música tradicional desde sempre seguida pela organização, muito por “culpa” e amor à causa de Ruben Carvalho, responsável, ao longo de várias edições da Festa do “Avante!”, pela vinda a Portugal de alguns expoentes da folk como Fairport Convention, Gwendal ou, no ano passado, June Tabor, Savourna Stevenson e Boys of the Lough.
Ao contrário dos amanhãs que cantam (este ano, pela primeira vez, vão estar ausentes na festa do “Avante!”), os Chieftains não cantam, sendo uma banda totalmente instrumental. Considerados uma lenda viva da Irlanda, a banda personifica a flâmula que brilha no interior da “terra da ira” ou “Ilha de esmeralda”, numa alusão ao verde da terra e, a nível mais profundo, à gema que esmaltava a fronte de Lúcifer, o anjo decaído que, reza uma lenda obscura, terá arrancado a ilha ao continente, na tentativa de a fazer escapar ao amplexo de pedra do catolicismo. Irlanda, transformada em terra de exílio. Lúcifer, antigo “senhor da luz”, tornado “senhor da ira”. Entendam-se o espírito e os símbolos que animam a lenda. Os Chieftains, banda esmeraldina.

Tradicional Popular

Nascidos em Dublin no seio da associação musical Ceoltori Cualann, dirigida pelo compositor e cravista Sean O’ Riada, os Chieftains desempenham hoje o papel de embaixadores da Irlanda no mundo, representando a sua música e danças, os seus mitos e, não menos importante, o seu whiskey, que deve ser bebido sempre, e a sua Guiness, que também deve ser bebida sempre, mas morna, e na versão “ale”.
Escutar as lamentações e o grito de guerra da “uillean pipes” de Paddy Moloney, as cintilações aquáticas da harpa de Derek Bell, as brisas evocativas do “tin whistle” e da flauta de Matt Molloy, as convulsões xamânicas do violino de Sean Keane ou o batimento orgânico dos ossos e do “bodhran” manipulados por Kevin Conneff, mesmo entre a poeirada da Quinta da Atalaia, na Amora, Seixal, é aceder ao paraíso e à radiação celta. E a oportunidade rara de transcender a História e o materialismo dialéctico, em pelno palco 25 de Abril.
A questão, de resto, não é de hoje e serve de pretexto original a uma boa discussão, senão mesmo ao debate ideológico: é a música tradicional, por essência, de esquerda ou de direita? Quer dizer, fascista ou comunista? A designação “tradicional” fornece bons argumentos aos defensores da primeira hipótese. Por isso a outra facção, preocupada, prefere utilizar o termo “música popular”. Evidentemente nas cidades a história escreve-se mais a vermelho e a música folk teve e tem, em músicos como Pete Seeger, Ewan MacColl, Roy Bailey, Leo Rosselson ou Peter Bellamy, acérrimos defensores da luta de classes e dos direitos do proletariado. Mas no meio das raízes étnicas, além da foice, quem agita o martelo?
Logo a seguir ao concerto dos Chieftains conviria então meditar, realizar conferências e colóquios sobre esta problemática, quiçá submete-la à consideração das cúpulas do partido de modo a, no futuro, evitar equívocos que poderão ser perniciosos à revolução, sempre na prdem do dia.

Folk Dialéctica

Límpido e isento de equívocos tem sido o percurso discográfico dos Chieftains, ao longo de uma carreira de 25 anos (25 anos, palco 25 de Abril, estarão afinal os Chieftains prestes a tornarem-se militantes de honra do PCP?) embora a fase recente mostre indícios de alguma indefinição, em parte causada pela crescente aceitação internacional (do grupo e da música irlandesa em geral) e o consequente convívio com as grandes estrelas do Rock.
“The Chieftains 5”, “Bonaparte’s Retreat” (com Dolores Keane), “Boil the Breakfast Early”, “The Chieftains 10”, “Celtic Wedding” (contendo na totalidade temas de música bretã) e “Celebration” (celebração, de aniversário da banda e da cultura celta, com a participação de Van Morrison e dos galegos Milladoiro) são obras-primas no modo como recuperam e traduzem a tradição musical irlandesa, servidas por intérpretes magistrais. Ao seu lado, discos como “The Year of the French” e “Ballad of the Irish Horse”, compostos para séries de TV, ou o acalmado “The Bells of Dublin”, no qual participam os convidados Elvis Costello, Marianne Faithfull, Nancy Criffith, Rickie Lee Jones e Jackson Browne, surgem como episódios menores de uma saga interminável pelo oceano onde o lendário Brendan e o “Ulysses” de Joyce navegaram. No fundo, uma viagem dialéctica.
Marx, se fosse vivo, havia de gostar.