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André Mingas – “Coisas de Angola” (entrevista)

Pop-Rock Quarta-Feira, 02.10.1991


COISAS DE ANGOLA

André Mingas já tocou lado a lado com Mory Kanté e Salif Keita. O casal Mandela prestou-lhe homenagem. “Coisas da Vida”, agora editado pela Emi-Valentim de Carvalho, promete levar mais longe a música angolana. Peter Gabriel ouviu e gostou. É quase certo que vão gravar em conjunto.



Por toda a Europa, a música africana faz furor. Boni Bikaye, Mory Kanté, Manu Dibango, Fela Anikulapo Kuti, King Sunny Ade, Youssou N’Dour, Ray Lema, Salif Keita são alguns dos ilustres embaixadores das sonoridades negras no velho continente. Da Nigéria, do Senegal, do Mali ou dos Camarões, o contingente negro deita fogo aos palcos e aos estúdios, um pouco por todo o lado. A França, antiga potência colonial, foi a primeira a compreender o fenómeno e a dele retirar dividendos. Os estúdios lanaçaram-se numa correria louca atrás das koras, cabasas, balafons e outros instrumentos exóticos. Percebia-se que a música tinha começado ali, entre os trópicos. Que o coração batia ainda ao mesmo compasso da mãe, tal como acontecia durante o limbo intra-uterino. O apelo ao ritmo, do ritual, do transe dos corpos, subitamente descobertos, revelava-se ainda por cima rentável. Inventou-se à pressa o termo “world music” para etiquetar sons provenientes do princípio dos tempos, quando os costumes não se deixavam ultrapassar pelas modas. Claro que eram necessárias concessões. A penetração nos mercados ocidentais exigia uma abertura de atitudes, de maneira a evitar a confrontação directa, violenta. Houve cedências, é certo. Um realinhar de forças. O essencial, contudo, permaneceu.
Digamos que há interesse para ambas as partes. Para os países africanos é a possibilidade de se fazerem ouvir, de levar a sua cultura a outras latitudes, de ajudar o mundo a crescer, lembrando-lhe a era do fogo, da terra, da floresta, exterior e interior, quando ainda era criança.
Vem esta introdução a propósito da edição do novo álbum do músico angolano André Mingas, irmão de Ruy Mingas, músico bem mais conhecido entre nós. O disco chama-se “Coisas da Vida”, quinto na carreira do cantor. Gravado no Brasil, país com o qual o artista desde há anos vem mantendo contactos, “Coisas da Vida” inclui, para além de originais de André Mingas, tradicionais africanos, recolhidos com a ajuda preciosa de Filipe Mukenga.
Como se vê, André Mingas está longe de ser um novato nestas andanças. Tocou ao lado de nomes como Salif Keita, Mory Kanté e os Toure Kunda, no festival do “L’Humanité”. Nelson e Winnie Mandela quiseram conhecê-lo para lhe prestar uma homenagem simbólica. Uma cassete com a sua música chegou às mãos de Peter Gabriel. O resultado provável será o convite para tocar no próximo disco do antigo vocalista dos Genesis. Por tudo isto justificava-se a entrevista.

PÚBLICO – Há alguma razão especial para “Coisas da Vida” ter sido gravado no Brasil?
ANDRÉ MINGAS – A gravação no Brasil aconteceu, primeiro, por razões que se prendem com a ausência de infra-estruturas em Angola. Já tinha feito várias apresentações neste país, tendo recebido um convite para gravar lá o disco. Por outro lado, tem que ver com a tentativa de encontrar, através da troca de experiências, uma linguagem que, sendo angolana, tivesse além disso a possibilidade de universalização.
P. – É notória, em certos temas, a influência da música brasileira…
R. – Não se trata exactamente de uma influência do Brasil. Há um tema, “Coisas do amor”, que é um samba-canção, feito para criar um espaço de abertura também no mercado brasileiro. Angola e Brasil têm afinidades do ponto de vista cultural. Nós somos um bocado a fonte, temos uma grande responsabilidade na formação daquilo que é hoje a cultura brasileira. Naturalmente que o que é brasileiro tem sido mais divulgado, até como resultado de um maior desenvolvimento tecnológico.
Aquilo que fazemos hoje, e partindo do princípio de que o canto africano é de uma maneira geral rico, é a exploração harmónica desse canto. No caso de Angola, o resultado aproxima-se da música brasileira porque há, na base, uma afinidade cultural e a essência é a mesma. Por vezes é difícil situar exactamente onde acaba o samba e começa o “semba” ou vice-versa; a origem é comum. Mas, à excepção desse tema, que é de facto intencional, o resto são andamentos típicos de Angola.
P. – Por que motivo não foram traduzidos para português alguns dos temas?
R. – Havia, por um lado, razões editoriais. Era minha intenção cantar em português, naturalmente porque me estava a um espaço onde se utiliza prioritariamente a língua portuguesa [o disco vai ser lançado nos países de expressão portuguesa]. Por outro lado, também é um disco para ser consumido no interior do meu país, onde se fala internamente as línguas nacionais. É muito difícil fazer uma tradução directa da língua nacional para o português, de estabelecer a correspondência.
P. – Quais os principais temas abordados em “Coisas da Vida”?
R. – Por exemplo, um tema como “N’zambi” é um alerta para algumas consequências da guerra, como o caso concreto da fome. “O que eu quero”, cantado em português, é outro alerta, este sobre a situação dos mutilados, na sua maioria jovens, aquelas pessoas que poderiam efectivamente dar uma contribuição excelenete à revolução do meu país. O disco aborda temas como a guerra e o amor. Num país com 30 anos de guerra, o amor tem de ser cantado e muito.
P. – Tocou ao lado de músicos como Salif Keita ou Mory Kanté, que têm uma implantação forte no mercado europeu. Vê alguma hipótese de acontecer algo semelhante com a música angolana?
R. – É essa a intenção dos músicos, hoje – poderem fazer uma música que possa penetrar no mercado internacional. Não fechando-se na música tradicional, mas criando música que possa, por um lado, preservar uma certa identidade, que a afirme como característica de um espaço geográfico específico, mas que possua, por outro lado, uma linguagem universal, capaz de lhe facultar a entrada nesse mercado, tornando-a audível a outros espaços geográficos. As diásporas resultantes da expansão cultural africana no mundo são uma extensão dessa cultura, e não a sua negação. Nelas estabeleço a ponte e reencontro o meu próprio continente.
P. – Como aconteceu a homenagem que lhe fizeram Nelson e Winnie Mandela?
R. – Quando da primeira viagem de ambos a Angola, houve uma recepção oferecida pelo Presidente da República ao casal e para a qual fui convidado para actuar. No final do “show” devido a algumas intervenções que fiz sobre a situação na África do Sul e, em particular, sobre Winnie Mandela, Nelson Mandela manifestou interesse em me conhecer e quis homenagear-me simbolicamente. Fui inclusivamente convidado para actuar na África do Sul, quando a situação mudar. É um motivo de orgulho para mim.
P. – Como surgiu o convite para tocar com Peter Gabriel?
R. – Essa informação foi-me dada pelo meu agente em Londres, que deu a conhecer o meu trabalho ao Peter Gabriel. Ele gostou. Não conhecia a música angolana e manifestou interesse em realizar algo em conjunto. Ele está numa fase de experiências com músicos africanos, na procura de uma música diferente, aliás muito ao estilo de Paul Simon. É provável que essa procura de outras músicas e de outras geografias o tenha motivado.
P. – A concretizar-se esse convite, seria para si a grande oportunidade de promoção internacional…
R. – Exacto. Aliás, estou a fazer tentativas no sentido que isso seja efectivamente materializado, até porque iria criar não só um espaço onde eu pudesse projectar a minha música mas também um espaço de intervenção para outros músicos angolanos poderem levar a nossa música mais longe.
P. – Quais são os seus próximos objectivos?
R. – Estou a preparar já o próximo álbum, previsto para o próximo ano, no qual irei provavelmente tocar com dois músicos camaronenses, da banda de Salif Keita.

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